A Vida Invisível

12/10/2019 01:24:00 AM |

É gostoso quando vamos conferir um filme nacional e saímos da sessão satisfeitos não só com a trama, mas com o resultado causado no público, e com "A Vida Invisível" acho que pela primeira vez vi pessoas chorando emocionadas ao final, com um envolvimento único e maravilhoso de uma trama que funciona não apenas pela dinâmica criada pelo diretor, mas sim por todo o conteúdo, e principalmente pelas ótimas interpretações das atrizes em cima de seus papeis. De tal forma que mesmo com diversas cenas desnecessárias, vemos uma trama densa, que realmente acontecia muito nas famílias antigamente de algum parente desaparecer e por birra dos pais, esse ser dado como morto para os demais, e nunca mais ter qualquer notícia, ou encontrá-los, e assim cada uma vivendo sua vida de forma dura em ambos os lados, vivemos com Eurídice e Guida todos os seus momentos, apaixonamos pelas atrizes e pelas personagens, e ao final a grande dama do cinema nacional Fernanda Montenegro entra para dar o tapinha nas costas e falar, fecha a tela e acende a luz, pois aqui foi tudo, e show. Ou seja, um filme maravilhoso, cheio de situações fortíssimas, que agrada em praticamente tudo, e que tem merecido cada prêmio que levou, e posso dizer que mesmo tendo diversas grandes produções concorrendo, acreditaria na possibilidade do filme ser o 5° ou 6° indicado de Filme Estrangeiro nas premiações, pois tem todo o estilo que os votantes gostam de ver.

O longa nos situa no Rio de Janeiro na década de 1940, aonde Eurídice é uma jovem talentosa, mas bastante introvertida e Guida é sua irmã mais velha, e o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor.

Quem conhece a filmografia de Karim Aïnouz certamente estranhará muito esse seu novo longa, pois ele trabalha uma pegada completamente diferente do que já fez, claro que ainda ousando bastante, mas com um toque mais melancólico e menos desenfreado, de tal forma que podemos dizer que foi até um grande acerto ver seu estilo impregnado em algo mais doce, do que se ele tivesse tentado inserir doçura no seu estilo, ou seja, ele pega algo que seria romantizado e poético, e coloca sofrimento, separações, e tudo mais que pudesse trabalhar o impacto que era e é a vida da maioria das mulheres, de viver sem poder alcançar seu sucesso, seus sonhos, de ser abandonada pela família por voltar grávida de um romance, de viver a esma, esquecida e tudo mais, ao ponto de que vemos o diretor trabalhar todo o cerne da separação sem necessitar separar todos, apenas os elos corretos e apaixonados entre si, que no caso são as irmãs, mas o restante tem de sofrer e viver junto, precisa se prostituir, precisa se estuprada, precisa tudo e mais um pouco. Mas se fosse somente um filme do diretor, veríamos todo esse sofrimento ser desenfreado e ir ao ponto máximo, mas como aqui ele se verteu como disse, o fechamento desmonta o público, envolve de tamanha forma que tudo se encaixa, e mesmo não sendo "bonitinho" como muitos até poderiam esperar, ele emociona e acerta em cheio com a participação forte de Fernanda Montenegro, ao ponto que o resultado é digno de se aplaudir, e a perfeição faz apagar até as cenas completamente desnecessárias de órgãos a mostra, pois o filme em si passaria fácil mostrando estupro, sexo, e tudo mais sem precisar abusar dos artistas, mas é o que muitos falam, e insistem em colocar, e assim sendo se o filme não fosse bom, só ficaríamos aqui discutindo isso, mas fica apenas como algo irrelevante que passou na trama.

Sobre as atuações, diria que Julia Stockler foi direta em sua atuação como Guida, trabalhando um vértice de olhares, de tons de voz, de tanta serenidade com seus momentos que acabamos nos envolvendo demais com o que faz em cena, sendo um grande acerto de estilo, encontrando personalidade demais para seus momentos, e fazendo com que o público entre na vida da personagem, e o resultado disso tudo é algo muito imponente por parte dela, e que não conhecia ela, mas certamente irei ficar de olho, pois mostrou ser uma tremenda atriz. Da mesma forma Carol Duarte entregou com força e sofrimento sua Eurídice, trabalhando de uma forma mais dura de expressões, mas sabendo encontrar cada momento para se destacar, o que não a deixa como surpresa, mas sim como funcional, e isso é algo incrível de acertar em dramas, e ela foi perfeita. Fernanda Montenegro aparece praticamente menos de 10 minutos no longa, e seus olhares, seus momentos, sua síntese para que tudo envolvesse e emocionasse é maravilhoso de ver, de tal forma que não temos nem como não aplaudir o que faz aqui, e talvez mais duas ou três cenas seriam dignas de lavar a sala do cinema. 2019 podemos dizer que foi o ano em que os humoristas deixaram de lado a comédia e atacaram muito bem o drama, de forma que semana passada vimos Rafael Portugal se dar muito bem no filme "Carcereiros", e aqui vemos Gregório Duvivier ser imponente e impactante de maneira a pensarmos no tipo de trabalho foi feito com ele para que seu Antenor fosse de um nível tão determinante para a produção que não conseguimos ver o papel com outro ator, e isso é algo tão raro de acontecer com atores natos, quanto mais com comediantes, ou seja, foi preciso e acertou em cheio. Dentre os demais tivemos ainda ótimos acertos, mas em papeis menores, mas ainda assim merecem destaque Bárbara Santos com sua Filomena precisa nos diálogos e envolvente nos olhares, tivemos Maria Manoella como uma Zélia imponente e direta nas atitudes, mas principalmente os olhares se verteram todos para António Fonseca como um Manoel simples, mas forte de olhares e expressivo como um pai tradicional é, ou seja, perfeito também.

O longa foi muito conciso na parte artística, retratando muito bem uma época com pouca ambientação, mas funcionando nas escolhas das locações para que víssemos cada ato certeiro e preciso de detalhes, trabalhando muito o interior das casas com detalhes marcantes da época, brincando bastante com os figurinos, e principalmente sabendo ampliar a marcação para que o filme tivesse conteúdo além dos diálogos (algo bem raro também nos dramas nacionais), e dessa forma, vemos um filme forte, com cenas duras e bem marcadas, que acabamos sempre pontuando pela narração da protagonista em suas cartas, mas que talvez com algo a mais nem precisaria disso, e o acerto seria o mesmo.

Enfim, poderia falar muito mais sobre cada momento do filme, discutir diversos envolvimentos e cenas marcantes, mas encheria a trama de detalhes que merecem ser sentidos, e não lidos como opinião de alguém, então dessa forma prefiro recomendar que todos vejam o longa, se emocionem com cada cena, e depois parem para pensar em tudo o que viu e pode ligar com a vida atual de muitos, pois embora não seja algo mais tão comum, ainda existe um pouco de tudo no mundo atual, ou seja, funcionando como uma trama atemporal também. Não sei mais quanto tempo o longa irá ficar em cartaz nos cinemas, afinal muito em breve deva estrear na Amazon Prime que comprou os direitos do longa, então quem quiser ver na telona corra, pois acredito que logo mais suma de cartaz fisicamente. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

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Netflix - História de um Casamento (Marriage Story)

12/09/2019 01:33:00 AM |

Sabe aquelas peças de teatro com discussões de relacionamento gigantes, brigas pela guarda dos filhos, e muitos outros simbolismos do estilo que ficamos impressionados pela essência, mas que dificilmente veremos ambos conciliados se amando ainda, mesmo que no fundo ainda tenham pitadas de envolvimento entre eles? Diria que assistir ao novo filme da Netflix, "História de um Casamento" é basicamente a mesma coisa, pois tem toda uma essência bem trabalhada dentro do roteiro, principalmente pela excelente construção dos diálogos, que nas mãos de dois atores perfeitos conseguiram dominar cada cena, mas que se ele se passasse em qualquer outro lugar, sendo até mesmo em cima de um palco só com os dois funcionaria tranquilamente. Ou seja, é um filme tão básico, que a dramaticidade exagerada acaba até cansando um pouco, mas que de certa forma funciona para a proposta, e conseguimos enxergar até mais dentro de tudo, não sendo algo perfeito para quem quer um filme apenas para curtir, mas que quem gosta de boas atuações e diálogos irá amar cada momento.

O longa nos conta que Nicole e seu marido Charlie estão passando por muitos problemas e decidem se divorciar. Os dois concordam em não contratar advogados para tratar do divórcio, mas Nicole muda de ideia após receber a indicação de Nora Fanshaw, especialista no assunto. Surpreso com a decisão da agora ex-esposa, Charlie precisa encontrar um advogado para tratar da custódia do filho deles, o pequeno Henry.

Se pararmos bem rapidamente para analisar a carreira do diretor e roteirista Noah Baumbach vamos ver que seu estilo é o mais próximo que a Academia de Cinema gosta, de filmes cheios de diálogos, aonde os protagonistas podem se destacar pela atuação em si, e que todo o restante seja 100% eliminado de cena, não importando ângulos de câmeras, não necessitando filmar em locações sublimes, muito menos que o filme tenha algo a mais para ser notado, ou seja, o cinema cru de essência que poderia funcionar feito por qualquer outro ator, em qualquer outro país ou até mesmo em cima de um palco, e aqui vemos praticamente uma aula dele em cima disso, pois ele soube conduzir sua trama com tanta sabedoria, e jogar literalmente nas mãos de dois grandes astros da interpretação dialogada, que o resultado é limpo, bem colocado, e mesmo sendo um filme longo de dramaticidade, passamos o tempo todo acompanhando cada um dos seus atos torcendo para que ambos se beijem após se matarem com seus advogados, e o elo não é marcado, o que é melhor de tudo. Ou seja, Noah conseguiu fazer com que seu filme tivesse o amor na alma dos protagonistas, mas que em suas atitudes frente aos advogados funcionasse quase como uma vingança pelos anos perdidos, e o momento dos dois na casa simples debatendo é de arrepiar e fará com que ambos os atores sejam indicados a tudo.

