Entrando Numa Roubada

9/06/2015 11:58:00 PM |

Tacamos tanta pedra no cinema nacional, que quando um filme interessante aparece, a procura acaba nem sendo tão grande, com o pessoal imaginando ser mais uma das bombas que frequentemente recebemos em nossas salas de cinema. Mas felizmente, "Entrando Numa Roubada" só possui o nome não muito agradável, pois se tem um estilo que é pouco explorado no Brasil é o tal de ação, e aqui a equipe pôs um road-movie de uma maneira bem interessante para acontecer e junto de enquadramentos dignos de premiação, conseguiu envolver e divertir numa produção diferenciada. Claro que o longa também possui muitos defeitos, que por ser a estreia do diretor, num próximo filme certamente deverá corrigir, mas já é um grande passo para sairmos dos tradicionais longas cômicos novelescos, que aí sim só nos metem em roubada nas sessões dos cinemas.

O longa nos mostra que o ator e roteirista Vitor ganha um prêmio de R$ 100 mil num concurso de roteiros e decide usar o dinheiro para filmar o “road movie” cheio de ação Aceleração Máxima. Para isso ele convida amigos fracassados: a ex-apresentadora infantil Laura, o ator Eric e o diretor Walter. Mas esse trabalho ganha novos rumos quando um dos atores quer usar o filme como pretexto para fazer um assalto e outro que quer se vingar do produtor, que lhe deu calote num projeto anterior.

Após uma carreira bem sucedida de compositor de trilhas para cinema, André Moraes resolveu atacar de diretor e roteirista nesse longa com a premissa de fazer algo diferenciado do que costuma aparecer em nosso mercado. E com essa ideia em mente, ele fez algo, que até já vimos em outros longas americanos, rodar um filme dentro de outro filme, e melhor ainda, colocar um road-movie de ação dentro de uma perspectiva bem trabalhada. Claro que a ideia original foi excelente, mas a história possui alguns furos absurdos na aceitação dos protagonistas do sub-filme interno da trama, que mesmo uma pessoa completamente desesperada, iria desconfiar de tudo o que acaba acontecendo, mas se desligarmos nossa fidelidade para os fatos, a curtição com tudo o que foi proposto é algo incrível e muito divertido de acompanhar. Agora, para quem está começando no ramo de direção, uma coisa é certa que temos de tirar o chapéu para o diretor, os enquadramentos propostos e realizados foram tão bem colocados na trama, que cada sequência tem de ser vista e sentida, e as realizadas na cena com JoeJoe ficou de um luxo que o texto quase que desaparece frente à beleza de tudo o que está ocorrendo ao redor, mostrando que ao menos o estudo do storyboard foi algo muito bem feito na pré-produção do longa.

Embora conte com algumas atuações exageradas, o resultado de cada personagem fica até que bem interessante de acompanhar, mas o diretor poderia ter segurado um pouco na pegada non-sense de algumas cenas que agradaria mais. Além disso, embora não seja o protagonista do filme, Marcos Veras trouxe um humor ácido para o seu pastor Alex, que certamente muitos acabarão incomodados com o que verão na tela, mas como é escrito na tela logo no início do filme é uma obra de ficção e qualquer semelhança é mera coincidência, e ficou muito bacana todas as cenas que envolveram ele, bem como o fechamento do filme de uma forma bem inteligente. Lúcio Mauro Filho como o diretor Walter que tendo alucinações com os remédios, ficou muito divertido de ver nas cenas que imagina coisas, e sinceramente seria muito melhor deixar ele somente no sonho paralelo que o filme seria incrível, claro que o garotinho Jarbas interpretado por João Guilherme Ávila ficou com umas expressões bem forçadas, mas em algumas cenas encaixou perfeitamente junto de Lúcio, formando uma dupla bem conectada. Deborah Secco até possui algumas cenas sensuais para com sua personagem Laura, mas ficou bem em segundo plano na trama, e isso não é algo que mereceria ser destacado dela, afinal é uma excelente atriz que poderiam ter aproveitado mais dela. Júlio Andrade está deveras assustador com seu Eric, e se o filme fosse algo mais psicótico certamente o protagonismo dele cairia como uma luva para a trama, mas acabou se saindo muito bem no contexto geral e agradou no que fez. Assim como Deborah, Bruno Torres aparentou estar meio perdido em cena com seu Vitor, se achando o galã da trama e fazendo caras e bocas demais para suas cenas, claro que essa era uma das propostas da trama para o seu personagem, mas acabou exagerando demais na dose. Ana Carolina Machado até tentou parecer a mocinha inteligente da trama com sua Letícia, mas ficou meia deslocada em diversas cenas, e isso não cabe em um filme de ação. O longa contou também com diversas participações especiais, mas a melhor sem dúvida alguma ficou para Aramis Trindade com seu Armando/Joejoe, nem tanto pelas expressões que fez, mas sim mais pela cena em si, que foi um espetáculo.

O traço visual da trama também ficou muito bacana de ver, e inicialmente o longa aparenta quase um quadrinho na apresentação, uma pena que exagerada na narração over, mas que ficou muito bonito de ver, certamente ficou. E além disso, a equipe artística teve um trabalho bem interessante, afinal road-movies costumam não ter tantos elementos cênicos sendo usados e representados em tela, mas aqui tudo funcionou para que o longa se desenvolvesse, como as armas e equipamentos paraguaios, as próprias máscaras de assalto, os objetos cênicos do motel aterrorizante, cada posto de gasolina com seu estilo próprio, e isso é algo que me deixa muito feliz de ver num longa nacional, pois mostra a preocupação que andam tendo com mais coisas e não somente com o texto. A direção de fotografia usou de diversos tons para que a trama fosse trabalhada e dinâmica, mas usou muito da luz amarelada para deixar o filme com uma pegada meio western e isso caiu bem também, além claro de nos enquadramentos bem pontuais do diretor usar recursos escondidos que deram um show a mais no visual completo das cenas.

Como um bom compositor de origem, o diretor não poderia deixar essa parte de seu filme falhar, e junto do baterista americano Omar Akim deram um ritmo envolvente para o longa e fez com que o filme de 78 minutos aparentasse ter até uma duração menor ainda, não que isso comprometesse o resultado final e quiséssemos algo maior, mas já que o longa estava agradável daria para andar um pouco mais.

Enfim, um filme bem feito, que por bem pouco não ficou melhor ainda e seria daqueles filmes para lembrarmos sempre que nos perguntassem um excelente filme nacional, mas repito, como o gênero de ação não é algo tão trabalhado aqui, já é meio caminho andado para indicarmos ele quando nos pedirem um bom longa nacional de ação, e sendo assim até recomendo ele com certeza para quem procura algo do estilo, mas certamente ainda vamos ver muita reclamação de alguns mais exigentes, e também mais pra frente espero ver o diretor novamente acertando em cheio com outro filme. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto nesse feriado com mais alguns longas que irei conferir, então abraços e até breve.


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O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E.)

9/05/2015 10:48:00 PM |

Se existe uma coisa que é interessante de olhar em alguns filmes, é a forma de direção que alguns diretores conseguem imprimir nas telas, ficando cada vez mais fácil de observar como eles gostam de trabalhar com seus filmes, e um que possui uma mão bem tradicional é Guy Ritchie que assim como fez bem nos dois filmes "Sherlock Holmes", aqui no seu novo filme "O Agente da U.N.C.L.E.", temos cenas bem dinâmicas, boas interpretações dos textos com piadas sobrando, as tradicionais janelas nas cenas mais ágeis e claro que uma trilha sonora de altíssimo nível. Porém como é um filme baseado em uma série de sucesso nos anos 60, ficou aparentando a falta de um desenvolvimento mais acelerado das situações para que coubesse tudo em um único filme, ou uma apresentação mais formatada para que apenas inserisse um gancho bem colocado para uma continuação, e de certa maneira nenhuma das duas coisas acabou acontecendo, e embora seja um filmaço gostoso de assistir, ainda saímos da sessão querendo um algo a mais que não teve.

O filme nos situa no início da década de 1960, no auge da Guerra Fria, com uma história centrada no agente da CIA, Solo, e no agente da KGB, Kuryakin. Forçados a deixarem de lado as antigas diferenças, os dois se unem em uma missão para parar uma misteriosa organização criminosa internacional, que está empenhada em desestabilizar o poder com a proliferação de armas nucleares e tecnologia militar. A única pista da dupla na investigação é a filha de um cientista alemão desaparecido, que pode ser a chave para eles se infiltrarem na organização criminosa. Agora os dois precisam correr contra o tempo para encontrar o cientista e evitar uma catástrofe mundial.

Como a história é bem trabalhada num roteiro com nuances dinâmicas e ágeis, o diretor pode trabalhar as interpretações dos atores com menos simbologia e mais ritmo, e isso é algo que fica bem gostoso de ver em filmes desse estilo, claro que assim como nos "Sherlock" muitos reclamaram do excesso cômico que em alguns momentos incomodam, aqui isso acaba ocorrendo bastante também, mas não chega a atrapalhar em nada o andamento explicativo da trama. Claro que o diretor mudou bastante o seu estilo inicial que tanto o marcou pela violência que imprimia em seus longas, mas de certa maneira isso acabou atraindo um público maior para seus filmes, pois ele acaba não forçando exageros de cenas e nem suavizando demais na pontuação da interpretação dos atores, fazendo assim um filme light, mas cheio de cortes rápidos e ângulos expressivos para que a dinâmica funcionasse envolvente e interessante de ver na telona. Além disso, temos de pontuar também que a sua adaptação do texto da série dos anos 60 ficou bem desenvolvida para que não ficasse algo tão irreal, e nem ficasse sério demais, e isso mostrou a preocupação que o diretor teve para que a amarração dos fatos agradasse a todos e envolvesse na proposta mais ágil. Como disse no início, o único erro foi não definir se seria somente um filme, ou já estavam fazendo pensando em uma sequência, pois acabou ficando no meio do caminho, aparentando um fraco fechamento ou um detalhe que pudesse deixar no ar algo mais promissor.

