Adeus à Noite (L'Adieu à La Nuit) (Farewell to the Night)

9/13/2019 12:12:00 AM |

É interessante que o mercado cinematográfico anda quase que no mesmo fluxo de temas que os jornais, e com os grandes conflitos mundiais com extremistas islâmicos tem aparecido tantos filmes falando de jovens que entram para o mundo da guerra, seus vértices, motivações, conflitos, e tudo mais, e com "Adeus à Noite" ficamos envolvidos com o drama de uma avó (que digamos poderia ser mais emotiva com seu neto em conceitos expressivos ao menos) que não sabe o que fazer para tentar salvar seu neto de embarcar nessa vida, e também vemos o outro lado com o romance do jovem e seus anseios nesse meio que é a vida de alguém que defende o profeta islâmico e suas leis. Não diria que é um filme que tenha uma cadência gostosa de ser conferida, tanto que ele se alonga de uma forma não muito condizente que faz parecer até ser maior do que apenas 103 minutos, e com isso o resultado embora seja fluido, com um final bacana de se ver ao menos (pois jurava que não teria um fim!) não entrega uma perspectiva mais direcionada para nenhum dos rumos, seja ele pró-islã ou pró-França (colocando em discussão até a forma de votação). Ou seja, um filme que merecia uma refinada melhor para chamar mais atenção de todos os pontos colocados nas entrelinhas, que até envolve, porém, não agrada como poderia.

A sinopse nos conta que Muriel é uma mulher idosa que viveu na Argélia durante muitos anos, e hoje comanda uma fazenda na França, onde diversos jovens de talento são treinados para a equitação. Ela possui um carinho especial pelo neto Alex, com quem não se encontra há anos. Quando o neto enfim decide visitá-la, Muriel se surpreende ao descobrir que ele se converteu ao islamismo, e possui ideias bastante radicais. Suspeitando que Alex esteja por trás de algum plano criminoso, ela precisa decidir entre proteger o neto da perseguição da polícia ou proteger o resto da sociedade das possíveis ações do jovem.

O diretor André Téchiné até trabalhou com um envolvimento bem desenvolvido para que seu filme tivesse algo a mais, colocando bons momentos e situações fortes para serem desenvolvidos como o islamismo, a discussão política dos refugiados, o envolvimento familiar seco, e até o ar mais imponente da elite com a equitação como pano de fundo em uma grande lavoura de cerejas, e dentro desse âmbito colocou pontos soltos para criar elementos simbólicos como um javali a noite, discussões na chuva, a tecnologia versus o campo, a economia, e muito mais, mas com tantos temas e símbolos ele acabou não desenvolvendo bem nenhum deles, e isso é algo muito ruim de acontecer, pois ficamos a todo momento esperando algo mais forte (do que o que já era esperado nas duas cenas finais) e acaba que não acontece. Ou seja, o diretor poderia ter pego um roteiro cheio de situações floreadas e criar algo muito maior e mais dinâmico, mas acaba entregando o básico, que nesse estilo de filme não funciona ser básico.

Quanto das atuações, já gostei muito de ver o trabalho de Catherine Deneuve no passado, mas acredito que está faltando mais expressividade nos seus últimos trabalhos, de modo que colocar ela como protagonista não está sendo um grande acerto dos diretores, e aqui sua Muriel é bem simples, não entrega muito do passado nem do presente, e faz cada ato com simplicidade demais sem empolgar em nada, tirando claro os momentos finais mais fortes, e isso acabou amarrando um pouco o filme, de modo que talvez uma atriz com mais atitude chamaria o filme para si e agradaria bem mais. Kacey Mottet Klein fez bem seu Alex, divagando bem entre os momentos que demonstrava um pouco de medo do que estava fazendo, mas também acreditando muito na religião, e isso fez com que seu personagem tivesse algo a mais para nos interessarmos por ele, e isso é bacana de ver, mas ainda assim poderia ter ido mais a fundo nos seus atos. A jovem Oulaya Amamra trouxe algo meio que enigmático para sua Lila, que ficamos curiosos pelo que pode fazer com seu envolvimento no lar de idosos, com o padrasto estranho, e até mesmo com seus atos religiosos, mas sempre em segundo plano no filme acaba que não se entrega para agradar. Um personagem que apareceu em momentos chaves ao final e merecia um pouco mais de atenção foi Kamel Labroudi com seu Fouad, pois o ator mostrou ensejo para as situações e conseguiu expressar algo a mais do que a trama pedia, mas não foi muito além, o que é uma pena, afinal todo esse movimento de refugiados daria para trabalhar bem com ele.

No conceito artístico, a equipe de arte encontrou um haras muito bem localizado no meio de uma plantação maravilhosa de cerejas, que tanto na época de apenas flores (primavera) quanto ao final que já mostram os pés carregados de frutos (com um mote da famosa frase de quem planta o bem, colhe algo bom!) acabou dando um visual muito bem agradável, e nas cenas mais tensas a trama trabalhou muito com tons marrons como o estábulo e um lago sujo para dar uma representatividade das atitudes não tão boas também o que sou interessante pela perspectiva que tentaram trabalhar. Ou seja, a equipe de arte incluiu muitos símbolos subliminares na trama e com muitos outros objetos como uma carta, alguns cheques, a casa de repouso, a ideia do jogo para ganhar dinheiro, e tudo mais que acaba sendo bem encaixado e que pode ser usado para muita discussão.

Enfim, é um longa que traz muito mais conteúdo do que apresenta realmente na tela, mas que não flui bem como deveria, e sendo assim é daqueles que acabamos saindo da sessão com aquela famosa dúvida de se gostamos realmente, ou se vamos esquecer dele logo no dia seguinte. Ou seja, talvez seja melhor ver ele em grupo para ter mais discussões do que apenas conferir o longa como um filme qualquer, pois não dá para recomendar ele como algo imprescindível. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

Corgi - Top Dog (The Queen's Corgi)

9/06/2019 01:07:00 AM |

Sabemos bem que se um filme tem cachorro, o pessoal já fica com vontade de ver, e certamente irá rir das situações que os animais costumam fazer, então por que não fazer um filme dos famosos cachorrinhos da rainha, colocar Donald Trump na parada, e claro, ainda fazer referências a outros filmes famosos? Certamente essa foi a indagação que veio na cabeça do roteirista de "Corgi - Top Dog" que até consegue entreter, e ainda colocar alguns ensejos mais complexos na trama, mas faltou para ele trabalhar um pouco mais o carisma dos personagens para que a dinâmica ficasse mais coesa, pois embora seja um filme bem curto (apenas 85 minutos), o ritmo demora a engrenar, e tudo parece bem preso, ou seja, quase cansa o público mesmo com personagens bonitinhos e levemente engraçados. Ou seja, tentaram muita coisa para uma animação que deveria ser singela e divertida, mas que por pontuar exageradamente alguns temas mais adultos acabou quase que se desconectando, ainda que divirta mais próximo do final.

O longa nos conta que o corgi Rex foi escolhido como "Top Dog", o cachorro preferido da Rainha. Ele vive cercado de outros cachorros no Palácio de Buckingham, repleto de alimentos finos e outras mordomias. Quando uma visita do presidente Donald Trump à Inglaterra tem desdobramentos negativos graças a Rex, o cachorro abandona o Palácio e se aventura por Londres. No caminho, faz novos amigos no canil e se apaixona por Wanda, uma cadela prometida ao cão mais valente do local. Rex precisará reunir todos os esforços necessários para conquistar o amor da sua vida e voltar aos braços da Rainha.

O longa da Bélgica foi trabalhado por dois diretores que já entregaram filmes excelentes por aqui, de modo que esperava ao menos um pouco mais de Vincent Kesteloot e Ben Stassen, que para quem não conhece seus filmes anteriores ("As Aventuras de Robinson Crusoé", "As Aventuras de Sammy", "Sammy - A Grande Fuga") posso dizer que procurem conferir pois são excelentes para os pequeninos, para os pais, e para quem ama tecnologia 3D, ainda afirmo ser os melhores nesse conceito, mas aqui pecaram em excessos, pois tentaram dar vértices mais adultos em piadas de duplo sentido para tentar causar um pouco, ou quem sabe fazer algum tipo de denúncia por raiva de algo dos países trabalhados na trama (EUA e Inglaterra), e dessa forma a trama não desenrola como poderia, ficando presa demais em situações, e brincando de menos com o visual, que é onde os caras sempre mandam bem, além de que por aqui o filme não veio em 3D, e aparentemente temos boas cenas que usaram a tecnologia, ou seja, não quiseram aproveitar tanto para ganhar mais dinheiro, e o resultado embora divirta acabou ficando bem abaixo de qualquer coisa que se esperasse do longa.

Diria que os personagens foram bem trabalhados visualmente, com muitas características comuns de vermos realmente nos tamanhos e texturas dos cachorros, na fisionomia de Trump e Elizabeth, e até nos trejeitos conseguiram criar um tipo de carisma para cada um dos bichinhos, de modo que tanto Rex quanto Charlie entregam características meio que egocêntricas demais, mas destoam pelo estilo que escolhem trabalhar essa "virtude", e o protagonista ainda teve mais tempo para brincar em outros rumos como no canil, aonde temos as diversas outras raças de cachorros que cada um no seu tradicional jeito. Ou seja, poderiam entregar muitas possibilidades com cada um dos personagens bem feitos, envolver mais com o lance do Clube da Luta no canil, brincar com os vértices dos demais personagens no castelo, mas tudo ficou subjetivo demais, que até agrada, mas não vai muito além.

O visual é bem colorido para agradar os pequenos, e as texturas são bem interessantes trabalhando mesmo que sem a tecnologia 3D com ambientes e personagens modelados de forma a convencer com algo mais próximo a realidade, e isso é bem bacana de ver, além de entregarem muitos momentos próprios para divertir sem pensar na história, quase como uma quebra da parede muito usado em peças de teatro, e assim sendo ao menos no conceito produtivo o longa avançou bem.