Sobre as atuações já disse e repito, se não vermos a dupla entre os indicados a todas as premiações será a maior injustiça possível, pois ambos simplesmente comeram o roteiro e recitaram com expressões fortes e marcante palavras de todas as formas possíveis, e principalmente na cena pós júri, na casa do protagonista vemos algo tão forte de ambos que se fosse em uma peça, a plateia inteira se levantaria e aplaudiria o casal, ou seja, deram show do começo ao fim. Scarlett Johansson vem marcando boas atuações em cima de boas atuações, colocando sua pontuação num nível altíssimo seja em filmes de heróis ou em dramas bem trabalhados, e aqui sua Nicole é densa, cheia de vértices para serem trabalhados, e a atriz não apenas dominou cada um desses vértices, como criou outros ao ponto de deslanchar atitude, e querer ainda mais para si, ou seja, agradou e muito. Por outro lado, Adam Driver também não deixou barato e pegou seu Charlie e montou arcos dramáticos bem dosados, transparecendo calma e atitude até precisar explodir, seja gritando como foi o caso da cena que tanto citei, como emotivo nas cenas de fechamento, e mesmo que seja um dos atores que menos consigo gostar de Hollywood, posso dizer que aqui ele fez o papel ser dele, e de mais ninguém. Quanto aos demais, tivemos cenas bem doces e interessantes de ver com o pequeno Azhy Robertson como Henry, vimos uma advogada de nível imponente master vivida por Laura Dern lutar com unhas e dentes contra Ray Liotta, e tivemos agradáveis participações por parte de Alan Alda e Julie Hagerty.

Como disse no começo, não importa aonde a trama se passe, pois o roteiro é muito aberto dentro dessas situações, mas conseguimos enxergar bem nos protagonistas o estilo de Nova York e Los Angeles, brincando bem com seriedade contra aventura, e muito mais, além claro de brincarem com casas riquíssimas de ornamentos, trabalharem bem a dinâmica dos porta-retratos, e claro a ambientação bem moldada para trabalhar os estilos de cada um, ou seja, para o filme ter o funcionamento abriram mais o detalhamento cênico, e isso funciona desde a casa deles em Nova York, passando pelos ótimos cenários dos escritórios de advocacia mais diferentes possíveis, até brincar com os estilos de Halloween, ou seja, um trabalho minucioso que nem era tão necessário, mas que foi muito bem feito.

Enfim, é um filme bem feito que agrada pelo ótimo roteiro, pela desenvoltura corajosa dos atores em criar dinâmicas incríveis para seus personagens, mas só quem amar dramas bem textuais irá conseguir conferir o longa, pois não é daqueles que nos envolvem com um contexto a mais, e isso faz com que a maioria desista na metade. Sendo assim recomendo ele para poucos, mas os que gostarem do estilo sairão extremamente felizes com tudo. E eu fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais textos, então abraços e até logo mais.

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O Último Amor de Casanova (Dernier Amour) (Casanova, Last Love)

12/07/2019 02:20:00 AM |

Se tem algo que me deixa sempre muito triste no cinema é ver um longa novelesco, ou seja, cheio de floreios, de situações romantizadas desnecessárias, de personagens que surgem de nada e levam a lugar algum, ou seja, enfeites e mais enfeites que não incrementam a trama, e ainda atrapalham muitas vezes, e quando desperdiçam um orçamento de filme de época então, é de cair no choro! E cá estamos falando do longa francês "O Último Amor de Casanova", que diria que até soa bonito visualmente pelo estilo da época, com figurinos bem ornamentados, ambientes clássicos, mas o filme é tão fajuto de ideias, que nada empolga, tudo parece meio que jogado na tela, e principalmente os protagonistas não conseguem nos convencer de nada em cena, de tal forma que o resultado só não é pior pela ornamentação cênica do roteiro, que ao menos tem uma dinâmica considerável e é bem curto, pois se o filme fosse lento então certamente dormiríamos na sessão com os acordes do piano cravo tocado a esmo na produção.

O longa nos situa em Londres no século XVIII, aonde Casanova, o francês amante de mais de 100 mulheres, chega como exilado. Na cidade desconhecida, conhece várias mulheres, mas o seu olho e o desejo recaem sobre uma jovem cortesã, Marianne de Charpillon, que o atrai ao ponto de fazê-lo esquecer todas as outras. Executa os encantos para conquistá-la, mas não funcionam, com Charpillon sempre escapando sob os mais diversos pretextos. Ela o desafia, ela quer que ele a ame tanto quanto ela quiser.

É engraçado ver a quantidade de longas de época que o diretor Benoît Jacquot tem em seu currículo, de modo que se ele produz todos já deve ter uma coleção de perucas, poltronas, figurinos e tudo mais em sua casa, de modo a nem mais precisar locar para seus filmes, mas alguns que conferi foram bem colocados, tiveram um tema a ser trabalhado, e principalmente se encaixaram dentro de algo, não sendo apenas um filme de época mostrando a época como é o caso aqui. Claro que para quem já viu outros diversos longas sobre Casanova sabe que ele é um amante compulsivo, cheio de mulheres por onde passa, e aqui o diretor quis mostrar sua paixão por uma mulher ao ponto de não enxergar mais nenhuma outra, algo que muitos já sentiram alguma vez na vida, mas infelizmente isso não soa fácil de ver, e nem é direcionado ao ponto de funcionar esse envolvimento apenas para manter um filme inteiro, então vemos diversos outros atos jogados na tela, parecendo que o diretor desejava até algo a mais, mas não conseguiu. E sendo assim o filme falha mais do que envolve, parecendo ser algum tipo de continuação de outro filme, o qual não vimos antes e nos perdemos, mas na verdade não é nada disso, e o resultado não agrada mesmo.

Sobre as atuações, Vincent Lindon já trabalhou com o diretor em diversos outros filmes, e praticamente é seu galã marcado, mas diria que já está com o prazo de validade gasto demais, pois não chama mais tanta atenção, e aqui seu Casanova necessitava de mais impacto, e o personagem não veio a tona como poderia, de modo que até vemos um homem cortejado e cortejador de vasta idade, e que tem estilo, mas não flui como poderia, nem mostra atitude como é de costume do ator, ou seja, falhou muito mais do que envolveu. Stacy Martin jogou muito com sua Charpillon, ousando em olhares, sabendo dosar a sensualidade, e trabalhando bem tudo ao seu redor, de modo que agrada bem, mas ainda poderia ser mais provocante em algumas cenas, não deixando que a bola baixasse em momento algum, e isso daria um tom mais forte para o filme. Agora quanto aos demais, diria que são tantos personagens jogados que até nos perdemos em quem focar, tendo leves destaques para Nancy Tate com sua clássica Sra. Stavenson, Valeria Golino como La Cornelys que provavelmente já rodou muito com o personagem pelas deixas na trama, e Nathan Willcocks como o nobre Claremont, que está sempre em muitos momentos com o protagonista, mas não deslancha nada, ou seja, todos apareceram em cena, fizeram seus atos, mas não complementaram nada.

Visualmente todo longa de época tem um estilo próprio que é belíssimo de ver, com figurinos rebuscados, móveis clássicos e cheios de detalhes, e claro locações imponentes para dar força para a trama, e aqui não foi diferente de ver, de modo que vemos dois pontos bem distintos entre as casas e palácios que o protagonista frequenta, cheias de luxos mesmo que muitos apenas façam papel de ricos, mas estão completamente endividados, e a da jovem que mora praticamente num pulgueiro no meio da classe mais pobre da trama, que apenas se faz de rica para estar na alta sociedade ganhando pelos seus serviços sexuais, ou seja, o filme trabalhou um pouco o conceito de classe e chamou atenção ao menos nesse quesito. Agora quanto da fotografia, o filme ficou com uma gramatura estranha, com cores pasteis demais, parecendo ser até defeito de exibição, mas como em muitos atos as cores ficavam vivas, vemos que foi alguma intenção artística do diretor de ter um longa mais denso e escuro mesmo.

Enfim, é um filme simples, com ares de novelona de TV francesa (para não falar mexicana!), que não atinge nada além de uma exibição de época, aonde não temos nenhum anseio maior, e o resultado acaba soando fraco demais de ver, ou seja, acredito que nem quem gosta desse estilo conseguirá gostar do longa, e como disse no começo felizmente o longa tem ritmo, senão dormiríamos na sessão. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

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Sinônimos (Synonymes) (Synonyms)

12/06/2019 01:54:00 AM |

É engraçado que se o filme "Sinônimos" entrasse na programação do Festival Varilux muitos se assustariam com as performances nuas do protagonista, mas se formos ver seu estilo francês completo caberia muito bem dentro do festival, pois é quase como saber o que é ser francês em duas horas de projeção, claro sob a ótica de um imigrante maluco, que acredita ser mais francês que israelita, vivendo todo tipo de situação junto de dois conhecidos, performando como modelo para um ser maluco, participando de segurança da embaixada, ou seja, um filme cheio de coisas abstratas, mas que também brinca com a forma de aprender um idioma vivenciando o país, aprendendo os diversos sinônimos de palavras para melhor se expressar, e se envolvendo realmente com todas as forças de seu corpo para que cada momento e cada palavra se conecte com a real versatilidade dos atos. Ou seja, um filme forte, cru, cheio de momentos imponentes vividos pelo protagonista, de tal forma que acabamos indo no mesmo rumo que a trama deseja passar, e isso é muito bom, mas também a trama soa polêmica por muitos atos, o que não deixa de ser um luxo para o resultado final.

O longa nos conta que Yoav é um jovem israelense que chega a Paris esperando que a França e os franceses o salvem da loucura de seu país. Determinado a extinguir suas origens e se tornar francês, ele abandona a língua hebraica e se esforça de todas as maneiras para encontrar uma nova identidade.

Tem filmes que conseguimos enxergar facilmente como consegue ganhar tantos prêmios, e a principal qualidade do longa aqui é que o diretor e roteirista Nadav Lapid soube entregar símbolos para tudo através de seu texto, e principalmente da esplendorosa atuação do protagonista, pois o filme em se analisarmos sua essência é simples de situações, mas consegue expressar o fanatismo patriótico dos franceses (e no caso dos que querem virar franceses), vemos com minúcias nas cenas finais a interpretação claríssima do hino nacional do país, dito em diretiva tão imponente que chega a ser quase como um soco, vemos uma juventude inexpressiva que quer ajudar, mas que abusa também em troca, e muito mais, de modo que cada ato do filme se dilui perfeitamente num uso e abuso do personagem, da língua, e principalmente dos vocábulos, de modo que tudo importa, até mesmo a nudez exagerada.

