A Herança da Alta Mogiana

12/09/2015 01:23:00 AM |

Criticar algo nunca é fácil, mas é ainda mais difícil quando temos algum envolvimento! E falar do documentário "A Herança da Alta Mogiana" é algo que envolve amigos, e claro até a minha própria participação, afinal três dos curtas que produzi fizeram parte do trabalho de pesquisa do diretor que inclusive coproduziu comigo os três. E ver o nascimento, enfim desta gestação de praticamente três anos é algo que muito tenho o prazer de apertar a mão do diretor e dizer "enfim nasceu seu filho", pois o longa conseguiu trabalhar a cultura da região ao mostrar seis filmes do gênero western produzidos aqui, estruturar com produtores, diretores, atores as opiniões sobre o filme e como foi trabalhar neles, e mais do que isso, com a ajuda de dois escritores e historiadores compactuar uma análise completa de cada filme, o que foi extremamente assustador (ao menos nos meus filmes, pois eles captaram toda a essência somente vendo eles, e isso é o que tanto desejamos de um espectador!!!).

A sinopse, assim como toda sinopse de documentários é bem curta e mostra que o filme nos conta a história de seis produções westerns sendo cinco filmes e um clipe musical realizados os anos 1970 até 2011 nas cidades da região da Alta Mogiana. As cidades são Brodowski, Ribeirão Preto e Dourado.

Outro grande orgulho para esse Coelho que sempre vos digita é que o diretor Milton Martins está sendo o primeiro de nossa turma a lançar um longa-metragem, e principalmente dentro de um complexo de cinema! E sabemos o quanto uma produção independente no interior para conseguir isso é dificílimo, então mais uma vez dou os parabéns pela coragem, pesquisa e todo o trabalho que foi feito.

Mas, "amigos, amigos, negócios à parte" diria o famoso ditado, e dado os parabéns por toda a produção é necessário que eu seja também um pouco imparcial, como desejo quando alguém fale dos meus filmes para mim, e quando tive a oportunidade de ver o longa semi-pronto não senti exagerado a parte ficcional criada para interligar os filmes, pois fazia todo o sentido, e agradava bastante, mas hoje na exibição numa tela maior, acabei me incomodando pelos diversos momentos repetitivos de espera do protagonista Cássio Morais, a ligação com a revistinha, os quadrinhos tudo ficou bacana e bem encaixado, mas ao mesmo tempo que o protagonista fica impaciente, vendo as horas no relógio, levantando, sentando, folheando a revista, uma vez vai, duas vezes vai, na terceira já começou a ficar incômodo demais, e nas demais mesmo o trem passando não me conectava mais. Não digo que isso foi uma alternativa errada para ligar todos os filmes, a ideia foi boa, e afinal o que mais fizemos na época de nossa faculdade foi ficção, então coube bem no filme, mas repetiu demais e na telinha não cansou tanto a vista, mas no telão talvez só os quadrinhos e a narração fosse uma opção mais saudável, e o final passando a herança para o neto ficou bem bacana de ser vista!

No conceito de pesquisa, sou suspeito para falar, pois sempre gostei muito do estilo western, e ver não apenas os meus filmes ali, mas outros que tiveram a mesma sinergia e trabalho foi algo bem bacana de ver, claro que o Milton teve muito trabalho para editar toda a gagueira desse que vos digita sempre, mas até que saí bem na fita, ou melhor na tela. E o que mais ficou evidente em todos os depoimentos foi ver a paixão por falar com gosto, mesmo que não tendo ganho um real de cachê nos filmes que trabalharam, que fizeram seus filmes e possuem orgulho de mostrar para todo mundo, que um dia trabalhou no cinema. Ou seja, mais que uma herança da alta mogiana, o longa nos propicia lembranças, e uma felicidade incrível em tudo o que podemos ver mais para frente.

Bem é isso pessoal, tentei ser imparcial, mas minha conexão com o longa é maior do que com outros filmes, então recomendo que vejam o filme, ainda não tenho datas de reapresentações em outros cinemas, mas aqui neste link você pode comprar sua cópia do filme e conferir tudo no conforto de sua casa. Só não vou dar nota máxima para o filme pelo excesso que citei acima, mas tirando esse detalhe, mais do que recomendo ele. Fico por aqui hoje, mas volto na quinta com mais estreias da semana, então abraços e até breve.

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O Natal dos Cooper (Love the Coopers)

12/08/2015 12:59:00 AM |

Não lembro o último Natal que tivemos filmes natalinos (ao menos sendo lançado nas proximidades da data) por aqui, e um fato interessante e marcante sobre esse estilo de filme é o de sempre tentar colocar o espírito familiar em alta, boas lições de vida e tudo mais de uma forma bem feliz de assistir. Porém mesmo com alguns pontos desse em relevância (ao menos na parte final), o roteirista de "P.S. Eu Te Amo", resolveu fazer de uma forma bem dramática toda essa sinergia em "O Natal dos Cooper", trabalhando tantas histórias de uma mesma família que quase nem lembramos mais qual é a principal, e chegando ao ponto de desespero de necessitar narração em 90% da trama, algo que não agrada, pois é um recurso de quem não consegue conectar história com dinâmica, e dessa maneira mesmo tento alguns pontos sensacionais, que emocionam e agradam demais (principalmente nas cenas com Olivia Wilde que dariam um excelente filme à parte), o resultado é tão depressivo e confuso que não empolga quem for assistir esperando ao menos se divertir com a proposta natalina.

A história nos mostra que o Natal se aproxima e, como acontece em todos os anos, a família Cooper se prepara para a grande ceia na casa dos patriarcas Sam e Charlotte. Só que, em meio ao suposto clima festivo, o casal está prestes a se separar. Seus filhos Hank e Eleanor também enfrentam problemas, já que ele está desempregado e ela mantém um caso com um médico casado. Paralelamente, Emma tem dificuldade em lidar com a solidão e com a inveja que sente da irmã mais velha, Charlotte, enquanto que o pai delas, Bucky sente-se cada vez mais próximo de Ruby, a garçonete do restaurante que ele sempre frequenta.

Se só de ler a sinopse você já se confundiu com quem é quem, não pense que para por aí, pois além dessas histórias colocadas aí, tem ao menos mais umas cinco intermediárias que acabam tendo seu momento de destaque, ou seja, se tivessem feito uma mini-coletânea de curtas-metragem sobre o tema família no Natal, talvez o resultado seria mais impactante e o resultado melhor, mas tudo junto, literalmente parece como uma ceia natalina, aonde misturamos doces com salgados, bebidas de todos os tipos, conversas que nada se conectam, e certamente esse foi o pensamento do diretor Jessie Nelson para trabalhar o texto de Steven Roger na telona. Em momento algum posso falar que é um filme ruim, afinal consegue tirar algumas risadas dentro da proposta cômica e também consegue emocionar dentro da pitada melodramática que o filme se encaixa, mas falta um pouco de tudo e o excesso de personagens acaba cansando a dinâmica do longa sem enaltecer nenhum personagem, e isso não é gostoso de acompanhar, então o resultado acaba sendo bem mais fraco do que poderia ser.

Esse pôster que coloquei é bem melhor do que outro que vi, pois mesmo colocando todos os personagens em um único quadro, aqui aparentemente todos possuem algum valor, ao contrário do outro que até é mais fiel, pois dá valor ao grande nome que cada um do elenco tem, mas mostra que o que vai predominar na trama é a narração de Steve Martin (a qual você não verá no pôster, e quem for assistir ao longa entenderá o pôster para que eu não dê um spoiler gratuito). Não vou julgar a ótima narração de Martin, afinal sua entonação é ótima e conseguiu trabalhar todas as histórias de uma forma interessante, e também não vou me prender a cada personagem, senão teremos um texto quilométrico aqui, então vou preferir falar dos melhores da trama. Para iniciar, volto a repetir o filme poderia todo ser feito através do flerte entre Olivia Wilde e Jake Lacy através de seus papéis Eleanor e Joe, pois ambos criaram uma dinâmica tão gostosa de ver, com várias inflexões e sentimentos que a maioria que gosta de um bom romance vai ficar apaixonado pela ótima química que eles criaram, além claro da beleza de Olivia, então o destaque do filme claro que fica para eles. Logo na sequência, vem todo o charme e graça de June Squibb, que passei a admirar mais do que o normal após Nebraska, e aqui volta a encaixar um personagem marcante e bem interessante com sua Fishy, ou seja, a velhinha ainda dá muito pro gasto, aliás vi ela num seriado esses dias e agradou demais novamente com uma pequena ponta! Outra boa química se desenvolve entre Marisa Tomei e Anthony Mackie fazendo Emma e Williams, pois é o estilo de conversa que poucos acabam tendo de uma forma diferente para se conhecer, e ali dentro do carro, eles conseguiram agradar bastante com tudo que acabam fazendo. Embora possam parecer os protagonistas da trama, Diane Keaton e John Goodman apenas possuem momentos bem oscilantes com seus personagens Charlote e Sam, e isso não é algo que esperamos de dois grandes atores, então certamente a maior decepção foi não ver eles mais impactantes na trama. Alan Arkin e Amanda Seyfried até tentam formar um estilo curioso de casal, e até possuem um bom momento, mas são bem figurantes de luxo dentro da trama toda, e também não é algo que se espera dos dois.

No conceito artístico, a trama se conteve com o básico de longas natalinos, ou seja, um aeroporto lotado sem voos devido à neve, uma ceia familiar com muita comida bonita dentro de uma casa de apenas três cômodos para serem mostrados, com uma árvore enfeitada e tudo mais, um hospital (que foi algo inusitado, mas que caiu bem para fechar a ideia principal) também bem decorado no estilo natalino e claro um shopping, e muita neve por onde quer que a câmera passasse, ou seja, simples, correto e sem nenhuma novidade. E junto disso também uma fotografia sem oscilar nuances, trabalhando muito o vermelho afinal o clima natalino depende desse tom, e nada de umas sombras para criar tensão, nenhum ambiente mais animado para dar vida, fizeram o básico mesmo.