Enfim, é um filme razoável que diverte mais para o final, e que trabalha alguns temas digamos polêmicos, que consegue ser interessante pela essência e que vai servir para passar o tempo no cinema, mas que fica certamente bem longe de tudo que os diretores já fizeram, e poderiam ter ido muito além. Sendo assim, não digo que recomendo ele, mas também passa bem longe de ser algo ruim, ou seja, ficamos com algo bem mediano. Bem é isso, encerro a semana das estreias aqui, mas volto em breve com textos do streaming, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

It - Capítulo 2 (It Chapter Two)

9/04/2019 02:58:00 AM |

Se você for conferir o novo "It - Capítulo 2" esperando muitos sustos e cenas tensas como no primeiro filme, talvez você saia um pouco decepcionado após as duas horas e quarenta e nove minutos de projeção! Mas de forma alguma é um filme ruim, muito pelo contrário, trabalhando de forma mais fantasiosa, tentando contar mais histórias dos personagens principais e claro da alegoria da Coisa, o filme acaba deslanchando bastante durante todo o tempo que ficamos na poltrona, de forma que vamos quase que ficando íntimos de cada um dos ótimos personagens, que trabalham seus medos, suas desenvolturas de vida, e principalmente suas emoções, de tal maneira que ao final já estamos emocionados com as mortes, tensos de algumas cenas bem fortes, e de certa forma felizes com o encerramento da franquia, que poderia ter sido moldada de inúmeras maneiras, mas que optou por essa (que é razoavelmente diferente do livro pelo que muitos estão falando por aí!). Ou seja, é um filme com muitas nuances, diversos momentos bem colocados, e que vai agradar quem for sem muitas expectativas, pois do contrário é capaz que alguns saiam da sessão bem tristes de não terem pulado nem gritado durante a exibição.

O longa nos conta que vinte e sete anos depois do Clube dos Otários derrotar Pennywise, ele volta a aterrorizar a cidade de Derry mais uma vez. Agora adultos, os Otários há muito tempo seguiram caminhos separados. No entanto, as crianças estão desaparecendo novamente, então Mike, o único do grupo a permanecer em sua cidade natal, chama os outros de volta para casa. Traumatizados pelas experiências de seu passado, eles devem dominar seus medos mais profundos para destruir Pennywise de uma vez por todas... colocando-se diretamente no caminho do palhaço, que se tornou mais mortal do que nunca.

O diretor Andy Muschietti foi bem certeiro no que desejava fazer, saindo quase que 100% do terror de sustos e indo para o vértice mais trabalhado com várias histórias para contar, de modo que quem for conferir o longa irá conhecer mais sobre a mitologia da Coisa, conhecer um pouco mais do palhaço Pennywise, e principalmente saber tudo e mais um pouco da vida de cada um dos protagonistas, seja agora como adultos vivendo suas vidas comuns longe da cidade de Derry, ou o que acabou acontecendo logo após o fechamento do primeiro longa (inclusive mostrando algumas das várias cenas gravadas e não utilizadas no primeiro filme, que acabaram saindo na internet logo após o lançamento!), ou seja, temos um filme que acaba sendo bem longo realmente, mas que usa desse artifício temporal para aproveitar tudo o que poderia usar, de tal maneira que até diversos atos poderiam ser cortados que não fariam muita falta de um modo geral, mas que sendo exibidos deram um ganho visual bem bacana para a trama, e que ao final toda a fantasia juntamente com a emoção de intimidade que acabamos criando com os personagens passa a nos envolver para um resultado maior. Ou seja, o diretor foi sábio em não querer entregar um longa de terror tradicional, desenvolvendo o roteiro de Gary Dauberman ao máximo para que a história de Stephen King (que faz sua primeira participação como ator em um longa metragem, aqui como o dono de uma loja de antiguidades!) fosse bem contada, e agradasse com um conteúdo maior com a busca dos protagonistas em curar seus traumas do passado, e quem for esperando ver isso na telona certamente sairá bem feliz.

Quanto das atuações diria que foram muito coerentes nas escolhas de todos para que as versões adultas não só parecessem as crianças, mas que soubessem passar a essência que cada um tinha, e dessa forma, todos deram show no estilo que fizeram de forma representativa algo muito bom para cada um de seus momentos. Jessica Chastain vivenciou os diversos medos sexuais que a jovem Sophia Lillis trabalhou com sua Beverly, de modo que vemos em ambos os olhares sentimentos, expressões e muita força de espírito, o que agrada demais. O homem de mil faces James McAvoy encontrou mais uma vez ótimas entonações na sua voz para que ficasse gago com a mesma perfeição de Jaeden Martell, de tal maneira que acabamos sofrendo com seus atos e acreditando demais nos medos de seu Bill. O comediante Bill Hader entregou a comicidade como uma válvula de escape para todos os segredos que Finn Wolfhard guardou de seu Richie, que aliás o longa trabalhou muito o tema desde a primeira cena até o final. James Ransone entregou para seu Eddie todas as mesmas características desesperadas de doenças que o ótimo Jack Dylan Grazer fez com o personagem pequeno, trabalhando ambos com olhares de asco e nojo com uma facilidade que realmente pareciam ser a mesma pessoa. O que mais mudou visualmente foi o carismático Ben, que quando jovem era o gordinho interpretado por Jeremy Ray Taylor e que agora na versão adulta voltou como o galã Jay Ryan, mas em essência víamos os mesmos olhares apaixonados por Bev, e todo o ensejo de vontade de fazer acontecer, o que agradou demais em ambos. Isaiah Mustafa entregou uma participação maior para seu Mike, que por ser o único que não saiu da cidade, acabaram dando mais textos e dinâmicas que quando o jovem Chosen Jacobs fez, mas ainda assim o jovem nas aparições foi bem usado. Andy Bean apareceu bem pouco com seu Stanley, de modo que acabaram usando também pouco o jovem Wyatt Oleff (inclusive usando uma cena sua já gravada no primeiro filme), mas souberam usar um recurso incrível seu, que comoveu da mesma maneira que a cena não usada do primeiro filme. E claro, não podíamos ficar sem falar de Bill Skarsgård, que voltou com um Pennywise ainda mais cheio de desenvoltura, aparecendo até sem a maquiagem pesada, e que pelas entrevistas já até assumiu para si esse sorriso forte do palhaço, ou seja, irá ficar marcado pela boa atuação que fez. Quanto aos demais, tivemos umas participações bem estranhas com alguns bons momentos de Teach Grant como Bowers que junto de um zumbi praticamente sai as ruas, tivemos uma velhinha muito doida vivida por Joan Gregson, e muitos outros que foram bem em seus devidos momentos, mas nada de grandes destaques.

Visualmente o longa tem cenas bem elaboradas, com muito sangue, muitos elementos bizarros em movimento, cheios de locações interessantes para que cada cena de tensão fosse bem desenvolvida, e claro muitas mortes fortes visualmente sendo mostradas, de modo que o filme ganha um contexto bem cheio de detalhes que o primeiro até teve acontecendo, mas que aqui tudo é aumentado, e até mesmo o grande momento final que lá vimos como uma luz e coisas/pessoas flutuando, aqui vamos para algo mais conceitual e envolvente, ou seja, a equipe de arte quis valorizar muito o seu serviço e conseguiu, pois com mais tempo de tela puderam aproveitar mais cada cenário. A fotografia usou muitos tons escuros, várias cenas puxando para um verde musgo, e claro também muitas cenas com o vermelho sangue, mas não quiseram forçar tanto a tensão, deixando sempre num tom mais médio, o que é interessante de ver em um longa de terror.

Enfim, gostei muito do que vi, embora também estivesse esperando algo mais tenso e com mais sustos (não de minha parte, mas do público em si, que no primeiro filme pulava a cada aparição do palhaço), mas que por entregar um filme de fantasia, aonde o protagonista são os medos e traumas da infância, juntamente com um palhaço assassino, e não fadas, bruxas, entre outros entes comuns do estilo, acaba agradando bastante quem gostar desse vértice. Ou seja, recomendo o filme principalmente para esse público, pois quem for esperando um filme de sustos e tensões certamente irá se desapontar, mas quem for esperando história sairá muito feliz com o resultado final. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje agradecendo a rádio Difusora FM pela ótima pré-estreia que até contou com um Pennywise muito perfeito, que assistiu o longa ao meu lado dando as tradicionais risadas do personagem durante o longa todo, ou seja, foi bom demais. Então abraços e até logo mais.

Leia Mais

O Filho do Homem

9/03/2019 01:11:00 AM |

Diria que souberam aproveitar ao máximo tudo o que já foi feito dos longas sobre a vida de Cristo e colocaram um pouco a mais de algumas passagens no longa nacional, "O Filho do Homem", e isso é bacana para podermos ver que não só de grandiosas produções saíram filmes do estilo, e que muitos até já viram passagens gloriosas da história no teatro a céu aberto como acontece geralmente na semana santa, mas além de pegarem essa proposta e trabalharem bem num formato de cinema, o que o filme consegue mostrar é uma sintonia entre os personagens bem colocada, que mesmo a história sendo praticamente uma leitura bíblica (sim, você ouvirá atores falando exatamente como você ouvia nas leituras da missa, com todas as letras e pontuações, quase como uma leitura mesmo!), o resultado acaba agradando pela produção em si, que não teve medo de errar, e trabalhou cada elo como deveria ser contado. Ou seja, não é um filme que vamos sair impressionados pela essência entregue, que provavelmente deverá atingir até mais quem for religioso, mas ao vermos um trabalho nacional tão bem feito, iremos notar o quanto o nosso cinema tem crescido ao ponto de sairmos da sessão pensando que foram até dublados os personagens com uma produção estrangeira, e não é 100% nacional, e muito bem construído, apenas não inovando tanto, ou talvez errando na data de lançamento, pois certamente na semana santa os cinemas lotariam para ver a produção.

Nem precisaria colocar a sinopse, afinal praticamente todo mundo conhece a história de quando Maria (Júlia Cotta) recebe a visita do Anjo Gabriel, que traz a mensagem de sua gravidez do Espírito Santo. Mesmo relutante, José casa-se com ela e assume a criança para criar como sua. Em um humilde estábulo de Belém, nasce Jesus (Allan Ralph), que passa os próximos 33 anos pregando, até ser perseguido pelas autoridades do Império Romano que dominam a Judéia e ser condenado à cruz.

