Netflix - Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7)

10/17/2020 06:19:00 PM |

É engraçado como filmes políticos costumam ser imponentes em fatos, e que geralmente sempre se tem um lado de opinião neles, e isso fica sempre nítido através da mão do diretor, então o que falar quando se é mostrado um julgamento político (embora não possa ser usado esse termo pela constituição americana) real, aonde se via claramente a opinião do juiz inapto para o caso, e as diversas versões fortes de toda a situação ocorrendo numa época marcada pela guerra e pelas mortes de inúmeros americanos. Pois é a trama da estreia da semana da Netflix, "Os 7 de Chicago" vem com essa imponência toda, é bem trabalhado do começo ao fim, e claro que vindo das mãos de um dos maiores roteiristas de Hollywood não se esperava algo menor, ao ponto que a própria gigante do streaming já começou a botar todas as suas fichas na indicação do longa ao Oscar, afinal Aaron Sorkin praticamente brincou com uma história densa, cheia de situações fortes, que mostra tanto que os grupos de diversas partes do país foram para Chicago protestar pacificamente, não foram ouvidos pelos conselhos legais, e quando a polícia resolveu tacar o porrete neles, eles também revidaram, virando um grandioso tumulto, quanto o grandioso problema de ter um julgamento bem incoerente e imparcial, aonde o show é marcante. Ou seja, é daqueles filmes que quem ama um bom julgamento vai curtir (talvez ficar levemente desapontado pelo direcionamento, mas ainda assim vai se envolver com tudo), e quem gosta de uma boa história real bem politizada também irá gostar muito, valendo cada detalhe, mesmo com tantos personagens principais.

A sinopse nos conta que durante a Convenção Nacional Democrata de 1968 em Chicago, houve grandes manifestações contra a Guerra do Vietnã, que estava chegando ao auge. Quando o toque de recolher foi finalmente instituído, isso levou a ainda mais protestos, levando a um motim policial. Em seguida, sete dos manifestantes (Abbie Hoffman, Jerry Rubin, Bobby Seale, John Froines, Tom Hayden, Lee Weiner e David Dellinger) foram julgados por conspiração. Esta é a história do julgamento que se seguiu.

Se em seu primeiro filme, "A Grande Jogada", Aaron Sorkin estava meio bagunçado de ideias com toda a sua proposta imponente de roteiro, aqui ele já veio preparado para tudo, fazendo jus ao seu título de rei dos roteiros quebrados, de forma que não vemos algo acontecer e depois partir para o julgamento, mas sim todas as situações ocorrendo conforme os personagens iam necessitando lembrar de suas loucuras, seus atos e desdobramentos, conflitando com o que está sendo argumentado contra eles. Ou seja, o diretor e roteirista simplesmente vai nos tacando tantas informações, desenvolvendo tantos rumos, que mesmo vendo que o juiz irá lhes condenar por algo que não devia nem ter acontecido, vamos entrando na onda de tudo, e criando em nossas mentes toda a proposta real que eles queriam que víssemos, e que eles defendiam com tanto afinco (tanto que o fechamento chega a ser lindo e forte na mesma proporção por esse motivo). Sendo assim, o diretor não trabalhou dinâmicas simples, e nem quis que seu longa fosse apenas um filme de julgamento, mas sim uma abertura pensando sobre como o tema se desenrolou lá no passado, e que facilmente se hoje tivessem os mesmos líderes imponentes do estilo, se estaria essa bagunça toda de apenas protestos sem futuro, e claro, que com um julgamento de quase 160 sessões, ou quase um ano de audiências, toda a reviravolta funciona para o lado que fala mais alto, então que todos sejam ouvidos.