No quesito interpretativo, mesmo com as diversas mudanças de elenco que o filme teve durante o processo de pré-produção, consigo falar que os que acabaram ficando não desapontaram com o que fizeram. Claro que Henry Cavill está com um foco bem maior em seu Superman, mas não decepcionou aqui ao trabalhar seu Solo de uma maneira mais clássica e charmosa de espião, e com uma boa dinâmica nas cenas mais ágeis, podemos dizer que ele tem treinado bastante para não decepcionar como herói e isso vai facilitar bastante nos longas que exijam que ele lute. Armie Hammer virou literalmente aqueles monstros russos que podia desabar um prédio em cima de sua cabeça que sairia debaixo tomando uma vodca e brigaria com quem destruiu o prédio, de modo que seu Ilyia ficou bem bacana de acompanhar na trama, e o ator fez excelentes trejeitos para que seu personagem chamasse bastante atenção. É engraçado pensar como uma mulher pode ser a vilã de um filme de espionagem/guerra/ação, ainda mais com a beleza de Elizabeth Debick, mas como sua Victoria só é do estilo de quero muito dinheiro além do que já tenho e posso pagar para que os outros façam por mim, até que saiu-se bem, mas poderia ter sido mais cruel ou até mesmo terem colocado outra pessoa como um vilão mais imponente. Embora Alicia Vikander tenha feito de sua Gaby uma mulher forte e interessante, seu papel ficou meio que de segundas intenções, e como realmente só teve uma valia mais impactante no último ato, ficamos meio revoltados com a reviravolta estranha que acaba sofrendo. Sylvester Groth como Tio Rudy até que caiu bem na sua cena principal, e sem dúvida alguma foi um ponto bem interessante da trama, mas fez expressões tão estranhas em diversos outros momentos que acaba até incomodando. Os demais foram literalmente enfeites de cena, não importando para quase nada da forma que a trama acabou se desenvolvendo, mas se formos analisar a fundo, teriam mais uns 3 personagens que mereciam mais cenas interessantes, no caso, os chefes de cada um dos protagonistas.

De certa forma, a equipe artística trabalhou muito bem na concepção de época, principalmente no figurino dos personagens, pois ao caracterizar cada um de forma elegante e nos moldes que as pessoas iam para os eventos, foi de uma grande beleza visual, e além disso, souberam recriar alguns cenários clássicos como a divisão de Berlim pelo muro e todos os perigos que era de um lado, pela rivalidade interessante, ou seja, um bom trabalho de pesquisa, mas que se não parar para analisar cada ato separado, muita coisa acaba passando batido, principalmente pelas cenas com mais elementos cênicos estarem presentes nas janelas que o diretor criou para ter 3, 4 ou até 5 cenas ocorrendo ao mesmo tempo na tela do cinema, e isso ao menos na minha opinião, não é algo agradável de mostrar as cenas num filme. O conceito fotográfico do filme também ficou bem interessante de ver, principalmente nas cenas iniciais noturnas, aonde o diretor mostrou o quão bom ele é com sombras, trabalhando a contraluz com classe e dando envolvimento para as cenas ficarem mais densas, porém quando vai para o segundo ato, mais ágil, ele optou em colocar os tons mais vivos para contrastar com a cenografia, e isso em longas de espionagem até agradam, mas ficam de certa maneira, fraco demais.

As escolhas musicais para acompanhar o longa foram de altíssimo nível, pois a todo momento entrava uma canção melhor que a outra para que o filme ganhasse ritmo e ainda tivesse uma classe elegante de exibição, e isso é algo que o diretor preza desde seu início, e cada vez vem melhorando mais no que vem pedindo para os seus compositores de trilhas.

Enfim, um bom filme que certamente vai agradar quem gosta do estilo espionagem com bastante ação, mas também que fará muitos reclamarem pela falta de um desenvolvimento maior de cada ato para simbolizar mais e impactar mais, e como disse, isso talvez acabasse tornando ou o filme mais longo ou a trama toda em dois ou mais filmes, e como já houve diversas discussões sobre o orçamento do filme, o que acabou mudando direção, isso certamente foi um problema bem pesado para o longa. Portanto é uma boa opção de recomendação para curtir nos cinemas, mas quem não for muito fã do gênero, talvez reclame mais do que o tradicional. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas ainda faltam muitos filmes para conferir, então volto bem em breve com mais alguma postagem no site, fiquem com meus abraços por enquanto e até breve.


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Ricki and The Flash: De Volta Pra Casa

9/04/2015 01:36:00 AM |

Se tem uma coisa que afasta já meio mundo de um filme é uma guitarra no pôster, e um trailer musicalizado, pois os anti-musicais já desistem, outros já falam que não vai prestar e por aí vai. Porém o que posso adiantar aos mais assustados é que "Ricki and The Flash: De Volta Pra Casa" não é um longa musical, pois o funcionamento das canções que já são bem conhecidas no mundo do Rock'n Roll, é mais para mostrar a banda como qualquer outra que toca em bares e não que as letras vão servir de base para a história. Dito isso, se você não curte o estilo musical, já pode ver o filme mais tranquilo, porém o filme vai servir mais para ouvirmos mesmo Meryl Streep cantando essas músicas que tanto gostamos numa nova versão, pois a dramaticidade da trama é fraca demais, e totalmente previsível logo na primeira cena, e quem ver o trailer então já saberá praticamente o filme inteiro, além de que estranhamente há um momento no filme que parece que teremos um ponto crítico de virada, e no corte sequencial já estamos em casa com tudo rolando muito bem calmo, ou seja, faltou alguma coisa para que o longa se desenvolvesse. Porém mesmo sendo uma sessão da tarde bem light, o longa se faz valer pelas boas canções, então quem curte, irá cantar junto com Meryl, vendo um filme bem levinho na poltrona do cinema.

O filme nos mostra que com mais de 50 anos de idade, Ricki é uma cantora de rock, que sempre se apresenta com a banda The Flash em um pequeno bar. A situação financeira é precária, e ela não vê os filhos adultos há décadas. Um dia, o ex-marido Pete liga para Ricki, avisando que a filha Julie foi abandonada pelo marido, e acaba pedindo ajuda para tirá-la de um estado depressivo. Reticente, a mãe retorna ao lar, e descobre que tanto Julie quanto seus dois irmãos têm muito ressentimento por causa do abandono quando eram crianças. Essa é a oportunidade para Ricki fazer as pazes e tentar ser mais presente na vida deles.

Antes de tudo é interessante observarmos a trajetória do diretor Jonathan Demme, pois depois de fazer longas de terror de arrepiar a espinha como foram "Silêncio dos Inocentes" e "Sob o Domínio do Mal", tendo no meio do caminho um "Filadélfia", acabou meio evaporado dos holofotes fazendo mais documentário do que ficção, e agora depois de tantos anos resolve cair sobre uma comédia dramática tão leve como essa é algo que não faz muito sentido, porém ainda conseguimos ver aqui ou ali, uma boa tomada mais impressiva aonde mostrou que tem domínio de estilo próprio, mas como disse acima, falhou no corte de determinadas cenas, que poderiam impactar mais, deixando a dramaticidade mais forte da trama oculta (é possível interpretar as cenas com o que ocorre, mas acabaram ficando de fora da versão final) para que o filme ficasse mais calmo e leve, o que não condiz com seu estilo. O texto da roteirista Diablo Cody segundo consta foi baseado em sua sogra que liderou uma banda, e até dá para se pensar na ideia pela cena de encerramento, porém o talento que teve para escrever "Juno" e "Jovens Adultos" nem passou perto do texto que fez aqui, pois até a situação em si é bacana, mas faltou determinação na linha que iria seguir, e principalmente colocar um clímax melhor do que a cena das duas mães no quarto, pois o filme tinha uma linhagem interessante que poderia agradar mais no conteúdo do que apenas ficar dependente para quem quer apenas ouvir as canções maravilhosamente interpretadas por Meryl.

Antes de falar dos atores do filme, temos de dar os parabéns para todos os músicos que tocaram realmente junto com os protagonistas, Joe Vitale na bateria, Bernie Worrel nos teclados e Rick Rosas no baixo, formando uma banda de verdade, então antes que atirem pedras, eles não estão ali para fazerem caras e bocas, mas sim para ser a banda The Flash da Meryl, e tocar muito as excelentes canções escolhidas. Agora falando um pouco sobre os atores principais, Meryl Streep como sempre detona em tudo que faz, e sua roqueira é perfeita, descolada, sem dinheiro, cheia de trejeitos e claro sútil quando precisa ser forte, além de mandar super bem na interpretação, a nossa grande atriz ainda aprendeu a tocar guitarra com Neil Young para não fazer feio junto da banda, aonde botou a voz para todas as músicas, afinal depois de tantos musicais, ela já está acostumada, e fez muito bem como sempre, transformando sua Ricki/Linda em um mito do rock. Rick Springfield podemos considerar mais como músico, afinal já ganhou diversos prêmios com isso do que ator, pois só anda fazendo pontas em seriados, então nem é tão expressivo assim, mas seu Greg saiu-se bem tanto na guitarra quanto nos momentos em que precisou botar a interpretação para jogo, e assim fechou o filme interessante. Pra quem não sabe Mamie Gummer é filha real de Meryl e portanto não se assuste se acabar achando que Meryl está fazendo dois papeis no filme, pois Julie é sua versão mais nova e menos bonita, e a atriz de 32 anos possui muita expressão em seu perfil, fazendo caras fortes e determinadas para suas cenas, mostrou para a mãe que não estava para brincadeira no longa, e quem sabe logo desponte mais em papeis mais imersivos e certamente vai agradar, afinal se puxar só 10% do talento da mãe já deve ao menos ser indicada ao Oscar. Kevin Kline já fez papeis melhores, e aqui pareceu meio que desanimado para com seu Pete, pois em quase todas as cenas, ele está meio que de lado, fugindo da câmera, e isso não é comum para um ator, então ficou meio falso seus momentos em que demonstrou mais afeto, e assim atrapalhando em parte o estilo que o filme pedia. Audra McDonald veio com tudo com sua Maureen, aparecendo somente em três cenas, mas logo na segunda já colocou as luvas de boxe e quase nocauteou a protagonista com classe, muito boa expressão e interpretação do texto que lhe foi dado, soando perfeita. Sebastian Stan como Josh, Nick Westrate como Adam e Hailey Gates como Emily foram praticamente enfeites de cena, aparecendo somente em duas ou três cenas cada para não fazer quase nada pelo filme, e isso é algo estranho, já que são filhos da protagonista e despontam no final como algo até que importante.

