O Pequeno Corpo (Piccolo Corpo) (Small Body)

11/09/2023 02:01:00 PM |

É interessante ver como a fé move montanhas como é o ditado popular, e a trama de "O Pequeno Corpo", que chega aos cinemas no próximo dia 16 de novembro, vai mostrar bem essa ideologia, pois segundo as tradições mais antigas quando um bebê nasce morto, ele não pode ser batizado, e com isso sua alma viverá eternamente no Limbo, e quando uma mãe fica sabendo de um pequeno santuário que consegue dar um breve respiro para o morto e com isso batizá-lo, ela sai em uma jornada saindo de uma ilha afastada, passando pelos vilarejos italianos e pelas montanhas para chegar nesse lugar, sofrendo um pouco de tudo, afinal acabará de dar à luz, está fraca, viaja sem nada e ainda tem alguns perrengues pelo caminho, e junto de uma jovem que lhe fará companhia achando que ganhará algo prometido pela moça acaba criando uma conexão maior com ela. Diria que a trama tem todo um lado místico introspectivo até que bem interessante de ver, tem paisagens bem bonitas e tensas aonde a protagonista vivencia várias coisas, e que tem bem essa ideia de religiosidade marcada, mas é um filme bem fechado, aonde um público que não tem tanta essa coisa na mente não irá se conectar tanto, mas mesmo sendo mais denso não cansa, e isso acaba sendo algo bem interessante de ver.

O longa nos situa na Itália, em 1900. Agata é uma jovem que embarca em uma jornada desesperada para chegar a um misterioso santuário para salvar a alma de sua filha da condenação eterna do Limbo.

O mais bacana de ver é que diretora e roteirista Laura Samani que foi indicada em Cannes e ganhadora do David di Donatello de Melhor Direção (Oscar Italiano) pelo filme nos mostra é o quanto pesquisou para entregar seu longa, pois quando descobriu o santuário, também descobriu que a jornada era feita mais pelos maridos, afinal as mulheres estavam fracas pelo parto, além das dificuldades do percurso e também dos riscos de assaltos e tudo mais, então ela optou em desenvolver sua trama com um outro vértice, e o resultado mostra bem os motivos dessa jornada ser mais "apta" para os homens, mas ainda assim deu uma grande voz e força para duas mulheres se apoiando mesmo que não de modo comum conseguissem ir além. Diria que a trama é bonita, ousada e interessante mesmo tendo esse lado mais místico da fé que muitos não acreditam em milagres, mas que tem uma entrega tão bem entregue pela diretora que flui bem e envolve bastante, sendo simbólico e ousado nas mesmas proporções, o que acaba dando mais nuances para a trama e resultando em algo novo na tela. 

Quanto das atuações a trama foca bem mais nas duas protagonistas, enquanto usou moradores da região de Friul-Veneza Júlia, no nordeste da Itália como coadjuvantes e figurantes da trama, então tudo ficou mais simples e com ares mais rústicos, o que deu um tom diferente para a trama, mas também foi bom para não apagar as protagonistas, e com isso Celeste Cescutti teve todo o trabalho destacado de sua Agata, sendo imponente nos trejeitos, sentindo dores e passando bem isso na tela, e claro ainda com emoções a flor da pele, o que acaba dando suas dinâmicas mais propensas para alguém que está numa jornada meio que a força. Já por outro lado, Ondina Quadri trabalhou sua Lince/Lynx com um ar jovial e meio que misteriosa ao mesmo tempo, mostrando uma personagem que não sabemos muito de sua vida, que inicialmente está interessado apenas em ganhar dinheiro vendendo a protagonista como ama de leite, depois passa a se interessar pela caixa achando ter algo de valor para ela (era de valor para a mãe, claro!) também, e conforme vai junto pela jornada consegue trazer essa conexão para tudo, tendo ainda um grande fechamento na história, ou seja, chama a atenção com o que faz e pegou até que quase o protagonismo da trama para si, sendo bem interessante de estilo e desenvoltura.

