Assalto à Brasileira

11/06/2026 09:25:00 PM |

É engraçado como alguns filmes tão simples e bagunçados conseguem ser divertidos e encaixar tão bem dentro da proposta, de modo que você embarca na loucura e acaba gostando do que vê na tela. E como muitos sabem, minha memória é péssima, então lembrava de quase nada do assalto do Banestado em 1987, aonde o longa "Assalto à Brasileira" se situa, e mais ainda da loucura completa que ocorreu, só lembrando mesmo do começo do filme aonde o dinheiro e os preços das coisas mudavam de valor durante o dia inteiro, valendo praticamente nada para a população do Brasil. O mais interessante é que o filme mostra bem como a proteção nos bancos na época eram inexistentes, as filas e confusões eram literalmente uma bagunça, e nem os assaltantes eram criminosos mesmo, montando um plano frouxo aonde se não fosse a ajuda do jornalista em ir fazendo as conexões e dando talvez as ideias do que eles realmente queriam ficariam ali ou teriam sido mortos rapidamente em alguns minutos. Ou seja, é uma comédia tanto pela situação bizarra quanto pelo texto colocado nos personagens, funcionando como cinema, mesmo já tendo visto diversos filmes do estilo e da formatação.

O longa acompanha um jornalista recém desempregado chamado Paulo que, enquanto tirava sua rescisão no banco, se vê envolvido em um dos maiores roubos da história do país: um crime à mão armada na maior agência bancária de Londrina em 1987, com mais de 300 reféns. Rapidamente o repórter faz bom uso da oportunidade e prepara um grande furo jornalístico. Paulo decide ajudar os mandantes do assalto, Moreno e Barba, durante as negociações com a polícia. Enquanto as autoridades rondam e isolam o local, o jornalista aproveita seu passe exclusivo e livre pela cena do crime e começa a entrevistar os reféns, reunindo evidências, histórias de vida e perspectivas do ocorrido para sua história. Ambientado em um cenário de crise econômica, o longa lembram o assalto ao Banestado que marcou e repercutiu na memória do país.

Costumo dizer que o diretor José Eduardo Belmonte é daqueles poucos diretores nacionais que sabem o que querem fazer do começo ao fim em suas tramas, ao ponto que o roteiro de L.G. Bayão em cima do livro de Domingos Pelleegrini também ajuda bastante, pois vemos o conflitivo resultado de ter tanta gente dentro e fora de um banco rolando um assalto, vemos os policiais completamente despreparados para tudo o que está acontecendo e ainda como o jornalista mesmo quase enfartando pelos seus problemas junto do calor do banco soube ser sagaz para ir montando seu furo jornalístico criando e montando a situação para que algo que seria simples e rápido com várias baixas virasse algo bem maior e chamativo. Claro que muita coisa foi inventada para ficar com mais cara de filme, mas o diretor soube aproveitar cada momento maluco e cada personagem caricato que tinha ali para que tudo fosse bem além e agradasse dentro da essência completa.

Quanto das atuações, foi bacana o trabalho que muitos dos figurantes viraram personagens secundários, tendo algumas falas e dinâmicas, deixando que os protagonistas fizessem somente a base mesmo do assalto e o restante fosse de pessoas "comuns", e assim a brincadeira ficou até que bem interessante. E falando dos protagonistas, sabemos o quanto Murilo Benício sabe brincar até mesmo em filmes mais sérios, e aqui como seu Paulo tem um jeitão mais despojado e de showman, ele se joga literalmente, fazendo o que um bom jornalista faria numa situação para ganhar toda vantagem, e ainda aparecer bem, de modo que agradou bastante com sua representação. Já Christian Malheiros trabalhou seu Moreno com um ar tão calmo e tão descontraído que nem parecia um assaltante, e o mais engraçado de tudo é ver no depoimento final dos verdadeiros funcionários do banco na época, é que eles o retrataram assim mesmo, alguém educado e calmo, ou seja, o ator utilizou-se disso e brincou com a faceta expressiva para dar as nuances e envolver cada um. Ainda dentro do banco vale destacar Robson Nunes e Matheus Macena como outros assaltantes bem em contraponto de entregas, com o primeiro mais fechado e o outro até arrumando uma namorada entre os reféns, e do lado de fora do banco vale falar claro de Paulo Miklos como um comandante meio sem muita base, mas que sendo conhecido do jornalista entra bem na onda da mídia.

Visualmente a equipe de arte merece muitos aplausos, pois conseguiram representar um banco da época com muitos detalhes, e o melhor é que o diretor aproveitou o ambiente praticamente único para dimensionar tudo na tela, dar as nuances da montanha de dinheiro que era o cruzado e brincar com poucas salas, uma bancada e algumas mesas, sendo o gracejo nos figurinos mais diversos, e nas demais representatividades, só diria um grande defeito, que quem já fez filme com armas vai notar que as menores eram todas falsas e isso pesou um pouco no design da tela, mas nada que atrapalhe por ser um ar mais cômico.

Enfim, é um filme simpático que faz você dar algumas boas risadas com toda a confusão, mas que poderia ter um efeito mais chamativo se desenvolvesse algo a mais na trama, porém como quiseram ser representativos com o que aconteceu foi funcional e agrada bastante com o que faz, valendo a dica para conhecerem mais do Brasil maluco dos anos 80. E é isso meus amigos, fico por aqui agora, mas volto ainda hoje com mais um texto, então abraços e até logo mais.


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