No conceito visual, o bar aonde a banda toca ficou muito bem feito, e embora com pouquíssimos figurantes, todas as cenas foram bem desenvolvidas e tiveram todo charme possível para que o longa se encaixasse perfeitamente ali, com bons elementos cênicos e uma clareza bem típica de bares aonde bandas tocam por muitos anos para frequentadores fiéis da casa. O supermercado aonde a protagonista trabalha serviu apenas para uma cena que ela fala de códigos de barra e da sua vida inútil que muitos músicos são obrigados a ter para se manter, afinal a profissão de artista é algo que não é valorizado, e a simbologia até foi bem trabalhada, mas se quisessem cortar não atrapalharia quase nada. A mansão de Pete foi muito bem trabalhada nos elementos para que tudo ali servisse para culminar nas diferenças dos personagens e ficou bem bacana de ver. Já o estilo de casamento do final, ficou um pouco bobo demais, embora esteja na moda essa onda verde. Ou seja, praticamente 4 ou 5 cenários que conseguiram desenvolver bem a história e agradar com todo o trabalho feito pela direção artística. Já a direção de fotografia trabalhou bem pouco com cores, sombras e símbolos, afinal estamos em algo bem leve e que o tradicional por si só já supre tudo, mas certamente poderiam ter dramatizado algumas cenas para agradar mais, colocando alguns tons mais escuros para algumas cenas ficarem densas e assim teríamos uma dramédia melhor.

Claro que como disse, por ter muitos problemas na história e ficar leve demais, o que faz valer o filme é a excelente trilha sonora, que interpretada maravilhosamente por Meryl, Rick e banda, não tem como não se envolver e ficar dançando e batendo os pés durante toda a sessão, portanto eu não seria maldoso de não deixar aqui o link para ouvir todas as canções que foram escolhidas na medida para agradar. Aqui todas da banda: link e aqui todas do filme, inclusive as que não são interpretadas por Meryl: link.

Enfim, um filme razoável que pode ser visto tranquilamente em qualquer horário, mais para um relaxamento do que por ter uma trama envolvente e bem desenvolvida, mas que repito, vale muito pelas performances, ou seja, quem estiver de boa e gostar desse estilo mais leve, certamente vale a pena conferir. Portanto, acabo recomendando ele com essas ressalvas, pois não vá esperando ver um longa dramático, cheio de histórias e reviravoltas, que esse não é o que foi feito, e se tivessem trabalhado isso seria algo genial, mas como não foi, com muita certeza os críticos que gostam mais de história do que de produção, vão reclamar horrores do longa. Bem é isso pessoal, esse foi apenas o primeiro de uma semana lotada de estreias, então abraços e até breve com mais posts.


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Hitman: Agente 47

8/30/2015 11:36:00 PM |

Se as ideias originais andam em falta para os roteiristas de Hollywood, por que não requentar os filmes que deram errado também no passado, ao invés de apenas os clássicos? E um que até ficou interessante em 2007, mas longe do que deveria fazer para agradar foi "Hitman - Assassino 47", e agora com o reboot "Hitman: Agente 47" boa parte das reclamações puderam ser apagadas, principalmente o fator de que sendo baseado em um jogo de videogame, faltava cenas de ação mais rápidas. E só com a primeira cena, toda essa reclamação vai por água abaixo com ângulos inusitados de câmera, luzes piscando dando um efeito slow interessante e claro que tiro para todo lado já convencendo com estilo tudo o que poderia esperar do longa. Claro que o roteiro em si ainda não é algo genial, mas o nível de adrenalina foi tão bem colocado que acabamos empolgados com tudo o que é mostrado na telona, e quem sabe agora dá para continuar a franquia com alguma nova história mais original.

O filme nos mostra que um assassino de elite geneticamente modificado é conhecido pelos dois últimos dígitos do código de barras tatuados em seu pescoço. Ele é o resultado de muitos anos de pesquisa - e 46 clones anteriores - dando a ele força, velocidade e uma inteligência nunca antes vista. Seu alvo é uma mega corporação que quer revelar ao mundo o segredo do passado do Agente 47, criando um exército de assassinos cujo poder ultrapassa o seu próprio.

Não podemos falar também que a estreia de Aleksander Bach na direção para cinema foi algo maravilhoso, afinal ele pegou todo seu conhecimento de comerciais e tentou explorar a ação com cenas curtas demais, e isso as vezes deixa o espectador querendo uma continuação do clima que está sendo construído, e logo na sequência ele já muda de plano. Claro que isso dá uma dinâmica de ritmo bem mais envolvente para a trama, mas quebra demais o texto, e longas de ação muito quebrados acabam sendo visto não como corte por algum bom motivo, pois ficam parecendo que o ator errou e cortaram fora a cena seguinte, e isso soa bem estranho. Mas quem não ligar tanto para esses detalhes, e omitir alguns furos de história, vai certamente se divertir, pois pegaram bem toda a essência do jogo de videogame escrito por Skip Woods e transformaram em algo até que bem ágil de ver, não parando tanto para contar a história de cada elemento, apenas pontuando detalhes jogados e botando lenha na correria, para que o filme tivesse vida própria e agradasse com boas tomadas de ação.

Quanto das atuações, podemos dizer que a substituição de Paul Walker nem mudou tanto o estilo do filme, pois Rupert Friend ficou muito bem caracterizado como Agente 47, raspando seu cabelo e entrando completamente no clima que o filme necessitava, trabalhando bem a postura séria e ainda colocando a voz num tom quase que robótico de respirações pausadas, o que agradou bastante, claro que com Paul, o filme se venderia bem mais, afinal era mais conhecido, mas ainda assim acreditaram no potencial do rapaz, e ele não decepcionou. Hannah Ware inicialmente se mostrou bem confusa com os "poderes" de sua Katia, mas com o andamento da história, a atriz se soltou tanto junto com a personagem, que no melhor estilo do filme "Lucy", ela conseguiria certamente um longa solo mais para frente, e quem sabe não venha com o segundo filme, pois ela mandou bem. Zachary Quinto podemos dizer que é o novo personagem do filme Matrix por tudo que faz com seu John Smith, e que o ator é muito bom, todos sabemos, mas que a cada dia tem melhorado suas expressões, isso já está cheirando a prêmios em breve por algum longa que protagonize. Thomas Kretschmann trabalhou bem seu Le Clerq, mas infelizmente ficou bem secundário com suas intenções, talvez um prequel mostrando o antes do filme seria interessante para descobrirmos mais sobre o personagem e o ator poder desenvolver-se mais, pois com 3 cenas não dá para falar que ele chamou sequer qualquer atenção. O mesmo podemos dizer de Ciarán Hinds com seu Litvenko, pois ao ser encontrado mais caras e bocas fez de espanto do que usar seu estilo interpretativo para algo, ou seja, o filme desenvolveu tanto a perseguição dos três protagonistas, que acabou esquecendo dos outros personagens que deram origem à história.

Como todo bom filme de ação, a equipe de arte montou uma cenografia repleta de armas de todos estilos, figurinos bem ousados e clássicos para dar o tom que o personagem principal precisava, e além disso escolheu bem as locações para que o filme ficasse bem tecnológico também, e isso agradou muito por desenvolver a percepção que o jogo tinha e chamava bastante atenção. Claro que alguns cenários do jogo exigiriam que o filme fosse digital demais, e felizmente aqui usaram até que pouca computação gráfica para termos um realismo mais envolvente. Outro fator do filme que foi muito bem colocado foi a fotografia repleta de luzes brancas que deram um efeito interessante mais próximo dos jogos de videogame, e em diversas cenas procuraram jogar as sombras ao inverso para dar a perspectiva de um jogador mesmo, o que é um ponto bem positivo para os que reclamavam tanto da falta desse estilo nos filmes baseados em jogos, claro que são poucas cenas, mas já é um começo.

Enfim, não é o filme mais perfeito do mundo, mas cumpriu bem com a missão de uma boa ação envolvente com uma história até que bem trabalhada, como disse acima, poderiam ter trabalhado mais na história do que ocorreu antes, não passando tão rapidamente apenas como uma narração, mas isso certamente abrirá espaço para outros longas, então aguardemos para poder dar uma nota melhor para o filme, mas repito, ainda que com muitos furos, o longa agrada bastante! Para quem gosta do estilo certamente o filme deve agradar e divertir bastante com uma boa pipoca, afinal não temos que pensar em nada no longa, sendo tudo muito bem explicado com letras maiúsculas, mas como digo, tem dias que vale ver um filme desse estilo para apenas relaxar e curtir, então recomendo para todos. Bem é isso pessoal, fico por aqui nessa semana, mas volto na próxima quinta com mais estreias, então abraços e até breve.


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Corrente do Mal (It Follows)

8/30/2015 03:10:00 AM |

Bem, cá estou novamente indo contra as diversas críticas da internet que vinham colocando "Corrente do Mal" como um dos melhores filmes de terror de décadas. Claro que muitos viram o filme baixado na internet há meses, pois como sempre acontece no Brasil com o gênero terror, demoram uma eternidade para lançar um filme, mas como esse Coelho aqui só assiste as coisas no cinema, ficou para trás, completamente curioso com o que veria, afinal se existe um estilo que gosto é o tal do terror, para ficar com medo depois da sessão e ir buscar o carro no estacionamento olhando para todo lado! Mas agora após assistir ao filme, mesmo com o estacionamento inteiramente apagado e meu carro lá no fim do mundo, fui mais de boa do que se tivesse visto algum desenho animado, pois ao contrário do que o gênero terror exige, que é passar medo, dar nojo, causar pânico, assustar, arrepiar, e diversos outros sentidos possíveis, o filme não causa nenhuma sensação, somente a raiva pela música alta a todo momento e bizarrices cênicas de nível trash dos filmes B que passavam na Bandeirantes de madrugada há muitos anos atrás, ou seja, filme que você hoje revê e fala, como eu podia ficar com medo disso. Ou seja, longe do filme assustar, a ideia principal de algum tipo de doença que mata através de relações sexuais, e isso ser passado como algum tipo de monstro, é até que muito bem pensada, além da tentativa de colocar o puritanismo americano como sexo ser um bicho de sete cabeças também é bem inteligente, mas esqueceram que o público desse estilo anda bem exigente e quer ficar com medo, senão pagar pelo ingresso acaba sendo um martírio, como alguns vários clientes têm reclamado na bilheteria em apenas 3 dias de exibição.