Sobre as atuações, temos um elenco daqueles que qualquer diretor gostaria de ter nas mãos, ao ponto que nem dá para falar que algum deles se destacou, mas sim que a equipe toda explodiu na tela, cada um da sua maneira mais forte e coerente. E pra começar tenho de falar do antagonista do filme, Frank Langella com seu Juiz Julius Hoffmann, pois ele veio com olhares, com força, e principalmente determinado com sua ideia de como iria culpar todos, independente do que acontecesse, se impondo a todo momento, fazendo trejeitos fortes, e claro sempre negando tudo o que fosse para negar, ou seja, foi daqueles juízes que acabamos ficando mais bravos com tudo o que vemos, do que torcendo por sua opinião. Na sequência vemos um sempre perfeito de atitudes, Eddie Redmayne com seu Tom Hayden sempre direto, empático, e determinado com suas ideias, de forma que em alguns momentos discordamos totalmente de suas atitudes, e o ator consegue se verter para que nossa ideia fosse mudada, ou seja, ele foi daqueles que brincam e forçam as situações, mas no final acabamos apaixonando pelo que faz. Tivemos por incrível que pareça um Sasha Baron Cohen malucão como sempre, porém direto e coerente com seu Abbie, mostrando que por trás de toda erva dos hippies, existia pessoas muito estudadas, cheias de ideias perfeitas, e que usavam do escracho para apontar suas verdades, e o ator caiu como uma luva para tudo o que o personagem pedia. Esse ano acho que posso chamar de o ano de Joseph Gordon-Levitt, pois mais um papel imponente que lhe cai com uma diretiva tão perfeita, ao ponto de mesmo sendo o procurador que vai acusar cada um dos réus, fez de seu Richard Schultz um homem expressivo, cheio de desenvoltura, pronto para cada momento, e claro com estilo, de forma que faz com que o espectador direcione os olhos para seus atos, e o resultado flua ainda por cima. Yahya Abdul-Mateen II acabou sendo importantíssimo não pelos atos muito bem desenvolvidos pelo ator, mas sim por todo o racismo que seu Bobby Seale acabou sofrendo durante todo o processo de julgamento, daqueles atos que chega a doer de ver, e o ator se manteve forte e preciso em cada momento, até chegarmos no ponto máximo de abuso, aonde ali chega a dar vontade de chorar e bater no juiz, ou seja, forte demais, preciso na medida. Mark Rylance fez o advogado de defesa William Kunstler preciso e direto, tomando advertências e 24 processos de desacato para cima do juiz, com estilo e sabedoria do que estava fazendo. Além desses, tivemos destaques menores, mas todos caindo muito bem em cada ato, ao ponto que vemos Jeremy Strong como o maluco hippie Jerry ensinando a preparação de bombas com muita precisão, vemos John Carroll Lynch finalmente sendo imponente em cena com seu David socando direto com uma opinião formada sem ser o frouxo de sempre, vemos um Michael Keaton certeiro de opiniões no momento certo da trama com seu Ransey Clark, e principalmente vemos Alex Sharp com um Rennie Davis inicialmente apenas na dele, escrevendo os vários nomes de soldados mortos em combate, para um fechamento incrível e preciso.

Visualmente o longa parece não ter muita fluidez, afinal ficamos presos quase que o tempo todo na corte, como todo filme de julgamento rola, mas vemos nas diversas saídas dali os confrontos no parque, no início as diversas lideranças sendo formadas em seus devidos QGs muito bem ambientados, e principalmente no escritório da quadrilha como a secretária sempre atendia os telefonemas, vemos um ambiente de pensamentos livres e tudo muito bem elaborado cenicamente para que ali pensassem em suas defesas. Vemos também muitas bombas de gás lacrimogênio, policiais descendo os cassetetes nos manifestantes, e todo o aparato político armado, claro que com bons figurinos clássicos dos anos 60, numa montagem fotografada na medida, sem cores fortes, mas com muito sangue e simbolismos.

Enfim, é um filmaço daqueles que você se envolve do começo ao fim, que tenta entender um pouco mais sobre a política da época, passa a torcer pelos réus, vibra junto com os momentos fortes, e principalmente acaba querendo brigar com o juiz por tudo o que faz de errado, ou seja, é daqueles filmes que acabamos participando de forma desnecessária, e que quase vira uma novela com tantos personagens principais, mas que souberam dar a dinâmica mais coerente tanto para o roteiro quanto para o desenvolvimento ao ponto de funcionar bem. Sendo assim recomendo ele para todos, e certamente veremos a Netflix apostar muito nele nas categorias mais fechadas como roteiro e direção, pois para atuação determinar quem é o protagonista mesmo ficou meio difícil. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.


0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por comentar em meu site... desde já agradeço por ler minhas críticas...