Volto a frisar que a história não é nada nova, e praticamente todos os atos já foram encenados em diversos outros filmes, mas na estreia do diretor Alexandre Machafer em longas-metragens ele optou por trabalhar inicialmente toda a parte da concepção de Maria, que poucas vezes foi mostrada em longas do estilo, e depois já ir para coisas mais casuais como a Santa Ceia, a traição, o julgamento, a crucificação e a ressurreição, de modo que vamos acompanhando os atos bem separados quase como capítulos bíblicos realmente com leves paradas para reflexão interior. Mas aí vem a pergunta, por que refazer essa história? E é fácil saber isso, pois é uma trama que vemos interpretada praticamente todos os anos por diferentes atores, com diferentes estilos de direção, e ele resolveu entregar o seu, que foi muito bem produzido e resultou em um trabalho de nível internacional até, só pecando em leves exageros de alguns atores, e com a finalização exagerada no sotaque carioca do garotinho completamente desnecessária, mas de resto podemos parabenizar o diretor pelo sucesso que fez o filme, e quem sabe ele relançando em uma outra data (no Natal ou na Páscoa) certamente terá muita bilheteria.

Não vou ficar falando muito das atuações, pois o longa possui personagens demais, e todos praticamente possuem alguma participação efetiva bem colocada, e dessa forma posso dizer que se envolveram, fizeram olhares bem colocados, e interpretaram bem seus textos de maneira expressiva, claro que como disse entoando algo quase que como uma leitura bíblica, mas isso veio do roteiro então o resultado é dessa forma. Agora como destaque é claro que temos Allan Ralph como Jesus, de uma maneira bem serena e com uma desenvoltura forte para com o personagem que tanto já vimos ser interpretado por diversos atores, e ele soube ser bem centrado, o que agrada bastante. Outro que foi muito bem principalmente pelo jeito de se portar foi André Rayol Jorge como Pilatos, colocando bem o estilo romano que tanto vemos em outros filmes, e que de uma maneira imponente acabou chamando muita atenção. Sidney Guedes apareceu muito como Zamir, e o personagem não é daqueles que tanto ouvimos falar nos outros longas, e aqui apareceu quase mais que o protagonista, e o ator pareceu engessado demais para o papel.

Agora um dos pontos altos do longa ficou a cargo da equipe de arte, que conseguiu gravar tudo em locações físicas do Rio de Janeiro, de modo que tudo ficasse parecendo realmente os lugares por onde Jesus pisou, e o resultado ficou incrível, num nível profissional muito bom, que juntamente de bons figurinos acabamos vendo a trama com um envolvimento bem simples, mas com tamanha ampliação cênica que parecemos ver um longa de orçamento gigantesco, o que não é o caso. A fotografia trabalhou muito com cenas escuras, e muitas velas, o que deu um ar meio alaranjado para a trama, mas isso deu um ar de tensão bonito de ver, e o resultado agrada bastante.

No conceito musical, como é de praxe em longas religiosos, exageraram um pouco na trilha de fundo, abusando de elementos para tentar emocionar, e não digo que seja errado, mas poderiam forçar um pouco menos.

Enfim, é um longa simples, que entrega basicamente uma história que já vimos diversas outras vezes, mas com uma pegada um pouco diferente da usual por mostrar alguns momentos a mais, e que quem for religioso certamente irá gostar do que verá na telona. Diria que passa bem longe da perfeição pelo roteiro rebuscado demais que parece estar sendo lido de uma Bíblia, mas no conceito de produção agrada demais, e dessa forma acabo recomendando ele. Bem é isso pessoal, encerro aqui as estreias dessa semana, mas amanhã mesmo já começo a próxima com uma pré-estreia, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

Verão de 84 (Summer Of '84)

9/02/2019 12:30:00 AM |

Quando um filme consegue criar uma tensão adequada para o tema, e trabalhar em cima disso para que o efeito seja mantido durante todo o longa, acabamos nem percebendo a hora passar, e o mais engraçado disso é quando vamos conferir um filme que sequer passou trailer para imaginarmos qual seria a pegada dele, ou seja, fui conferir "Verão de 84" sem saber praticamente nada dele, e confesso que gostei bastante de tudo o que o filme construiu na telona, trabalhando bem a juventude investigativa de um grupo de amigos, as famosas brincadeiras da época, e claro também os desesperos de crianças sumindo, famílias se separando, e claro, os medos dos jovens. Diria que o filme não é algo perfeito por seguir uma linha quase que de seriado, mas souberam desenvolver tanto a proposta dentro do tempo de tela que acabamos nos envolvendo com os garotos, ficando tensos quando vão realmente invadir a casa, e apavorados com a situação ficando ruim para o lado deles, mas tudo recai da melhor forma, e certamente se fizerem uma continuação, o resultado ainda será bem trabalhado.

A sinopse nos conta que quando chega o período de férias, Davey e os amigos pré-adolescentes do bairro começam a suspeitar que as crianças estão desaparecendo no local. Um dia, ele tem a impressão de ver um garoto sumir dentro da casa de Mackey, um policial conhecido e estimado pelos habitantes. Os quatro amigos passam a reunir provas de que estão morando perto de um assassino em série, embora os adultos não acreditem nestas teorias mirabolantes. Quanto mais eles investigam a vida do vizinho misterioso, mais se expõem a um possível perigo mortal.

Já tinha visto filmes de atores com dupla de direção, mas trio acho que só em animações mesmo, então hoje posso dizer que o time de diretores RKSS (Roadkill Superstar) composto por François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karll Whissell, criaram algo bem desenvolvido com nuances próprias bem colocadas, fazendo com que o envolvimento do público se encaixasse nas atitudes dos personagens, pois acabamos nos vendo como os garotos brincando de pique-esconde, curiosos com situações estranhas, e claro no auge dos hormônios querendo ver revistas e garotas, de forma que o longa acaba funcionando como uma passagem, pois mostra os pais não acreditando nos jovens e tudo mais, ou seja, eles pegaram realmente a essência das situações comuns de ver com adolescentes, e trabalhou isso para o mistério da trama com os sumiços de jovens, e isso ficou muito bom de ver na telona, pois certamente poderiam ter fechado o ciclo com algo simples e conclusivo, mas optaram pelo vértice mais psicológico e tenso, o que além de dar um charme imponente, fez com que o filme tenha força para uma continuação, ou seja, quem sabe veremos Verão de 88 ou 90, que será a data que o protagonista já estará na maioridade e pode funcionar a proposta.

Quanto das atuações, os jovens foram muito bem em cena, brincando com as situações, encontrando olhares apreensivos, mas também transparecendo curiosidade e muita vontade para cada momento, de modo que a amizade reflete no clima e entrega bons atos com todos. Graham Verchere entregou para seu Davey um carisma bem bacana de ver, de modo que suas situações se encaixam bem dosadas, seus olhares funcionaram bem para representar cada momento, e dessa forma ele acabou conseguindo acertar o que o filme pedia, agradando bastante. Caleb Emery também fez boas cenas com seu Woody, demonstrando medo do desconhecido, mas principalmente passando a essência de uma boa amizade estando disposto a tudo para estar junto do amigo, até mesmo quando os problemas ficam bem tensos. Judah Lewis e Cory Gruter-Andrew fizeram bem seus papeis como Eats e Farraday, mas não chamaram tanta atenção, se encaixando mais nos elos do que nas atitudes, e isso acaba ficando um pouco abaixo do que poderiam fazer, mas ao menos não decepcionaram. Tiera Skovbye fez o clássico papel de ex-babá desejada pelos garotos adolescentes, e souberam criar boas dinâmicas para ela não ficar somente nisso com sua Nikki, de forma que agrada bem também nos diálogos com o protagonista. Quanto dos adultos, é claro que o destaque fica para Rich Sommer por ser o suspeito dos garotos com seu policial Mackey que soube trabalhar suas dinâmicas, fazer olhares diferenciados, e principalmente encaixar ritmo nas interpretações para que tudo funcionasse bem, ou seja, colocou o personagem para destaque e agradou muito, agora quando dos pais do protagonista, foram meros enfeites cênicos.

Falando em enfeites cênicos, a equipe de arte conseguiu retratar muito bem a época dos anos 80, com muitas referências em brinquedos, quadrinhos, e trabalhando bem com os figurinos e carros da época, a trama acaba nos envolvendo e mostrando muitas qualidades visuais, criando o ambiente perfeito para cada ato, que junto com uma fotografia escura, mas cheia de desenvolturas para passar o clima correto de tensão, resultaram em um filme dinâmico e com bons elos e arquétipos coerentes para o momento.

Enfim, é um longa bem bacana que consegue transmitir tensão e ainda trabalhar bem o contexto dos anos 80 dentro da visão curiosa dos jovens da época, de modo que quem viveu essa época conseguirá se enxergar dentro da trama e ficar bem feliz com o resultado, embora o final seja algo que não desejávamos tanto que acontecesse, mas que pensando de uma forma mais real, seria completamente mais plausível do que o que vemos nos filmes, e sendo assim, recomendo muito a conferida para todos. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

Yesterday

9/01/2019 02:42:00 AM |

O que seria do mundo se não existissem as canções dos Beatles? Olha, chega a dar desespero só de pensar na falta da qualidade musical que seria, pois não só foram uma marca, como inspiraram tantos outros com suas canções, e a ideia do longa "Yesterday" é tão bem trabalhada, envolvente e gostosa tanto pelas canções quanto pelo estilo escolhido pelo diretor para desenvolver a trama com pegadas cômicas e também românticas, que acabamos nos envolvendo tanto que praticamente esquecemos dos diversos defeitos que o filme possui, principalmente na dúvida de que rumos seguiriam para fechar a trama. Ou seja, temos um filme delicioso de curtir, cheio de ótimas canções, uma ideia completamente incrível, bons atores, mas faltou aquela pegada que o diretor tem, mas que não quis utilizar, pois eram tantas as possibilidades do filme terminar incrível e não foram utilizadas, indo para o vértice mais comum, o que não é ruim, mas também não faz com que saiamos vibrando da sala (mas ao menos todos saíram cantando "Hey, Jude!").

O longa nos mostra que após sofrer um acidente, o fracassado cantor e compositor Jack (Himesh Patel) cai em uma realidade distinta, na qual ele é o único que lembra da existência dos Beatles. Utilizando a música de seus ídolos, o jovem se torna um sucesso e o compositor mais famoso do mundo, mas a fama tem seu preço.