A sinopse do filme nos mostra que a jovem Jay leva uma vida tranquila entre escola, paqueras e passeios no lago. Após uma transa, o garoto com quem passou a noite explica que ele carregava no corpo uma força maligna, transmissível às pessoas apenas pelo sexo. Enquanto vive o dilema de carregar a sina ou passá-la adiante, a jovem começa a ser perseguida por figuras estranhas que tentam matá-la e não são vistas por mais ninguém.

Ao pararmos para analisar cada ato separado do filme, o ponto principal que nos vem em mente é a ideia brilhante do diretor e roteirista David Robert Mitchell, pois a estrutura narrativa em si é bem elaborada e não preza tanto pelos clichés tradicionais dos longas de terror, ficando com algo dentro de uma proposta mais clássica das antigas e ainda envolvendo todo um simbolismo interessante dentro da cultura americana. Mas até aí tudo bem, caso fosse o filme classificado como drama ou até mesmo suspense trash, como eram os filmes mais toscos dos anos 80/90, mas não como um terror, afinal como disse no primeiro parágrafo, para um longa ser terror, ele necessita assustar o público, fazer com que fiquem com medo, pois mais absurdo que possa ser, conheço pessoas que até hoje tem medo do Chuck, ou do Fred, e até mesmo de ideologias satânicas envolvendo Fofão, mas ter medo de um estranho esquisito que lhe persegue porque você transou? Duvido que alguém tenha essa paranoia e saia da sessão com algum temor de dormir e sonhar com isso, e dessa maneira, mesmo que o diretor tenha feito excelentes planos abertos durante o dia, sem precisar ir para cenas noturnas tradicionais de longas de terror, o filme acaba tão vazio quanto iniciou, e repito, com uma das trilhas sonoras mais irritantes que já ouvi em anos.

Além de não assustar, foram escolhidos atores sem expressão nenhuma, daqueles que olhamos e não conseguimos conexão de interação e acabamos nem torcendo para que se livrem do mal e nem que morram logo, como costuma acontecer nossa torcida quando algum personagem de longas de terror fica chato e vibramos quando o ser maléfico pega a pessoa, ou seja, meros enfeites de prateleira que foram escolhidos para interpretar o texto e sequer sabiam o que estavam falando nas cenas. A protagonista Maika Monroe, claro que é a melhorzinha, afinal sua Jay até possui alguns momentos em que tentou expressar o medo frente ao desconhecido, nas boas cenas iniciais, logo que é informada pelo jovem que agora a treta está com ela, mas depois entra num desânimo tão monstruoso que sua cara é que acaba sendo apavorante e não todo o restante. Ainda estou procurando uma utilidade para a personagem de Lili Sepe, que fez Kelly, a irmã de Jay, e é apenas isso, nada mais, não tem uma expressão, uma frase, um nada para lembrarmos dela daqui a 30 minutos, ou seja, foi o cachê mais mal pago de um filme do mundo. Olivia Luccardi fez de sua personagem alguém que torceríamos para morrer logo, pois sua Yara sempre com um leitor de texto em formato de espelhinho de maquiagem incomoda mais pela chatice do que por qualquer outra coisa, e isso até pode ter uma simbologia bacana, mas precisaria de uma atriz melhor para passar isso. Dos homens da trama, somente Keir Gilchrist com seu Paul consegue mostrar algum sentimento na sua expressão, o de que é apaixonado pela protagonista e faria qualquer coisa por ela, mas faz tantas caretas que não sei que escola de atuação o jovem fez, mas seus professores certamente estão bem decepcionados. Do restante é melhor ignorar, senão o nível do texto vai decair demais.

Visualmente, a escolha cênica foi até bem trabalhada, pois uma cidadela de classe média bem trabalhada e que daria completamente para ser assombrada e ficar ainda mais assustadora caso quisessem aprofundar a história, mas tirando esse teor estranho de bairros isolados e feios, o filme não usou quase nenhum outro elemento cênico para envolver, tirando a cena da piscina que colocaram muitas coisas "úteis" ali para pegar o monstro, de restante só o sexo acaba sendo elemento para o filme e os figurinos quase inexistentes dos monstros que assombram os protagonistas, ou seja, trabalho fraco da equipe de arte que poderia ter sido mais criativa. A direção de fotografia foi uma das poucas coisas que se salvou no longa, pois ao trabalhar bastante com a câmera aberta em planos bem cheios de cenografia, tiveram de iluminar muito bem tudo, e claro que nesse caso deram preferência para as cenas diurnas para termos a sensação de perseguição melhorada, e quando os personagens estavam nas cenas noturnas ou dentro de casa, sempre uma TV ligada ou a lua no seu estado maioral, ajudaram a criar a falsa iluminação necessária para que a cena tivesse envolvimento.

No quesito sonoro, abusaram demais do aumento de volume para representar a coisa chegando próximo dos protagonistas, e isso é um dos clichés máximos de filme de terror e que incomodam demais, mas quando conseguem colocar ao menos algo mais envolvente para dar ritmo e agradar conseguimos ficar felizes com o que ouvimos, o que não é o caso aqui, que trabalhou umas melodias mais antigas e cansativas.

Enfim, um longa que até possuía um excelente potencial pela ideia, mas que partiu para rumos estranhos e não conseguiu atingir objetivo algum, vários críticos se apaixonaram pelo longa colocando toda uma filosofia sobre a cultura americana, sobre sexismos e tudo mais, mas longe de ser um bom filme de terror, esse Coelho que adora o gênero mais assombroso vai afirmar que não gastem um real para ver esse filme, e dessa maneira não o recomendo nem para meu pior inimigo. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas ainda falta uma estreia para conferir nessa semana, então abraços e até breve.


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Expresso do Amanhã (Snowpiercer)

8/29/2015 09:52:00 PM |

Qual elemento determina se uma ficção é boa? Uma história envolvente, disputas sociais, bons atores, diretor malucos, e até mesmo densidade cênica de espaço pequeno e bem criativo com certeza serve para demonstrar isso não é mesmo? Na opinião desse Coelho que vos digita, certamente uma combinação razoável de tudo isso, forma um filmaço, e se você concorda comigo pode correr para o cinema mais próximo que após 2 anos que foi lançado nos cinemas do mundo inteiro, finalmente "Expresso do Amanhã" chega nos cinemas do Brasil com uma quantidade até que significativa de cópias e embora trabalhe com muito simbolismo e viaje um pouco além de onde nossa mente pode permear, o diretor coreano conseguiu extrair de um elenco glamouroso, um resultado ímpar de ideologias sobre como a vida e a cadeia produtiva deve funcionar. Num workshop que fiz com Ana Maria Bahiana no ano passado ela havia comentado da beleza do filme que havia visto em 2013, e que recomendava muito para todos, mas somente hoje pude conferir ele nos cinemas, e assim como ela, com toda certeza recomendo demais para todos.

O longa nos mostra que quando um experimento para impedir o aquecimento global falha, uma nova era do gelo toma conta do planeta Terra. Os únicos sobreviventes estão a bordo de uma imensa máquina chamada Snowpiercer. Lá, os mais pobres vivem em condições terríveis, enquanto a classe rica é repleta de pessoas que se comportam como reis. Até o dia em que um dos miseráveis resolve mudar o status quo, descobrindo todos os segredos deste intrincado maquinário.

O diretor sul-coreano Joon-ho Bong é daqueles que consegue desenvolver o olhar crítico dos espectadores para situações que incomodam de certo modo, foi assim em "O Hospedeiro" e também em "Mother - A Busca Pela Verdade", e ao trabalhar bem a história do livro "Le Transperceneige", ele conseguiu nos transportar quase que para junto do personagem de Chris Evans na busca de uma vida melhor para os seus, e conforme vamos indo a fundo no percurso pelo trem, mais vamos ligando cada ponto da história e com o fechamento incrível de Ed Harris, literalmente o queixo cai e o quebra-cabeça inteiro nos é revelado de uma maneira linda e assustadora ao mesmo tempo, formato e mensagem. Alguns podem falar que o excesso de ficção é viajado demais, outros pontuar o excesso de violência, outros comentar um certo surrealismo em cima da proposta do diretor, mas a brincadeira completa que ele faz ao desenvolver cada ato com técnica e densidade dramática nos mostra que a vida é dessa forma complexa, e quanto menor o ambiente, mais difícil tudo acaba ficando, e nessa toada, o filme se desenvolve e agrada demais quem conseguir parar para pensar e ir ligando tudo o que é passado. Quanto a mão do diretor? Essa é melhor nem falar, afinal ele fez mágica com o espaço e junto da equipe de arte que vou falar mais para baixo nos entregou um espetáculo visual que apenas tendo um ou dois erros técnicos certamente será lembrado por ter feito esse longa com minúcias incríveis.

Com um elenco maravilhoso tão bem disposto para todas as cenas, o diretor nem precisou pedir tanto para eles, e conforme colocaram emoção em cada expressão suas e envolveram com símbolos clássicos da boa arte dramática, o resultado é tão interessante que há momentos em que nem sabemos para quem olhar, afinal todos estão chamando a responsabilidade da cena para si e isso é um show. Mas vamos falar um pouco dos principais atores, começando claro pelo nosso Capitão América, Chris Evans, que se não foi intencional a escolha, ele já está com o mesmo problema de Downey Jr. incorporando o personagem heroico nos demais filmes que está fazendo, pois o seu Curtis tem toda a mesma garra do Capitão e com uma liderança conturbada acaba causando também problemas com seus seguidores, mas tirando essa semelhança, aqui a violência ficou bem marcada na face do protagonista e ele soube agradar mesmo com as mãos sujas, o que ficou perfeito de ver. Um dos fatos que mais me agradou no longa, foi o fato de Kang-ho Song, mesmo que fale inglês perfeitamente, no longa o seu personagem Nam falar seu idioma original, e somente através de um tradutor simultâneo se comunicar com os demais, e os olhares malucos do ator representando estar completamente doidão com a droga que usou no filme todo, foi algo brilhante de ver no contexto total. John Hurt maquiado estava quase para um Gandalf após a guerra com seu Gilliam, mas trabalhou tão bem nas suas falas que supriu completamente com todas as expectativas, e demonstrou que ainda está bem para papéis de conselheiros. Embora só apareça no final do longa Ed Harris fez os diálogos de seu Wilford serem tão potentes e emocionantes que não tem como não vibrar com o que faz, claro que de certo modo dá um pouco de raiva e o coloca como vilão total da história, mas ainda assim é tão bem explicado os motivos, que acabamos concordando com ele, e isso é algo perfeito, que com toda calma possível o ator sussurrou cada palavra com uma atuação impecável. Tilda Swinton mais uma vez nos mostra o porquê é uma das atrizes que mais consegue surpreender com seus papéis diferentes, pois sua Mason é daquelas que não entram para simplificar, mas jogando todas as fichas e expressões para um nível além do padrão, beira um brilhantismo único e vivencial, sua cena que tira os dentes é algo terrível e forte que não tem como não se agradar com o simbolismo mostrado, ou seja, perfeita também no que fez. Jamie Bell e Octavia Spencer até agradam bastante com suas interpretações de Edgar e Tanya, mas são secundários frente aos demais, embora tenham uma boa quantidade de diálogos com os protagonistas e conseguem de certa maneira serem subjetivos sem estragar o resultado, e principalmente nos momentos que precisaram chamar a responsabilidade para si, fizeram bem feito. E sem mais enrolações, vou falar apenas da outra coreana do elenco Ah-sung Ko que a cada cena que arregalava o olhão de sua Yona, sabíamos que a coisa ia ficar preta, ou seja, a atriz mandou bem também na representatividade.