Enfim, é um filme que até poderia falar que vai passar milhares de vezes nessa época do ano na TV, mas o desânimo que o longa causa no contexto geral é tão grande que é capaz mesmo dele sumir da face da Terra, e somente quem realmente tiver muita vontade de ver ele, acabará vendo, ou seja, não dá para recomendar um filme assim, mas volto a afirmar que possui bons momentos, e quem sabe com um controle remoto ele melhore. Bem é isso pessoal, encerro aqui minha semana cinematográfica das estreias, hoje irei conferir um longa fora do circuito comercial de um amigo meu, e claro que virei comentar o que achei depois, mas na Quinta já reapareço com os longas que irão aparecer por aqui, então abraços e até breve.


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O Presente (The Gift)

12/05/2015 01:30:00 AM |

Costumo reclamar muito quando atores resolvem que não vão mais apenas atuar, mas escrevem um texto e também vão dirigir, por dois simples motivos: primeiro por ser um exagero uma pessoa querer fazer as três principais coisas de um filme (isso quando não produzem também e ficam com quatro funções, aqui foi um desses casos!) e segundo devido que não dá para ser bom em tantas coisas. Mas com "O Presente", o grande ator Joel Edgerton conseguiu entregar uma boa história, dirigir com primor criando a famosa pulguinha na orelha do espectador que sai da sessão querendo mais, produziu um filme bem trabalhado em locações e tudo mais, e até mesmo ao colocar seu personagem Gordo como um "secundário" acabou agradando nas expressões simples e que deixaram o papel curioso, ou seja, alguém botou as mangas de fora e trabalhou pra valer num terror/suspense de nível até que bem bacana.

O longa nos mostra que Gordon nunca foi popular na escola e era conhecido como Gordo, o Esquisito. Ele reencontra um colega da época, Simon, e começa a lhe enviar presentes, aparentemente enigmáticos. Logo, Simon e sua esposa, Robyn, se sentem ameaçados com a presença de Gordo, que simplesmente não esquece o passado e faz de tudo para Simon também não esquecer.

A história que foi criada não é algo que digamos assustadora ou forte o suficiente para deixar o público horrorizado com o que é mostrado, mas a situação de terror em si é algo impactante que acaba deixando você agoniado com todas as possibilidades. Claro que em alguns momentos ocorrem sustos repentinos de bater mais forte o coração, mas bem mais do que um longa cheio de sangue, espíritos e situações grotescas, aqui o que o diretor e roteirista Joel Edgerton quis fazer foi trabalhar com um terror bem mais palpável e que se "bem" feito aterroriza a vida de muita gente, que é o bullying, a mentira e a vingança, ou seja, algo que caso ocorra nenhum pastor, padre ou qualquer outro tipo pode salvar a pessoa, e isso é o grande acerto da trama. Já tivemos outros filmes desse estilo, então não podemos parabenizar o estreante pela originalidade, mas podemos sim pelo fato de conseguir trazer a realidade para algo mais atual e que muitos sofrem quase que diariamente com isso, e de um modo bem amarrado o filme nos convence e acabamos mudando a torcida no meio do jogo para aí sim o longa esquentar, pois até a metade do filme a chance de que muitos fiquem cansados com a dramaticidade bem leve é bem alta. Claro que Edgerton que já foi dirigido por grandes mestres do cinema conhece muito bons ângulos de filmagem, e sabe aonde deve forçar a mão para capturar o público, e dessa forma sua mão mesmo sendo o primeiro longa veio bem calibrada para não cometer gafes.

No quesito atuação, Jason Bateman sempre foi um ator bem expressivo, e aqui ele trabalhou diversos momentos de uma forma tão enigmática, trabalhando bem cada interpretação, que assim como sua esposa disse em determinado momento do filme não conseguimos saber quem ele realmente é, e dessa maneira seu Simon acaba saindo perfeito, ou seja, já pode começar a esquecer um pouco as comédias e trabalhar em outras áreas. Rebecca Hall sempre oscila demais em seus personagens e muitas vezes não consegue empolgar, aqui sua Robyn parece meio perturbada, e não sabemos se é falta de uma pegada melhor do diretor ou se ela trabalhou o papel de uma maneira que parecesse dopada demais por remédios antes da mudança, e assim o resultado expressivo não agrada tanto quanto deveria. E claro que temos de falar da atuação do diretor, e Joel Edgerton entregou uma personalidade ímpar para o seu Gordo, deixando ele tanto misterioso quanto assustador em algumas cenas, e dessa maneira acabou acertando ao ser coadjuvante e entrar somente em cenas que fossem cruciais para a trama, e assim cada cena sua era um misto de nervosismo com curiosidade. Os demais podemos chamar de enfeites de cena, pois praticamente nada do que falaram teve alguma boa importância, ou seja, o foco mesmo ficou entre os três protagonistas.

A trama praticamente toda ocorre dentro da casa dos protagonistas e claro que como todo bom filme de terror/suspense com assaltantes/assassinos, é quase que inteira feita de paredes de vidro, para que possamos ficar vendo as pessoas do lado de fora e não ter como se esconder, esse acerto foi algo muito bem bacana, pois tradicionalmente se o cara aparecesse em uma casa normal, fingiríamos não ter ninguém em casa e a pessoa iria embora, mas não aqui você tem de abrir a porta sempre, afinal a pessoa te vê lá de fora, portanto jamais construa uma casa com paredes de vidro! E claro que a equipe de produção liderada por Jason Blum que é especialista em longas de terror, acertou em colocar diversos elementos marcantes para deixar a tensão correr solta, fazendo barulhos virarem elementos cênicos, sombras e tudo mais possível para que o filme se conectasse com o espectador, e o destaque claro fica para o sonho. A fotografia usou de fumaça de banho, luzes baixas e claro sombras para criar efeitos sombrios e diluir a tensão até o momento em que o suspense era revelado para assustar ou trabalhar ainda mais a trama, de modo que poderiam até colocar mais impacto em algumas cenas, mas o resultado geral agrada bastante.

Enfim, certamente não é o melhor filme de terror/suspense que já vimos, mas foi uma excelente estreia de Edgerton na direção e no roteiro, e o longa consegue atingir bons resultados de tensão, que é algo que podemos medir para ver se um filme desse gênero é convincente. Claro que temos muitas daquelas situações improváveis que alguém faça, e isso é algo que precisam mudar, afinal é cliché demais, mas não incomoda tanto. Portanto é um filme que quem gosta do estilo vai acabar gostando e vale ser recomendado. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto na segunda com mais posts por aqui, então abraços e até breve.


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Quarto de Guerra (War Room)

12/04/2015 01:10:00 AM |

Bem meus amigos, como disse esses dias em outro post de longa religioso, esse estilo de filme, o cristão, tem crescido monstruosamente nos Estados Unidos, tendo diversas produtoras criando seus estilos e já há inclusive um sindicato de artistas somente para atores desse gênero, mas temos de convir que assim como diz o ditado "que nem tudo que reluz é ouro", nem tudo o que passa nos cinemas é filme! Dito isso, é claro que a proposta de "Quarto de Guerra" é boa, tem momentos comoventes, e uma produção de um bom nível, mas acabaram transformando a proposta de um filme sobre família e relações em uma pregação sem limites, extremamente gritada na versão dublada (afinal só vieram cópias dubladas para o Brasil, o que faz parecer que pessoas religiosas só sabem ler a Bíblia), e que acabou parecendo aqueles cultos que parecem brigas do pastor com as pessoas. Ou seja, está longe de ser um filme realmente falando, e isso é algo que me desanima demais, pois ultimamente vi vários outros bons que surgiram por aqui, e mesmo vindo dublado agradavam sempre, faziam as pessoas nas sessões rezarem e se emocionarem, mas aqui muitos saiam e voltavam da sala, outros foram embora antes mesmo dos créditos, de maneira que não está empolgando e somente quem gostar muito de cultos gritados vai acabar gostando do que verá na tela.

A sinopse nos diz que o casamento de Elizabeth Jordan está em crise. A mulher teme a separação e a forma como a filha do casal reagiria a essa situação. Elizabeth é corretora de imóveis e conhece uma senhora que lhe mostra um cômodo que ela batizou de quarto de guerra. É nesse lugar que ela cola na parede diversas orações, mostrando à Elizabeth o grande poder da oração para ajudar em vários setores da vida, encorajando Elizabeth a lutar por seu casamento.

É interessante ver que o diretor Alex Kendrick não é inexperiente nesse ramo, tendo diversos outros longas religiosos e praticamente todos grandes sucessos de público lá fora. Não posso dizer que todos são dessa maneira, pois é seu primeiro que aparece por aqui nos cinemas (friso isso, pois como todos aqui sabem 99% dos filmes só vejo no cinema), e infelizmente ele passou bem longe do aceitável limiar entre pregação de culto e conscientização religiosa cabível dentro de uma trama cinematográfica, pois podemos colocar pitadas interessantes de determinada religião dentro de um filme, que isso acabará comovendo os espectadores à procurar sua fé, mas não podemos forçar que a pessoa comum que vá ver um longa fique assustado com tudo o que é mostrado no longa. Seu estilo de dirigir, acaba funcionando da mesma forma que colocou no roteiro, ou seja, simples, eficiente no objetivo que queria atingir e com ângulos até com dinâmica boa de ver, mas a cada cena que entrava a pregação, todo o conceito de cinema ia por água abaixo e infelizmente não é isso que buscamos numa boa sessão dentro do cinema.