O estilo do diretor Danny Boyle é daqueles que sempre tem boas pegadas, que não liga de usar efeitos de montagem de outras épocas, e que vai procurar sempre deixar um filme que até funcionaria de maneira calma em algo cheio de dinâmicas e funcionalidades para que o público embarque na mesma proposta que a sua, e aqui vemos muito esse estilo funcionar, pois vemos o diretor procurando a todo momento jogar na nossa cara de onde veio as inspirações musicais dos Beatles, e colocar para o jovem que apenas conhece e é apaixonado pelas canções (e lembra um pouco das letras) de onde poderia vir a inspiração musical para cada momento, e nessa sagacidade ele acaba brincando com a trama de Jack Barth e Richard Curtis de maneira a irmos cantando, relevando um ou outro detalhe, e claro se encantando com as vivências escolhidas para cada ato, o que acaba funcionando muito bem, e resulta em um filme que certamente teria muitos outros finais melhores (o meu preferido é ainda a ideia de um multiverso já que tanto se anda falando sobre isso, mas creio que não seja a pegada preferida do roteirista), mas que acabou sendo gostoso demais de conferir pela forma de Boyle e principalmente por ele saber dirigir bem atores, fazendo um jovem estreante ficar tão estrelado que em breve o veremos com mais dois grandes diretores nas telonas.

E já que comecei a falar das atuações, o estreante nas telonas Himesh Patel parece ter encontrado o brilho que poucos atores conseguem numa leva só, pois aqui foi muito bem encarnado com seu Jack, criando diversas cenas engraçadas sem precisar forçar o riso, o que é ótimo, e ainda soube dosar a emoção quando o filme também necessitou, acertando em cheio com muito estilo e bons movimentos, além claro de cantar mais ou menos bem nos momentos mais bem colocados, sem forçar demais, e com isso não bastando estar num filme de Danny Boyle, irá aparecer também no filme de Tom Harper no final do ano, e ainda no novo de Christopher Nolan no ano que vem, ou seja, já virou o queridinho de grandes diretores, e veremos como sairá por lá. Lily James pareceu levemente sonsa demais com sua Ellie, de forma que por vezes até ficamos bravo com a falta de atitude da moça para com seu amor, mas ao ver que ela deseja o melhor para ele, que pode não inclui-la, o resultado de seus atos acabam ficando mais convincentes e interessantes de ver, mas ainda assim poderiam ter dado mais fluxo para a jovem atacar que agradaria mais, e a atriz é muito boa para ficar meio que de escanteio. Joel Fry caiu como uma luva para ser o alívio cômico da trama com seu Rocky, fazendo um papel desajeitado, cheio de virtudes malucas, mas sua cena de apresentação no terraço foi linda demais de ver, e juntando tudo o que fez foi perfeito. Kate McKinnon também soube envolver bem como a empresária Debra, trabalhando de uma forma imponente, cheia de estilos, e principalmente em busca do dinheiro com muita astúcia e encaixando tudo com boas sacadas, o que acabou agradando bastante. Quanto aos demais, o filme possui boas pegadas com diversos figurantes de luxo que entregam cenas bem bacanas junto dos protagonistas e agradam bastante, mas sem dúvida o destaque entre todos é o cantor Ed Sheeran interpretando ele mesmo com muita desenvoltura e cheio de boas nuances, sendo realmente um bom ator além de bom cantor. E tenho de dar os parabéns para a equipe de caracterização por fazer com que Robert Carlyle algo espantoso, que é melhor nem falar para não dar spoiler.

Visualmente o longa brinca bastante com o contraste entre a pacata cidade de Norfolk aonde os protagonistas vivem, e a vida de rockstar em Los Angeles, além claro de passagens por diversos pontos turísticos das canções dos Beatles em Liverpool, trabalhando bem os shows com inserções diferenciadas de letreiros com os nomes das canções por entre os personagens, usando de efeitos simples, porém bem bacanas e interessantes de formato tridimensional. Além disso a equipe trabalhou bem os figurinos clássicos juntamente de muitas cenas impactantes em shows, o que deu uma dinâmica bem recheada. A fotografia jogou muitas cores, mas sempre puxando para um tom mais escuro, brincando com chuvas e densidades mais neutras para que o filme tivesse ao mesmo tempo que é cômico, algo mais tenso e dramático.

Claro que por ser um longa musical, o filme contém diversas canções excelentes dos Beatles, que com uma boa interpretação (meio que gritada) de Himesh Patel resultou em algo até divertido de escutar, que vou colocar o link aqui, mas quem preferir, ouça as canções originais nessa outra playlist aqui.

Enfim, é um filme bem gostoso de conferir, que vai divertir bastante tanto os fãs da banda (que ainda desejamos muito ver um filme sobre a formação da banda!) quanto os que gostam de longas musicais bem trabalhados, aonde a desenvoltura funciona e o resultado acaba agradando pelo estilo desenvolvido. Ou seja, um filme recomendável para todos, que vai emocionar e envolver com tudo na medida, e que mesmo tendo leves falhas durante quase toda a exibição, consegue limpar nossa mente delas com as boas canções. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, afinal ainda faltam algumas estreias para conferir nessa semana, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

A Última Loucura de Claire Darling (La Dernière Folie de Claire Darling) (Claire Darling)

8/31/2019 08:05:00 PM |

O cinema francês é daqueles que não consegue fazer uma coisa simples de atitudes sem ir muito a fundo, e quando resolvem entregar um melodrama familiar, eles conseguem permear situações reflexivas tão imponentes, aonde vemos toda as decisões que podem mudar uma vida familiar, as escolhas de acumular coisas ao invés de emoções, e até mesmo a dinâmica de problemas acabam ficando tensas e puxadas para um clima mais profundo, de modo que ao conferirmos "A Última Loucura de Claire Darling" acabamos quase que entrando em depressão junto da protagonista vivendo seus últimos momentos malucos, que acabaram funcionando, pois fez com que nessa loucura até aqueles que lhe abandonaram um dia voltassem ao menos para ver o que ela estava fazendo, e nesse misto de memórias e situações a trama acaba sendo envolvente, porém deveras cansativa.

O longa nos mostra que em Verderonne, uma pequena aldeia na região do Rio Oise, é o primeiro dia de verão e Claire Darling acorda convencida de que está vivendo seu último dia. Ela decide então esvaziar sua casa e se livrar de tudo, sem distinção. Seus objetos amados ecoam uma vida trágica e extravagante. Esta última loucura traz de volta Marie, sua filha, a quem ela não via há 20 anos.

A diretora e roteirista Julie Bertuccelli quis trabalhar algo envolvendo os laços familiares, os envolvimentos e lembranças de um passado, e com isso brincar com o temor da morte e das consequências das escolhas feitas lá trás, de modo que seu filme traz todo um simbolismo bem melódico e cheio de situações pautadas para comover e fazer com que o público reflita, porém ela abusou do clima calmo, entregou poucas cenas de impacto (apesar das que foram colocadas serem bem fortes), e com isso seu filme acaba não fluindo como algo agradável de ver num primeiro momento. Diria que o filme tem uma essência preparada para que toquem determinados tipos de pessoas, que vão refletir sobre os atos das protagonistas e de sua própria vida, e acabarão gostando mais do que a diretora propôs, porém quem não entrar na mesma vibe do filme acabará quase dormindo na sala, pois ela não dita nenhum ritmo mais cadenciado para chamar o público para a trama.

Quanto das atuações, Catherine Deneuve sempre consegue incorporar trejeitos e envolver o público para suas atuações, de modo que sabemos que a atriz está bem velha, mas não tanto como sua Claire que aparenta como um jovem ator diz no filme, pelo menos uns 80 anos, e seus olhares distantes, suas sínteses acabam fluindo de uma forma tão bem encaixada que acabamos seguindo seu ritmo, seus devaneios, suas lembranças, e o resultado envolve. Chiara Mastroianni (filha real de Catherine), entrega também uma Marie meia deslocada, que aparentemente se vê ao lado da mãe depois de tanto tempo e tantos problemas, que não se dá conta do que perdeu ou sente ali, de modo que vamos encontrando nos seus olhares também desespero pelo que está vendo, e isso é algo que ela talvez pudesse entregar com gestos, mas ao optar pelos olhares envolve mais, só diria que a atriz poderia ter fluido melhor em alguns atos, pois parecia estar tão em choque com tudo que a personagem ficou estranha. Quanto aos demais atores, todos procuraram entregar atitudes mais deslocadas com o momento do feirão de móveis se aproveitando dos preços malucos da idosa, outros mais amigos procuraram ajudar, mas de certa forma vemos todos meio que desencaixados com o ritmo da trama, quebrando o eixo em alguns atos como na cena dos livros, outros meio que passeando em cena, e tendo somente que destacar Laure Calamy como a amiga Martine, e o padre vivido por Johan Lensey, além claro das versões jovens das protagonistas, bem vividas por Alice Taglione como Claire e Colomba Geovani como Marie.

O visual da trama foi bem elaborado pela equipe de arte, que teve muito trabalho para conseguir todas as peças da casa (e não são poucas), e distribui-las de uma forma bem coerente que não ficasse poluída e ainda representasse todos os símbolos que a trama tinha para passar, de forma que o casarão ficou bem cheio, e o jardim recheado de peças imponentes antigas e bem trabalhadas para chamar a atenção, além claro de diversos pequenos elementos que representaram mais como o anel, os livros cheios de dinheiro antigo e claro os bonecos de corda com movimentos circenses, e claro, o relógio de elefante. A fotografia trabalhou com a escuridão bem tensa e poucos elementos destoando para dar leves destaques, isso até a cena final, aonde como prometido pelo circo tendo fogos bem representativos que acabaram soando até exagerados demais.