Sobre as atuações, chega a ser até impressionante ser a estreia de Tom Mercier em frente as câmeras com seu Yoav, pois o jovem teve uma desenvoltura tão bem colocada, soube precisamente os momentos de olhar para a câmera maluca do diretor, trabalhou expressões coerentes para cada ato, e se desnudou não apenas de roupa, mas de caracteres para o tanto que precisou falar em cena, colocando pingos nos is, trabalhando abertamente para cada palavra nova que colocava nas suas histórias, e sempre com um olhar meio desviado funcionou com as nuances escolhidas para o longa de uma maneira certeira e precisa, ou seja, perfeito. Quentin Dolmaire entregou um Émile clássico demais, rico demais, e que em termos mais chulos, mala demais, daqueles amigos que da mesma forma que está te ajudando com uma mão está lhe usando com a outra, e que cheio de olhares quase jogados em cena, faz o papel clássico do escritor que flui de maneira singela. Louise Chevillotte faz quase uma mulher sem vida com sua Caroline, de modo que nos primeiros atos ficamos nos perguntando se era ela ali em cena com os demais ou apenas sua alma, pois a jovem foi apática, sem atitudes, sem sal, mas chegando próximo ao final do longa resolveu aparecer um pouco mais e fez atos bem marcados, o que acabou funcionando. Agora Uria Hayik podemos dizer que foi daqueles malucos completos com seu Yaron, chamando atenção mesmo sendo quase um personagem mais que secundário, e agradou bastante em seus momentos, de modo que o filme até poderia recair mais para ele, que daria conta do recado.

Visualmente o longa soa bem distópico, cheio de passeios pela cidade, mostrando a diferença monstruosa entre os apartamentos dos protagonistas, um com tremenda simplicidade, comendo o mais básico possível, enquanto os outros esbanjando com peles, até fazendo o macarrão básico do protagonista, mas colocando alcaparras, e brincando a todo momento com os contrapontos entre os verdadeiros franceses e os estrangeiros que se acham franceses, ou seja, uma abertura completa para o real nome do filme de sinônimos, que são parecidos, mas não são iguais, e assim tudo se contrapõe e se complementa, num exercício minucioso incrível de ver.

Enfim, é um filme denso, forte, e bem cheio de cultura e diversidade artística, de modo que não vai ter aquele que vai ficar em cima do muro, ou seja, terá aqueles que gostarão muito, e aqueles que odiarão o resultado completo, mas uma coisa é certa sobre o longa, ele é polêmico na medida certa para não sair da linha, e isso é um tremendo acerto. Bem é isso pessoal, encerro aqui por hoje, mas volto amanhã com mais textos, então abraços e até logo mais.

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Viver Para Cantar (Huo zhe chang zhe) (To Live To Sing)

12/05/2019 08:52:00 PM |

Essa semana na Itinerância da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo estou vendo exatamente o que os professores nos falavam nas aulas de edição, que não podemos ter dó de cortar cenas desnecessárias para que o filme fique mais dinâmico sem enrolações, pois é nítido o quanto diretores mais artísticos preferem amarrar suas tramas com cenas longas e sem muito ritmo para que o público pense na visão mostrada, entregando algo que vá além da tela, e no primeiro filme de hoje, "Viver Para Cantar" tivemos algo bem em cima disso na primeira metade dele aonde conhecemos um pouco mais dos personagens, sua vida em cima dos palcos, o desespero da organizadora das óperas em tentar salvar o local de trabalho de "sua" família que não evoluiu, mantendo há mais de 10 anos uma trupe de ópera para idosos, e que da mesma forma que os prédios velhos estão sendo demolidos para dar lugar a modernos prédios, os estilos culturais mais antigos também estão sendo derrubados para dar vez a estilos mais modernos. E com isso em mente, o maior erro do diretor talvez tenha sido seguir uma linha tradicional no começo, pois ao mudar o estilo no segundo ato, sendo dinâmico, colocando abstrações, brincando com o floreio da mente, o filme toma rumos muito melhores, e assim finaliza bem de forma diferente do que a maioria esperava, sendo um grande acerto. Ou seja, se tivesse cortado mais no começo, o rumo do longa seria perfeito.

O longa nos situa em Chengdue, na China, aonde uma pequena trupe de ópera é surpreendida com a notícia de que o velho teatro em que costuma se apresentar em breve será demolido. Temendo que este seja o fim da companhia, a administradora Zhao Li resolve procurar um novo lugar onde possam se apresentar. Neste percurso, a ópera e seus personagens aos poucos se infiltram em sua própria realidade.

De certa forma o diretor Johnny Ma foi bem direto no estilo escolhido, trabalhou bem os atos e a vida da protagonista, que se doa muito para que sua trupe siga unida, além de tentar cuidar da sobrinha jovem que está tentando mudar de estilo, e com um roteiro cheio de ideias para florear, ele soube ser muito criativo no segundo ato, o que mostra que sabe o que fazer, e certamente irá despontar muito se manter essa linha, porém o primeiro ato soou levemente arrastado e um pouco cansativo, com músicas demais, apresentações quebradas, e diversas cenas em câmera lenta das demolições ao redor do teatro, e o que estava acontecendo o público já pega no ar em minutos não precisando frisar tanto, ou seja, faltou deixar na mão dos editores para resolver melhor, e quem sabe o filme fluiria melhor, mas isso felizmente não chega a destruir o longa, só não deixa ele uma obra incrível como poderia ser.

Sobre as interpretações, é notável que é o primeiro filme da grande maioria ali, sendo que muitos se doaram para as cenas, não chamando a atenção para si, mas fazendo o filme acontecer, e isso é bonito de ver, mas faltou direção para que eles não se perdessem tanto, e isso é um dos erros do longa também. Porém, sem dúvida alguma, Xiaoli Zhao e Guidan Gan conseguiram dominar seus momentos com Zhao e Dan Dan, trabalhando os olhares, fazendo com atitude os floreios que o longa precisava, e principalmente emocionando nas cenas mais fortes, sendo bem bacana ver elas em cena, ou seja, agradaram sem forçar, e isso já faz valer o esforço.

Visualmente o longa tem dois vértices, um primeiro bem singelo com casas e construções bem antigas para representar o fim de uma época, com muitos ambientes sem cores contrastando com o visual colorido da trupe, e num segundo momento o lado mais abstrato, trabalhando ambientes desérticos, com lutas em tons amarelados secos e fortes, também tendo muito contraste com as cores dos figurinos dos personagens, numa jogada visual cheia de elementos bem moldados e que funcionam muito bem em contraposição com a escavadeira destruindo tudo, e ao fundo os grandes prédios modernos sendo construídos, ou seja, brincaram bastante com composições, porém exageraram na câmera lenta, algo que se não for bem feito acaba falhando muito.

Enfim, é um filme inteligente e interessante de ver, que com uma cantoria que enjoa um pouco até faz com que muitos se cansem do que é mostrado, mas que no contexto completo funciona dentro do que foi proposto, e o resultado embora demore a acontecer agrada, então quem for conferir vá sabendo que demorará para acontecer, mas ao final a conferida acabará sendo bem montada para envolver. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas vamos para mas um longa da Mostra, então abraços e até logo mais.

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Technoboss

12/05/2019 01:43:00 AM |

Pense em um filme absurdo que você já assistiu! Garanto que não passa nem perto de toda a loucura que é o longa português "Technoboss" que não bastasse um personagem tremendamente estranho, ainda nos presenteia com canções rimadas a partir do que acontece ao seu redor. Ou seja, praticamente um musical sem coreografias e belas canções, mas sim com algo absurdo e sem nexo algum de estar cantando. Não diria que é o pior filme que já vi na vida, pois já vi bombas piores, mas confesso que senti vontade de sair da sessão ao menos umas três vezes, sendo que na terceira tentativa olhei no relógio e só tinha passado metade do filme, ou seja, me amarrei e fiquei esperando que melhorasse, mas conseguiu ficar mais maluco ainda, e já que fiquei até ali, fui até o fim, mas garanto que não recomendo ele nem para meu pior inimigo, e olha que alguns até mereceriam isso.

A trama nos diz que não há nada que uma música não conserte. Esse é o lema de Luís Rovisco, um homem divorciado e já na casa dos 60 anos. Para driblar as armadilhas deixadas pela tecnologia, pelos colegas de trabalho e pelo chefe estranhamente ausente, ele passa seus dias atrás do volante, sempre sorrindo e criando músicas para o que ele vê no caminho. Parece que nada pode abalar as canções de Luís, até que Lucinda, recepcionista do Hotel Almadrava, dá um tom diferente.

Sinceramente não sei o que o diretor João Nicolau tinha na cabeça para criar o filme, pois inicialmente achamos que vai trabalhar a senilidade que não consegue se aposentar e precisa trabalhar até o fim de sua vida, depois vemos a vida amorosa entrar em conflito, e por fim vemos diversos trambiques e muita cantoria desnecessária, de tal modo que o filme vira uma salada de cenas desgovernadas, com situações filmadas em locações reais, e outras em estúdio com um estilo bem falso, que não consegue representar nada, meio que parecendo aqueles videoclipes ruins dos anos 80/90, ou seja, todo o trabalho narrativo do longa que é exibido antes das canções, que poderia até representar algo, assim que o protagonista entoa sua voz para cantar a vida cotidiana faz com que qualquer um queira sair correndo da sessão, o que milagrosamente não ocorreu (acho que todos esperavam que iria melhorar em algum momento, ou ao menos ter alguma explicação mais coerente), mas como a própria sinopse já diz, é o lema do personagem, de que uma música pode consertar qualquer coisa, mas infelizmente não passa essa mensagem em momento algum, e o resultado é tenebroso.

Sobre a atuação, temos que primeiramente falar que Miguel Lobo Antunes não é ator, e sim um personagem icônico da cultura portuguesa, sendo diretor de centros históricos, curador de mostras, e muito mais do meio cultural, só não entendi o motivo de colocarem ele como protagonista, e principalmente como cantor, pois um musical necessita e muito de atores completos, e dessa forma seu Luís Rovisco além de estranho como personagem, ficou estranho cantando, atuando e tudo mais, ou seja, algo completamente bizarro, que não tem como acreditar no que faz em cena, pois mesmo tendo algumas desenvolturas até de impacto, o resultado não agrada. Agora quanto aos demais, a maioria é quase objeto cênico da trama, ou acaba cantando junto com o protagonista, tendo leve destaque para as caras sérias de Luísa Cruz com sua Lucinda, par amoroso do protagonista, mas nada que a faça ser impressionante com suas expressões.