No conceito da atuação, colocaram a professora e escritora Priscilla Shirer para estrear logo de cara como a protagonista Liz, e ela até tentou trabalhar bem nas suas expressões, encontrou bom domínio das palavras nas cenas que exigiu diálogos dela, mas infelizmente ela não convence como uma atriz mesmo conseguiria fazer, e isso é algo que alguns diretores não entendem que se querem dar oportunidades tudo bem, mas não coloque a pessoa logo de cara sem nunca ter feito nada de atuação para ser a cara de seu filme, claro que ela está longe de algumas atuações péssimas que temos no cinema, mas não chama a responsabilidade para si em momento algum, e isso é um erro. Até mesmo a jovem estreante Alena Pitts tentou ser mais expressiva que Priscila ao fazer sua jovem Danielle, mas diversos momentos seus, a garotinha aparentava estar perdida em cena, fazendo no máximo algo que haviam lhe pedido, mas sem saber para onde ir logo depois de falar algo, e isso é estranho de se ver na tela. Quem tenta salvar o longa em diversos momentos é T.C. Stallings que por já ter feito diversos outros longas religiosos já almeja um currículo invejável dentro da produção ao fazer de seu Tony um personagem cheio de expressividade e disposto a trazer o filme para si, mas infelizmente dentro do texto, seu personagem era o objetivo a ser melhorado e não alguém que determinaria a trama, então suas cenas foram boas, mas precisaria ter mais dele para que o filme decolasse. Agora a grande responsável pela gritaria toda do filme, ao menos na versão dublada (quem conseguir ver o filme legendado, por favor fale se também é o mesmo berreiro) é Karen Abercrombie, que fez de sua Clara, uma senhora com expressões fortes e que em alguns momentos até diverte com suas dancinhas, mas acaba gritando demais e pela quantidade de filmes religiosos no currículo poderia ter feito algo mais sofisticado e interessante na frente da tela. Os demais são mais enfeites ainda, tendo uma ou outra cena falada que encaixe na trama, mas nada a ser destacado.

Quanto da cenografia, escolheram bem as casas para as locações, fazendo parecer que toda a casa americana possui um closet minúsculo que cabe somente uma cadeira para oração, e o restante da casa, mesmo a protagonista sendo uma corretora de imóveis, não importa para nada. Claro que isso ajuda bastante a economizar no orçamento da direção de arte, mas ao invés das cenas mais elaboradas nos escritórios farmacêuticos que poderiam ser resolvidas em escritórios simples, não trabalharam mais para que as mansões ficassem mais realistas por dentro do que apenas na imagem de fora, e claro que apenas papéis pregados na parede não fazem algo memorável num quarto de oração, e poderiam ter trabalhado mais com o lance da Bíblia em si, mas como tudo aqui foi singelo, vamos considerar que a produção cênica acabou sendo enxuta e simples para não ostentar nada. Quanto da fotografia, ainda vou arrumar um iluminador que faça um closet tão pequeno iluminado mais do que uma cena na rua, pois isso é erro técnico dos mais simples de se ver numa edição e que dá para ser corrigido, mesmo que tenha atrapalhado tudo, então não colou os tons escolhidos e certamente não dava para arrumar depois na finalização, ou seja, não deu certo a direção de fotografia para termos sequer uma cena cativante visualmente.

Bem pessoal, antes que venham me atacar, já frisei isso em outro post de longa religioso e volto a falar, não tenho fixação por qualquer religião, acredito e muito em um Deus, ou força espiritual maior e que todos devam ter muita fé naquilo que crê, para isso até dirigi um curta metragem que você pode ver nesse link, e portanto como crítico que vê tudo que sai no cinema já vi longas espíritas, longas evangélicos, de umbanda e do que mais aparecer, e acredito que cada filme tem sim seu público alvo determinado, mas bem antes disso ao ser lançado numa rede de cinemas, o longa deva ter consistência de filme e poder levar uma mensagem para todos os que forem assistir, o que acabou não ocorrendo aqui. Dessa forma, se você não for uma pessoa dessas que frequenta cultos gritados, não entre mesmo numa sessão desse filme, pois a chance de incomodar-se com o que verá é altíssima, não chegando nem aos pés dos outros filmes do gênero, mas como disse no começo, não posso nem considerar esse como filme mesmo, então não recomendo ele para ninguém. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas ainda faltam dois longas nessa semana para conferir, então abraços e até breve.

PS: A nota será em função da boa produção cênica e pela dinâmica familiar bem bacana na competição de pular cordas, pois acredito que se o filme tivesse focado mais nisso, e no relacionamento religioso da família, seria um longa lindo e que traria a mesma mensagem, sem precisar da cena final de gritaria.

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No Coração do Mar em 3D (In the Heart of the Sea)

12/03/2015 03:15:00 AM |

Bem meus amigos, o ano já está entrando no seu último mês, e ainda faltava aquele gostinho que tanto me perguntam: "Será que vai ter algum filme que valha a pena ver em 3D?", e esse ano, até a presente data tínhamos 29 longas lançados com a tecnologia, e tendo uma cena aqui bem feita, outra ali, mas um faltava mais história, outro alguma melhor atuação, e eis que aos 45 minutos do segundo tempo (ainda pode haver o gol nos acréscimos dia 18, mas falaremos melhor quando chegar a data) temos o melhor 3D com história do ano num filme denso, tenso e incrível com boas nuances, interpretações e uma direção incrível que Ron Howard nos entregou em "No Coração do Mar", ou seja, um filme que quem tiver fobia de água pode sair até afogado com as cenas, e quem não tiver certamente irá curtir muito a história do livro que mostra o dia a dia do navio Essex e simula como Herman Melville escreveu seu livro "Moby Dick". Claro que o filme tem algumas partes com histórias demais que dão uma leve cansada no miolo, mas a maior parte é tão sensacional que apagamos elas fácil da mente.

O longa nos mostra que no inverno de 1820, o barco baleeiro de New England (EUA) Essex foi atacado por algo em que ninguém podia acreditar: uma baleia de imenso tamanho e determinação, e um sentido de vingança quase humano. O desastre marítimo que ocorreu na vida real inspiraria Melville a escrever Moby Dick. Entretanto, o livro contou apenas metade da história. "No Coração do Mar" revela as terríveis consequências do encontro, à medida que a tripulação sobrevivente do barco é levada aos seus limites e forçada a fazer o impensável para permanecer viva. Enfrentando tempestades, fome, pânico e desespero, os homens serão levados a questionar suas crenças mais profundas, do valor de suas vidas à moralidade de sua atividade, enquanto seu Capitão busca orientação no mar aberto e seu Imediato ainda tenta derrotar a grande baleia.

É interessante observar que muitos vão olhar a história como algo 100% ficcional, mas o livro em que a trama é baseada não é "Moby Dick" de Melville, mas sim o livro homônimo da história de Nathaniel Philbrick, o qual conta a história de sobreviventes de um caso real de uma embarcação atacada por uma baleia branca aonde tiveram de fazer praticamente tudo o que é mostrado no filme para sobreviverem, e claro que junto à isso o mito foi criado e colocaram a personificação de Melville para dar uma criatividade na criação de seu imenso livro. Toda essa montagem criativa do roteiro é algo que uma equipe de roteiristas teve todo o cuidado para que dois livros enormes não ficassem monótonos na tela e absurdo demais para que empolgasse a imaginação das pessoas, e felizmente conseguiram trabalhar toda essa fantasia realística de uma maneira ousada e que o diretor Ron Howard("Rush: No Limite da Emoção", "Uma Mente Brilhante", "Apollo 13", entre outros) pode trabalhar planos bem dinâmicos, aonde o público quase que adentra a tela através da tecnologia e fica junto com os protagonistas nas melhores cenas de ação possíveis, desenvolvendo tanto a parte histórica e dura da trama, quanto a parte mais cheia de movimentos de câmera para que o longa ficasse repleto de ação, ou seja, uma junção completa de diversões. É interessante observarmos que a ousadia foi algo predominante nos ângulos de câmera, pois tivemos posições de todas as maneiras possíveis para criar vertigem, imersão, outrora profundidade colocando a câmera através de vidros, e a cada plano víamos quase que uma novidade de observações para fazer, o que condiz com as grandes obras adaptadas.

O longa está repleto de grandes estrelas no elenco, e felizmente todos deram o máximo para que seus personagens ficassem dentro do contexto da trama e empolgassem com suas cenas, além claro da grande preparação que tiveram de fazer para as cenas em deriva, aonde fizeram uma dieta básica de apenas 600 calorias, ficando todos bem magrinhos. Chris Hemsworth conseguiu não incorporar o Thor e entregou um Owen cheio de personalidade e com um carisma incrível tanto para o personagem que narra toda a trama, quanto para o público, e isso é algo bem interessante, pois se olharmos à fundo a gênese do personagem e sua cena inicial bem dura com a esposa, certamente criaria um antipatismo geral, o que acabou não acontecendo, e ainda assim em sua cena "romântica" com a baleia trouxe um simbolismo incrível para que o filme ficasse ainda mais bonito. O personagem Thomas Nickerson é interpretado muito bem em suas duas épocas, quando velho por Brendan Gleeson que conseguiu emocionar e criar ótimas dinâmicas com seu tom de voz (volto a pontuar aqui que sempre veja um longa legendado para ouvir as nuances que o ator tanto trabalha) e quando jovem pelo brilhante Tom Holland que já havia nos emocionado no longa "O Impossível" e aqui criou personalidade para o jovem marujo e foi brilhante em diversas cenas que exigiram sua interação com os demais protagonistas, destaque claro para suas duas últimas no bote e de despedida com Owen. Benjamin Walker pontuou de forma marcante toda a inexperiência do capitão Pollard usando semblantes enigmáticos e brigando com os momentos aonde precisou impor respeito, ou seja, trabalhou opostos quase que ao mesmo tempo, mostrando que quer apagar algumas besteiras de longas passados, que falaram que ele não sabia atuar. Ben Wishaw deve estar devendo impostos nos EUA, pois estão lançando um filme atrás do outro com participações grandes suas, primeiro foi "007 Contra Spectre" com seu Q, e agora interpretando o escritor Melville soube agradar nas formas de questionamento e sempre mostrando-se bem interessado para com a história que estavam lhe contando criou perspectivas bem favoráveis para o personagem. A trama ainda conta com outros excelentes atores que agradaram bastante em suas cenas, Cillian Murphy com seu Matthew Joy trabalhou um lado mais sério e impactante, além claro de sua última cena na ilha ser emocionante, Paul Anderson trabalhou bem o seu Chappel e deu algumas dinâmicas bacanas, Frank Dillane conseguiu ser aquele personagem chato que tanto torcemos pela morte ao fazer seu Coffin bem arrogante e presunçoso, entre outros, ou seja, um elenco pronto para o combate que não deixou a responsabilidade de lado em nenhuma cena.