Enfim, é um filme que posso dizer bem cansativo, que para outros pode emocionar mais, e até envolver, mas que poderiam ter trabalhado melhor os símbolos, contado melhor as histórias, colocado um ritmo mais dinâmico e gostoso de acompanhar, e principalmente entregassem uma história mais forte, pois o longa tinha isso para mostrar, mas da forma que ficou só quem refletir muito sobre o que viu, e ao ver novamente conseguir transportar toda essa emoção para a sessão acabará gostando do filme. Sendo assim não recomendo o longa, pois fui um dos que quase dormiu com tudo o que foi passado na telona, mesmo com grandes atuações das protagonistas. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais um texto, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

Anna - O Perigo Tem Nome (Anna)

8/31/2019 03:02:00 AM |

A grande sacada de um bom filme de espionagem é bagunçar a mente do público indo e vindo com datas, e isso o diretor Luc Besson sabe fazer muito bem, junte a isso uma mulher extremamente atraente, incorpore KGB contra CIA, trabalhe com bons atores nas pontas, e pronto, você tem um daqueles filmes que vamos vibrando a cada nova apresentação de ato, que muda completamente tudo o que você achava que sabia do anterior, e que na sequência já muda tudo novamente, num tremendo quebra-cabeças delicioso de curtir. Pronto, resumi em poucas linhas o que quem for conferir "Anna - O Perigo Tem Nome" verá na telona com muitas dinâmicas, e que certamente fará com que todos saiam bem surpresos da sessão. Não digo que seja um filme perfeito, mas que o diretor foi tão sagaz para amarrar os furos de roteiro com voltas temporais para mudar tudo o que achamos impossível de acontecer, que chega a ser incrível imaginar o filme inteiro detalhado para filmagens, pois tudo é muito minucioso, e um detalhe muda tudo, ou seja, como já diria o bom ditado de filmes de espiões: "nem tudo o que você vê acontecer, é realmente o que você acha que está acontecendo, e ninguém é inocente de todos os atos, afinal nunca confie em um espião mesmo que ele esteja do seu lado".

O longa nos conta que oficialmente, Anna Poliatova é uma modelo famosa e muito requisitada pelas marcas de luxo ao redor do mundo, mas o maior segredo que esconde é que ela é uma das assassinas mais perigosas e bem treinadas da KGB. No entanto, Anna fará de tudo para se sentir liberta da repressão do governo russo.

Se existe um diretor que não tem medo de errar, e encara qualquer loucura que venha em sua mente é Luc Besson, e com isso, geralmente vemos uma grande oscilação nos seus filmes que ora são geniais, ora são tremendas bombas, mas felizmente o caso desse novo longa fica na primeira leva, principalmente pela montagem feita pelos editores (que claro estava assim na cabeça do diretor), de não seguir uma linha reta comum, pois certamente o filme acabaria meio bobo e simples demais, mas com as idas e vindas de tempo, o resultado acaba impressionando bastante, e vamos nos surpreendendo cada vez mais com toda a técnica envolvida, com a história cativante em si, e claro com as boas lutas corporais que a protagonista se dispôs a fazer junto claro com sua dublê. E assim sendo, temos um filme rápido, dinâmico e cheio de impressionantes situações, que foram muito bem coreografadas, e que mesmo exagerando para a famosa situação de luta corporal (ao invés de meterem logo uma bala na cabeça da pessoa e resolver o problema de uma vez!) acabam agradando demais.

Sobre as atuações, temos de pontuar primeiramente que Sasha Luss não é atriz de profissão, e sim modelo como o papel exigia, e até que saiu muito bem nos diversos atos, sendo expressiva e trabalhando bem em todos os momentos que sua Anna precisava encaixar bons trejeitos, além de que possui uma beleza imponente que certamente lhe trará mais papeis no cinema, ou seja, se encaixou no que precisava fazer e junto de Agel Aurelia como sua dublê de lutas, entregou cenas bem dinâmicas que nos fizeram acreditar muito em tudo o que fez, agradando bastante. Helen Mirren sem estar loira parecendo uma rainha é algo que raramente vemos no cinema, e aqui sua Olga é daquelas chefonas da KGB que com toda a personalidade que sabe fazer entrega uma pessoa sem alma, forte e cheia de desenvoltura para o papel, de tal forma que chegamos até ficar com raiva dela em alguns atos, e isso mostra o potencial da atriz que bem sabemos que tem. Luke Evans é daqueles atores que sabem encaixar olhares, e que acaba abrindo frentes no estilo que escolhe para dar personalidade aos seus personagens, de tal forma que seu Alex Tchenkov inicialmente chega imponente, depois se desenrola bem com a protagonista, para termos um final bem interessante com ele, e assim acaba agradando bastante também. Cillian Murphy parecia que seria um personagem bem inútil com seu Lenny Miller, mas ao desenrolar a trama, acaba entonando olhares bem coesos, e o resultado chama bastante atenção, mas ainda assim poderia ter aparecido mais para encaixar melhor suas cenas. Quanto aos demais, tivemos alguns momentos chaves com Lera Aboca como Maud, mas nada que fosse chamativo para o desenrolar da trama, e principalmente a forte presença de Eric Godon como Vassiliev, o grande chefe da KGB, que teve apenas duas cenas, mas mostrou impacto no que fez.

Visualmente o longa foi moldado quase que em locações estratégicas para representar bem os movimentos rápidos que o diretor necessitava, trabalhando muito em quartos de hotéis para as diversas mortes que a protagonista causa, tendo diversas cenas em esconderijos, saletas e claro muitas cenas em carros para conversas com os líderes, e claro muitas sessões de fotos de modelagem cheias de estilo, além de algumas cenas em prédios imponentes das empresas de espionagem para dar toda a dinâmica forte nos momentos mais fortes da trama, ou seja, a equipe de arte teve um trabalho bem minucioso com detalhes, pois o filme se passa nos anos 80, então tiveram de encontrar muitos figurinos de época fortes, trabalhar o estilo que a moda pedia na época, e principalmente sujar muita roupa com sangue falso, pois haja tiros, cortes com facas e tudo mais, que acabaram dando um tom tenso para a fotografia, que aliada de muita ação nos movimentos encontrou tons escuros para funcionar os ambientes cheios de tensão, e contrapondo com as cenas fotográficas dos ensaios das modelos cheias de cores, o formato não cansasse tanto.

Ou seja, volto a frisar que o longa passa bem longe da perfeição, pois não temos uma atriz imponente de entonações mais fortes, não temos um filme inovador cheio de situações clássicas, mas que ao escolherem bem o estilo, e encaixar uma montagem incrível nesses vai e vens, conseguiram apagar a maioria dos erros do roteiro, e o resultado empolga demais quem gosta de um bom filme de espionagem, com agentes brincando com nossa percepção, e isso o longa entrega muito bem. E sendo assim, recomendo bastante o filme, e vamos ver quem sabe se o diretor encara talvez uma continuação, pois mesmo a trama sendo bem fechada no ato final, tudo pode acontecer nesse estilo de filme. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

Minha Lua de Mel Polonesa (Lune de Miel) (My Polish Honeymoon)

8/30/2019 01:15:00 AM |

Alguns filmes franceses costumam trabalhar situações bem incomuns, e isso é bacana de ver pois acabam fluindo de uma forma diferente da usual e o resultado costuma surpreender, porém com "Minha Lua de Mel Polonesa" ficou muito em cima do muro do que realmente deveria atacar, se iriam mexer realmente com as feridas do holocausto para com as famílias judias, ou se iria trabalhar a relação familiar da protagonista em busca das suas origens, e ainda em cima disso colocar um road-movie homogêneo por cidades polonesas. Ou seja, temos um filme leve, com uma pegada até que bonitinha, mas que por falta de atitudes mais ousadas acaba cansando e ficando meio que sem rumos, o que não é bom. Diria que ele até tem momentos divertidos pelas situações em si, e também consegue emocionar pela relação prevista mais para o fim, mas certamente se a diretora tivesse escolhido um dos lados logo de cara, o resultado funcionaria muito melhor.

O longa nos conta que Anna e Adam são dois franceses de origem judaica que têm um bebê recém-nascido. Quando o avô de Adam os convida para uma celebração no vilarejo onde mora, no interior da Polônia, cada um vê a oportunidade de viajar de uma maneira diferente. Enquanto ele não se empolga muito com a ideia, embora esteja feliz por retomar a vida de casal, ela quer aproveitar para conhecer melhor as raízes de sua própria família. O que parecia uma simples viagem se transforma em uma jornada de autoconhecimento e aceitação.

Estreando na direção e no roteiro, a atriz Élise Otzenberger até consegue estruturar sua história como uma busca emocional de conhecer a família da protagonista, meio como algo que ela talvez desejasse também, de ter um conhecimento maior sobre as famílias judias que fugiram da Polônia durante o holocausto e sintetizar isso em uma trama, porém tentar deixar um tema digamos pesado em uma comédia leve e chuvosa não é algo nada fácil de acontecer, e dessa forma o filme parece faltar pedaços ou uma pegada mais forte por parte da diretora, rumando para vértices simples e quase sem fechamentos. Ou seja, inicialmente somos praticamente jogados dentro do rumo familiar dos protagonistas, com algo acontecendo às pressas, e tudo fluindo para uma viagem (que quem não tiver lido a sinopse irá até achar que perdeu alguma parte do filme!), mas depois quando vamos entendendo cada uma das partes, o resultado vai soando aberto demais, e o fluxo de ideias ao mesmo tempo fechado para sintonias de tudo que o momento pode passar, de tal forma que ficamos a qualquer momento esperando algo mais chocante, ou então que eles nos vertessem realmente a algo cômico e forte, o que não acontece. E dessa forma o filme fica inteiro quase que rodando em círculos, sem nenhuma atitude mais contundente, e se alonga demais em cada ato, de tal forma que o filme que tem apenas 88 minutos, parece ter muito mais tempo de tela, ou seja, temos um filme bonito e interessante até de propostas, mas que cansa por não aprofundar nenhuma das ideias colocadas no longa, mostrando uma falha imensa da diretora em não saber encaixar algo mais impactante de vez.

Quanto das atuações, Judith Chemla chega a nos incomodar com os exageros que entrega com sua Anna, de modo que em determinada cena que seu marido dá um sermão nela no carro, nos vemos na personalidade dele para fazer exatamente daquela forma, e a atriz não se esforçou muito para conseguir símbolos em suas expressões, parecendo estar levemente perdida quanto ao que fazer, travando demais os olhares sem agradar como poderia. Arthur Igual já saiu um pouco melhor na trama com seu Adam, de modo que não foi tão chamativo em cena, mas pareceu mais descontraído com as situações, o que acaba fazendo com que sua personalidade deslanchasse mais, ainda que não seja nada impressionante também. Já Brigitte Roüan foi algo que resolveram jogar no longa com sua Irène, pois inicialmente seria algo apenas para ser falado e mencionado, mas já para as cenas finais resolveram utilizá-la mais, e isso foi algo desnecessário e que acabou desandando mesmo que entregasse algo emotivo na relação mãe/filha. Quanto aos demais, foram rápidas participações, e a maioria deve ainda estar se perguntando após assistir ao filme o que foram fazer lá, pois tudo acaba nem funcionando.