No contexto cênico, a trama se passa na maior parte em ambientes de um hotel, e dentro do carro com o protagonista ao volante, e outros ajudando a cantar dentro dele, mas o mais bizarro é usarem a técnica de cenografia móvel ao redor do carro (daqueles rolos pintados que vão se movendo como nos filmes antigos para indicar movimentação de uma rua ou rodovia), e principalmente mostrarem isso como um artifício cênico da trama, de tal maneira que soa inacreditável mostrar esse "defeito" em cena, além claro dos diversos atos com os personagens estranhos dançando, ou seja, bizarro demais. Além disso, toda a parte de segurança que o filme tenta vender como algo demais, acaba ficando cansativa e piegas dentro do contexto da trama, de modo que talvez como um episódio de alguma série cômica até funcionasse, mas num filme de quase duas horas foi abusar da nossa vontade.

Como não sou uma pessoa má, e também para nossa felicidade, não existe link com as canções do filme, então vou lhes poupar desse sofrimento, mas saibam que até para o pessoal da legendagem foi divertido mudarem "fogo no cú" para "não aguento mais", ou seja, bizarro é a palavra chave para tudo no filme.

Enfim, fez bem uma amiga nossa de festivais em ir para a casa dela jantar ao invés de ficar para a sessão, pois não tenho como recomendar isso que nem posso chamar de filme, afinal é algo que se algum dia sair comercialmente é capaz dos clientes baterem no gerente do cinema se entrarem por engano. Ou seja, fuja para as colinas, mas não entre na sessão desse filme. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas amanhã volto com mais dois textos dos longas da Itinerância da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, então abraços e até logo mais.

PS: a nota só não foi menor, pois as ideias subjetivas sem a cantoria até dão para aproveitar um pouco.

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Deus é Mulher e seu Nome é Petúnia (Gospod postoi, imeto i' e Petrunija) (God Exists, Her Name is Petrunya)

12/04/2019 08:58:00 PM |

Quando estudamos a Idade Média ouvíamos muito falar em algumas proibições para mulheres, coisas que eram exclusivas para homens, e hoje ainda temos muitos países com rituais desses estilos, aliás, no mundo todo se pararmos para pensar temos proibições religiosas para mulheres, então trabalhar esse tema polêmico com um estilo próprio, brincando praticamente com a situação direto na ideia do espectador, como se fosse um grande espetáculo de uma cidade pequena é algo que o diretora certamente quis cutucar a ferida, e o acerto de "Deus é Mulher e seu Nome é Petúnia" fica todo nas mãos da protagonista que soube encarar muito bem cada momento, e só não é melhor por não utilizarem mais a tesoura para cortar o filme melhor e dar ritmo para ele, pois a primeira metade é extremamente cansativa e sem atitudes, e o segundo flui bem melhor, mas no geral o cansaço bate, e se não fosse um tema tão bem amarrado certamente dormiríamos na sessão.

O longa nos conta que todo dia 19 de janeiro, um ritual único é realizado na Macedônia. O pároco mais importante de cada cidade lança uma cruz no rio, e centenas de homens mergulham para alcançá-la, sob a promessa de que assim terão felicidade e prosperidade durante o ano. Na pequena vila de Stip, a cerimônia é interrompida por um acontecimento inédito. Petúnia, mulher de 32 anos que está solteira e desempregada, mergulha para pegar a cruz e se torna a vencedora. Mas o povo de sua cidade não permitirá que ela seja reconhecida como tal.

Não posso falar muito do estilo da diretora Teona Strugar Mitevska, muito menos da escola macedônica de cinema, pois esse é o primeiro filme tanto dela, quanto do país que assisto, mas posso dizer pelo que vi aqui que gostam de polêmicas, pois a trama em si já possui uma essência direta, cheia de motes para brincar e brigar, o que certamente nem necessitaria toda a grande sacada que a diretora jogou nas mãos da protagonista para desdenhar até o último segundo todas as suas opções dentro da lei que a defende, ou seja, o filme funciona certinho em tudo o que se propõe a mostrar, desde machismos exagerados, abusos, tradições, e até proibições que não existem, além claro da violência religiosa de certos grupos, e assim sendo, o resultado dentro desse contexto é perfeito. Porém outro fato que fica claro é a falta de cortes mais diretos, deixando que os respiros ficassem longos demais, e coisas subjetivas que poderiam ser eliminadas, acabaram ficando dentro da totalidade da trama, o que acaba cansando demais, principalmente após um dia exaustivo de trabalho como é o caso da maioria que vai ao cinema, então poderiam ter reduzido uns 15 minutos do longa, que o resultado ficaria ainda mais incrível, mas isso são gostos peculiares, e para alguns esses respiros podem servir de reflexão, então é aceitável também.

Sobre as atuações, não vou me apegar tanto aos demais personagens e atores, pois a maioria foi bem encaixada, tendo atitudes fortes e bem trabalhadas, mas sem dúvida alguma o longa só tem o efeito que tem pelo que Zorica Nusheva faz com sua Petúnia, que com olhares fortes, dinâmicas bem secas, e com um preparo incrível para chamar a responsabilidade para si, acabamos ao mesmo tempo torcendo por ela, e ficando bravos com o que faz, de modo que ela conduz cada fio da trama do começo ao fim. E dentre os demais protagonistas, só vale um rápido destaque para insistente repórter vivida por Labina Mitevska, que trabalha os pontos de discussão do longa, e para o policial bem singelo e apoiador vivido por Stefan Vujisic.

No conceito visual, diria que até o padre entra como uma alegoria com suas vestimentas fortes contra os diversos seguidores seminus desesperados para entrar na água com um frio violento para pegar uma cruz, e até esse momento o filme em si tem poucas nuances visuais, passando por uma fábrica de roupas com um ar totalmente exploratório de mulheres, a casa simples da protagonista com seus pais, e em seguida vamos para uma delegacia escura, com mais ambientes e discussões pautadas em ambientes reclusos, e que força a trama para a desenvoltura escolhida, ou seja, uma arte simples se formos ver, mas que tem símbolos espalhados em cada momento para analisarmos e vermos o que a diretora desejava passar.

Enfim, é daqueles filmes que muitos vão amar pela temática, outros vão reclamar da técnica, e que no geral todos irão gostar do resultado final, pois é um bom filme, que vale a conferida por tudo o que entrega, só pesando um pouco o ritmo exageradamente lento de atitudes, mas tirando esse detalhe é muito inteligente e interessante de assistir, e sendo assim, o recomendo. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

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Cicatrizes (Šavovi) (Stitches)

12/04/2019 02:10:00 AM |

Sabe aqueles filmes intrigantes que não conseguimos descolar os olhos da tela pensando em como vão desenrolar tudo? Daqueles que acabamos torcendo tanto pra protagonista conseguir provar que estava certa em sua busca? Daqueles que ficamos bravos com pessoas que machucam a protagonista de maneira que dá vontade de ir brigar? Pois bem, "Cicatrizes" tem tudo isso e muito mais, pois o longa sérvio vem com tanta imponência na concepção da busca da protagonista em tentar curar suas feridas, tentando saber onde é o túmulo ao menos de seu filho que tem tanta certeza que está vivo e foi roubado, que vemos situações tão tensas ao redor dela que não conseguimos acreditar na forma que tudo ocorre. E o melhor de tudo é que a tensão constante é bem interpretada, traz silêncios duríssimos, e principalmente se resolve com muita certeza do que vai entregar, pois alguns diretores optariam por deixar o filme aberto, mas aqui o diretor foi incisivo e preciso nos atos, para que ainda ficássemos mais revoltados com tudo.

A sinopse nos conta que há dezoito anos, Ana sofre de uma dor implacável. Ela passou todo esse tempo convicta de que seu filho, alegado natimorto pelo hospital, na realidade teria sido vendido para um esquema de adoção ilegal que vigora até os dias atuais na Sérvia. Com uma nova pista e o relato de outras dezenas de mulheres que acreditam ter passado pela mesma situação, Ana vê motivos para recuperar as esperanças.

O diretor Miroslav Terzic soube ser coerente em todos os momentos, deixando sempre o público com a pulga atrás da orelha de confiar ou não na protagonista, pois sabemos bem como é o coração de uma mãe, mas também sabemos das loucuras que botam em suas cabeças, então o filme fica sempre com essa jogada de o que é verdade, em quem confiar, o que são as pessoas ao redor dela, e sabiamente conseguiram nos prender com todos esses detalhes, de tal maneira que nos vemos sempre olhando ao redor, procurando pistas, e quando achamos que vamos ir direto no alvo, a ponta do iceberg era apenas um pedacinho, pois tinha ainda muito mais para escavar. Ou seja, o diretor conseguiu captar tanto a essência dramática do tema, que é real como é mostrado nos letreiros finais a quantidade de crianças desaparecidas na Sérvia por ano, que com muita tensão, e principalmente boas dinâmicas nos atos de cada um dos personagens, que o resultado impacta e ainda faz pensar, coisa rara de ver em dramas nos dias de hoje, que geralmente não puxam tanto para o suspense. E assim sendo, vemos um filmaço sendo conduzido com primor por todos para um final ainda melhor do que esperávamos ver.

Um dos fatores da trama funcionar muito bem é o fato de Snezana Bogdanovic ter olhares tão precisos, que quase nos implora a confiança nas ideias de sua Ana, pois é notável que ninguém mais acredita nela, que optou em usar muito mais o silêncio do que ter atitudes, afinal já são 18 anos brigando por algo, e a atriz foi tão forte, tão cheia de atitudes cênicas, que não tem como não se emocionar com ela, e principalmente torcer e acreditar no que está fazendo, de tal forma que o filme com outra atriz pode até funcionar, mas não sei se acreditaria tanto como o que ela fez. Num primeiro momento acabamos meio com raiva de Jovana Stojiljkovic como Ivana, pois a garota parece exageradamente jogada, mas num segundo momento até sentimos também os seus ciúmes pela mãe não lhe dar a atenção devida enquanto busca pelo irmão desaparecido, e claro que com seus atos na segunda parte da trama, ela muda da água pro vinho, e ainda entrega bem suas cenas, sendo um bom acerto. Marko Bacovic entregou uma boa personalidade nas cenas de seu Jovan, não sendo muito primoroso de atitudes, mas sabendo ser coerente nos momentos que foi colocado, encaixando bem toda a situação, e agradando com sentimento também. Quanto aos demais, tivemos boas cenas de envolvimento com o jovem Pavle Cemerikic fazendo de seu Marko um bom encaixe de fechamento, ficamos bem bravos com a doutora e com os policiais, mas nada que valha dar destaque, pois fizeram apenas o normal.

