Molière, Cyrano e o Pequeno Rei (Les Caprices de l'Enfant Roi)

11/02/2026 08:04:00 PM |

Se pudesse batizar o filme de hoje em português eu colocaria "Dando um Nó na História Francesa", pois o diretor de "Moliére, Cyrano e o Pequeno Rei" conseguiu misturar tantas situações da coroação de Luis XIV, juntando com a fundação da Comédie-Française, com os poemas de Cyrano de Bergerac e tudo mais, sendo uma trama com pegada de época tão moderna e diferenciada que acaba sendo divertido e bem encaixado na tela, não sendo nem bobo demais, nem fora de eixo como fazem em tramas desse estilo nos EUA, mas como estamos num Festival Francês, as coisas ficam mais artísticas. Ou seja, é daqueles filmes que acabamos nos divertindo com algo que até poderia ter acontecido, mas como é frisado no começo, os historiadores não concordaram com essa versão.

O longa nos situa em 1651, Luís (ainda não XIV) é um jovem adolescente. Enquanto a Fronda ameaça o reino, sua mãe, Ana da Áustria, decide retirar o filho às escondidas para colocá-lo em segurança e o substitui por um sósia. Luís é confiado por D’Artagnan a Cyrano de Bergerac, que o esconde no seio da companhia teatral de Madeleine Béjart e Molière. Enquanto Madeleine e Cyrano descobrem uma paixão em comum pelo jovem Molière, Luís descobre a vida e seus prazeres, a arte e o trabalho, a coragem e a estratégia — tudo aquilo que fará dele o Rei Sol.

Diria que diretor e roteirista Michel Leclerc foi muito criativo ao construir sua trama de uma forma mais ampla, pois seu filme poderia ter ficado tão bobo e também tão chato, mas ele floreou na medida certa para que o filme soasse interessante e bem encaixado, com uma produção de época bem trabalhada, cheia de intensidade e com personagens que conversaram bem para o que a pegada da trama pedia, ou seja deu muito certo na tela, mesmo tendo a duração um pouco exagerada, porém foi preciso para desenvolver todos os personagens, então diria que funcionou bastante.

Quanto das atuações, se o garoto Niels Hamel-Brochen seguir atuando com a qualidade e a personalidade que deu para seu Louis XIV e também para o seu sósia, podem se preparar para ver ele abocanhando ótimas premiações futuramente, pois ele literalmente dá show tanto com a entrega quanto com o seu carisma, sendo perfeito demais em cena. Também tivemos bons momentos de Artus com seu Cyrano de Bergerac, sendo alguém imponente, com traquejos meio que emocionais demais e até um pouco confuso de atitudes, mas fez bem o que precisava. Julia Piaton também teve boas cenas marcantes com sua Madeleine Béjart, sendo meio que sucinta demais na tela, mas não incomodando com o que fez, de modo que poderia até ser um pouco mais imponente, porém mudaria o estilo. Agora Némo Schiffman trouxe para seu Molière literalmente um ator galanteador, cheio de traquejos e disposição para atacar quem tiver na sua frente. Ainda tivemos alguns atos bem colocados de Franck Dubosc com seu D'Artagnan meio que falso demais e Doria Tillier com sua Anne da Áustria sem tantas explosões como sabemos que foi, mas fizeram bem seus papeis.

Visualmente sabemos bem o quanto trabalho dá para se fazer longas de época, e ainda mais quando tudo precisa ser meio que bagunçado como o longa pedia, brincando com peças, barcos, palcos e salas reais aonde tudo tem significado e imposição, porém foram muito espertos em mostrar apenas uma ceninha com a revolução ocorrendo do lado de fora do palácio, pois gastariam muito com uma produção de batalhas, e o mais engraçado é que praticamente fora de onde está o caos que é o palácio não estava rolando mais nada, ou seja, esqueceram de trabalhar isso, mas o resultado dos figurinos e da essência em si funcionou bem na tela.

Enfim, foi um filme bem bacana de conferir, divertido e cheio de boas sacadas, aonde a mistura completa funciona bastante, mas que dava para ser menos alongado para empolgar mais, e assim sendo o diretor pesou a mão em não cortar espaços sem muitas desenvolturas. E é isso meus amigos, fico por aqui agora, mas hoje tem mais um filme do Festival de Cinema Francês, então abraços e até daqui a pouco.


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