No conceito visual o longa até tem um bom funcionamento, afinal road-movies sempre acabam sendo interessantes de conferir para conhecer mais lugares, e aqui como o casal acaba visitando diversas locações, acabamos conhecendo a parte da cidade da Cracóvia aonde virou algo bem separado para judeus, que os protagonistas até apelidam com um nome bem carinhoso, vemos diversos cemitérios, e uma cidade que praticamente só chove, que inicialmente parece até ser algo falso por os protagonistas se molharem sempre com todo o frio, mas depois entendemos que faz parte o frio não ser tão sentido, e assim a trama deslancha melhor. Diria que a equipe de arte não precisou se preocupar tanto com a concepção da trama, deixando apenas que o filme fluísse pelas diversas paisagens e locações, e isso resultou em algo bem feito ao menos.

Enfim, é um longa que poderia ser melhor explorado pelo tema, mas que da forma que acabou sendo trabalhado nos deixa bem na dúvida do que desejavam nos passar, tendo raros momentos engraçadinhos, outros que envolvem um pouco, mas nenhum que falasse sozinho para o público qual era a verdadeira funcionalidade da trama, e dessa forma o resultado acaba não acontecendo. Sendo assim é um filme que não consigo recomendar, mas que certamente terá aqueles que irão se envolver por algo espalhado que não necessariamente seja da história completa do filme. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, afinal essa semana está bem recheada de estreias, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

Bacurau

8/25/2019 02:51:00 AM |

É engraçado ver como o diretor Kleber Mendonça Filho gosta de provocar seu público com os filmes que entrega, pois mesmo quando entrega algo mais fácil de ser conferido, como é o caso aqui em "Bacurau", ele permeia vértices fortes e cheios de situações que acabamos saindo da sessão chocados com tudo e pensando: será que gostei mesmo do que vi, ou será que se eu reanalisar tudo irei odiar? Mas a priori vendo de uma só vez e vindo aqui já escrever, posso dizer facilmente que o longa é a nossa versão de um faroeste, com pegadas bem próprias do estilo, situações de impacto envolvendo política, recursos escassos, bandidos de ambos os lados, e claro comunidades prontas para se abater e atacar, de maneira que dá para refletir muitos âmbitos que certamente os diretores (que nesse caso além de Mendonça temos Juliano Dornelles) desejavam mostrar. Ou seja, é um filme que não é de fácil degustação, mas que entrega um estilo de fácil apreciação, e o resultado acaba sendo imponente, cheio de detalhes, com bons momentos e que agrada pelo que é mostrado, porém poderiam ter eliminado muitos momentos desnecessários para a narrativa, que ainda assim seria um filme forte e interessante.

O longa nos mostra que pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa, Domingas, Acácio, Plínio, Lunga e outros habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente um meio de defesa.

Felizmente o longa possui muito mais pontos positivos do que negativos, pois sei bem das qualidades dos longas de Kleber Mendonça Filho, mas sei mais ainda dos pontos que me irritaram, e aqui embora o filme tenha ganhado diversos prêmios internacionais, já fui preparado para ver algumas situações desnecessárias, e que mesmo elas existindo (já vou frisar, e sei que muitos vão reclamar do que falarei: o longa possui diversas cenas de nudez desnecessárias, pois acho lindo nudez quando usada em prol do filme, e aqui é só para chocar sem serventia alguma!) o longa consegue passar por cima desses momentos e fazer cada ato acontecer com primor técnico de história, de envolvimento dos personagens, e principalmente de estilo, pois o filme entrega uma fotografia ampla, momentos de grande violência bem encontrada, e principalmente acaba saindo com resultado de uma ótima invasiva incrível, que acaba acontecendo por mostrar meios de sumir com pessoas, invasões, e até mesmo a falta que faz você não conhecer a cultura de alguma cidade, pois se os gringos tivessem entrado no museu da cidade saberiam bem o que esperar (e isso não é um spoiler!). Ou seja, os diretores montaram sua história com boa técnica, pegaram referências incríveis para que o filme tivesse um conteúdo extra, e principalmente mostraram bem um filme de faroeste com todas as letras, e que certamente muitos enxergarão dessa forma, e sendo assim, o resultado empolga bem, mas que certamente poderiam ter ido mais além.

Sobre as atuações, temos um grande conjunto no filme, pois os protagonistas foram muito generosos com a população local que foi usada de figuração, e os que ficaram em destaque souberam se encaixar perfeitamente com os momentos para que a trama deslanchasse sozinha, de modo que Bárbara Colen entregou olhares estranhos para sua Teresa, sem que sequer ficasse surpresa com nada, encaixando ares próprios e bem funcionais. Sônia Braga trabalhou sua Domingas com atitude e simplicidade para que nos seus atos próprios pudesse até ter leves destaques, mas sem sair do eixo. Thomas Aquino soube dar para seu Acácio/Pacote momentos tensos e olhares prontos para começar uma guerra e chamar a responsabilidade para si quando precisou. E principalmente do lado da comunidade, ainda arrumaram Silvero Pereira pronto para fazer picadinhos com seu Lunga, incrivelmente caracterizado, e com trejeitos próprios para ter o destaque em níveis altíssimos, ou seja, preciso demais. Do lado dos gringos o destaque é claro para Udo Kier com seu Michael cheio de desenvolturas, olhares, e principalmente criatividade para poder puxar o filme para si, ou seja, dando show no que fazia.

Não digo que o processo de composição da trama foi rápido, mas certamente a equipe de arte merece todos os aplausos possíveis por encontrar essa locação incrível de uma cidadela que realmente parece estar desaparecida do mapa, com todas as características de uma comunidade com vida própria e que realmente acaba acontecendo o que vemos no filme, do descaso dos políticos para com as pessoas que vivem ali, aparecendo somente nos momentos de eleição. Ou seja, trabalharam bem cada momento da trama, mostrando bem os costumes da cidade, os personagens icônicos, e junto com uma equipe de maquiagem minuciosa fez as cenas violentas serem de níveis fortíssimos de tiros, sangue, explosões e tudo mais, ou seja, um belo trabalho visual. Destaques cômicos ficou para a super telona na caminhonete que sei que existem essas coisas por aí, mas ficou abusivo demais, e para o drone em forma de nave alienígena, pois poderiam ter feito algo menos exagerado, do restante, a equipe mandou bem demais em tudo. Quanto da fotografia, a aridez do sertão, que mesmo na cena com chuva conseguiu manter o tom amarelado/marrom, com muito vermelho sangue, e envolvimentos precisos nos enquadramentos para que ficássemos tensos e presos junto com cada um dos personagens.

Um ponto bem positivo do longa ficou a cargo da trilha sonora remetendo bem ao nordeste, as tocadas entoadas pelo violeiro da vila, e que com bons atos escolhidos para ajudar na concepção sonora da trama, o filme acabou tendo uma vida além do normal, ou seja, vale conferir cada detalhe sonoro seja musical, ou apenas pelos barulhos da trama.

Enfim, é um filme que vai ter aqueles que vão amar, e certamente terão muitos que irão odiar, de forma que eu diria que fiquei bem no meio termo, pois se tirassem todos os exageros que citei acima, o longa melhoraria muito na minha concepção, mas talvez não atingisse o efeito que causa, e sendo assim, é melhor manter eles (tirando as nudezes desnecessárias que não serviram para nada). Ou seja, recomendo a trama pela essência em si, mas vá preparado para reclamar muito também, mas certamente é um filme que você irá lembrar quando ver algo parecido. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

PS: Até pensei em dar uma nota menor pelos excessos, mas é um filme que tem marca, e isso é muito válido em um cinema como o nosso aonde ficam muito atrás de referências e não fazem suas próprias, e aqui ele coloca seu dedo na ferida, fazendo suas próprias marcas, então valeu a melhorada na nota.

Leia Mais

Os Brinquedos Mágicos (Tea Pets) (Toys & Pets)

8/24/2019 08:37:00 PM |

A única animação que conhecíamos que trabalha bem a mitologia e os costumes chineses a vir para o Brasil era a série "Kung-Fu Panda", e lá tudo foi mais colocado para o estilo americano, afinal o longa pertencia a uma companhia americana, porém hoje posso dizer que vi algo com uma formatação própria para mostrar as culturas deles, porém não trabalharam tanto com a essência, e usando de personagens levemente estranhos, com uma história estranha, e principalmente pela falta de ritmo, acabamos vendo com "Os Brinquedos Mágicos" um filme apenas bem colorido que não tem uma dinâmica muito coesa nos objetivos dos personagens, e que até soa agradável, mas passa bem longe de ser algo que acabamos gostando de ver, e certamente daqui a algum tempo nem lembraremos mais desse filme. Ou seja, até tentaram trabalhar algo bem cheio de detalhes (o que é bom), mas esqueceram que o principal de um filme é a história convencer e divertir quando se tratam de animações, o que aqui passa bem longe.

O longa nos conta que Nathan é um bonequinho de argila feito para a coleção de chá de um tradicional mestre chinês. As obras do Mestre mudam de cor quando o chá quente é despejado sobre elas, seguindo o costume oriental de dispensar o primeiro gole em homenagem a criaturas, mas não é o caso de Nathan. Por ser a única peça da coleção que não muda de cor, ele é muito zombado pela turma. Quando aparece uma chance de ir para o futuro com robô redondinho e descobrir o mistério de sua mudança de cor, Nathan e Futurobô saem em busca de respostas. Nas aventuras do caminho, os dois encontram coisas que não buscavam, como o significado de amor e amizade.

O diretor e roteirista Gary Wang até teve boas ideias para seu longa, criou boas movimentações de personagens, barulhos bacanas do contato dos personagens de argila em contato com as superfícies (o que acaba lembrando um pouco "Gnomeu e Julieta"), mas faltou para ele determinar melhor o que desejava conseguir a partir do estilo e partir para um filme mais cheio de dinâmicas e que acabasse resultando em situações mais divertidas, pois o filme em si tem até uma boa ideia, mas em momento algum temos personagens chaves para sair dos protagonistas, ou personagens que façam o papel de puxar as situações para risadas, de modo que o resultado acaba soando bobo demais e com atitudes sérias demais para uma animação, ou seja, temos um bom filme que falha por não querer divertir os pequenos como poderia, mas que agrada pelas texturas interessantes, e certamente uma melhorada no desenvolvimento envolveria demais a todos.