Visualmente o longa nem tem tanta imponência, pois são lugares simples, como o apartamento da família, mas com elementos marcantes, e principalmente importantíssimos para o fechamento escolhido, temos o hospital e a delegacia que trabalham com poucos detalhes, mas que causam força nas cenas, temos a casa de costura que a protagonista trabalha, aonde seu sentimento de imposição fica bem marcado, e claro temos a casa da outra família que mostra um ar rico, e que dá o tom para tudo o que o filme tenta passar, mostrando bem a ideia de que o dinheiro pode comprar uma vida, e mudar ela também. O tom da fotografia brinca bastante com a densidade dramática, usando cores cinzas, sujas e bem marcadas para mostrar a tristeza da protagonista em sua busca, mas joga também muita cor nos atos de felicidade dela, o que é um grande contraste e funciona bastante.

Enfim, é daqueles filmes que ficamos esperando muito por cada cena seguinte, para sabermos o desenrolar da trama logo, que nos aflige demais, e que graças a isso funciona, e sendo assim, com muita vontade por parte de todos acabamos gostando tanto da história, quanto da direção, mas principalmente das atuações, pois todos foram precisos nos olhares, e claro que recomendamos com muita certeza a conferida. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais dois longas da Itinerância da Mostra Internacional, então abraços e até logo mais.

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Os Olhos de Cabul (Les Hirondelles de Kaboul) (The Swallows of Kabul)

12/03/2019 08:50:00 PM |

Primeiro de tudo, não é por ser uma animação que é filme para crianças, então por mais que o filme pareça bacana e bonito pelas forma gráfica, se for conferir "Os Olhos de Cabul" não deixe os pequeninos na sala, pois não irão entender, e até podem se chocar com alguns atos. Dito isso, o filme é daqueles fortes na essência e belos na concepção, pois trabalha com uma técnica quase que pintada a mão em aquarela, dando nuances diferentes na pegada de algo que não seria fácil de transportar para uma animação, afinal as regras do talibã são duríssimas, e quem não a segue é punido com muita intensidade, ou seja, vemos situações violentas, vemos imposições contra as mulheres de uma maneira bem crua, e principalmente vemos emoção na tela, de modo que tudo junto acaba funcionando demais.

O longa nos mostra que no verão de 1998, a cidade de Cabul, no Afeganistão, é ocupada pelo Talibã. Mohsen e Zunaira são um casal apaixonado que, apesar da violência e destruição a sua volta, deseja acreditar que há esperança em seu futuro. Porém, um ato sem sentido cometido por Mohsen pode arruinar suas vidas para sempre.

É bem interessante ver a formatação que as diretoras Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec fizeram nessa animação conjunta entre França, Suíça e Luxemburgo, de modo ao trabalhar um tema duro com sutileza esperávamos ver algo que fosse bem mais incrustado em algo menos forte, pois geralmente quando vamos ver uma animação já esperamos algo que possa trazer ambientações bem colocadas, e aqui essa forma de pintar a telona serviu para que o filme não ficasse tão seco, pois certamente essa história contada com pessoas seria daqueles dramas doloridos, cheios de princípios, e talvez nem envolvesse tanto, mas da forma colocada aqui vemos tudo e acreditamos com uma beleza bem moldada, que resulta em um filme que vai muito além.

Um único adendo que poderia dizer que talvez seja estranho até de reclamar, é que mesmo com tudo sendo muito bonito de ver, o que vai rolar fica tão implícito de cara, que mesmo que fizessem qualquer coisa diferente o resultado seria bem melhor, mas os diversos momentos que precedem o ato são tão bem transcritos para a tela, que mesmo os personagens não sendo daqueles que nos afeiçoamos, acabamos vendo o filme com uma vivência tão boa, que tudo entra em nossa mente, e saímos da sessão pensando em mil possibilidades, mil atitudes, e isso é algo raríssimo de ver em animações, ou seja, acertaram a mão no estilo, e assim fizeram para que tudo funcionasse.

Sobre o visual, não li muita coisa sobre a trama, mas certamente a técnica de pintura é algo que impressiona a cada novo ato, pois não temos traços marcantes, mas sim um molde que deslancha na tela, e isso é algo que tem de ser muito valorizado, pois se já desenhando com traços fazer uma animação funcionar na telona já é algo incrivelmente difícil, com algo que não tem essas linhas, apenas uma pintura em movimento, já faz valer cada momento visto funcionar.

Enfim, é daqueles filmes completos, que nos envolvem tanto pela beleza cênica, que só por isso já valeria a recomendação, mas que por trabalhar com um tema tão forte que é a mulher nessa cultura do Talibã, o envolvimento de alguns homens com isso, e tudo mais, faz ele se tornar quase que obrigatório a conferida, e só não dou uma nota melhor pelo óbvio fechamento, pois do restante é perfeito. Bem é isso, vamos para mais uma sessão da Itinerância da Mostra Internacional de São Paulo, e logo mais volto com outro texto.

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Uma Segunda Chance Para Amar (Last Christmas)

12/02/2019 01:21:00 AM |

Sabe aqueles filmes gostosinhos de curtir, que passa voando com boas sacadas, que te envolve com uma história bem colocada, e que ainda por cima consegue surpreender com algo que você até esperava acontecer, mas que vem de uma forma de impacto ainda maior? Pois bem, se você fez um checklist dos filmes para tentar lembrar de alguns, em breve você irá colocar também "Uma Segunda Chance Para Amar" entre eles, pois o filme é tudo isso, com um tom tão bem feito, que mostra não só a boa dinâmica dos atores para saber encontrar estilo em suas cenas, como uma precisão incrível do diretor em cima de um roteiro bem leve e gostoso de trabalhar, de forma que acabamos nos envolvendo tanto com tudo que quase ao final já estamos cantando George Michael sem pensar nas consequências. Ou seja, o longa passa bem longe de ser daqueles filmes que vamos colocar entre os nossos top filmes, mas ele é tão gostoso de ver, que certamente ao passar na TV, numa zapeada pelos canais, você irá parar para ver ou rever ele.

O longa nos mostra que Kate mora em Londres, insatisfeita por uma série de más decisões acompanhadas pelo som de sinos de Natal de seus sapatos, outra consequência irritante de seu trabalho como uma elfa em uma loja de produtos de Natal que funciona o ano todo. Tom parece bom demais para ser verdade quando ele entra em sua vida e começa a ver além das tantas barreiras de Kate. Como Londres se transforma na época mais maravilhosa do ano, nada deveria dar certo para esses dois. Mas às vezes você tem que deixar a neve cair onde for, você tem que ouvir seu coração ... e você tem que ter fé.

O estilo de comédia do diretor Paul Feig costuma ser mais cru, direto e muitas vezes exagerado, aonde geralmente acabamos reclamando de seus feitos por apelar demais, mas aqui ele praticamente fez algo incomum, de deixar as sacadas cômicas livres no ar, fazendo acontecer a protagonista, para que ela sim divertisse com suas atitudes, e isso caiu como uma luva para que a produção natalina deslanchasse, de tal maneira que certamente a responsabilidade disso ter ocorrido foi o ótimo roteiro da atriz Emma Thompson, que cheio de levezas e diretivas consegue envolver do começo ao fim, mostrando sim algumas bizarrices, mas que apenas encaixam para dar graça na completa desgraça que é a vida da protagonista. Claro que o filme tem uma pegada bem mais romantizada do que cômica, mas souberam equilibrar bem os gêneros para que o filme soasse bem encaixado, e que principalmente deixassem os protagonistas bem livres para criar, de modo que tenho certeza que muitas situações do longa ocorreram ao acaso e resolveram deixar na trama, pois o acerto leve dá essa liberdade, e sendo assim tanto Feig quanto Thompson puderam olhar o resultado final, se emocionarem, e gostarem do trabalho conjunto que fizeram, pois é daqueles filmes para acreditar nas atitudes, e gostar de cada momento pela ótima leveza de espírito.

Sobre as atuações, Emilia Clarke entregou uma personagem tão graciosa, cheia de virtudes, que facilmente acabamos encantados por ela mesmo com algumas atitudes não tão boas de sua Kate, de modo que acabamos vendo ela se desenvolver tanto durante a produção inteira, que ao final já estamos envolvidos e cantando junto com ela, ou seja, capturou a essência da personagem e focou tanto que dificilmente enxergamos outra atriz no papel, e isso é um acerto incrível quando acontece. Henry Golding também foi muito bem encaixado na personalidade de Tom, de modo que acabamos enxergando ele com outros olhos durante todo o filme, e ao final somos jogados de lado por tudo o que ocorre, de modo que o jovem foi muito coeso nos atos, trabalhou um sorriso bem gostoso de ver, parecendo estar completamente confortável com seu personagem, o que é algo muito bom de ocorrer. Quanto aos demais, foi bacana ver a personalidade simples, mas bem marcante da roteirista, aqui como mãe da protagonista Petra, que Emma Thompson conseguiu entregar, tivemos bons momentos também com Michelle Yeoh como a patroa da protagonista Santa, extremamente bem encaixada, e tivemos atitudes marcantes de todos ali do lar de sem-tetos que se doaram para cada um dos momentos bem dinâmicos que o filme propôs, de modo que podemos dizer facilmente que todos estavam empolgados com seus atos para com o filme.

No conceito visual o filme também é uma delícia, afinal a época natalina é cheia de luzes, de enfeites, de um espírito bacana no ar, que acabamos passeando por uma Londres completamente diferente da casual que vemos na maioria dos filmes, mostrando uma loja de artigos natalinos bem cheia de peças, vemos pessoas estranhas no caminho da protagonista, vemos um abrigo de sem-tetos com muitas nuances, vemos casas simples e outra nem tanto, vemos uma pista de patinação indoor lindíssima, e principalmente vemos a famosa xenofobia impregnada em alguns atos, que funcionaram visualmente, mas encaixaram também muito dentro do conceito da trama de se abrir, ou seja, a equipe de arte brincou muito com o clima natalino, fazendo com que a iluminação favorecesse bem o ambiente, e trouxesse ainda muito mais para o longa.

