Coringa (Joker)

10/03/2019 01:51:00 AM |

Chego a perder as palavras para expressar o quão incrível foi a experiência de ver "Coringa", pois com uma história completamente original, aonde só sabemos alguns fatos tradicionais de outros filmes do Batman, mas sem nunca conhecer realmente uma origem definitiva do palhaço criminoso (tendo visto apenas a animação "A Piada Mortal" que passa algumas ideias interessantes que até usam um pouco aqui também), o resultado acaba fluindo de uma forma tão fascinante não só pela ótima história criada, mas ao juntar tudo com uma direção primorosa, uma produção de época, porém completamente atual com tudo o que está acontecendo no mundo (e principalmente nos EUA), com a inserção incrível de temas polêmicos, para aí termos e a interpretação mais do que genial de Joaquin Phoenix, não tinha como dar errado, e mais do que uma promessa de um filme perfeito, aonde todos estão indo com a expectativa a mil (o que certamente poderia dar muito errado!), e ao sair da sessão, claro após aplaudir tudo mesmo que ninguém da produção ouça suas palmas, o que vemos é a emoção na cara de sair super feliz com um longa de terror dramático e potente que merece cada prêmio que já ganhou e irá ganhar, pois não acredito que venha outro para roubar o posto de o filme do ano.

O longa mostra um homem lutando para se integrar à sociedade despedaçada de Gotham. Trabalhando como palhaço durante o dia, ele tenta a sorte como comediante de stand-up à noite... mas descobre que a piada é sempre ele mesmo. Preso em uma existência cíclica, oscilando entre a realidade e a loucura, Arthur toma uma decisão equivocada que causa uma reação em cadeia, com consequências cada vez mais graves e letais dando início na sua transformação no Coringa.

Diria facilmente que Todd Phillips foi genial em criar junto de Scott Silver uma história completamente original, sem se prender a nenhuma HQ, pois mesmo que os fãs ficassem bravos com algo, aqui eles não tem como reclamar de criar algo que mudou um detalhe aqui, outro ali, mas de cara já vamos para algo que nunca vimos e embarcamos numa possibilidade mais crível para a formação de um vilão, de alguém que realmente possa existir ali na esquina da sua casa, que você sequer nota sua depressão virando uma loucura, e que ao estourar uma bomba em cima da outra na sua mente acaba virando o supervilão que tanto conhecemos das diversas histórias do Batman, e que claro sem precisar colocar o homem morcego em ação vemos coisas que esperávamos ver sobre a família Wayne, vemos uma Gotham decadente pronta para o colapso, e principalmente vemos muito da realidade absurda que estamos vivendo impregnada nas ideias dos roteiristas, que ao ser transformado do papel para a telona teve um ganho incrível pela boa dose de saber como lidar com cada personalidade, com cada ambiente, e ao misturar estilos, deixando a comicidade subjetiva incorporar com um terror forte e violento, de modo a acabar virando um filme muito bem dirigido, aonde souberam encontrar cada nuance espalhada na temática para termos tantas discussões sobre realidade e loucura, sobre luta de classes, sobre envolvimento familiar, e claro sobre algo a mais de Batman que ficou no ar. Ou seja, o diretor e roteirista brincou com nossa mente, fez um filme denso perfeito que funciona tanto comercialmente para fãs da DC, para o público que gosta de longas de aventura e formação de personagem, quanto para os festivais, aonde o filme já tem ganhado alguns prêmios, e certamente irá ganhar muito mais pela essência, pela nuance, pela estética, e tudo mais.

Filmes sobre um personagem precisam de um nome especial no elenco, e aqui temos Joaquin Phoenix simplesmente perfeito, emagreceu monstruosamente para aparecer quase seus ossos, incorporou trejeitos que sabe-se lá onde foi arrumar, criou uma risada deveras assustadora, mas principalmente deu para seu Arthur/Coringa a personalidade mais coerente que o filme precisava, fazendo quase que um filme de ator, aonde todo o restante pode desaparecer que ele comandaria sozinho em um palco tudo o que passa em cena e ainda não desgrudaríamos os olhos de seu personagem, ou seja, uma atuação daquelas para aplaudir, torcer nas premiações, e simplesmente ver e rever, pois certamente a cada assistida iremos ver um novo ato, um novo detalhe seu, um trejeito que passou despercebido e tudo mais, pois ele simplesmente pegou o papel (que não queria de início) e deu sua cara, sua vivência, e o resultado é algo que vai muito além. Além do grande ator, temos também Robert De Niro muito bem colocado como Murray, um apresentador bem dinâmico e cheio de personalidade, aonde enxergamos diversos apresentadores desse estilo, e que o ator veterano soube incorporar um pouco de cada para o seu ficar perfeito, e agradando demais. Temos Frances Conroy também dando ótimas cenas como a mãe do protagonista Penny, que a cada descoberta sobre ela ficamos com mais dúvidas ainda, pois a atriz foi muito bem em tudo, mas seu personagem é ainda maior que ela. Zazie Beetz surpreende mais uma vez, agora como Sophie, que faz ótimos momentos, mas a descoberta final sobre ela é ainda mais surpreendente. E claro temos de falar de Brett Cullen como Thomas Wayne, mais conhecido como pai do Batman, que aqui encontra bons trejeitos para cada um dos seus atos, chamando pouca atenção, mas sendo bem coerente com o que já sabíamos do personagem.