Visualmente as paisagens da trama são bem marcantes, vemos um filme de jornada passando por vários ambientes, começando pela vila pesqueira bem simples no meio do mar, depois toda uma floresta cheia de percalços, depois alguns vilarejos de agricultores, passando pelas minas escuras de uma montanha, até chegarmos na beira dos montes cheios de neve e claro ao santuário do outro lado de um lago bem bonito, ou seja, algo que facilmente daria para fazer até uma série inteira da viagem, mas que a diretora foi sucinta e conseguiu entregar tudo dentro do que a trama pedia, além de mostrar o bom trabalho da equipe de arte.

Enfim, é um filme diferente de estilo, mas que passa bem sua mensagem, funciona dentro do que se propõe que é a jornada de fé da protagonista, e claro mostra que para atingir um objetivo se precisa passar por provações, e assim o resultado acaba sendo chamativo e interessante para quem gosta de tramas nessa pegada, então fica a dica para conferida na semana que vem quando estreia nos cinemas. E é isso meus amigos, fico por aqui agora, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.


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Dinheiro Fácil (Dumb Money)

11/09/2023 12:51:00 AM |

Confesso que esperava bem mais do filme "Dinheiro Fácil", pois a ideia em si é bem maluca, e sendo baseado em algo tão recente, era para funcionar melhor, mas acho que é justamente isso que acabou não dando tão certo, já que muitos que mexem com ações ainda lembram do estouro que foi em 2021, e que virou motivo de muitos ainda trabalharem com trends rápidas de contratos curtos, afinal lá uma pequenina ação quase apagada explodiu monstruosamente e quase quebrou Wall Street, ao ponto que precisaram fazer muitas regras depois. Mas não vamos entrar em detalhes disso, pois é algo muito técnico, e aliás o filme em si, embora tenha muitas músicas e palavrões a rodo para tentar deixar a trama mais "leve", é recheado de muitos termos técnicos que quem não conhece o mercado de ações vai ficar praticamente boiando com o que é mostrado na tela. E aí entra a famosa pergunta: "é um filme ruim?" e a resposta é não, pois conseguiram satirizar bem os grandes nomes que bagunçaram tudo no ano, mas acredito que talvez um documentário mais técnico funcionaria melhor e talvez mostrasse algo melhor.

O longa é baseado na história real de um grupo de investidores do Reddit que causaram um grande caos em Wall Street após apostarem nas ações da GameStop (empresa de eletrônicos de gaming). O movimento organizado no fórum da rede social fez com que as ações da empresa, inesperadamente, disparassem - e os investidores ficassem ricos. Tudo se inicia com Keith Gill, que começa a postar sobre suas apostas no fórum r/WallStreetBets e, após viralizar, atrai mais pessoas para o movimento. Porém, os engravatados de Wall Street começam a revidar.

Diria que o diretor Craig Gillespie, que sabemos bem o quanto gosta de trabalhar temas reais mais complexos, entregou algo bem cheio de estilo, que até funciona dentro do que foi proposto pelo livro de Ben Mezrich, e que claro conseguiu ter alguns personagens reais brigando com ele para que o filme não saísse, mas como disse no começo é uma trama técnica que vendeu mais pela quantidade de atores renomados na trama e por muitos ainda lembrarem de terem "perdido" a oportunidade de lucrar muito na época (claro para aqueles que fugiram antes da descida!), pois como filme mesmo, o resultado acaba sendo estranho e engraçado num primeiro momento, mas logo depois acaba cansando, não sendo algo que envolva como uma trama do estilo. Ou seja, é um filme que facilmente o pessoal do "mercado" vai acabar se divertindo e gostará do trabalho do diretor, mas quem for conferir esperando algo como seus outros longas, vai ficar esperando acontecer o que não acontece.

Quanto das atuações, diria que já ficou claro o quanto Paul Dano é um dos grandes atores jovens no momento, e aqui seu Keith é descolado, tem personalidade e segura olhares e dinâmicas da mesma forma que o verdadeiro Keith fazia em seus vídeos, de tal forma que pegou a ideia e criou olhares e desenvolturas com uma facilidade que convenceria qualquer um a apostar seu rico dinheirinho nas piores ações possíveis, ou seja, foi muito bem no que fez. Do outro lado Seth Rogen sem fazer seus gracejos tradicionais acabou entregando dinâmicas mais fechadas com seu Gabe, e passou até que meio despercebido na tela, ou melhor, demorou muito para reconhecer ele e focar no seu estilo, ou seja, ele sabe fazer filmes mais sérios e entregou personalidade também no papel, claro inicialmente achando que nada fosse acontecer, mas depois bem desesperado com tudo. Ainda tivemos America Ferrara bem desenvolvida como a enfermeira Jenny, Shaylene Woodley meio que em segundo plano demais como a esposa de Keith, Caroline, e até um Sebastian Stan contido com seu Vlad, mas nenhum pegou realmente o papel e chamou de seu como deveria, e assim o filme ficou meio aéreo no conceito de ter grandes nomes (e olha que nem citei todos), mas não explodir como poderia.