A trama trouxe um ritmo gostoso de fluidez, que além de entregar de uma forma dinâmica bem cheia de sintonias todo o resultado de cada um dos atos ainda nos presenteou com diversas canções de George Michael, transmitindo claro o clima natalino no nível máximo para todos. E claro que deixo aqui o link para todos curtirem ao máximo a trilha gostosa que o filme nos presenteou.

Enfim, se você teve um dia cansativo, um fim de semana pesado, ou apenas quer curtir um longa bem gostoso de conferir, com boas mensagens e atitudes, que vai mesmo sendo bem singelo conquistar você, essa é a dica que deixo como recomendação, pois volto a frisar que não é nenhuma obra de arte daquelas para emoldurar, mas que faz você sair feliz da sessão com o que viu, e sendo assim, funcionou dentro da essência que bons longas natalinos costumam entregar. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

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Duas Coroas (Dwie Korony)

12/01/2019 05:39:00 PM |

Um dos gêneros que posso dizer friamente que não funciona é misturar drama e documentário na mesma trama, pois a maioria das vezes soa bem falso o resultado final de ambas as partes, seja os pequenos momentos interpretados, seja nos atos contados pelos entrevistados. E aqui em "Duas Coroas" acabamos conhecendo um pouco mais de como foi a vida do frei franciscano Maximiliano Kolbe de uma maneira até que bem pautada, contando coisas que vivenciou, e até tendo relatos de outros que conviveram com ele, de uma maneira bem bacana de funcionamento dentro de algo documental, que se ficasse só nisso e fosse melhor dublado, ou os cinemas passassem legendado funcionária incrivelmente bem, mas simplesmente destruíram as vozes originais sobrepondo elas, ou seja, ouvimos as originais ao fundo junto com a dublagem nacional, num misto bem feio e estranho durante as entrevistas, e nas partes atuadas, os jovens atores fizeram cenas fracas, meio que jogadas, em que as vozes nacionais parecem estar dentro de uma cabine telefônica, ou seja, estranho também. Ou seja, um filme de conteúdo bacana para os religiosos, mas que teve tantas falhas técnicas que não tem como curtir, além de dar sono pelo ritmo horrendo.

O longa nos conta que no dia 14 agosto de 1941, em Auschwitz, na Polônia, o sacerdote Maximiliano Kolbe fez uma difícil escolha: dar a sua vida para salvar um pai de família que mal conhecia. Sem ter ideia do grande legado que deixaria para as gerações futuras, Kolbe dedicou sua jornada à compaixão e solidariedade, e anos depois de sua morte foi proclamado santo pelo Papa São João Paulo II.

O documentário polonês marca a estreia do diretor Michal Kondrat, e podemos dizer que sua pesquisa foi bem trabalhada, conseguiu entrevistas e visitas bem pautadas para que sua história fosse interessante de ver, e brincou b com a câmera no andamento completo da trama, sabendo onde entrar com cada ponto, resultando em algo que até foi bem além, porém, ele acreditou pouco nessa pesquisa e resolveu criar atos simples interpretados por atores para representar alguns momentos que os entrevistados citaram, e isso se não for muito bem feito acaba resultando em uma repetição besta, que não agrada, nem serve para nada, o que é muito ruim de ver, e foi exatamente o que aconteceu aqui, de modo que vemos o ator Adam Woronowicz como Maximiliano Kolbe fazendo boas caras, tentando passar uma serenidade e paz bem característica dos padres franciscanos, mas cada cena mostrada ficava falsa demais de ver pelas atuações simples demais, e assim sendo era melhor ter eliminado isso do filme.

Ou seja, de um modo geral até vemos entrevistas bem coerentes mostrando como o padre tinha algo a mais, como visões imponentes que foram bem importantes como no caso de Nagasaki, mostra suas ideias de viagens espaciais bem antes de fazerem isso, e muito mais, e se fossem bem montadas usando todos esses documentos e histórias somente relatadas, acabaríamos tendo um documentário bem envolvente e íntegro, porém não souberam pegar mais tanta coisa e inventaram isso de reproduzir os atos contados de maneira simples demais, que resultaram em algo fraco e jogado apenas, que mesmo tendo cenografia bem colocadas para uma representação coerente, os atos em si acabaram não funcionando.

Enfim, é uma mistura digamos ruim, que acabou estragando uma boa história, que ainda por cima conseguiram piorar com uma dublagem péssima em um ritmo extremamente cansativo, ou seja, um resultado que não recomendo nem para o meu pior inimigo. Sendo assim fico por aqui agora, e vou para outra sessão, pois preciso de algo para me recuperar dessa bomba, então abraços e até logo mais.

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As Golpistas (Hustlers)

12/01/2019 01:48:00 AM |

Costumo dizer que acertar o tom em filmes baseados em fatos reais é algo difícil demais, pois geralmente tentam soar convincentes e acabam entregando algo tão falso que nem dá para acreditar, e ultimamente tem aparecido algumas histórias tão absurdas, que são feitas de uma forma tão maluca que acabamos julgando ser impossível que aquilo tenha acontecido, mas rolou. Ou seja, conferir "As Golpistas" é daqueles filmes que rimos de situações malucas, nos emocionamos com as atitudes quase-familiares das protagonistas, e que numa dinâmica bem colocada acabamos vendo até mais do que apenas uma noção errada de empreendedorismo que funciona muito, afinal uma das profissões mais antigas do mundo acaba sendo moldada de uma maneira tão bem colocada, misturando toda a sacada de Wall Street, desenvolvendo um âmbito familiar bem acertado, e principalmente trabalhando o molde jornalístico de pano de fundo sem soar abusivo, afinal o longa é baseado em um artigo escrito por uma jornalista, e a diretora soube usar bem essa essência para que seu filme tivesse um algo a mais do que apenas dança, drogas, sexo, roubos e outros crimes, para que o envolvimento ficasse bem maior.

O longa nos conta que em entrevista concedida a Elizabeth, jornalista da New York Magazine, a ex-stripper Destiny conta em detalhes como conseguiu o emprego e conheceu Ramona, ícone do meio que logo se tornou sua grande amiga. Devido à crise financeira que abalou Wall Street em 2008, Destiny e Ramona viram o declínio na quantidade de clientes na boate em que trabalham afetar sua própria rentabilidade. Com isso, decidem elas mesmas iniciar um plano onde, juntamente com algumas amigas, vão atrás de homens em restaurantes para, após dopá-los, faturar em cima de seus cartões de crédito.

Um ponto a se notar é a desenvoltura que a diretora Lorene Scafaria trabalhou seu filme, pois em momento algum sentimos falta de uma cena de conexão, não nos vertemos a trabalhar as loucuras mostradas na tela, e dessa forma conseguimos ver seu trabalho desenvolvido apenas para um propósito: a diversão do público, não sendo um longa difícil, não recaindo para situações cheias de histórias desnecessárias, indo no ponto certo para mostrar o âmbito familiar das moças, a situação de perda da vida boa, a quebra de Wall Street influenciando muito mais, e principalmente conectando sexo, drogas e rock 'n roll da melhor qualidade, com acertos precisos dela para que seu filme agradasse bastante, tendo apenas um grande erro: o excesso de datas, pois mesmo sendo um filme que mostra situações reais, ficar tentando marcar os momentos resulta em algo desnecessário, cansativo, e que acaba alongando a trama sem uma coesão que viesse para algum acerto. Ou seja, se já havia elogiado muito a diretora em seu primeiro filme, aqui volto a dizer que conduziu com precisão para que o público se envolvesse com tudo, e isso é muito bom de ver tanto pela técnica usada, como pelas boas escolhas dos momentos para ir no corte final.

Quanto das atuações, é bem interessante ver o estilo que cada uma escolheu para vivenciar as personagens principais, pois com deram atitudes bem dosadas, outras mais atacadas em frente aos homens e as câmeras, e até sabendo como encontrar força para que seus atos soassem imponentes e marcantes, ou seja, se doaram bem para cada um dos momentos do filme, num grande acerto final. Constance Wu já demonstrou em outros filmes que seu estilo de atuação é mais sério, sem muitas firulas em olhares e trejeitos, e aqui sua Destiny tem uma boa presença, consegue chamar a responsabilidade como uma protagonista frágil, e envolver em seus atos mais cômicos, ou seja, agrada com bem pouco. Jennifer Lopez sempre rebolou muito em seus shows, e aqui sua Ramona impõe sem medo algum uma stripper de primeira classe, com muitas danças sensuais, mas ao brincar bem seus olhares acaba soando principalmente como uma manipuladora de primeira linha, sabendo exatamente onde explorar para conseguir ganhar muito dinheiro, e claro roubar também, de modo que ficamos bestas com o que faz em cena em diversos momentos. Keke Palmer e Lili Reinhart trabalharam bem também com suas Mercedes e Annabelle, mas sempre ficando em segundo plano atrás das protagonistas, meio como suportes, e isso não é algo que funciona bem, mas também não decepcionaram. Julia Stiles fez uma boa entrevistadora, sendo direta nas perguntas, fazendo caras e bocas em alguns momentos engraçados, mas principalmente conseguiram passar a ideia de como foi a jornalista que entrevistou cada uma das mulheres, dos homens, dos policiais e de todos os envolvidos para escrever o artigo em que o longa foi baseado, e assim entregar uma homenagem também para a escritora real. Agora quanto aos demais, diria que todos foram quase objetos cenográficos, com um leve destaque para Wai Ching Ho para a vozinha de Destiny, que do nada ainda foi bem expressiva, e conseguiu cativar com bons olhares e sorrisos para todos.