Claro que muita coisa é falsa e feita digitalmente, afinal botar um elenco monstruoso desse para se aventurar no mar da forma que ocorre no longa seria um ato de completa insanidade do diretor, mas tudo foi cenograficamente tão bem feito que agrada demais no conceito cênico, tendo bons elementos marcantes à cada novo plano, o navio possui uma pompa incrível digna da época em que se passa a trama, figurinos impecáveis e claro que um trabalho digital maravilhoso para compor as cenas de tormenta no mar. Certamente esse será mais um longa que vai valer ver cenas de making of, pois o processo todo deve ter sido bem divertido e trabalhoso para a equipe de arte. Agora outra turma que certamente teve muito trabalho foi a equipe de fotografia, pois tanto trabalhar com cenografia digital, quanto iluminar(ou melhor rebater e tirar luz do sol) em cenas que envolvam água é algo extremamente difícil. Agora vamos falar do que toda vez me perguntam, se vale a pena pagar mais caro para ver em 3D? Sim, vale muito, pois claro que o efeito não foi usado no longa inteiro, mas nas cenas que foram colocadas é de uma maneira tão impressionante que chega a ser chocante, dando vertigem, sentindo falta de ar com água vindo de todos os lados, cordas passando do seu lado, personagens focados em ângulos para que o público aparente estar sentado do lado, ou seja, um deslumbre completo, que certamente visto nas salas maiores dos cinemas vai impressionar bastante, no meu caso vi na sala Imax, que deu uma profundidade melhor ainda.

Enfim, um filmaço, que agrada demais e certamente tem de ser recomendado para todos. Ele possui defeitos, o principal é alguns pontos do miolo lentos e que não empolgam tanto, mas que são bem compensados nas cenas seguintes, ou seja, vai passar até despercebido. O filme em si não é longuíssimo, possuindo apenas 121 minutos, mas devido à esse probleminha do miolo, aparenta ser um pouco maior. Mas ainda assim, volto a repetir o que disse no Facebook e no início do texto, que certamente não é o melhor filme do ano, mas no quesito 3D, mesmo "Star Wars" vindo por aí, ainda acho que essa será a melhor experiência na tecnologia. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, agradecendo o pessoal da Difusora FM 91,3Mhz pela excelente pré-estreia que lotou uma das maiores salas da região, no caso a sala Imax do UCI Ribeirão Shopping, e certamente empolgou muito à todos. Apenas está começando essa semana cinematográfica e ainda voltarei com muitos outros posts, então abraços e até breve.


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Bem Casados

12/01/2015 01:46:00 AM |

Bem amigos, se vocês ainda não possuem o dom de adivinhar o desenrolar de um filme nacional somente com um pôster e um trailer, depois de ver esse aqui acho difícil quem vai errar. Não digo isso por "Bem Casados" ser um filme bem simples, mas não quiseram ousar em nada e acabaram fazendo um longa quase que homenagem para as produtoras de vídeos de casamento. Claro que existe romance, algumas pitadas bem leves de comicidade e até a tentativa de dramatizar polemizando com política e programas de cunho social, mas o filme não empolga para nenhum lado e tudo o que era previsto logo vendo as primeiras cenas do trailer mesmo acaba sendo concluído com o final da trama, ou seja, fizeram algo bonitinho mas que não chega a lugar algum, o que é uma pena, pois tanto as produtoras de vídeos mereciam uma homenagem melhor, quanto o estilo proposto não tão novelesco agradaria muito se melhor roteirizado e dirigido.

A sinopse do longa nos revela que Heitor é um solteirão convicto que ganha a vida filmando festas de casamento. Durante os preparativos para cobrir mais um casamento ele conhece Penélope, uma mulher sensual e independente que está determinada a acabar com a festa antes mesmo que ela comece. A missão de Heitor é garantir que o casamento saia exatamente como os noivos querem. Já para Penélope, a cerimônia é a oportunidade perfeita para executar o seu plano. Juntos, essa dupla surpreendente, e um tanto atrapalhada, dará aos noivos muito mais emoção do que eles jamais imaginaram. Afinal, bem casados só os doces.

O texto de Fernando São Tiago é simples, mas cheio de frases bem interessantes, que poderiam ter sido mais desenvolvidas na trama, e claro, poderia ter um conflito mais forte para que o romance não ficasse simples também. Todos gostamos de romances que dão certo, e até mesmo o estilo de fechamento não ser o que todos esperavam (ao menos na fala) foi bem condizente com a trama, mas poderia existir mais dinâmicas conflitivas para que o longa não ficasse tão morno, mas isso não é culpa somente do roteiro, pois o diretor Aluizio Abranches não é tão novato em produções e certamente poderia ter dado algumas reviravoltas na trama que acabariam sim levando para o rumo final, mas que no miolo empolgasse mais. Em momento algum posso falar que o filme é ruim, ele é bem produzido, tem boas perspectivas, mas é simples demais, e quem for esperando se divertir, rir bastante e até os que forem esperando alguma forma de comoção vai acabar saindo decepcionado com a trama, e somente quem realmente for querendo ver uma homenagem para as equipes de vídeos de casamento talvez saia mais contente com o que verá, o que é uma pena, pois potencial e bons atores, a trama tinha com toda certeza.

No quesito atuação, Camila Morgado mostra que até tem um bom tino para a comédia ao dar uma versatilidade interessante para sua Penélope, mas certamente ainda vamos preferir ela fazendo dramas, pois aqui ela trabalhou bem, mas não deu o seu máximo que tanto adoramos, de modo que fez boas cenas divertidas e que até nos esboçavam sorrisos, mas faltou aquele tchan a mais que faz gargalhar, e assim sua beleza somente não diverte, então esperaremos um novo longa dramático seu para aí sim nos emocionar com o que ela faz de melhor. Alexandre Borges por sua vez já está bem mais acostumado com personagens descontraídos, e seu Heitor foi algo bem bacana de ver na tela, mas que faltou um pouco chamar mais a responsabilidade da trama para si, pois sendo o protagonista do filme, a dinâmica deveria ficar toda a seu cargo, e aqui em diversos momentos mesmo estando à frente da cena, os demais acabavam passando o texto com mais impacto que o que ele estava fazendo, isso não é errado, mas não é comum de ver acontecer com grandes atores, e ele certamente é um dos bons, porém isso não atrapalhou seu charme e claro que muitas mulheres ainda verão o filme por causa dele. Bianca Comparato é uma atriz interessante, que vem crescendo nos papeis do cinema, mas que ainda é mais conhecida nas novelas, e aqui embora o papel de sua Alice não seja algo incrível de ver, suas nuances são as melhores frente aos demais do elenco e certamente isso lhe deve trazer mais bons papeis e ela ainda chamar mais atenção, destaque para sua cena no bouquet. E para finalizar o elenco principal, eis que o roteirista também entra em cena, e Fernando São Thiago que aparece do nada na cena do chá de panelas, também entra para a equipe como Fernando, e ele podia ter se dado ao luxo de algumas cenas a mais de destaque, afinal ele que escreveu o texto, mas preferiu manter a humildade e foi bem de mansinho aparecendo aqui e ali para que com suavidade fizesse um dos papeis mais meigos da trama, sendo cavalheiro e agradando no que fez, claro que é coadjuvante máximo com poucas falas, mas agradou bastante nas expressões.

No conceito visual, como disse acima o longa foi muito bem produzido, então tivemos festas de casamentos com toda a pompa necessária para chamar atenção, e mais do que isso, os ângulos escolhidos foram bem trabalhos para que o cenário todo não necessitasse ser decorado, e dessa maneira fizeram mais coisas sem que prejudicasse a arte do longa, acertando a mão em cheio, além claro de mostrar que a maioria das produtoras funcionam em lugares minúsculos, mas sempre com um charme bacana de ver, ou seja, certamente muitos da equipe de arte já trabalharam com vídeos de casamento e conhecem bem o meio para não errar em nada. A fotografia da trama também ficou bem bonita de ver, com iluminações diferenciadas para dar o tom das festas e sempre procurando trabalhar com cores neutras para dar suavidade na trama, porém poderiam ter usado alguns tons mais fortes para acentuar a comicidade da trama, mas isso é apenas um detalhe, já que necessitaria mudanças no roteiro e na direção antes da iluminação. Agora um detalhe que sempre incomoda, sei que conseguir patrocinadores para um filme é algo que é extremamente difícil, mas forçar aparições é algo que não tem como perdoar, e aqui os dois patrocinadores aparecem em cenas que não fazem nenhum contexto com o roteiro e certamente foram criadas somente para mostrar a logo deles, ou seja, dá uma desconexão total na trama.

Enfim, é um filme que até é possível perder algumas horinhas assistindo, mas que de longe não promete empolgar a grande maioria de público, vamos ver quando realmente for lançado na próxima quinta-feira, pois hoje em dia de cinema mais barato, a sessão de pré-estreia estava bem vazia, e as pessoas que estavam na sala também não expressaram grande diversão. Como muitos já foram a casamentos, ou conhecem equipes de casamento vai ser uma atividade legal comparar os personagens da trama com os conhecidos, e só por isso já deve valer o ingresso, mas quem estiver desejando uma comédia para mijar de rir ou um romance para se emocionar, certamente esse não é a opção mais correta. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, volto na quarta com mais uma pré que irei conferir, então abraços e até breve.

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Sabor da Vida (An)

11/30/2015 01:29:00 AM |

Tudo bem que a comida feita no longa não tem cara de ser algo gostoso, mas certamente o preconceito de ver uma senhora cozinhando com uma mão não muito bonita vai ser algo que vai dominar as discussões frente ao sabor do doce estranho de feijão. E é bem isso a proposta do longa "Sabor da Vida", discutir todo tipo de preconceito e trabalhar bem mostrando de uma forma meiga que o preconceito por qualquer coisa só amarga o sabor da nossa vida. E a cada novo dia que é passado na trama, ficamos mais cativados com tudo, e mais conectados com a velhinha da trama, e mesmo que por algum momento você saia preconceituoso com algo do longa, você certamente vai se emocionar com o final da trama.