Agora o ponto chave da trama, a direção de arte e o trabalho magnífico que fez em cada vagão, lotando de elementos cênicos para onde quer que olhássemos víamos algo que serviria para referenciar toda a simbologia da história, e ainda foram completamente sábios em montar cada cenário nas proporções do trem, para que os atores ficassem realmente apertados como sardinha em lata, e tudo acontecesse sem ser desproporcional, e com isso acabamos viajando e prendendo a respiração junto com cada ato. Literalmente um show visual, que dificilmente veremos outro tão cedo, tendo de destacar desde o último vagão aonde a população pobre vivia suja e jogada às traças para sobreviver apenas com uma barra proteica, passando pelo belíssimo vagão da floresta, o da escola, o da festa, e por aí vai, mostrando um trabalho de pesquisa e mais do que isso, uma vivência clara de simbolismos que poucos fariam, além claro de todo o visual fora do trem que quando mostrado era para assustar mesmo. A direção de fotografia soube brincar com tudo o que a arte lhe deixou no meio do caminho, usando a escuridão dos túneis para que as cenas mais densas ocorressem, depois usando o fogo para iluminar e até mesmo apelando para visão noturna para dar uma diferenciada na trama, ou seja, não seguiram nenhum manual e largaram de lado qualquer cliché que o filme pudesse usar, transformando tudo em algo novo e gostoso de ver, trabalhando com todos os tons possíveis para representar cada coisa e uma precisão cirúrgica para que tudo se conectasse e agradasse na medida certa.

Enfim, falei muito, e sei que vocês já devem estar me xingando por dar até alguns spoilers no texto, mas é um filme tocante, que quem gosta de um bom suspense que ao final amarra todas as pontas e nos deixa de queixo caído com toda a história certamente irá gostar muito. Claro que como é um filme que possui muita ação, também temos alguns furos de roteiro, principalmente na cena final no figurino da criança, mas isso é um mero detalhe que não atrapalha a beleza completa que foi todo o restante. Portanto não darei a nota máxima por esses furos, que nem vou enumerar, pois a maioria vai acabar virando spoiler, mas quem quiser discutir eles, mande e-mail, que eu respondo. Mas que o longa certamente valeria um 9,8 se eu desse notas quebradas, com certeza valeria. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas volto amanhã com o longa que verei ainda no final do dia de hoje, então abraços e até breve.


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Ted 2

8/29/2015 01:54:00 AM |

Sabendo o sucesso que o primeiro filme fez, não perderam tempo e praticamente 3 anos depois temos o urso fofinho mais boca suja nas telonas novamente. "Ted 2" usa exatamente a mesma fórmula do primeiro filme, e de forma alguma não posso dizer que o filme não é engraçado, muito pelo contrário, possui boas cenas divertidas e diversas cenas referenciando a cultura nerd (aliás bem mais do que o ocorrido no primeiro longa), porém a maioria das piadas mais bem colocadas, já passaram tantas vezes nos trailers, que ao surgir na tela, acabamos rindo, mas não espontaneamente, e sim como se fosse aquelas piadas que os familiares repetem todo Natal e ainda assim rimos delas. Além de que diferentemente do que ocorreu no longa original, que ríamos de quase tudo o que era mostrado, aqui precisaram forçar um pouco o riso, apelando ainda mais para sexismos e coisas toscas, então o que era light antes, aqui virou regra, e a diversão explícita que tivemos há 3 anos atrás acaba sendo engolida num filme até que razoável, mas infinitamente mais fraco e que não deve explodir.

O longa nos mostra que completamente apaixonado, Ted decide se casar com Tami-Lynn. Entretanto, não demora muito para que o casal entre em crise. Querendo evitar um possível divórcio, Ted resolve ter um filho. Tami-Lynn logo fica empolgada com a ideia, o que faz com que o casal inicie uma busca sobre quem poderia ser o doador de esperma ideal para o bebê. Seu grande amigo John o ajuda na tarefa, mas logo Ted descobre que não pode ter um filho porque, legalmente, ele não é uma pessoa, e sim uma propriedade. Começa então uma batalha judicial em que o urso de pelúcia tenta provar que merece ser considerado um cidadão como qualquer outro ser humano.

Claro que repetir sucesso é algo que nem todas as continuações conseguem, mas muito se esperava da genialidade irreverente de Seth MacFarlane, afinal conseguiu manter por anos, temporada atrás de temporada o seu seriado "Uma Família da Pesada", e ao dar tempero de piadas mais impactantes e incorretas ao seu longa, manteve um estilo conhecido e bem adequado para a pegada que queria utilizar, porém deixou o tom romantizado e simbólico que no primeiro filme era apenas pontas, aqui ter mais espaço, e toda a tentativa de humanizar o ursinho acabou ficando falsa e pacata demais ao deixar de lado toda a sujeira, drogas e sexo do primeiro filme. Claro que isso não sumiu da noite para o dia na forma do filme, então ainda temos essas ideologias, mas aqui funcionando de forma mais humilhante e forçada, o que não é tão agradável de ver, então caso os produtores resolvam que é necessário mesmo uma trilogia, que voltem ao estilo do primeiro filme para agradar e esqueçam das besteiras que deixaram acontecer aqui. Quanto da mão de direção de MacFarlane sempre digo isso nos seus filmes, séries e afins, que ele sabe aonde a câmera deve estar para que as cenas aconteçam e ao fundo as coisas continuem rolando em segundo plano, de modo que o espectador consiga ver as duas coisas e se divertir com ambas, e aqui isso ocorreu diversas vezes, sempre funcionando bem.

No quesito atuação, Mark Wahlberg pareceu desanimado demais com o seu personagem John, e embora tenham arrumado um modo de substituir Mila Kunis que estava grávida na época das gravações, e com isso colocaram ele meio que deprimido, esse excesso de depressão não era apena do personagem certamente, ficando estranho e faltando para com ele a mesma cadência que conseguiu colocar anteriormente, claro que teve boas cenas, mas poderia ser muito melhor. A dublagem que Seth MacFarlane dá para seu Ted sempre é bem precisa, trabalhando a voz de maneira caricata, cantando de forma eloquente e dando certamente muito trabalho para que a equipe de animadores digitais fizessem o urso interagindo ainda mais com os atores reais, ou seja, um trabalho dificílimo que encaixou muito bem nos olhares e tudo mais, mas desejava muito mais irreverência para agradar ainda mais. Amanda Seyfried na época que estava fazendo quase que um filme por mês, tinha mais ritmo do que o que entregou para sua Samantha aqui, pois até caiu bem como uma advogada iniciante completamente fumada e irresponsável como os outros personagens, mas ficou oscilando demais entre irreverência e atitude correta, e nesse filme isso não é algo que agrade, além de estar com expressões muito desorientadas, o que acabou de certa forma atrapalhando um pouco. Jessica Barth teve até um pouco mais de participação dessa vez com sua Tami-Lynn, mas não agregou muito para com o filme, mostrando apenas que sabe pontuar bem para onde olhar nas cenas junto do urso digital, e isso é legal de ver nesse estilo de filme. Novamente, o "vilão" Donny interpretado por Giovanni Ribisi decepcionou gritantemente, pois além de caricato, soou bobo demais, mas a ligação musical com o primeiro filme ao menos ficou boa de ver com ele. E para finalizar nesse quesito, é claro que temos de falar do mestre Morgan Freeman, que pode aparecer apenas em meia cena que agradará no estilo expressivo que sempre incorpora em seus personagens, e aqui como um advogado de renome trabalhou pouco, meio como uma participação especial de três cenas, e agradou no que fez.

A equipe artística trabalhou bem novamente, mas sem viajar muito nos conceitos, tendo como locações apenas as casas dos protagonistas, a casa de Tom Brady, uma biblioteca, um tribunal, todos bem singelos quanto à elementos cênicos, apenas sendo colocados para representar corretamente, mas nas cenas do celeiro e da Comic Con não faltou espaço para inúmeras referências visuais interessantíssimas de ver, e isso ficou ao mesmo tempo bem bonito e agradável para representar o estilo que o diretor gosta de passar, ou seja, referências aonde puder ser colocada vai acabar funcionando. No estilo fotográfico, a cena que mais demandou um design interessante na composição das luzes também foi a do celeiro/plantação de maconha, que literalmente foi um luxo só de luzes, tons e envolvimento bem feito de cena. Claro que a animação de Ted foi melhorada, e o urso parece mais vivo do que no primeiro filme, mas ainda vão conseguir melhorar mais e veremos isso certamente com mais filmes.

No conceito sonoro, tivemos boas canções encaixadas na trilha para dar conexão ao que estava acontecendo na trama, mas novamente o destaque fica por conta da cena noturna no meio da plantação de maconha, aonde nos é colocado o tema de Jurassic Park e na sequência temos Amanda Seyfried cantando (o que já está bem acostumada), uma música composta pelo diretor para o filme, que é bem melódica e gostosa de ouvir. Mas se temos de reclamar de algo, faltou um pouco de dinâmica musical no restante, o que traria um ritmo mais envolvente para o longa.