No conceito artístico, a equipe de arte trabalhou muito bem criando uma boate cheia de ambientes para as moças dominarem com seus figurinos ousados, encontrou ares bem planejados para que as casas/apartamentos fossem mostradas com muito luxo e simplicidade contrastando, além de mostrar o mercado maluco de Wall Street bem colocado num primeiro momento, e mesmo nos atos decadentes da época, o filme ainda soube mostrar um pouco do que aconteceu em singelos cenários bem coesos. Claro que não é daqueles filmes que o ambiente sobrepõe a trama, mas souberam representar bem a irmandade das jovens dançarinas, seus atos ilícitos para viver bem, e claro tudo o que tinha nos bastidores do que faziam, contrastando sempre o ato com a vontade em si. A fotografia brincou bastante com cada momento, baixando tons para mostrar a dramaticidade sofrida na época das vacas magras com as jovens sofrendo para conseguir ganhar seu dinheiro trabalhando em outros lugares sem ser na boate, mas jogando o tom colorido e cheio de luzes nas boates e na vida boa nos momentos de grandes ganhos, ou seja, mostrando as duas épocas bem contrastantes.

O longa tem um ritmo frenético do começo ao fim com leves quebras de ritmo para dar um tom mais dramático, mas sempre ousando nas canções fortes a batida da trilha sonora nos envolve e quase nos transporta para cena com grandes acertos musicais, que claro deixo aqui o link para todos curtirem.

Enfim, é um filme bem interessante, com uma boa pegada, que certamente envolverá com a precisão dos atos em si quem for conferir, pois ele é bem sacado, bem ousado, e tem estilo, não sendo algo perfeito, mas que agrada bastante com a forma escolhida para representar algo que aconteceu, e que sempre acontecerá nesse meio, e sendo assim, vale a recomendação. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

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Carcereiros - O Filme

11/29/2019 01:35:00 AM |

Posso dizer que fiquei com muito medo de ir conferir "Carcereiros - O Filme", pois como não vi a série, pensei que não iria entender nada, mas felizmente como o protagonista falou em um daqueles programetes que passam antes de outros filmes do Flix Channel, é um filme a parte, que é bem explicado no começo durante a abertura do longa quem é quem, e praticamente vemos um longa bem estruturado, com bons momentos de tensão, uma dinâmica com ritmo bem encaixado, e com uma história funcional para contar. Porém, acredito que dar uma vertente surpreendente e quebrar ela no final é algo que fica estupendo, que o queixo cai, que saímos surpresos realmente da sala, mas quando isso ocorre na metade do filme, e fecha de uma forma tão brochante como foi o caso aqui, o resultado desanima bastante, e acabamos mais reclamando do que vemos do que tudo de bom que o filme entregou, e infelizmente não foi satisfatório essa pegada escolhida, que talvez na série até funcionasse, para irem além em outro capítulo, mas aqui poderiam ter focado muito mais nos carcereiros mesmos, ou até ir para o rumo do preso importante, mas não criar uma destruição em massa pelo simples motivo colocado. Ou seja, é um filme com uma tremenda produção muito bem feita, com uma história que começa bem, mas desanda tanto, que se estivéssemos falando de comida, foi como se tivessem queimado tudo e entregado o prato queimado para comermos.

A trama nos conta que Adriano é um carcereiro íntegro e avesso à violência, ele tenta garantir a tranquilidade no presídio, mesmo sofrendo com grandes dilemas familiares. A chegada de Abdel, um perigoso terrorista internacional, aumenta ainda mais a tensão no presídio, que já vive dias de terror por conta da luta entre duas facções criminosas. Agora, Adriano terá que enfrentar uma rebelião além de controlar todos os passos de Abdel.

Já vi diretores bem ecléticos, mas José Eduardo Belmonte é daqueles que hoje resolveu que quer rir vai lá e ataca para a comédia, amanhã está tenso já mete uma ação policial, e se o dia aparecer com passarinhos cantando já vamos com um romance, pois sua filmografia tem de tudo, e o mais engraçado, é que ele tem filmes excelentes e gigantes bombas, ou seja, é daqueles que não escolhe o que quer fazer, vai lá e faz, e isso é bom por um lado, pois sempre aparece serviço quando o cara é bom, e ruim por outro, pois acaba não tendo um estilo próprio, e aqui, acredito que ele ficou exageradamente focado na série, que quando resolveram ter um episódio mais longo, apenas criaram uma história mais completa para explicar tudo, só não souberam como usar o gancho para funcionar completamente, e dessa forma acabaram se perdendo no ensejo bacana que era toda a dramaticidade em cima de um presidiário internacional, os dramas da língua, as facções querendo pegar ele, e tudo mais que o primeiro ato em si nos entrega, para aí termos a invasão, toda a tensão, e uma mudança tão grandiosa de foco, com diversas mortes e tudo mais, que até chamaria a atenção se não fosse fechada tão grosseiramente em algo que ninguém esperava que fosse só aquilo, ou seja, Belmonte como diretor fez um tremendo filme pela desenvoltura da câmera, dos ótimos planos e tudo mais, mas foi pouco ousado em aceitar um roteiro escrito por quatro roteiristas em cima do livro de Dráuzio Varella, que sequer pensaram como cinema para criar algo surpreendente, que certamente funcionaria bem mais sem ir para esse rumo.

Sobre as interpretações, costumo dizer que Rodrigo Lombardi é um ator completo, daqueles que conseguem trazer tanto carisma para seus personagens que acabamos seguindo sua linha e torcendo para que faça o certo, e aqui seu Adriano tem personalidade, tem desenvoltura, e encaixa boas cenas, mesmo que para isso precise ficar paradinho (o que muitos atores erram de entrar em ação quando não devem), e o acerto digamos que foi muito bom de ver. Uma grata surpresa foi ver o comediante Rafael Portugal como um enfermeiro religioso, cheio de expressividade, que não chega a ser daqueles personagens que a trama dependa dele, mas chama o tom para si nas suas cenas, desenvolve o envolvimento, e na cena aonde todos estão quase mortos ele faz uma caminhada tão envolvente que agrada demais, ou seja, pode apostar as fichas no drama também. O ex-BBB Kaysar Dadour fez apenas algumas expressões chamativas para seu Abdel, falou um pouco em inglês, um pouco em árabe, algumas caras de mal, e só, nada além que fizesse o filme lhe colocar no pôster. Aliás, se formos analisar os demais personagens, praticamente nenhum chama atenção ao ponto de ter grande destaque, e tirando algumas cenas bem fortes do maluco que acha que Deus lhe tocou, e do comandante vivido por Jackson Antunes, os demais foram apenas encaixes e fizeram seus trejeitos tradicionais, ou seja, poderiam ter trabalhado tanto cada um, mas não, ou seja, apenas estiveram presentes.

Visualmente o longa entrega muita tensão dentro de um presídio, que como alguns personagens falam até parece um zoológico de tantas grades e travas prendendo os animais, de forma que fizeram gaiolas bem amarradas para que a desenvoltura da trama não saísse apenas com os tiroteios dos fuzis dos vilões, nem com as explosões, correrias e facas montadas, de modo que o visual completo do longa recaísse sobre tudo o que fosse possível usar num momento de desespero, e o ambiente em si ajuda muito, ou seja, a equipe de arte que já havia criado tudo para a série apenas usou de uma forma mais ampla, e o resultado acaba agradável. Agora quanto da fotografia, quiseram brincar com cenas escuras, muitas luzes diferentes, de forma que em alguns momentos nem vemos nada, e isso é ruim, pois parece errado demais para o filme, em outros momentos o vermelho meio que sobrepõe o preto no escuro, ficando meio bagunçado em forma de resultado.

Enfim, é um filme que serve de passatempo pela boa formatação, mas que poderia ser muito melhor se não desapontasse tanto com o desenrolar da história que soou fraca demais para tudo o que deveriam ter feito, afinal é algo completamente não condizente o que acontece no presídio para algo tão simples e banal, ou seja, quem for esperando algo a mais com o preso internacional, com tudo das facções, irá se desapontar bastante. E sendo assim, não tenho como recomendar muito o filme, mas quem conferiu a série e gostou, talvez até saia menos desapontado com o longa. Bem é isso, fico por aqui, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

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Netflix - O Irlandês (The Irishman)

11/28/2019 01:36:00 AM |

Quer viver alguns anos da máfia versus o sindicato dos caminhoneiros dos EUA em apenas 209 minutos? Se sua resposta for sim, vá com toda vontade conferir "O Irlandês" que estreou hoje na Netflix, pois felizmente Martin Scorsese conseguiu trabalhar bem a história do trio principal com muito envolvimento, muita veracidade nas atitudes de cada um, e principalmente usando artifícios da computação digital, trabalhar com um trio fantástico de atores fazendo todas as épocas do longa, criando vértices interpretativos tão bons, que mesmo nos momentos em que o filme acaba cansando um pouco, ficamos com a vontade de continuar assistindo para ver até onde vai a história. Claro que a essência da trama é pesada, afinal estamos falando de pessoas que resolviam seus problemas pintando as paredes das casas de seus inimigos de vermelho, mas sabiamente vemos o envolvimento afetivo entre o trio ser desenrolado de uma maneira tão bem trabalhada, que acabamos quase virando amigos deles nessas longuíssimas três horas e meia, mas se você acha que paramos depois, a resposta é não, pois a Netflix também soltou na sequência mais 30 minutos com o trio principal debatendo a história e as filmagens com o diretor, e acaba sendo mais uma delícia conferir e se assustar com como eles estão velhos! Ou seja, é o famoso candidato a levar muitos prêmios nas premiações principais do ano, e só por isso já vale a conferida, mas é um filme bem trabalhado, e felizmente não decepciona como muitos.

Contado através da perspectiva do veterano da Segunda Guerra Mundial Frank Sheeran, um assassino profissional que trabalhou ao lado de algumas das personalidades mais marcantes do século 20, o filme aborda um dos grandes mistérios da história americana – o desaparecimento do lendário líder sindical Jimmy Hoffa – e se transforma em uma jornada monumental pelos corredores do crime organizado: seus mecanismos, rivalidades e associações políticas.