O longa nos mostra que Sentaro dirige uma pequena padaria que serve dorayakis - panquecas recheadas com pasta de feijão vermelho doce. Quando uma senhora de idade, Tokue, se oferece para ajudar na cozinha, ele relutantemente aceita. Mas Tokue prova ter um toque de mágica quando se trata de fazer “an”. Graças à sua receita secreta, o pequeno negócio logo floresce e com o tempo, Sentaro e Tokue abrem seus corações para revelar velhas feridas.

Se praticamente um ano atrás eu estava somente reclamando do que a diretora Naomi Kawase tinha feito com "O Segredo das Águas", hoje sinceramente ela conseguiu meu respeito por seu trabalho, pois certamente o livro de Durian Sukegawa deve ser duríssimo ao inserir todo o preconceito que pessoas com hanseníase sofre e para impactar isso em um texto a dureza tem de vir com tudo, e ela pegou o livro e adaptou em algo tão simbólico e lindo que qualquer elemento mostrado acaba tendo um simbolismo tão mágico que é difícil você não emocionar e se prender a trama. A diretora foi concisa em todos os momentos, deixando os detalhes para cada olhar e sentimento expressado pelos personagens, de modo que ficamos comovidos e apaixonados pelo estilo de sua câmera com ângulos bem fechados, afinal as locações são pequenas, mas quando tem oportunidade para mostrar a vida da natureza (algo que ela adora retratar em todos os seus longas), ela abre a lente e a beleza das cerejeiras dominam o ambiente e agradam demais.

Falar das atuações de japoneses é algo sempre muito difícil, pois eles são muito centrados e seu estilo de expressão é algo completamente diferente do que estamos acostumados, mas isso não impede de ver a comoção de todos em cena. Masatoshi Nagase entrega um Sentaro que logo de cara vemos que tem muitos problemas e mesmo que demore para nos ser falado qual o seu real problema, já ficamos com a pulga atrás da orelha pela forma que conduz tudo, e seu jeito bem rígido frente às emoções, quando desabrocha é algo que não temos como não cair junto com ele, ou seja, um ator que mostrou muito bem quem é e o que sabe fazer. Kirin Kiki é uma graça total, e sua Tokue é incrível de modo que ela não foi falsa em momento algum, envolvendo cada espectador com sua singela e calma forma de atuar, e a cada cena mais estávamos conectados com sua presença, e mesmo depois de saber seu problema, ficamos ainda do seu lado, e quando desaparece de cena é algo triste demais de se pensar, ou seja, incrível. A personagem Wakana de Kyara Uchida inicialmente parece meio fora da proposta do longa, mas ela vai trabalhando bem e acabamos nos afeiçoando a ela para que no encerramento da trama seu trabalho seja bem visto, ou seja, é daqueles atores que são jogados metade do filme para que feche bem a trama, e ela agradou dessa forma.

No conceito artístico, a trama trabalhou bem tanto nos elementos cênicos mais simples e que foram colocados para representar cada situação e cada reviravolta, como na cenografia completa ao mostrar o ambiente todo em que tanto os leprosos estão separados e vivem sua vida, como a beleza dos parques da cidade com suas árvores extremamente floridas, ou seja, boas escolhas para simbolizar tudo. A equipe de fotografia trabalhou com poucas sombras, e deu um ar mais duro para a maioria das cenas, liberando somente algumas cores fora do tom escuro nas cenas com árvores, e isso é algo estranho de olhar, pois mesmo o ambiente da padaria sendo forte, poderiam ter amenizado em algumas cenas, mas no geral agrada bem.

Enfim, é um filme que vai agradar bastante, mas que muitos podem estranhar, afinal o estilo japonês de fazer dramas não é algo comum de vermos por aqui. O longa trabalha um tema duro de maneira bem sútil, então deve comover à todos que forem dispostos a embarcar na trama, e dessa maneira acabo recomendando ele para todos. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, praticamente encerrando a semana cinematográfica, mas nesta segunda mesmo já começo com as prés da próxima semana, então abraços e até breve.


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Visita ou Memórias e Confissões

11/29/2015 09:50:00 PM |

Vou ser curto no texto não pelo filme ser ruim, muito pelo contrário, "Visita ou Memórias e Confissões" é excelente, mas não há palavras que possa descrever esse misto de documentário com literatura. Digo isso, pois é quase como se estivéssemos lendo um livro sobre a casa que Manoel de Oliveira viveu por mais de 40 anos, e contado de uma maneira tão cheia de referências ao desaparecimento do personagem, no caso do próprio diretor, o longa acaba funcionando como um biografia póstuma criada por ele ainda em vida. E com uma grande expertise por parte dele, filmou em 84, e pediu que fosse lançado somente após sua morte, o que ocorreu neste ano, e facilmente seria um filme feito de homenagem para com todo seu estilo, trabalhando bem referências simbólicas da casa, no melhor estilo literário possível.

O longa nos mostra que um casal encontra uma casa aparentemente vazia no campo e, ao entrar nela, passa a explorar os cômodos do local. Em determinados momentos surge em cena o próprio diretor, Manoel de Oliveira, que explica o porquê de estar se mudando daquela casa, onde viveu por mais de 40 anos, e ainda faz um retrato de sua vida e carreira.

Logo de cara o diretor fala em off para a belíssima cenografia que o que veremos é um filme de Manoel de Oliveira sobre Manoel de Oliveira, ou melhor, sobre uma casa, e que até poderia ser considerado como algo egocêntrico demais, mas logo vemos que após atenderem seu pedido de lançar o filme somente após sua morte, o resultado é incrível, pois através da arquitetura maravilhosa da casa, junto com o texto magistral que é contado durante toda a exibição, com as devidas pausas para que o diretor fale também, tudo acaba se conectando e ficando incrível de conhecer um pouco da vida desse diretor que produziu até a beira de sua morte com 106 anos, e isso não é para qualquer um.

Então podemos dizer que foi uma grande sacada, de não precisar que outros fizessem um filme sobre sua vida, e muito menos contasse coisas que ele não quisesse contar, e para isso fez tudo com uma leveza ímpar e cenograficamente cada momento é tão bem decorado que ao juntar com a literatura do texto, se torna quase que uma leitura fantasiosa aonde o próprio expectador vai criando as nuances do quadro que a câmera nos emoldura, ou seja, um trabalho realmente lindo de se ver e sentir.

Enfim, é um documentário diferenciado que vai muito além do que poderíamos esperar, e principalmente funciona por agradar tanto aos fãs do diretor, quanto quem não gostava de suas obras, e ainda mais quem nunca viu nada dele, ou seja, vale para todos conhecerem mais seu estilo. E o principal, mesmo o ritmo sendo um pouco lento, acabamos não cansando de ver o que é mostrado, então é quase como um deslize poético. Fico por aqui agora, mas ainda hoje confiro outro longa da Mostra Internacional, então abraços e até breve.

PS: Infelizmente desse longa não foi feito trailer, então só quem for conferir mesmo saberá a beleza de tudo.



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A Visita (The Visit)

11/29/2015 02:28:00 AM |

Todos sabem que se existe um gênero que gosto muito de assistir é o tal do terror, mais ainda quando envolve suspense do que filmes de matança em si, então a proposta de algo novo de Shyamalan que já fez grandes suspenses e é considerado um dos mestres do terror, certamente caberia bem para uma sessão noturna de Sábado não é mesmo? Pois a resposta é não, fuja pras colinas e não passe sequer na porta de uma sessão do longa "A Visita", pois como diria o melhor do filme personificado como um garotinho rapper, "fiquei cego" após as visões horrendas de velhos nus, aonde nada assusta e principalmente NADA (em letras maiúsculas mesmo) consegue ter um sentido interessante para que o gênero qualifique o longa como terror. Tudo bem que a proposta do bom uso da câmera na mão foi excelente, as crianças atuaram muito bem, a reviravolta é interessante (e que nem diria um rapaz que conversava atrás de mim com a família, "agora que o bicho vai pegar"), mas nada acontece nem assim, ou seja, um filme morno que você irá mais rir do que assustar e só, não dá vontade nem de continuar o texto, mas vou ser perseverante e colocarei mais algumas linhas.

A base da história é bem simples e nos mostra que dois irmãos pequenos vão passar uma semana na fazenda dos avós na Pensilvânia. O que era para uma visita divertida e tranquila se transforma numa experiência aterradora quando eles descobrem que os idosos estão envolvidos numa situação perturbadora, que faz as crianças se tornarem prisioneiras na propriedade.

Volto a afirmar que a proposta do roteiro não é ruim, e se fosse usada de uma maneira mais densa (a qual o diretor sabe fazer muito bem), ainda continuaria sendo um longa de baixíssimo orçamento e acabaria deixando as pessoas aterrorizadas com tudo o que os velhinhos fizeram. Mas para isso o diretor teria de ter usado menos as crianças e mais os velhos, criando perspectivas e histórias que ligassem mais eles com a clínica psiquiátrica, e dessa maneira tudo acabaria ficando de uma forma completamente diferente e bem mais tensa. Mas o diretor infelizmente não anda na boa forma que lhe concedeu o título de Mestre do Terror, e não vai voltar enquanto ficar fazendo besteiras do estilo desse filme, aonde a cena mais forte preferiram somente simbolizar, e nada além disso. A proposta do found-footage foi muito bem utilizada, uma das melhores que já vi inclusive, pois não quiseram colocar efeitos bobos nas cenas, nem as crianças correndo desenfreadas balançando tudo, e dessa forma até tivemos um ar mais clássico para tudo o que estava sendo mostrado, mas como eles fizeram um "documentário" bem leve para "curar" a mãe dos jovens, o resultado foi quase um longa natalino de tão leve que ficou tudo.