Enfim, é um filme razoável que poderia ser muito melhor e divertir bem mais sem apelar. Claro que muitos irão rir bastante com o que é mostrado, afinal existe público que gosta do estilo cômico mais apelativo, mas infelizmente não faz o gênero desse Coelho que riu bem mais em cenas diferentes que o público da sala ficou em silêncio do que nas comuns já vistas no trailer. Portanto só recomendo o filme para quem realmente gosta muito do estilo de comédia apelativa. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas ainda faltam muitas estreias para conferir, então abraços e até breve.


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Que Horas Ela Volta? (The Second Mother)

8/28/2015 01:53:00 AM |

O cinema nacional quando sai das comédias novelescas consegue nos surpreender de diversas formas, e até mesmo um drama simples de nosso cotidiano pode virar uma história envolvente, bem feita e que com ares de situações corriqueiras que também são comuns nos grandes países na atual economia, aonde as pessoas trabalham demais e vivem pouco com seus filhos, o longa "Que Horas Ela Volta?" não apenas vai agradar muito quem gosta de um filme sem muita enrolação, mas que simbolicamente representa muita coisa, como também internacionalmente pode arrebatar muitos prêmios para o nosso cinema dramático, e quem sabe até voltarmos para um lugar que muitos sonham em voltar nas premiações. E dessa maneira Anna Muylaert que andou sumida dos cinemas por 6 anos, volta pra mostrar que não brinca em serviço, e vai conseguir assustar muitos brasileiros que acham que Regina Casé é apenas apresentadora, sem saber que antes de seu dominical, já foi atriz.

O filme nos mostra que a pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.

Dezoito longos anos! Esse foi o tempo que a roteirista e diretora Anna Muylaert demorou para concluir o roteiro desse longa que tanto tem a ver com sua história pelo que disse nas entrevistas do filme. E quem for assistir ao filme, irá ver que ela se preocupou com cada detalhe da trama, pois até mesmo na cena mais simples de levar um cachorro para fazer as necessidades fisiológicas, tem algum simbolismo ou interrogação para pensarmos na vida, em como os empregados secundários que dão o sangue para uma casa ou empresa acabam sendo nem lembrados quando precisam de uma ajuda, ou até mesmo, o quanto esses se doam tanto para seus trabalhos que esquecem de como a família necessita deles também, do seu amor, de sua presença, e ao ser largada de canto, nem entra em questão o ciúmes, mas sim a precisão de cada toque para chamar a atenção e dizer que está ali também, pronta para retribuir um carinho que não virá do outro que você tanto preza, mas sim de quem está lhe dando, ou seja, um filme que pode ser visto, ou sentido. E essa visceralidade a diretora já mostrou ser boa em seus outros longas "É Proibido Fumar" e "Durval Discos", mesmo que de forma menos explícita, mas aqui além de alcançar um salto mais alto, conseguiu trabalhar com uma história mais universal, e dessa maneira em qualquer festival que está entrando, emociona o público e acaba levando aplausos e prêmios, ou seja, se forem coerentes na indicação do longa como representante nacional para o Oscar, quem sabe a chance seja mais real.

Se eu disser que me apaixonei pela atuação de Regina Casé estarei mentindo, mas inegavelmente sua Val é um dos melhores papéis que a atriz já fez, pois ao impregnar trejeitos nortistas tão comuns, e ser tão conectada com o garoto Fabinho até mais do que a própria mãe, e não dando a mesma importância devida para sua filha que saiu de seu ventre, é algo totalmente comovente e interessante de ver, pois a atriz se doou ali, e junto de um texto preciso pontuado da forma que ela fez, é algo que certamente comove e agrada muito de ver na telona, portanto Regina, abandone de vez as coisas estranhas que você faz aos domingos e volte pro cinema, que aqui você mostra que é boa mesmo. Camila Márdila nem era a vontade da diretora para o papel de Jéssica, mas não só mostrou no filme, o porquê de ter sido a melhor no teste de elenco como dissecou um papel que certamente ficaria não secundário, mas menos importante do que foi, e dosou olhares, sentidos e tudo mais na seu jeito de falar para que ficássemos presos em suas cenas esperando acontecer somente o pior com ela, e assim temos certamente de parabenizar o trio que fez com Casé e a diretora, pois foi impecável. Fico na dúvida da análise de personagem de Karine Teles, pois sua Barbara é estranha, mas bem feita pela atriz, porém em diversos momentos me peguei vendo ela num estilo novelesco demais de atuar, e isso me incomoda de tal maneira, que mesmo seus joguinhos e ironias acabam virando sempre pra o estilo vilã necessitada e ambígua, então nesse personagem poderiam ter aparado mais as arestas para agradar mais. Lourenço Mutarelli entregou para o seu Carlos uma condição íntegra e bem simbólica, pois a cada cena que aparecia certamente tínhamos algo para analisar de suas falas e atitudes, e dessa maneira o ator conduziu tão bem, que valeria até mais tempo de tela do que teve, ou seja, preciso para com o texto e assustador nos momentos certos. E para finalizar o elenco principal é claro que tenho que falar de Michel Joelsas, que embora não tenha sido o Fabinho dos sonhos de um diretor, afinal é fácil notar que muitas cenas suas foram cortadas da versão final do filme, mas nas que sobraram seu carinho com a personagem de Casé e até mesmo nos entreolhares com a família em si, conseguiu mostrar o excesso de mimo que muitos jovens possuem e acabam sendo estragados para com a sociedade, ou seja, o ator conseguiu mostrar que é bom no que faz, mas faltou mais atitude e até tempo para amadurecer mais o personagem em si, mas aí acabaria virando novela, então é melhor deixar como ficou. Dos demais, alguns até tentam aparecer bem, mas só funcionam para incrementar os simbolismos e assim sendo caíram bem sem atrapalhar o conteúdo exato que a trama passou.

No conceito cenográfico, assim como a jovem analisa a planta da casa de uma maneira bem interessante, e numa cena anterior acaba conhecendo cada um dos ambientes nos mostrando detalhes da própria vida dos envolvidos na trama, a equipe de arte soube trabalhar cada elemento com precisão cirúrgica para que o filme não ficasse chato, nem amarrado como alguns longas acabam ficando para ser somente simbólico, mas de maneira que cada pessoa ao ver a ação e conhecesse cada cantinho da casa como a protagonista conhece, "usufrui" e vive, tirasse suas próprias conclusões e se envolvesse com a vida dos protagonistas, e isso ficou muito bonito de ver, mesmo que o ambiente em si não tivesse tantas locações. É interessante ver o trabalho da diretora de fotografia Barbara Alvarez, pois escolheu junto com a diretora alguns planos incomuns em ângulos que nem foram tão bonitos e usando sempre da iluminação mais rebaixada para dar sombras nos cantos, o filme ficou mais pesado do que deveria, e incrementou uma dramaticidade cênica que alguns podem até gostar, mas certamente poderia ter amenizado alguns momentos que deixaria o longa num tom mais amplo e gostoso de acompanhar.

Enfim, é um filme simples, muito bem feito e que vem de encaixe perfeito na falta de longas mais reflexivos no circuito de longas nacionais, e como disse ficarei na torcida para que seja nosso indicado à estatueta dourada, claro se novamente não fizerem a cagada de escolher um filme completamente errôneo como ultimamente vem acontecendo. Friso que é um filme diferenciado, portanto muitos que não são realmente fãs de dramas familiares com muito simbolismo talvez saia da sessão se perguntando o motivo de tanta gente estar falando bem do filme, mas aqueles que souberem apreciar o estilo irão se comover, emocionar e sair da sessão com muitas emoções sobre tudo o que aconteceu, e dessa maneira prefiro recomendar o longa mais para esse segundo grupo, do que falar que é um filme para todos. Bem é isso pessoal, com toda certeza esse tinha de ser o longa inicial dessa semana lotada de estreias, pois a curiosidade era gigantesca pelos prêmios que o filme vem arrebatando, agora que já vi e deixei aqui minha opinião, vamos para os próximos. Então abraços e até breve meus amigos.



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A Esperança É A Última Que Morre

8/26/2015 01:32:00 AM |

Tem coisas que acontecem na nossa vida dentro dos cinemas que não dá para explicar, pois confesso que ao ver o pôster e o trailer de "A Esperança É A Última Que Morre" falei para uma amiga que estava com plena certeza de que o longa era uma furada imensa, que seria tosco ao extremo e que não iria ser nem um pouco divertido conferir esse filme. Portanto, utilizando da ideologia do filme, eis que solto aqui um provérbio (ou sei lá se é isso) para o meu texto: "não se deve julgar um livro pela capa", pois o filme é uma das melhores comédias que o cinema nacional já nos entregou, com uma direção de fotografia incrível por trabalhar planos perfeitos de cada cena, e principalmente pela sacada do roteiro que inseriu boas piadas e expressões para que os personagens, mesmo que não tão bem atuados, fossem incríveis e divertidos do começo ao fim. Ou seja, tivemos mais um daqueles presságios negativos, que já vou ao cinema pronto para tacar uma tonelada de pedras no filme, e volto mastigando elas com açúcar, afinal que delícia de filme, que recomendo com toda certeza, por mais absurdo que possa parecer.

O longa nos mostra que Hortência é uma repórter de TV dedicada, sonhadora, que alimenta a esperança de deixar de fazer reportagens fuleiras e tornar-se âncora do telejornal local, comandado por JP. Quando fica sabendo que Vivian, a âncora do jornal, está para ser detonada por seu chefe, ela se anima toda, mas a jornalista Vanessa também quer essa vaga. Agora, Hortência precisa arrumar um jeito de garantir seu novo posto, nem que para isso necessite criar um assassino serial de mentira, suficiente para garantir seu destaque diante da concorrência. Ela conta com a ajuda de dois amigos, que trabalham no Instituto Médico Local, mas essa mentirinha vai acabar saindo de seu controle.