Todos sabemos de como o diretor Martin Scorsese é incrível nas suas produções, e aqui ele não apenas usou toda sua experiência em filmes de gangsteres, como juntou tudo da carreira, conhecimentos tecnológicos que teve nos últimos filmes, e junto de grandes amigos ainda conseguiu pegar um elenco de primeira linha para fazer algo que saísse da caixinha, pois já vimos diversos filmes de máfia, já vimos diversas possibilidades de séries politizadas, mas fazer um filme de quase 4 horas, que não ficasse monótono, não necessitasse de capítulos, e principalmente não amarrasse num estilo novelesco é algo completamente inédito, e aqui além de tudo isso, graças aos recursos computacionais atuais, ele pode contar com os mesmos atores em todas as épocas, não precisando treinar trejeitos de cada um dos atores para que se conhecessem, ou pegar jovens completamente despreparados para os diversos papeis, mas sim pegar três monstros da atuação, falar para que eles atuassem para 15 lentes de 5 câmeras diferentes, e depois fazer a mágica acontecer, e posso dizer que é estranhíssimo ver os três em cena, e depois ver eles no bate papo com o diretor ao final dos créditos, parecendo realmente que o diretor voltou no tempo para filmar eles nas suas juventudes, e que aqui entregassem com personalidade na montagem de uma história densa, cheia de problemas fortes entre quem mandava mais nos EUA na época, e que resultou em um crime bem forte e diferente. Ou seja, a trama tem conceitos politizados, tem dinâmicas criminais bem trabalhadas, tem muitas cenas de julgamento, tem envolvimento afetivo familiar, e tudo mais que você pense, afinal é mais do que um simples longa metragem, são quase quatro horas incríveis, que sim, cansam bem no miolo, mas que não nos deixa desconectar, e que sentado em uma boa poltrona ou sofá vai ser uma bela passagem de tempo.

Sobre as atuações, é até interessante pararmos para analisar a quantidade de personagens tem no filme, pois como trabalhou com personagens que existiram realmente, já que o filme é baseado em um livro que conta uma possível versão da história, a todo momento vemos fulano morreu no ano tal com tantos tiros na cabeça, ciclano morreu disso, então o filme em si se formos parar para falar de cada personagem passaríamos a noite aqui, e o filme nem faz tanta questão da maioria, o que é ótima, mas sim do trio protagonista, então vamos focar neles. E para começar temos falar claro de Robert De Niro com seus 76 anos, mas entregando desde um jovem recruta, passando pelos 30/40 no miolo até chegarmos numa velhice bem maior do que está hoje com seu Frank, trabalhando com uma sensibilidade para o personagem, envolvendo seus diálogos com tons fortes e imponentes em diversos momentos, e em outros com muito envolvimento e boas colocações, o que faz dele perfeito para o papel sem dúvida alguma, só colocando um adendo para a lente de contato azul que em diversos momentos ficou meio que estranha de ver, mas isso não é um problema seu, e sim da filmagem. Na outra ponta tivemos também Joe Pesci com a mesma idade, mas que já estava bem sumido das produções, entregando um Russell tão imponente, cheio de virtudes interpretativas com olhares, com trejeitos nas mãos (clássicas de italianos) que ainda velhinho fez gestuais tão bem colocados que mesmo sendo um tremendo mafioso do mal mesmo, acabamos nos afeiçoando demais com o que faz, ou seja, perfeito também. E claro, temos de falar de Al Pacino até mais velho que os dois, porém irreconhecível como Jimmy Hoffa, entregando todas as características imponentes que vemos nos diversos presidentes sindicais, mas também com uma gana marcante em cada movimento, em cada símbolo que faz em cena, ou seja, muito perfeito também. Quanto aos demais, vale dizer que foram bem interessantes nos devidos momentos, sem destacar ninguém, afinal serviram de base para o trio apenas, mas valendo frisar que todos da terceira idade se saíram muito melhor que os jovens em cena, que aparentavam estar até com medo dos monstros sagrados do cinema.

O mais engraçado de ver no filme é que estamos falando de um longa de época, e foram bem sagazes em filmar a maioria das cenas em locações fechadas para criar os ambientes de uma maneira coesa sem precisar se preocupar tanto com locações, mas que ambientaram cada uma das casas, dos boliches, bares, restaurantes, festas, clubes, prisões e tudo mais com precisões ímpares para que cada momento fosse incrível de vivenciar, e principalmente para que viajássemos para o momento em que o filme se passa, e esse acerto foi algo que a equipe de arte pode levar para casa prêmios com muita felicidade. Sobre a maquiagem digital, que rejuvenesceu os três protagonistas, só tenho uma palavra: medo, pois agora com essa tecnologia acabou de falar que precisam de determinado ator de um biotipo X para um papel Y, afinal agora é só pegar alguém perfeito de interpretações, e mudar tudo no computador, pois não vemos falhas em momento algum (tirando o fato das lentes de contato azuis ficarem sem movimento em algumas expressões do protagonista), e isso foi incrível de ver.

Enfim, é um tremendo filme, que cansa sim, não vou negar que me vi com os olhos pesados em diversos atos mais calmos da trama, mas que não vejo ele sem toda essa duração, pois perderia muitas cenas importantes, e talvez o corte não entregaria uma obra tão completa de situações. Ou seja, veja ele com calma, num momento que estiver descansado, preferencialmente em um sofá ou poltrona bem confortável (não recomendo cinemas infelizmente, pois ninguém irá aguentar ficar quase 4 horas sentado numa cadeira não tão confortável), de modo que o lançamento na Netflix foi certeiro para ver em casa (friso em casa, pois ver em um celular é sacanagem para estragar tudo o que o filme propõe!). E assim sendo, não darei nota máxima por esses motivos de cansar, de ter algumas leves falhas, mas com toda certeza recomendo muito ele para quem gosta do estilo, pois outros irão odiar, e é isso, vou ficando por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até breve.

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Netflix - Meu Irmão (Mon Frère) (Brother)

11/26/2019 12:48:00 AM |

Um dos pontos positivos das plataformas de streaming é ver alguns filmes que certamente não apareceriam nos cinemas do interior, por geralmente serem produções pequenas, com propostas diferentes, que as vezes até são interessantes, outras nem tanto, e um exemplar claro disso é o longa francês "Meu Irmão" que estreou essa semana na Netflix, e que trabalha a vida de um jovem em um recinto para jovens delinquentes que aguardam julgamento pelos seus atos, e que trabalha bem como é a vida nesse ambiente, e vemos que não é muito diferente do que ocorre em outros países, inclusive aqui, mas que a base da essência do filme fica totalmente nos atos da mente do protagonista, que julga certo ou errado cada momento, e o filme tem essa densidade boa por ali, e dá até para discutir mais sobre. Ou seja, é um filme para dialogar sobre, e mesmo que o final seja apenas direto, temos muito mais para analisar no miolo do que apenas o entregue.

A sinopse nos conta que por querer proteger seu irmão mais novo de um pai violento demais, Teddy, um jovem sem história, é acusado do assassinato de seu pai e enviado a um centro educacional fechado, aguardando seu julgamento por parricídio. Ele então mergulha em um universo brutal do qual ele não conhece as regras.

Diria que o diretor e roteirista Julien Abraham teve uma didática bem trabalhada de como funcionam esses centros educacionais, aonde muitas vezes os jovens entram lá bem e não saem tão bem com tudo o que rola, pois claro que a maioria teve grandes motivos para estar lá, muitos acabam sendo piores ainda, e que por lá o rigor ser mais light, pelos educadores, o resultado as vezes acaba indo para rumos inesperados. Ou seja, o diretor quis mostrar de uma forma impactante que esses centros muitas vezes são piores que as próprias prisões em si, e que claro a melhor forma de ataque às vezes é a defesa, então com atitudes fechadas, excessos comedidos, e uma boa dose de tensão entre os jovens, conseguimos ver o filme praticamente quebrado em quatro atos: o crime em si que aparece bem picado durante toda a produção, o começo da vida do jovem no centro com seus dilemas e atitudes, os momentos tensos já na segunda fase no centro com a chegada de Mo, e a fuga/road-movie com o descobrimento de outras situações da vida, de forma que tudo acaba se montando bem, mas ainda assim cada elo pareceu muito solto, e poderia ter ido mais de frente para com o impacto, tornando a trama menos aberta. E sendo assim, não acho errado como foi feito, mas talvez não seja tão incisivo na vida de muitos, mas ao menos passa uma boa ideia para reflexão.

Sobre as atuações, posso dizer com certeza que o jovem MHD caiu bem para o personagem de Teddy, trabalhando de forma introspectiva em suas cenas, fazendo olhares densos, e principalmente mostrando atitude quando precisava aparecer, de modo que seus atos funcionam, e o público certamente irá torcer por ele, pois consegue chamar para si a responsabilidade cênica, e fazer do protagonista algo funcional. Darren Muselet entrega também muito para seu Enzo, que inicialmente chegamos com muito ódio pelo personagem, mas que tem uma reviravolta forte ao ponto de até ficarmos com uma certa pena dele, e assim como o protagonista, mudar de lado, e isso soa interessante demais para a proposta do filme, de modo que a forma expressiva do ator ajudou muito nessa composição. Quanto aos demais, diria que todos deram bons encaixes para cada momento do filme, desde os diversos outros jovens com suas rebeldias, com destaque claro para o imponente Najeto Injai com seu Mo, mudando todo o ritmo do centro, a psicóloga com seu ar sereno, mas impondo força nas dinâmicas que encontra com os dois protagonistas, e claro o jovem Youssouf Gueye com seu Andy, que trabalhou bem as virtudes do personagem, saindo muito bem nos encaixes cênicos, e tendo um grande desfecho para a trama, ou seja, todos foram bem.

No conceito visual a trama nem tentou nenhuma ousadia, sendo um centro bem simples, com quartos espalhados sem muitas firulas cênicas, de modo que pode ser visto quase como uma casa tranquilamente, tirando as cercas ao redor (que são também bem simples), alguns elementos cênicos como armas, vassouras, telefones, bonés, entre outros para ter os atos de quebra, e alguns carros para a fuga, de modo que nada cria uma perspectiva mais forte, sendo que o filme em si tem o conteúdo forte, com cenas fortes, mas o ambiente em si poderia estar ocorrendo em uma escola, em qualquer outro canto que não diferenciaria o local em si, ou seja, poderiam ter trabalhado um pouco mais o ambiente para que o filme ficasse mais tenso visualmente.

Enfim, é um filme bem interessante de ideias para se discutir, mas que falha principalmente na montagem meio que bagunçada, que é até simples de entender, porém sem atitudes coerentes para que o ensejo ficasse mais forte e comovente, e o fechamento ficou rápido demais para tudo o que precisaria ocorrer para emocionar, enrolando demais na apresentação, e tendo um miolo completamente bem trabalhado, e sendo assim, até recomendo o filme, mas poderiam ter ido muito além do que foi mostrado. Fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.

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