Para falarmos das atuações podemos ir por dois caminhos, a que mostra bons atores que possuem futuro, no caso as crianças, ou falar que todos estavam passeando num filme que era pra ser de terror e não souberam nem o que fizeram. Irei preferir a primeira opção para não ser um Coelho tão malvado. Para uma jovem atriz em seu primeiro longa, Olivia DeJonge soube muito bem tanto como mostrar-se como diretora de documentários, quanto como uma jovem interessante que é bem curiosa, mas caso houvesse mais cenas assustadoras, ela poderia se espantar mais, sua cena no forno que já está no trailer abaixo é deprimente, e ela faz duas vezes no filme, uma pessoa em sã consciência não faria nem meia, muito menos com a cara de boba que ela faz com sua personagem Becca. Ed Oxenbould definitivamente ganhou meu respeito, o garoto é muito bom, e já havia elogiado ele no filme "Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso" e aqui o seu personagem Tyler é uma figura, cantor de rap, e mostrando uma curiosidade sem limites de jovens de 13 anos dispostos a explorar tudo, claro que suas cenas com medo de germes é algo ridículo demais, mas ainda assim quero muito um longa mais denso para o jovem protagonizar e arrasar, pois ele pode tudo e certamente vai fazer muito bem tudo, já que aqui, mesmo não tendo nada aterrorizador, seu jeito estático para com sua cena densa foi ótima de ver. Deanna Dunagan e Peter McRobbie até fizeram boas expressões aterrorizadoras, mas foi simples demais para que alguém ficasse realmente com medo de seus personagens Nana e Papa, mas nas entrevistas foram bem interessantes e agradaram na medida do possível. Agora por sorte, ou melhor, para que o filme não ficasse pior, Kathryn Hahn apareceu bem pouco na trama como a mãe dos garotos, pois não tem expressão alguma, fazendo a mesma cara nas três cenas que apareceu, e até mesmo para dar a notícia da reviravolta continuou com a mesma expressão, ou seja, era melhor ter cortado suas partes.

No conceito artístico, o diretor foi esperto, e para economizar filmou dentro de sua casa na Pensilvânia, que já é bem antiga e com isso possui locais estranhos para funcionar como longa de terror, mas faltou algo a mais, pois a casa em si não é daquelas que olhamos e já ficamos tensos, e nem tiveram o trabalho de incluir objetos amedrontadores, e dessa forma o filme fluiu leve demais, parecendo ser realmente uma visita à casa dos avós, mas tendo alguns probleminhas no percurso, e isso é errar demais. Se temos de destacar mais um ponto positivo, não tanto para o lado do terror, é com o pessoal da fotografia, pois é muito fácil errar a iluminação com câmera na mão em movimento, e aqui em momento algum tivemos luzes estranhas ou que falhassem para estragar o ambiente que vieram conquistando, claro que na cena do quarto com a velha poderiam ter dado uma densidade dramática melhor, mas ainda assim não atrapalharam tanto.

Enfim, um filme que não recomendo para ninguém que goste de filmes de terror e nem mesmo para quem não goste, pois não serve nem para passar algumas horas curtindo um ar condicionado e uma poltrona boa, portanto, passe bem longe das salas que estiverem exibindo esse filme, pois será gastar dinheiro a toa. Nem para ao menos colocarem umas trilhas mais sombrias serviram, ou seja, nada mesmo salva. Bem é isso pessoal, darei a nota pontuando os dois pontos positivos que enumerei acima no texto completo, e fico por aqui agora, mas nesse Domingo irei conferir dois longas da Itinerância da Mostra Internacional de São Paulo, de modo voltarei para casa com dois textos para postar para vocês, então abraços e até breve.

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Chatô: O Rei do Brasil

11/28/2015 08:50:00 PM |

Pois bem, enfim a lenda saiu da produção e apareceu na telona! Digo isso, pois quem não conhece a história do filme, não a que se passa na telona, mas a que rolou durante 20 anos desde que Guilherme Fontes começou a captar dinheiro para o seu longa "Chatô: O Rei do Brasil", teve suas glórias despedaçadas no auge da carreira de ator, precisou provar que não deu sumiço em dinheiro para um governo que roubou bem mais que acusavam ele, e tudo mais, finalmente apareceu nos cinemas! Muitos diziam ser apenas uma lenda a existência do filme, que nunca iria passar, muitos atores morreram desde quando atuou no longa, diretores assistentes se tornaram grandes nomes do cinema nacional, e se ficarmos falando de tudo vai horas. Mas vou ignorar todo o problema que o jovem diretor teve, e vou focar no que deve ser focado: o filme! E vos digo, se o longa tivesse estreado na época em que estava previsto hoje não teríamos tanto desses filmes nacionais novelescos que pintam todo mês nos cinemas do Brasil, pois ele mostrou que com muita capacidade de edição, uma história que daria uma novela de muitos capítulos pode virar um filme incrível no formato clássico de cinema e ainda agradar com muita subjetividade apontando na cara que o governo depende da mídia, e a mídia depende do governo para existir, ou seja, um longa feito em 1995 que fala exatamente o que anda ocorrendo nos dias atuais.

O longa nos mostra que o magnata das comunicações Assis Chateaubriand é a estrela principal de um programa de TV chamado "O Julgamento do Século", realizado bem no dia de sua morte. É nele que Chatô relembra fatos marcantes de sua vida, como os casamentos com Maria Eudóxia e Lola, a paixão não-correspondida por Vivi Sampaio, como manipulava as notícias nos veículos de comunicação que comandava e a estreita e conturbada ligação com Getúlio Vargas, que teve início ainda antes dele se tornar presidente.

O mais interessante da produção é ver toda a dinâmica do programa funcionar com flashbacks sem que para isso precisassem ficar parando toda a situação, e dando agilidade no conceito todo, o diretor conseguiu trabalhar o livro biográfico que conta muita coisa real, num misto fantasioso e bem resolvido cheio de elaborações claras, mas que não incomoda ninguém. Claro que Fontes pecou em querer fazer algo gigantesco, usou co-produção com a empresa de Francis Ford Coppola, e cada cena que vemos é composta de tantos atores, tanta dinâmica, tantos elementos cênicos que certamente o valor captado foi pouco para fazer metade das cenas. Mas prometi não entrar nessa briga, então olhando pelo lado crítico, o filme ficou muito grande e bem feito, num misto de produção hollywoodiana de grande orçamento com algumas novelas mais dramatizadas, o que é bom, pois não ficou algo engessado, e ainda digo mais, se não tivesse ocorrido toda essa bagunça fiscal, certamente Fontes pegaria um longa atrás do outro, pois o que fez em seu primeiro trabalho frente à direção foi digno de num próximo longa colocar no pôster as frases malucas que tanto gostam de colocar: "do visionário diretor". Claro que há defeitos, e o principal se chama edição, pois com a quantidade de cenas que filmaram, volto a repetir que daria para fazer uma novela de muitos capítulos com toda a história, e acabaram pecando na concepção artística de uma montagem um pouco confusa, que quem realmente não grudar os olhos na tela, vai acabar se perdendo no meio de tanta bagunça, de atores novos, atores velhos e tudo mais, mas quem prestar bastante atenção vai montar na cabeça a trama certinha e vai ficar bem feliz com o resultado total.

No quesito atuação, vou me conter a falar dos que reconheci, pois certamente muitos atores mudaram em 20 anos, e eles também não foram tão protagonistas ao ponto de necessitarmos falar deles. Sempre achei Marco Ricca um ator que consegue prender nossa atenção, e seu Chatô ficou ao mesmo tempo caricato e impactante, cheio de trejeitos, mas que convencem pela dinâmica proposta e claro pelo ótimo ritmo que ele ditou ao personagem. Paulo Betti também conseguiu chamar bastante atenção para seu Getúlio, o engraçado é que usou um sotaque bem diferente do que vimos no Getúlio de Tony Ramos, mas ainda assim, conseguimos ver uma personalidade forte e que o ator sempre consegue mostrar alguém completamente diferente a cada papel, o que é ótimo. Andréa Beltrão parece que não envelheceu uma ruga nesses 20 anos, está do mesmo jeitinho, atuando maravilhosamente bem, incorporando seu lado sedutor no nível máximo e ainda fazendo caras e bocas no melhor estilo de atuar, sem ser artificial, ou seja, sua Vivi Sampaio foi perfeita. Outra que também não envelheceu nada é Letícia Sabatella, continuando maravilhosa, uma pena que seu papel seja de cenas bem breves, pois seu estilo de atuar é ainda um dos que mais gosto de ver na TV e no cinema, então ela certamente arrasaria no papel de Maria Eudóxia. Agora foi engraçado ver Leandra Leal bem mocinha, nos primórdios de seus trabalhos, claro que hoje ela é um mulherão, mas naquela época era apenas um rostinho bonito na tela, e infelizmente seu papel não era algo que chamasse tanta atenção, mas ainda assim ela representou bem Lola. Embora não seja um dos protagonistas do filme Gabriel Braga Nunes entregou para seu Carlos Rosemberg, uma personalidade tão forte e cheia de conotações, que por bem pouco ele não roubou o filme para esse personagem, claro que o ator já fez diversos outros bons papéis depois que gravou o filme, mas olha, ele foi melhor há 20 anos atrás do que é hoje.

Sobre o conceito visual, volto a repetir que o orçamento foi até pequeno pela quantidade de detalhes cênicos para recriar época com figurinos, muitas pessoas sempre em cena, ambientes com muitos objetos e tudo mais que uma produção comum nem pensaria em ter, e claro que com isso a equipe de arte sofreu deveras para criar cada cena, mas o trabalho final (mesmo que depois de 20 anos) certamente vai ser reconhecido. A fotografia trabalhou muito bem as nuances de sombra, desfoques interessantes e sempre procurando abstrair o visual cênico completo, o resultado das luzes usadas deram uma classe incomparável para a trama.

Enfim, é mais um longa nacional que certamente vale o ingresso, claro que vai ter aqueles que não vão gostar do estilo, outros que vão ficar batendo na tecla do dinheiro público gasto, e todo o blábláblá que conhecemos, mas é inegável os esforços do diretor para que finalmente fosse lançado e dessa maneira torço para que todos assistam e com a bilheteria ele consiga apagar seu nome de todos os registros negros que acabou ficando. Portanto fica a dica para quem quiser conhecer um pouco mais duma época aonde a comunicação midiática praticamente inexistia e que foi revolucionada por um louco com apoio do governo. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas hoje ainda confiro mais um longa, então volto em breve com mais posts no site, fiquem com meus abraços e até breve.