Pesquisando um pouco mais sobre o longa, é fácil descobrir o motivo de o longa ter uma história tão bem encaixada, pois escrito por dois dos roteiristas nacionais que mais tem acertado ultimamente Patricia Andrade("Julio Sumiu", "O Canto da Sereia", "A Beira do Caminho", "Made in China") e José Carvalho("Faroeste Caboclo", "Elvis & Madona", "Sai de Baixo"), o filme certamente teria um bom tino cômico e pontuações precisas para divertir na medida correta, e é notável a preocupação das inserções dos provérbios com toda a sintonia de cada personagem criado para representar toda a história. E adicionado ao bom texto, foi escolhido o diretor "novo" Calvito Leal, que anteriormente só havia ganhado diversos prêmios com seu documentário sobre Simonal e feito da nova versão da novela "Saramandaia", uma série criativa e cheia de efeitos para impressionar a todos, ou seja, veio para o filme pronto para estrear na direção de uma ficção querendo explorar o máximo de belas tomadas que pudesse, e criar planos dinâmicos e bem trabalhados para cativar quem gosta de ver uma boa cena, mesmo que num filme de comédia, agradando tanto pelo conteúdo quanto pelo visual. E esse belo casamento resultou num filme extremamente interessante, que diverte e ainda consegue satirizar certos pontos tristes dos nossos governos com a mídia que só quer ibope.

Só não posso dizer que o filme foi perfeito pelo único problema visível do filme: a atuação simples demais da protagonista. Não digo que Dani Calabresa não é engraçada e sabe fazer caras boas para divertir, mas não é uma atriz que sabe dominar um texto e interpretar quando é necessário, de modo que nas cenas que precisou ser engraçada, até foi bem, mas quando tinha de botar a expressão para jogo, literalmente tremia na base, e isso é algo que atrapalhou até no tom da voz, pois em alguns momentos fica completamente audível que tivemos muitas cenas dubladas depois de pronto o filme, para dar uma melhorada no timbre de voz de sua Hortência, mas como muitos nem vão notar esse problema técnico, posso dizer que no que ela se propôs a fazer, cumpriu e agradou como uma jornalista "fraca", que precisou de meios para conseguir crescer na emissora. Agora usando mais um provérbio ou expressão: "Há males que vem para o bem", e o atraso nas gravações tirou Leandro Hassum da produção do filme, e a substituição dele por Rodrigo Sant'anna foi a melhor coisa possível de acontecer, pois o personagem Ramon caiu como uma luva nas mãos do humorista que abusou de olhares, trejeitos e até impostou a voz para que cada cena sua fosse o mais incrível possível, e se tem um ator que pode salvar a comédia nacional, certamente esse é o nome que devemos ficar de olho, pois ele sempre detona em todos os papéis que faz. Danton Mello também foi uma ótima alternativa para substituir Gregório Duvivier, pois mesmo que ambos não sejam engraçados, Danton é ator e sabe como colocar carisma nas suas interpretações mais sentimentais, de modo que o seu Eric até chega a ser bem agradável nos momentos cômicos, e passa pena nas cenas mais emotivas, o que vai chamar a atenção de quem estiver torcendo pelo seu romance com a protagonista. Katiuscia Canoro já fez papéis bem emblemáticos no antigo "Zorra" que nem chamava ainda esse nome, como Lady Cate, mas aqui sua Vanessa é tão irritante que acaba sendo engraçada, mas ainda precisa melhorar seu jeito expressivo para o cinema, pois sendo mais acostumada com teatro, ainda usa de trejeitos forçados para chamar atenção, o que não era necessário para as cenas. Um dos atores mais experientes no filme, Augusto Madeira, tentou ser cômico com seu JP, mas ficou meio abobalhado demais, com trejeitos excessivos e de certo modo até cansativo por tudo o que fez, e em alguns casos vale até mais uma expressão que não é um provérbio, mas cabe bem aqui: "menos é mais", pois se não forçasse tanto acabaria ainda divertido e agradando mais no que mostraria. Dos demais praticamente só temos participações, aonde alguns possuem um pouco mais de falas, como Thelmo Fernandes com seu Major (outro personagem de encaixe bem fraco) e Márvio Lucio com seu Governador bobo demais.

Se os atores estavam um pouco perdidos em cena, não podemos dizer o mesmo de maneira alguma da equipe técnica envolvendo arte e fotografia, pois cada elemento cênico importante foi colocado para simbolizar cada provérbio de maneira divertida e bem emblemática, cada ator foi caracterizado bem com o que o personagem pedia, e cada cenário foi trabalhado para representar bem a cidadela de Nova Brasília, mesmo tendo sido inteiramente gravado no Rio de Janeiro, ou seja, um trabalho minucioso de pesquisa e detalhamento para que o filme tivesse vida própria e agradasse no que o roteiro pedia com a maior riqueza de detalhes possíveis para envolver e chamar atenção. E como já disse no começo do texto, e também em diversos outros textos que falei de Gustavo Hadba como diretor de fotografia, o cara é um gênio dos enquadramentos e da iluminação no Brasil, dando nuances em cada tom das cenas, trabalhando ângulos diferenciados que o diretor solicitava, e brincando com quem gosta de não ver o plano tradicional mal iluminado jogado na maioria das comédias, ou seja, pegaram alguém que está acostumado a fazer dramas bons para trabalhar uma comédia com classe, e isso deu muito certo.

Enfim, um filme muito bem feito, que usando de mais uma expressão popular "mata a cobra e mostra o pau", ao quebrar minha cara com um filme divertidíssimo que recomendo com toda certeza para quem gosta de uma comédia mais escrachada, que não se preocupa em ser novelesca (graças aos deuses do cinema) e também não apelativa como acontece na maioria das comédias nacionais, mas sim em ser um filme feito para divertir e fazer o público rir, ou seja, vale a pena ser vista com muita certeza. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, agradecendo mais uma vez ao pessoal da Difusora FM 91,3Mhz pela parceria e principalmente por trazer essa super pré-estreia com 10 dias de antecedência para a galera que lotou a sala e se divertiu muito com o filme, ou seja, fiquem ligados na rádio, que em breve certamente tem mais pré-estreias para conferir. Então abraços pessoal, e até quinta, pois essa próxima semana vem quente.


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O Último Cine Drive-in

8/23/2015 02:20:00 AM |

Sabemos que ultimamente as produtoras nacionais só nos tem entregado comédias novelescas, ou quando arriscam com algo com uma certa pitada dramática acabam errando feio. Pois bem, se você acha que não podemos ter uma comédia dramática bem feita em nosso país, a partir de hoje pode mudar seu conceito com "O Último Cine Drive-in", que ao mesmo tempo que consegue nos deixar com um sorriso estampado na cara durante toda a duração, conseguiu comover totalmente quem tem paixão pelo cinema, e sabe o quão interessante era ir aos cinemas de rua ou de estacionamento. O longa até possui alguns defeitos que são bem perceptíveis, mas a história e a forma que foi montado é tão maravilhoso de ver na telona que saímos da sessão vibrantes com o resultado e emocionados com tudo o que foi entregue.

O filme nos mostra que o jovem Marlombrando se vê obrigado a voltar à Brasília, sua cidade de natal, devido a doença de sua mãe, Fátima. Lá, ele vai reencontrar seu pai, Almeida, dono do Cine Drive-in, há 37 anos. Ele insiste em manter vivo o cinema, mesmo não atraindo mais espectadores como na década de 70. Para isso, conta com a ajuda de apenas dois funcionários: Paula, que cuida da projeção e da lanchonete; e José, um velho amigo de Almeida, que ajuda a vender ingressos no caixa e da limpeza do local. Com a ameaça de demolição do Cine Drive-in e o agravamento da doença de Fátima, pai e filho vão ter que se unir e tentar reviver o passado.

É interessante ver o que o diretor e roteirista Iberê Carvalho nos entregou, pois ao sair completamente dos padrões que o público está acostumado a ver nas comédias e dramas nacionais, ele correu o risco de seu filme não empolgar, o que acaba não ocorrendo, ao menos para os fãs de cinema das antigas, pois mesmo que exagerando no tom mais saudosista, ele soube dosar as cenas mais cômicas com a tensão familiar e o clima pesado de uma última sessão de cinema no último cinema de estacionamento (cine drive-in) do país, para que o filme ficasse leve e gostoso de assistir. E dessa maneira, ele conseguiu trabalhar a sintonia de um bom filme no modelo tradicional, ou seja, usando apenas a interpretação dos atores dentro do texto escrito, não dependendo de efeitos nem de iluminações impressionantes, para que a trama se desenvolvesse bem e ainda prendesse o espectador com cenas comoventes bem interpretadas, usando de bons ângulos de câmeras e ainda pontuando com classe para aqueles que não conheciam uma projeção em película como é feita. Um grande acerto para ele, que já havia ganhado muitos prêmios com seus curtas-metragens, e agora certamente deve decolar nos longas.

Sobre as atuações, é fácil notar o empenho dos atores em estarem fazendo sua interpretação de cada um dos personagens com amor ao que fazia, pois a cada cena era visto um empenho único na dinâmica dos personagens para que o gás fosse sempre bem pontuado, e isso foi algo bem bonito de ver, mesmo que em alguns momentos o excesso de liberdade para com os trejeitos deixassem os personagens um pouco falsos. Breno Nina entregou para seu Marlombrando um estilo meio rígido de quem sofreu muito na vida e agora com a doença da mãe colocaria tudo a desabar, mas o que vemos é uma força em tentar que tudo dê certo tanto na relação com o pai omisso, quanto em dar uma última felicidade para a mãe, o ator até que saiu bem na missão, mas poderia não ter fechado tanto a expressão nas cenas iniciais, pois a mudança de um ato para o outro é repentina demais e isso soou falso, mas no geral agrada bastante. Othon Bastos é sempre mestre no que faz, e aqui não seria diferente com o seu Almeida, que transpira o cansaço dos longos anos na função sem retorno, afinal a cultura do país cada dia mais vai sendo enterrada e o seu personagem é a prova viva disso, de modo que o ator conseguiu mostrar tanto na atuação quanto na forma do personagem ser a paixão pelo velho e a possibilidade de que o novo ande junto, muito bela sua cena no cinema do amigo. A personagem Paula interpretada por Fernanda Rocha até é interessante, mas merecia um pouco mais de atenção no desenvolvimento do roteiro, pois acaba ficando muito de escanteio, enquanto poderia ter uma função dramática mais envolvente, e a atriz se mostrou bem disposta para com isso, então foi falha de segurança do diretor. Rita Assemany aparece pouco com sua Fátima, mas nas cenas que entra, comove com expressões belas e bem interessantes, além claro de ao estar num hospital público, serve também como crítica social de abandono não só da cultura que o filme acaba criticando, mas da saúde também, afinal é mostrado o desrespeito com o povo nas macas jogadas por todo hospital, e isso comove. Os demais apenas foram colocados com função de ligação com os personagens, mas poderiam ter feito menos caras e bocas nas expressões, de modo que nenhum médico de hospital teria toda aquela forma cênica de falar com as pessoas, então faltou um pouco de preparo aqui.