Já falei um pouco sobre os personagens, mas diria que falta um pouco mais de força nos dois protagonistas, de modo que tanto Nathan quanto Futurobô são levemente fracos de estilo, e suas aventuras acabaram parecendo forçadas, já indo pelo vértice do vilão Raio, esse sim incorporou todo o estilo que um vilão deve ter e não desistiu em momento algum do seu objetivo, indo para cima sem dó nem piedade, e isso é bacana de ver, pois vemos as ações dele acontecer, enquanto os demais parecem quase de enfeite. Os personagens secundários acabaram sendo jogados demais, de modo que os primeiros bonecos até aparecem depois (todos juntos sem nenhuma explicação), mas os animais que os personagens conhecem no meio do caminho simplesmente serviram para mostrar um mapa e nada mais, ou seja, foram também jogados ali apenas para gastar horas de animação, o que não é algo bacana de ver.

Visualmente o longa é bem bonito, com cores vibrantes, personagens com sentidos próprios da mudança de cores, e passagem por muitos ambientes bem colocados para criar as nuances, mas poderiam ter ido além com emoções mais fortes, e acredito que por tudo o que foi mostrado de coisas em primeiro plano, a trama funcionaria bem em 3D caso quisessem entregar dessa forma, pois vemos a todo momento os personagens pulando e jogando algo para frente, ou seja, o resultado funcionaria bem com a tecnologia, e quem sabe chamaria até mais atenção alguns atos.

Enfim, é um filme simples demais de entrega, mas que tinha conteúdo suficiente para cativar e funcionar mais, de modo que quem for conferir até poderá gostar de um ou outro ato, mas dificilmente se lembrará dele depois, pois não tem nada que nos conecte a ele, nem mesmo as mensagens que foram trabalhadas dentro da trama. Sendo assim, não recomendo ele, mesmo que divirta um pouco, pois não chega a ser algo ruim, mas também não empolga para ser chamado de algo bom, ficando bem na classificação mediana. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

Socorro, Virei Uma Garota!

8/23/2019 01:23:00 AM |

Alguns filmes chegam aos cinemas com propostas diferentes, e muitas vezes o público acaba não se encontrando com a ideia, pois muitos olhares recaem para um estranhamento e ficamos naquela dúvida: será uma comédia ou um filme com uma pegada mais moral? E isso é o que acabamos vendo em "Socorro, Virei Uma Garota!" que estreou hoje nos cinemas, e pelo trailer parecia algo bem mais cômico, que faria o público gargalhar com uma proposta excessiva e talvez até forçada, mas felizmente se verteu para um outro lado, uma comédia mais pautada, com lições bem colocadas sobre as diferenças, trabalhando bem o lado da amizade, e principalmente usando boas sacadas casuais para que o filme fluísse sem precisar apelar, de modo que lembramos de vários bons filmes do estilo, mas em momento algum conseguimos achar algo exatamente igual, o que é ótimo, pois entrega então um filme jovem, com um elenco muito bem colocado, que não vai agradar somente o público teen, mas sim quem gosta de uma boa história que vai fazer você se divertir e ficar feliz, mesmo que não saia rolando da sala do cinema. Ou seja, um longa que passa longe da perfeição, mas que pelas boas pegadas e dinâmicas bem encontradas, resulta num filme agradável e gostoso para todos curtirem no cinema.

O longa conta a história de Júlio, um garoto tímido, praticamente invisível aos olhos de seus colegas de colégio, que um dia, ao ver uma estrela cadente, faz um pedido: deseja ser a pessoa mais popular da escola. Logo ele se transforma em uma garota, Júlia, que é extremamente popular. Sem saber como lidar com o corpo feminino que acabou de ganhar, ele precisa ainda lidar com a proximidade de Melina, a garota por quem é perdidamente apaixonado.

É interessante ver o estilo que o diretor Leandro Neri encontrou para trabalhar sua trama, pois ele soube dosar um pouco de vários estilos que o roteiro de Paulo Cursino foi desenhado, criando vértices bem rápidos, mas que principalmente não passam despercebidos, de modo que vemos sua habilidade em trabalhar com os jovens (quem não o conhece, ele dirigiu diversos episódios do antigo seriado Sandy e Junior, além de algumas novelas) acontecer e ir encaixando cada momento com boas sacadas, criando piadas ácidas, mas sem apelos, e sabendo aonde a trama poderia atingir, pois já disse que o trailer passou o filme como sendo uma comédia daquelas bem escrachadas que seria até impactante pelo desenrolar proposto, mas na composição final acabamos vendo um filme realmente (fiquei com muito medo de ver uma novela teen!!) aonde os personagens são bons, a história convence e o desenvolvimento funciona, ou seja, um filme que não desaponta, e ainda passa boas lições de entender as diferenças, dar valor a algumas coisas que não vemos normalmente, e tudo mais que uma boa trama teen deve ter para agradar não só ao público teen, mas também aos pais e adultos que forem conferir.

Com um elenco bem jovem, e praticamente desconhecido da maioria, o diretor soube usar boas qualidades de cada um para desenvolver os papeis, pois não teve a sorte de poder contar com carisma ou fãs deles nas sessões (já notei bem isso hoje que na primeira sessão da noite tinha apenas eu e mais uma jovem na sala, ao contrário do que costuma com a maioria das comédias nacionais!), e dessa forma o resultado acaba sendo bacana de ver e conhecer um pouco mais dos personagens, e até valeria uma leve alongada para conhecermos um pouco mais do Júlio, já que seu papel é bem rápido, e nos atos de Victor Lamoglia vemos que o ator daria super bem com mais cenas, pois o ator tem dinâmica e conseguiu trabalhar tanto os vértices mais bobos do começo, quanto as coisas mais imponentes do final. Thati Lopes soube segurar muito o clima e o tom do filme com sua Júlia, entregando ao mesmo tempo boas sacadas cômicas para a personagem, encontrando atos desengonçados para a personalidade (alguns até demais), mas principalmente sabendo dosar as expressões nas cenas mais melódicas, o que raramente vemos em artistas cômicos, e esse acerto certamente mostra que a jovem pode jogar bem em ambas as posições, e aqui já mostrou seu potencial. Leo Bahia foi bem encaixado como Cabeça, e trabalhou bem as jogadas de amizade, as desenvolturas para com os problemas de ambos os protagonistas, e acabou agradando bastante mesmo com um personagem que quase ficou apagado na trama. Manu Gavassi ficou meio de lado com a personalidade de sua Melina, não chamando muito a atenção nos momentos chaves, e isso não é algo legal de ver, pois poderia ter sido daquelas personagens que causam mais, e aqui foi apenas elo de paixonite do protagonista. Quanto aos demais, temos de pontuar os bons destaques de Nelson Freitas como o pai da protagonista, e alguns rápidos atos de Kayky Brito como o irmão que foram bem sacados nos dois mundos, e Lua Blanco como a irmã de Cabeça, e colocar como destaque negativo os exageros para cima de Lippy Adler como Douglas.

No conceito artístico da trama, não tivemos muita ousadia por parte da equipe de arte, mas nada que atrapalhasse a trama, tendo apenas um colégio com suas aulas, alguns passeios por shopping, um acampamento bem breve numa praia e alguns momentos nas casas dos protagonistas (essas com um de filme americano já que foi filmado em um condomínio de casas bem bonitas sem portão), ou seja, o básico bem feito para compôr o cenário mesmo, de modo que o longa casaria bem até mesmo numa peça teatral, pois o bom da trama é o texto em si e seu desenvolvimento, e assim sendo nem se preocuparam tanto com a produção em si, destaque apenas para a equipe de maquiagem que fez Nelson Freitas ficar bem engraçado nas partes de Júlia. E quanto dos efeitos do meteoro, poderiam ter trabalhado um pouco mais!

Enfim, é um longa gostoso de assistir, mas que certamente muitos irão reclamar da falta de cenas mais cômicas, pois as que realmente fazem rir já estavam presentes no trailer, e o restante acabou sendo pitadas bem espalhadas aos poucos, deixando que o lado mais emotivo/romântico/dramático predominasse na trama. Ou seja, recomendo a conferida pela essência gostosa da trama, pelos bons tons de discussão que pode levantar sobre gênero, sexualidade, amigos, família, mas poderiam ter feito rir um pouco mais. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos das estreias, então abraços e até logo mais.

Leia Mais

Brinquedo Assassino (Child's Play)

8/21/2019 01:39:00 AM |

Acho que nunca fiquei tão feliz ao sair de uma sessão de um filme de terror sangrento, pois após tantas continuações e refilmagens ruins, finalmente o reboot de "Brinquedo Assassino" veio de uma forma bem nova e muito interessante, cheia de cenas bem tensas interessantes, mortes bem violentas, e claro um tom cômico adequado sem exageros, de modo que o boneco Chucky até chega a ser gracioso, e a ideia de inteligência artificial num mundo completamente dominado pela tecnologia vem com um primor incrível se comparado ao anterior que usava de vodu. Ou seja, fui esperando rir de tudo e voltar reclamando da pré-estreia, mas fiquei tenso com cada uma das mortes e gostei muito do que vi de forma que recomendo o novo longa com certeza para quem gosta do estilo, pois souberam trabalhar bem a divisão entre carnificina e dramaticidade de modo que dá até para pensar na possibilidade de continuarem a franquia a partir desse novo longa, pois dá para brincar bem com o boneco irritado, afinal tecnologia na nuvem nunca morre ou apaga!!!

O longa nos conta que Andy e sua mãe se mudam para uma nova cidade em busca de um recomeço. Preocupada com o desinteresse do filho em fazer novos amigos, Karen decide dar a ele de presente de aniversário um boneco tecnológico que, além de ser o companheiro ideal para crianças e propor diversas atividades lúdicas, executa funções da casa sob comandos de voz. Os problemas começam a surgir quando o boneco Chucky se torna extremamente possessivo em relação a Andy e está disposto a fazer qualquer coisa para afastar o garoto das pessoas que o amam.