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American Ultra - Armados e Alucinados

11/28/2015 02:19:00 AM |

Há alguns filmes que sofremos para conseguir definir para o espectador sem entupir de spoilers, outros basta citar algum longa parecido e incrementar algum detalhe que o diferencie, e com "American Ultra - Armados e Alucinados" é tão fácil definir comparando com outro longa deste mesmo ano que nem é necessário gastar muito tempo. Portanto se você viu "Kingsman" adicione muitas drogas e tire todo o treinamento que com toda certeza você estará vendo o mesmo filme nos cinemas agora. Claro que isso é uma comparação bem superficial, mas para não ficarmos enrolando muito, é um filme de ação aonde literalmente o roteirista (que é o mesmo do filme de ontem) tomou algumas drogas a mais e escreveu um longa mais maluco impossível, aonde com um show de loucura de Jesse Eisenberg, o resultado vai além do que se pode esperar, ou seja, muita dinâmica, pancadaria, tiros, cenas de violência explícita e drogas, afinal o diretor não podia ficar sem colocar o que deu o ar da trama no papel na tela também.

O longa nos apresenta Mike Howell, que passa a maior parte de seu tempo se entorpecendo, trabalhando sentado atrás da caixa registradora da loja de conveniências Cash & Carry e escrevendo um gibi que jamais será publicado sobre um macaco super-herói. Ele gostaria de, um dia, levar sua namorada e companheira Phoebe, para o Havaí — se um dia ele conseguir superar os inexplicáveis ataques de pânico que experiência toda vez que tenta sair da cidade. Sem que ele tenha qualquer memória sobre o fato, Mike é, na verdade, um agente da CIA altamente treinado e mortal. Num piscar de olhos, enquanto seu passado secreto volta à tona, ele se vê em meio a uma operação mortal do governo e é forçado a convocar o herói de ação interior para sobreviver.

Se tem uma coisa que me intriga é como esse pessoal que faz roteiro é criativo, claro que alguns roteiros demoram anos pra sair do papel, virar um filme e dessa forma tem roteiristas que aparecem duas a três vezes no ano com novos filmes, e Max Landis no Brasil pelo menos acabou tendo dois dos seus cinco roteiros que estreiam em 2015 aparecendo na mesma semana. Claro que se no filme de ontem ele era mais puxado para o lado sombrio, no de hoje o que ficou mais evidente é a comicidade, mas em ambos podemos notar a presença de elementos bem malucos dando vazão à loucura e observando os outros filmes que fez, fica claro que o escritor tem uma forte presença de coisas insanas, e aqui nessa história funcionou mais do que nunca. Agora se o roteirista só deu umas leves fumadinhas de maconha, podemos dizer que o diretor Nima Nourizadeh vive completamente drogado, afinal seu longa de estreia foi "Projeto X" aonde a insanidade predomina a cada cena, e nesse ele se superou com cenas fortes e bem pautadas na força que um agente tem, junto claro com muita droga e ao trabalhar bem em sintonia com a história e o potencial dos atores, acabou escolhendo ângulos incríveis de filmagem junto de muitas explosões, tiros e até certas coisas nojentas, mas que cabem bem no filme, e assim sendo o resultado acaba sendo até melhor do que imaginado. É notável também muitas referências à quadrinhos e super-heróis, mas isso acaba funcionando de maneira menor sem que o foco seja todo em cima disso.

É fato que Jesse Eisenberg é um dos grandes nomes da atuação atualmente, e o trabalho que fez aqui é algo para pararmos e pensarmos até que ponto o ator pode ainda crescer mais, pois ele está num nível fora dos padrões, e mesmo em longas mais simples de dramaticidade, como é o caso desse, ele incorpora tanto seus personagens, trabalhando expressões (treinando muito para isso, nesse caso ele foi treinar com drogados, o jeito de andar e falar), e principalmente se jogando nas cenas mais fortes para que tudo pareça bem real, e dessa forma ficou mais do que perfeito como Mike. Já falei isso em outro texto, mas vale frisar novamente, se os homens de "Crepúsculo" que todo mundo apostava que ganharia o mundo com a quantidade de fãs que tinham, não conseguiram decolar, imagina Kristen Stewart que todo mundo só reclamava, mas ela foi lá, estudou,  e já ganhou diversos prêmios de atuação, e aqui mostra que está disposta a fazer de tudo com sua Phoebe, saindo bem tanto nas cenas dinâmicas, quanto nas que precisou expressar dramaticidade e com seu ponto de virada, ficamos pensando em tudo o que fez no longa todo para ver se não ouve furos, e olha que ela nos enganou muito bem, ou seja, tem muito futuro mesmo. Connie Briton acabou sendo a terceira opção do diretor para o papel de Victoria Lasseter, e acredito que por isso o personagem acabou ficando bem em segundo plano, aparecendo somente nas cenas que eram realmente necessárias para o encaixe da trama, não que a atriz tenha saído mal, mas estava bem longe de algo bem bacana como a produção pedia, e certamente o papel teria muito mais conexão com a trama se fossem as outras opções. Topher Grace ficou também razoável no papel de Yates, mas sempre que brincava com o medo de estar fazendo as coisas misturando a falsa coragem agradava demais, e deveriam ter explorado mais isso, pois foram os pontos mais divertidos do seu personagem. Agora quanto dos coadjuvantes tivemos inúmeros furos de personagens sumindo e aparecendo nas cenas, e certamente após o corte final quiseram enforcar o continuista por isso, a evidencia maior ficou com o personagem Laugher de Walton Goggins, pois nas duas cenas principais de briga, ele está com os protagonistas, e de repente não está mais, sumindo do enquadramento seguinte, claro que o ator forçou muito nos trejeitos para o personagem, mas esquecerem de colocar ele no plano seguinte de filmagem é apelar demais com o pobre.

No conceito visual tivemos muitos elementos cênicos bem colocados para representar tanto o estilo dos quadrinhos quanto o de heróis caricatos do cinema, e isso acabou caindo bem para o estilo de espionagem com toques de humor. A cada cena que passava, a equipe de arte precisava trabalhar com mais detalhes e objetos para que o filme se desenvolvesse, e isso é algo que dá muito trabalho, mas quando bem feito acaba agradando demais, e desse modo o acerto foi nítido. Claro que se não exagerassem tanto nas coisas nojentas, o filme seria bem melhor, mas como é o estilo do diretor, acabou servindo para a proposta. A fotografia trabalhou bem sempre com cenas mais noturnas ou locações fechadas para que as explosões tivessem uma maior funcionalidade, e isso ficou bem legal, pois mesmo se passando muito no escuro, não tivemos nenhuma cena que sumisse algo visualmente, e isso é um grande acerto e que acaba agradando bastante.

Enfim, um filme que agradará bastante quem gosta de longas de espionagem, misto com ação e claro muita zoeira na tela, afinal a comicidade é bem apelativa, mas que diverte bastante, então se você curtir esse estilo, certamente pode ir para a sessão que vai gostar bastante do que verá, mas se tem problemas com apelação ou comicidade de forma não tradicional, procure outros longas, pois esse vai acabar irritando mais do que agradando. Bem é isso, fico por aqui agora, mas ainda tenho muitos outros longas para conferir nessa semana, então abraços e até breve.



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Victor Frankenstein

11/27/2015 02:54:00 AM |

É engraçado que alguns filmes já chegam ao Brasil rechaçados pela crítica internacional, mas quando vamos ver o pessoal esquece de avaliar a parte da produção e foca só na história, sempre querendo algo próximo da história que conhecem. Mas convenhamos, se já conhecemos a história original, para que queremos ver ela de novo? Não seria melhor ver algo novo muito bem produzido? Pois bem, o que posso adiantar é que o miolo de "Victor Frankenstein" é bem lento e parece que vai virar uma série imensa que não temos ideia de como pode acabar, mas tirando esse detalhe, o longa possui uma energia (quase que podem considerar isso uma piada mista com spoiler) tão grande e interessante que junto de uma produção incrível acabamos ficando bastante entretidos com tudo o que é mostrado. E como já disse isso uma vez aqui no site, se o filme é bem feito no conceito produtivo e me segura com tudo o que ocorre, com toda certeza acabo gostando bem mais do que os amigos críticos que só procuram boas histórias. Então se você quer rever o conto de Frankenstein pela milésima vez no cinema, esse não é o seu filme, mas se for com a cabeça aberta para todo o restante em algo muito bem feito, pode ir pro cinema que vai sair bem contente com o início incrível e o final muito interessante e cativante.

Ao visitar um circo, o cientista Victor Frankenstein encontra um jovem corcunda que lá trabalha como palhaço. Após a bela Lorelei (Jessica Brown Findlay) cair do trapézio, o corcunda sem nome consegue salvar sua vida graças aos conhecimentos de anatomia humana que possui. Impressionado com o feito, Victor o resgata do circo e o leva para sua própria casa. Lá lhe dá um nome, Igor, e também uma vida que jamais sonhou, de forma que possa ajudá-lo no grande objetivo de sua vida: criar vida após a morte.

Quando um diretor trabalha muito com séries, quando retorna ao cinema costuma trabalhar mais os personagens principais, e certamente Paul McGuigan fez isso ao praticamente dar vida à Igor com muita expressividade, e pode trabalhar a boa história criada por Max Landis de modo que volto a repetir o que disse no começo, é algo totalmente novo, pois Igor nem aparece no conto original de Mary Shelley de longa data e que já gerou diversos filmes. Claro que para isso, ele precisou gastar muita narração e até mesmo alguns momentos mais simbólicos que acabam cansando um pouco, mas isso comparado à todo o restante criativo e bem dinâmico da história acaba ficando bem de lado para quem gosta de ver um longa de ação dentro de determinada época. Além disso toda a criatividade para com os termos médicos junto da química entre os dois protagonistas para fazer seus monstros foi algo muito bacana de ver na tela. Outro fato bem interessante de ver na tela foram os ângulos escolhidos de filmagem, pois naturalmente os diretores optam por câmeras retas aonde o público veja toda a abertura cênica, e aqui ao trabalhar mais de lado, tivemos uma perspectiva de profundidade mais vertiginosa e que sempre procurava aumentar o cenário incrível que a direção de arte criou.