No contexto visual, a trama entrega tantos detalhes que chega a ser difícil falar dele numa primeira olhada, pois a nuance de Gotham problemática após uma imensa greve dos lixeiros, com lixos, ratos e muita decadente chega a ser linda de ver, observamos cada ambiente aonde o protagonista passa, como a empresa de palhaços com homens que não são nem um pouco felizes e alegres para serem palhaços, vemos o tão famoso Asilo Arkham muito bem retratado, vemos um metrô sujo e cheio de pichações (aliás vemos pichações na cidade inteira, algumas com boas referências à outros personagens do universo DC), temos o show de Murray com uma pegada completamente cheia a diversos outros talk-shows, temos um show de stand-up do protagonista que acaba remetendo bem a animação "Piada Mortal", e principalmente temos o apartamento de Arthur, aonde vemos seu ambiente pesado propriamente, aonde para para refletir, aonde vive com sua mãe também problemática, e muito mais. Um ponto extremamente positivo foi o filme não exagerar para efeitos explosivos demais, não sendo daqueles filmes que casualmente vemos de heróis, somente usando da tecnologia nas diversas mortes (que são bem impactantes e bem feitas), ou seja, a equipe soube usar efeitos práticos bem colocados, maquiagens perfeitas e claro muitas máscaras de palhaços espalhadas para os motins. Quanto da fotografia a densidade de tons escuros foi na medida para dar o clima que o filme pedia, deixando a cidade tensa, trabalhando muito o marrom nos personagens para oscilações de humor ficarem mais evidentes, e claro, harmonizando tudo com contrastes coloridos para dar o ar cômico também presente no palhaço, ou seja, um filme com ambientação perfeita para cada ato funcionar.

Outro ponto muito bem colocado na trama é a trilha sonora com canções bem desenhadas para cada ato, que juntamente com um lado orquestral cheio de boas sonoridades e tensões climáticas acaba nos fazendo viajar por cada momento do filme, ou seja, além de dar ritmo, o conjunto todo de boas canções ainda nos envolve e ajuda a formatar o longa. Para quem quiser conferir as orquestradas, aqui está um bom link, e para quem quiser ouvir algumas das músicas que tocam no longa, aqui também está outro link.

Enfim, é um filme que vamos lembrar muito por cada detalhe amplo que ele tem em sua essência, que já está causando imensos debates, que fará com que o público peça por mais vivência em longas de heróis e vilões, e que principalmente funciona de diversas formas para cada um que for conferir, ou seja, se você for esperando um filme de origem de vilão vai ver isso, se você quer ver um clássico com muitas referências a outros filmes, também irá encontrar aqui, se gosta de um terror violento com personagens fortes, esse é o nome da vez, e assim vai, de modo que dificilmente veremos críticas negativas fortes (sim, alguns vão achar defeitos para reclamar, afinal assim é a vida, e o próprio longa frisa isso em alguns atos), e para esse Coelho que vos digita já posso meio que antecipar que dificilmente outro longa nesse irá superar o posto, pois já tivemos ótimos filmes, mas nenhum que viesse com tanta força para superar as expectativas que já eram altas, e sendo assim mais do que recomendo o filme, coloco ele como quase obrigatório a conferida, pois é incrível mesmo. Bem é isso, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais textos, então abraços e até logo mais.

PS: estou procurando a nota mil, mas não tem no site, então vai 10 mesmo.

3 comentários:

Heitor disse...

Fernando, assisti ao filme na segunda e concordo inteiramente com a nota que vc deu ao mesmo. Fotografia, atuações, direção e roteiros impecáveis. Só gostaria de tirar uma dúvida: a cena final se passa antes ou após os ultimos acontecimentos do filme? Agradeço desde já.

Fernando Coelho disse...

Fala Heitor... tudo bem!! Então, é o famoso jogo da dúvida que o filme inteiro faz com a gente... eu prefiro optar que ela ocorre após, já com ele preso/internado, fugindo para um segundo filme... mas também pode ser tipo uma mostra do início de tudo, ele ainda internado, tendo toda a ideia completa do que vai acontecer já que fala isso para a psiquiatra dizendo que teve uma ótima ideia de piada, e no filme também fala que já esteve internado... ou seja, Coringa sendo Coringa, nos deixando com mais dúvidas do que certezas!!!

Heitor disse...

Muito obg pela resposta. Então fica a dúvida e cabe a nós imaginar qual a melhor possibilidade. Parabéns pelo excelente trabalho com as críticas.

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