Posso dizer com certeza que a estreia na direção de longas de Lars Klevberg foi feita com sucesso, de modo que iremos esperar mais dele nos seus próximos filmes, pois usando o roteiro de Tyler Burton Smith (que antes só tinha feito roteiros de jogos de videogame e também estreia aqui), baseando na história original de Don Mancini, o resultado do reboot é algo completamente diferente do que já vimos nos outros muitos longas do personagem que começou lá em 1989, mas usando claro a essência de um brinquedo que acaba tendo atitudes bem psicopatas, e aqui com um "bom" motivo, afinal quer ser único amigo de Andy, não tendo que dividi-lo com ninguém mais. Ou seja, foram bem coerentes na formatação de um novo filme, usando como base o que já havíamos visto lá atrás, mas adaptando para o mundo atual, aonde a tecnologia domina, com o boneco sendo um robô bem tecnológico com um chip capaz de usar todos os demais equipamentos comercializados pela companhia que o criou. Claro que poderiam ter desenvolvido um pouco mais sobre a Kaslan e seus equipamentos, poderiam também ter trabalhado o ranço ridículo do funcionário que programa o boneco para ficar do mal (uma das cenas mais rápidas e bestas que já vimos, sendo completamente jogada), mas para isso precisariam aumentar o tamanho do longa, e quem sabe desandar com explicações demais, então vamos aceitar o começo rápido e jogado que deram como apenas uma falha simples, mas de resto, o longa acaba compensando depois.

Sobre as atuações diria que já vi muitos atores bem melhores, principalmente para o papel da mãe do garotinho, pois Aubrey Plaza foi bem jogada como Karen, de modo que faz trejeitos forçados e está sempre exagerando para não parecer bobinha demais, além de não convencer como mãe de forma alguma, ou seja, pode até ser que pela inexperiência do diretor ele não tenha conseguido conduzir ela melhor, mas aí deveria ter entrado os produtores para escolher alguém melhor para o papel que conseguisse fazer algo melhor sozinha. Em compensação, o garotinho Gabriel Bateman entregou um Andy bem cheio de vertentes, com olhares carismáticos e até com uma afeição bacana pelo boneco, de modo que suas atitudes acabam nos convencendo e o resultado por ele ficar mais à frente da história acaba funcionando. Brian Tyree Henry soou meio bobo como detetive Mike, de modo que aparece pouco na trama, mas sempre com piadinhas e olhares meio que jogados, o que não caberia para um policial, e isso talvez pudesse ser melhorado no roteiro, mas nada que atrapalhe muito. As demais crianças foram pouco usadas, mas agradaram bem no que fizeram e tivemos bons resultados de expressões por parte deles, então nada a reclamar ao menos, e os outros adultos serviram bem para as mortes, e claro que alguns até mereceram bem as que tiveram, ou seja, um bom resultado. Agora falando do boneco, foram muito sagazes em usar um animatrônico, de modo que todos no set de filmagem viam o boneco se mexendo e podiam se assustar facilmente com seus atos (claro que nas cenas mais tensas a computação domina, mas o básico foi feito em cena), e Mark Hamill entregou uma voz imponente para Chucky com boas doses dramáticas bem interessantes para nos envolver.

Visualmente o longa funciona muito bem, pois não abusa de locações grandiosas, ficando praticamente só no conjunto de apartamentos aonde a família vive, passando por três ou quatro cômodos bem montados para não precisar muitos efeitos e o resultado convencer, além do mercado e a casa com jardim, de modo que o resultado fica bem coerente na textura do boneco e seus movimentos, além de objetos usados como armas letais e claro uma grande sagacidade por parte da equipe de fotografia para trabalhar os tons de luzes com o azul para quando o boneco está bem normal, e o vermelho predominando o ambiente para quando o bicho vai pegar, e isso foi muito bem usado dentro das cenas escuras para criar situações. A maquiagem juntamente com a equipe de efeitos especiais também teve um trabalho perfeito para todas as mortes serem fortíssimas, com pedaços e muito sangue voando para todos os lados, de modo que chega a impressionar por um lado, mas agradar muito quem gosta do estilo do filme.

Enfim, tirando o detalhe de não termos um começo mais decente explicativo sobre a Kaslan e sobre a família de Andy, sendo tudo muito jogado na tela, o resultado geral da trama acaba sendo muito bom e acaba superando todas as expectativas, pois certamente a maioria irá esperando ver uma tremenda bomba, visto que os últimos filmes foram bem ruins tanto que nem chegaram a ser lançados nos cinemas, ou seja, recomendo ele com certeza, e claro que agradeço aos parceiros da Difusora FM 97,1MHz pela ótima pré-estreia, que fez todos rirem, se divertirem e também ficarem tensos com tudo o que foi mostrado na telona. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos.

Leia Mais

Nada a Perder 2 - Não Se Pode Esconder a Verdade

8/19/2019 12:31:00 AM |

Costumo dizer que continuações no Brasil são um perigo, pois costumam estragar algo de bom que fizeram e você gostou no original, mesmo que não seja adepto daquilo, e digo isso com um grande pesar, pois foi bacana conhecer a história de Edir Macedo no longa "Nada a Perder", mesmo com toda a paia marqueteira em cima de muita coisa para endeusarem o bispo, mas aí vir com "Nada a Perder 2", aonde tudo é montado para mostrar que foram vítimas de tudo e todos, montar cenas grandiosas, com uma trilha melódica alta que chega a quase sobrepor as vozes, exagerando sempre em clichês de vitimização, de tal maneira que analisando como filme até temos muita coisa boa (tirando os excessos de textos de jornais, momentos de documentários, entre outros relances que saem da ficção), mas é tanto exagero que chega um momento que ficamos nos perguntando se estamos vendo algo realmente biográfico ou se é algum tipo de propaganda panfletária, pois o diretor do longa se jogou completamente no que foi solicitado e esqueceu que estava fazendo um filme, e isso é uma pena, pois o que fez no primeiro filme, se seguisse aqui a mesma linha seria muito bom de ver. Portanto se você não for membro da Igreja Universal do Reino de Deus para ir conferir um pouco mais da vida do bispo, ou não for um dos que vai ganhar ingresso do pessoal que fica distribuindo por aí, não digo que vá valer perder seu tempo conferir a trama, pois a chance de reclamar é bem alta.

A sinopse nos conta que após deixar a prisão, em 1992, Edir Macedo (Petrônio Gontijo) atravessa uma série de provações: a conduta inapropriada de outros bispos da Igreja, o ataque de políticos e católicos, a doença de sua mãe, a tragédia do desabamento do teto de uma Igreja em São Paulo. Enquanto isso, fiéis começam a ser perseguidos nas ruas e as Igrejas correm o risco de fechar. Pressionado, ele decide subir o monte Sinai e visitar Jerusalém, onde tem uma ideia: construir o Templo de Salomão, réplica do local homônimo citado na Bíblia, localizado em São Paulo.

Já sabemos o porquê do diretor Alexandre Avancini ser o queridinho da Record, fazendo praticamente todas as novelas e filmes da emissora: não ter ideia própria e entregar basicamente o que lhe foi encomendado. E isso não é ruim, pois temos filmes que são de diretor, e tem aqueles que são de produtores, aonde o diretor é apenas contratado para fazer o que lhe impõem e nada de suas ideias são utilizadas, e aqui vemos bem esse estilo, pois diferente do primeiro longa que temos uma história de vida com uma panfletagem da igreja em segundo plano, aqui temos uma panfletagem colocada em primeiro plano máximo que quase não vemos uma história no segundo plano, e isso é algo muito ruim de ver num filme, afinal acaba sendo direcionado demais, e mesmo que a igreja tenha comprado quase que 90% dos ingressos disponíveis nos cinemas para marketing, o longa acaba sumindo do mapa facilmente, e isso não é bom para nenhuma produção. Ou seja, diria que Avancini ficou muito atrás da concepção desse filme, usando material demais do jornalismo, e brincando pouco com a ficção, de modo que vemos quase um documentário dramatizado, aonde temos alguma atuação, e certamente essa não era a ideia de nenhum diretor, mas quem sabe dos donos do filme apenas.

Quanto das atuações, diria que Petrônio Gontijo se entregou por demais no personagem de Edir, e com muita maquiagem conseguiu ficar muito semelhante em tudo, incorporando trejeitos, forma de andar e até modo de falar usando muito do que viu do material que lhe foi entregue, sendo quase perfeito no conceito de tudo. Por incrível que pareça, o filme deu frente praticamente só para o protagonista, de modo que os demais aparecem tão pouco na trama que quase nem vemos suas atuações, tendo leves destaques para Cesar Mello como Paulo, o braço direito do bispo aparecendo sempre ao seu lado para trazer as notícias ruins rapidamente, bons olhares também foram entregues por Day Mesquita como a esposa Ester, alguns semblantes tristes por parte da mãe vivida por Beth Goulart, e claro os ares imponentes e revoltosos dos personagens de Eduardo Galvão e Dalton Vigh como membro da igreja católica e do governo, ou seja, todos apareceram rapidamente para dar seu recado, mas nenhum chamou atenção.

A equipe de arte teve tudo em mãos para fazer um filme grandioso, passaram por mais de 120 locações, foram para outros países, e encontraram bons momentos para refazer na telona, de modo que vemos um trabalho coeso de pesquisa para que tudo ficasse detalhado em minúcias (claro que usando da versão do protagonista), e sem economizar em nada foram efetivos no que fizeram, claro que exagerando bastante, pois não posso afirmar que o céu do Egito possui tantas estrelas como mostrado no filme, muito menos que filmaram em São Paulo com tanta chuva, pois a cada nova cena tinha chuva, ou seja, poderiam ter sido mais singelos que o efeito seria o mesmo.

Quanto da parte sonora, assim como ocorre na maioria dos longas religiosos, abusaram de trilhas de efeito para fazer o público se emocionar, passar sentimentalismo e até tentar manter o ritmo calmo da trama, de modo que chega a ser cansativo, além de em diversos momentos exageradamente alta até quase sobrepondo as vozes, ou seja, podiam ter economizado nesse sentido também.

Enfim, volto a frisar que o primeiro longa foi bem bacana de conferir, mas esse somente o público fiel da igreja do bispo Edir Macedo conseguirá gostar de algo do longa, e mesmo que a cena emocionante da inauguração da igreja na África seja cativante, o filme derrapa demais em exageros que não tem como ficar feliz com o que verá na telona sem ser devoto. Ou seja, só recomendo ele para quem irá ganhar ingresso na igreja, e nada mais, mesmo que o filme não seja ruim, pois como analiso sempre a parte da produção, nesse quesito o longa é bem feito, mas nada além disso. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

PS: Acho que estou sendo até bonzinho demais na nota, mas como a parte da produção do longa foi bem interessante de ser vista, e a interpretação do protagonista ficou bacana, valeu a tentativa ao menos.
Leia Mais