Quanto da atuação, Harry Potter, ops, digo Daniel Radcliffe vem mostrando uma evolução imensa no seu estilo de interpretar, e suas cenas iniciais como Igor (claro que principalmente antes de ter um nome) foram algo que pode se dizer que ele definitivamente abandonou suas magias, caras e bocas, e botou todo o corpo para jogo, trabalhando pernas, tronco e principalmente toda a face para não ficar um corcunda caricato, mas sim um personagem bem dramático e cheio de ações, e conseguiu ficar muito bem em tudo, além disso no desenrolar da trama tivemos outras boas cenas em que trabalhou expressões amorosas e até momentos mais fortes, ou seja, foi completo do início ao fim. James McAvoy é daqueles atores que já ouvimos falar muito e que cada vez nos impressiona mais e mais, e seu Frankenstein é muito mais do que o médico louco que estávamos acostumados a ver nas outras adaptações da história, claro que ainda continua bem louco, mas tivemos dinâmicas interessantes para que sua história não fosse jogada, e o ator como sempre agradou em cada ato. Andrew Scott também fez cenas interessantes com seu Inspetor Turpin, mas ficou meio que forçado demais na vertente religiosa sem que isso fosse explicado na história, e isso para um policial acabou ficando meio que jogado de lado e atrapalhando um pouco com as frases colocadas para seu personagem, mas no geral seu estilo de atuar não atrapalhou tanto, porém ajudou o miolo à ficar lento demais. Outra personagem completamente jogada e que não serviu para nada foi Lorelei, que foi interpretada por Jessica Brown Findlay, pois se desejavam um interesse amoroso mais forte poderiam ter usado ela para ser pega pelos vilões e tudo mais, mas não, ficou bem aéreo o interesse do jovem, claro que era sua referência no circo, e sua queda deu toda uma química, mas acabou aparecendo pouco e sempre com caras e bocas demais para alguém que não é tão importante para a trama.

No conceito visual, certamente é notável que muita coisa digital foi colocada na trama, afinal conceber uma cidade épica com casarões, faculdades sombrias, castelos e todo um laboratório incrível cheio de peças não é algo que sairia muito barato, então em alguns momentos até conseguimos notar o encaixe do digital com o real (o que é algo defeituoso para muitos, mas prefiro opinar como a maioria vê, então não vai ser tão fácil assim), e tirando esse detalhe, temos muitos objetos cênicos importantes que trabalhados com toda a ambientação acabou resultando em um filme com um design de produção digno de concorrer à muitos prêmios, e isso volto a repetir, é algo que me agrada demais quando vou conferir um longa, e certamente deu muito trabalho à toda equipe artística para arrumar e criar cada cena do longa. A fotografia da trama também foi bem elaborada com nuances mais sombrias e diversos tons puxados para cores inusitadas como roxo e até laranja na cena final, o que mostra que alguns diretores de fotografia andam ousando para criar coisas novas, o que é legal, mas sempre temos de lembrar se a utilidade vai caber com a cena, e aqui poderiam ter usado mais cinza e azul que agradaria mais.

Enfim, o longa possui defeitos? Sim, muitos! Mas o conteúdo novo junto com a dinâmica dos protagonistas é tão bom que os defeitos acabam passando em branco e certamente quem não ficar preso à olhar detalhes vai gostar muito do que verá. Claro que o miolo poderia ser menor ou ter ao menos explicado diversas histórias como a do inspetor ou até mesmo criado mais romance com a garota, mas isso não era bem o que importava para o roteirista e para o diretor, então certamente quem ver em casa vai acelerar isso e continuará com um excelente filme, e quem for no cinema vai comer sua pipoca tranquila enquanto passa alguns minutos, porém volto a afirmar que o começo e o fim empolgam tanto que o resultado final vai agradar muito. Portanto recomendo ele para quem gosta do estilo e principalmente estiver disposto à ver algo novo e criativo, e assim a garantia de gostar é maior. Bem é isso pessoal, esse foi apenas o primeiro longa dessa semana que terá muitos posts aqui no site, então abraços e até breve.


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Três Lembranças da Minha Juventude (Trois Souvenirs de Ma Jeunesse)

11/25/2015 02:07:00 AM |

Ultimamente só tenho falado bem de longas franceses, por conseguirem dar nuances, viradas fenomenais e um tino cômico na medida certa, mas e quando entra em jogo um romance meio que shakespeariano aonde a dramaticidade é tão forçada que sem ritmo ainda consegue quase que praticamente dobrar a duração de um filme? Dá para falar bem dele? Até que dá, mas "Três Lembranças da Minha Juventude" que foi traduzido realmente ao pé da letra, não se preocupa em mostrar bem as três boas lembranças, e olha que as duas primeiras eram bem interessantes de se ver e dariam ótimas histórias, mas sim ficar quase que 90% em cima da última lembrança, claro a amorosa, e acaba cansando tanto e ficando tão monótono que sinceramente você vai achar que nunca o filme vai acabar. Ou seja, não veja esse filme a noite em poltronas confortáveis, pois a chance de dormir e ser acordado pelo pessoal da limpeza do cinema é altíssimo. Por sorte vimos em cadeiras no SESC então sem chance de dormir.

O longa nos mostra que Paul Dédalus se prepara para deixar o Tajiquistão. Ele se lembra da infância em Roubaix, do ataque de loucura da mãe, do laço que o unia ao irmão Ivan, uma criança devota e violenta. Lembra-se de fazer 16 anos, da viagem à URSS, onde, em uma missão clandestina, deu a própria identidade a um jovem russo. Lembra-se também de si mesmo aos 19 anos, da irmã Delphine, do primo Bob das festas com Pénelope, Mehdi e Kovalski, o amigo que ainda o trairia. Lembra-se dos anos como estudante em Paris e da vocação para a antropologia. Acima de tudo Paul se recorda de Esther, o coração da sua vida.

A proposta em si do longa é interessante, e se observarmos a sinopse se tivessem dividido exatamente como proposto seria genial e agradaria muito, mas o diretor Arnaud Desplechin preferiu focar no amor inesquecível do rapaz por Esther, e assim como aqueles dramas melodramáticos que estamos acostumados a ver em óperas, a trama não anda e acaba sendo desgostosa de ver, cansativa de acompanhar e sai de nada para lugar algum na condução total. Esse deslize fez do filme algo que teve uma produção impecável, boas atuações, criatividade no conteúdo total, mas o público certamente vai sair da sessão falando que foi chato demais de ver, isso para aqueles que ficarem até o final, pois mesmo sendo exibido em uma Mostra aonde o público tradicionalmente está acostumado com longas mais enrolados, ainda tivemos algumas fugas antes do final do longa, e isso diz muita coisa. Ou seja, é aquele doce maravilhoso que colocam na mesa, e ao comer você vê que não tem gosto de nada.

Na questão de atuação, podemos dizer que as várias versões do protagonista foram bem interpretadas, mas claro que o foco, por esquecerem que as outras também eram importantes, se deve ao garoto na fase dos 19 anos, que foi feito por Quentin Dolmaire, e ele manteve a responsabilidade que devia para que todos momentos fossem bem expressivos, mas todo mundo que me lê aqui já passou pela fase dos 19 anos, e sabe o quão chato é o romance nessa época, mesmo que cheio de aventuras, tudo é motivo para drama, novidades são até bem vindas, mas cansam, e ver isso na tela do cinema por quase duas horas sem nenhuma intempérie mais envolvente é algo que não temos como dar alguma premiação para o jovem por melhor que tenha feito tudo. E falando em melodrama, Lou Roy-Lecollinet fez de Esther algo que nem novela mexicana faria tão bem, tudo é vou morrer, todos me desejam, sou a tal, gente, tenho certeza que nem a atriz mais desejada do mundo se acha tanto quanto a personagem, e fazer isso foi ao mesmo tempo erro do roteiro, da direção e da jovem atriz em não tentar ser diferente. Mathieu Amalric apareceu numas cinco cenas como Paul mais velho, mas suas cenas sempre são bem rápidas e não teve tanta expressividade para falarmos que ele resolveu o problema todo do longa, valendo mais seu epílogo na boa cena do bar que todo o restante.

No conceito visual posso dizer que foram impecáveis, criando bem a época tanto em figurino quanto na boa escolha de cada locação para que tudo encaixasse na medida, deixando elementos à mostra para representar cada elo do filme, mostrando as diversas épocas e anseios dos jovens nas festas e principalmente mostrando tanto o mundo da capital e do interior da França na época, que eram bem distintos, ou seja, volto a repetir, que como produção o longa foi perfeito. Além disso, trabalharam bem as iluminações para criar climas, deram tons avermelhados nas cenas que envolviam paixão, amarelados quando queriam passar uma dramaticidade mais funcional e muito marrom para criar a época, ou seja, sem erros também na fotografia, claro que poderiam ter dado alguns tons mais pastéis não ficando tão forte e cansativo, mas isso com dinâmica no roteiro e na edição funcionaria bem mais do que na luz.

Enfim, é um filme ruim? Não, tem muita coisa boa para ver, mas cansa tanto que quem não tiver muita paciência para longas mais alongados vai sair no meio do filme com toda certeza, e digo mais, não vai perder nada, pois o final não foi mais interessante do que o conteúdo todo. Ou seja, um filme que mesmo tendo boas ideologias, não vale o tempo perdido, e garanto que vai parecer ter gasto bem mais do que duas horas. Portanto, só recomendo ele mesmo para quem não tiver nenhuma outra opção mesmo para ver, e ainda assim for bem paciente. Encerro aqui essa semana cinematográfica, que foi bem recheada, já me preparando para a próxima que vai ser mais agitada ainda, então abraços e até breve pessoal.

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