No conceito visual da trama, tudo é simples, mas de um bom gosto exemplar para retratar cada elemento como deveria ser. O drive-in está destruído, e mostra bem como foram os últimos dias desses cinemas que acabaram mais como motéis do que como exibidores de filmes mesmo, as pinturas, fios e tudo mais sem ser feita há anos, os projetores funcionando sem manutenção desde os primórdios quando foram comprados, e claro passando somente filmes que conseguiam emprestados com os amigos, ou seja, algo completamente triste para quem ama a arte em si, e tenho certeza que muitos que forem ver o filme e já foram nesses locais, ou até mesmo em cinemas de rua das antigas, vai se emocionar com tudo o que verá, afinal o trabalho da equipe de arte em mostrar elemento por elemento, foi maravilhoso. A fotografia trabalhou muito com planos abertos para valorizar o ambiente, e claro que usou muita luz falsa para dar um ganho de vida nas cenas noturnas dentro do drive-in, mas isso não atrapalhou em nada, dando ainda mais charme e beleza para com as sombras, colocando o modo tradicional de cinema novamente em pauta, ou seja, tenho certeza absoluta que muitos conhecidos irão amar o que vão ver.

Enfim, é um filme muito bem feito, emocionante, comovente e que embora não seja feito para a garotada atual que só gosta de efeitos e pancadaria, vai transportar os velhos amantes de cinema às boas épocas em que iam namorar nos cinemas vendo um bom filme, e claro também servirá para aqueles que não sabem como uma película é montada e projetada numa telona, vejam e deem valor ao mérito fácil que é hoje apenas dar o play num computador. Portanto acabo recomendando o filme para todos, afinal não é sempre que o cinema brasileiro nos entrega um longa tão bem feito, que se não tivesse os pequenos defeitos que citei acima, seria algo para ver e rever infinitas vezes, mas ao menos uma se torna obrigatório, então vá aos cinemas que estão passando, pois é um filme praticamente independente, então não deve ficar muito tempo nas salas dos cinemas em exibição de cada cidade. Bem é isso pessoal, encerro aqui minha semana cinematográfica com essas estreias que vieram para cá, mas a próxima começará bem mais cedo, então abraços e até breve.


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Exorcistas do Vaticano (The Vatican Tapes)

8/22/2015 01:49:00 AM |

Se existe um gênero que dá para ficarmos pensando no que leva um roteirista a imaginar as insanidades de uma história para que alguém compre, produza e distribua sua ideia é o tal do terror. Daí tivemos uma época que os longas do gênero só assustavam as pessoas, mas tinham histórias bobas, sem sentido algum, mas que faziam qualquer um com pinta de machão dormir de luz acesa e pular correndo ao ouvir qualquer barulho suspeito, mas passaram a reclamar da falta de originalidade, e que deviam melhorar as histórias, para que elas fossem mais críveis, ou ao menos embasada em coisas que já aconteceram realmente ou estão escritas em algum livro. Porém esqueceram de dizer nessas cobranças, que deveriam manter a forma assustadora, afinal mesmo que o filme tenha um conteúdo, se ele não arrepiar ou causar pânico nas pessoas, certamente elas irão esquecer tão rapidamente viram o filme no cinema. Disse tudo isso apenas para exemplificar o que ocorre com "Exorcistas do Vaticano" ou "The Vatican Tapes" (algo como os vídeos do Vaticano, que até justifica mais a história), pois o filme tem um conteúdo até que bem interessante, pautado em algumas passagens bíblicas, com uma certa dinâmica inicial bem documental, e claro que alguns absurdos para chamar atenção, mas faltou com o prato principal que o público que vai conferir esse estilo de filme espera: o famoso arrepio na espinha, o medo de algo irreal. E assim sendo, o filme até foi bem produzido, mas a aparência final após tudo o que rola, é a de que temos agora uma nova equipe de super-heróis do Vaticano que recrutada por um padre, ao estilo de Samuel L. Jackson, irá combater as forças do mal na continuação do filme.

O filme nos mostra que após cortar o dedo acidentalmente, a jovem Angela Holmes começa a ter um efeito devastador sobre as pessoas, provocando graves ferimentos e até mortes. O vigário da comunidade, Padre Lozano, examina Angela e acredita que ela está possuída. Mas quando o padre Imani e o cardeal Bruun chegam do Vaticano para exorcizar a garota, eles descobrem uma força satânica mais ancestral e poderosa do que poderiam imaginar.

É interessante observar que o roteiro criado por Chris Morgan, que ultimamente tem acertado bastante no gênero ação, vide "Velozes e Furiosos 7", e Christopher Borrelli estava pronto há muito tempo, e praticamente nenhum estúdio encontrava formas interessantes de produzir o filme, visto que a história era boa, mas necessitava de um diretor que desse o tom certo para a trama. E dessa maneira, volto a repetir que o problema do filme foi desenvolver melhor a história para que ficasse num tom mais assustador, ou partisse de vez para a ideologia de ação, meio como que disse acima, de super-heróis da Igreja contra as forças ocultas (se surgir algum filme com essa ideologia que estou falando, vou querer direitos), e visto que os roteiristas não possuíam qualquer experiência com o gênero de terror, é bem provável que a ideologia deles não era a de que fosse feito algo assustador realmente. Aí entra um estúdio maluco que pega a ideia e coloca nas mãos de um diretor que só fez filmes fora de tino como é Mark Neveldine, e o que ele faz, nada de obscuro, nenhum susto e muito menos desenvolver o longa como algo de ação envolvente. Claro que, deixando de lado alguns erros do diretor, sempre em seus filmes temos de vibrar muito com os ângulos de câmera que escolhe, afinal temos sequências bem interessantes tanto em "Gamer", quanto o que foi mostrado aqui, e nesse sentido, embora ele não crie nada muito além, podemos ver um cuidado em ser diferenciado. E assim sendo, uma história boa acabou não sendo aproveitada como deveria, e infelizmente, a ideia vai acabar sendo perdida.

No quesito atuação, o que podemos falar com muita certeza de todos é que nenhum ator colocou medo em suas expressões, de modo que o pavor ou até mesmo o desespero deixou florescer sequer uma pontinha do que qualquer um deveria demonstrar no estilo que o filme quis se encaixar, então só isso já caracteriza um enorme erro. Olivia Dudley trabalhou bem ao incorporar o demônio dentro de si de uma maneira bem interessante, e junto com a equipe de maquiagem acabou ficando bem estranha durante praticamente todo o filme, para que no final sua Angela estivesse linda para o fechamento, e isso é bem interessante de ver, pois nesse estilo de filme, costumam fazer exatamente o inverso, e assim sendo a atriz segurou bem as pontas para agradar ao desejo do roteiro. Michael Peña anda trabalhando bastante em Hollywood, e aqui mesmo que aparecendo pouco em cenas esporádicas, conseguiu chamar a atenção e caso exista uma continuação ele deve protagonizar mais, porém aqui ele fez de seu Padre Lozano um personagem sério demais, algo que não é comum de ver no seu estilo de atuar, mas como sempre é bem colocado, ele acabou agradando. Dougray Scott e John Patrick Amedori fizeram de Roger e Pete, apenas enfeites que circulam ao redor da protagonista como pai e namorado, mas não serviram nem para morrer com classe, então ficaram totalmente dispensáveis do filme. A médica interpretada por Kathleen Robertson ficou um pouco forçada demais e embora leve um cutucão dos bons da protagonista, não teve sequer muito a entregar e nem foi desenvolvida na trama como deveria, aparecendo do nada e fugindo do nada também, ou seja, faltou algo a mais para que valesse a pena sua participação. Peter Andersson aparentou estar mais endemoniado que a própria garota, e isso de certa forma ficou um pouco assustador, mas assim como aconteceu com a média, foi pouco apresentado a síntese de seu Bruun, já entrando diretamente na história sem que soubéssemos mais do que já fez, e acreditando apenas nas suas palavras, o que é algo ruim e difícil de acreditar. Para fechar sobre os atores, é engraçado ver as diferentes sinopses que colocaram Djimon Hounsou como protagonista na trama, mas o seu Padre Imani apenas ficou lá no Vaticano e aparentou que terá muito mais importância num segundo filme do que nesse mesmo, mas pode ser que tenham cortado cenas demais do original, então dessa forma apenas temos que dizer que ele ficou mesmo que pouco na tela, interessante de ver.

O visual da trama foi bem feito, com bons elementos cênicos, mas que precisava de um pouco mais para assustar e determinar o estilo, e mesmo com locações bem interessantes (o hospício foi o melhor), poderiam ter colocado mais símbolos obscuros nas cenas mais densas, para que não ficassem tão dependentes de um corvo e sua sombra somente. Claro que na cena do hospital psiquiátrico, o envolvimento dos personagens com os elementos cênicos foi bem interessante, mas poderiam ainda ter assustado com cenas mais repentinas que acabaria agradando mais. No conceito fotográfico, a cena do pôster é uma das melhores e mais bonitas feitas no cinema de terror, e mostra que a equipe estava pronta para trabalhar as sombras e luzes da melhor forma possível para agradar, mas não se esforçaram para isso, pois mesmo trabalhando com efeitos um pouco falsos, o filme acabou tendo bons tons e ficando bonito de se ver. Embora muitos irão reclamar do excesso de cenas com símbolos de câmeras (REC, Contador de minutos, e escritos no rodapé), o filme originalmente se chama vídeos do vaticano, então o uso faz sentido e deve ser respeitado.

Joseph Bishara já deve estar assombrado com o tanto de trilhas de filmes de terror que anda fazendo, e aqui não foi diferente o estilo que utilizou, agradando por permear sons e ritmos próprios tanto para preparar o público para determinada cena, como para dar a nuance das cenas mais calmas, e assim conseguir agradar bastante.

Enfim, é um filme que não é perfeito e faltou muito para agradar, mas no meu ver até saiu melhor do que o esperado, afinal um filme somente de sustos cansa, mas um filme com história boa para se trabalhar com sequências, mesmo que falhe no quesito assustar, ainda vale como um bom terror. Portanto quem gosta de longas de terror que contenha uma boa história, mas que não passe nenhum medo, esse vale completamente como dica. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas ainda falta uma estreia que veio para o interior para conferir, então abraços e até breve.


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