Visualmente a equipe de arte mostrou muito trabalho de pesquisa para parecer o mais real possível com tudo o que aconteceu, e de cara já irrita bastante por vermos a época da pandemia no topo com vários personagens usando máscaras durante as cenas, que como acontecia é horrível não ver a boca da pessoa se expressando, mas foi assim que aconteceu, então vida que segue, e o longa tem atos na casa do protagonista, sendo bem simples mesmo ganhando milhões, vemos seu mini-estúdio aonde gravava suas lives de investimentos, colocando algo bem básico de fundo com suas planilhas e estatísticas, vemos as casas e clubes dos milionários donos das companhias, que surtam com tudo, e fazem tudo o que não deviam fazer na época, vemos cenas em um hospital aonde a enfermeira vive, e um pouco do mundo dos jovens de faculdades com suas bagunças tradicionais, ou seja, tudo bem marcado pela época e que funciona bem na tela pelo menos.

Enfim, é um filme interessante pra quem não acompanhou as notícias na época e gosta de ver essa pegada do mercado de ações de um modo mais despojado, mas que já adianto que não são termos fáceis para quem nunca mexeu na bolsa, e que muitos vão rir de coisas que acontecem na tela sem entenderem nada, então talvez um documentário menos bagunçado fosse melhor entregue, e assim sendo fica a dica com muitas ressalvas. E é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com uma tonelada de textos, já que começo oficialmente o Festival Varilux, então abraços e até logo mais.


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O Livro da Discórdia (Youssef Salem a Du Succès) (The (In)Famous Youssef Salem)

11/08/2023 01:27:00 AM |

Costumo dizer que é sempre uma delícia conferir as comédias francesas no Festival Varilux, pois chegam aqui só as boas, e que vão divertir sem precisar apelar! E por mais incrível que pareça a sacada de "O Livro da Discórdia" é sexualidade e a vida de um rapaz argelino que ele resolveu escrever em um livro semi-biográfico, aonde inventa um pouco sobre as vidas dos pais, das irmãs e das namoradas, só que não mudando tanto os nomes acaba tendo de correr para que seus pais não leiam, e o que acontece, só vendo, pois é confusão em cima de confusão, que sendo bem simples, leve e gostoso de ver acaba funcionando bastante, pois também nos faz refletir: será que se fizermos uma biografia nossa teríamos de esconder ou daria para nosso familiares lerem? 

A sinopse nos conta que Youssef Salem tem 45 anos, é descendente de uma família de imigrantes argelinos e vive em Paris onde se dedica à escrita. Após uma série de contratempos, ele decide escrever um romance parcialmente autobiográfico, inspirado na sua juventude e em particular nos tabus que rodeiam a sexualidade no ambiente onde cresceu. O livro provoca um debate público apaixonado, mas também gera uma tensão no seio da sua família, que Youssef tentará manter unida o melhor que puder.

A diretora e roteirista Baya Kasmi já veio para vários Varilux anteriores trazendo filmes que roteirizou e foram sucessos de bilheteria como "Hipócrates" e "Os Nomes do Amor", e aqui ela mostrou que gosta de brincar com temas polêmicos, pois sabemos o quanto é um tabu imenso a sexualidade árabe, e ao fazer a divulgação do livro do protagonista acaba entrando em programas de discussões, vemos sacadas bem colocadas nas dinâmicas da trama, vemos a ironia bem colocada, e principalmente tudo que a dinâmica permite brincar na tela com o tema, mostrando o estilo e a desenvoltura que a diretora sabe trabalhar, sendo daqueles filmes que não cansam e que ainda tem pegadas reflexivas. Ou seja, diria que dava até para ela cravar um pouco mais de ironia em alguns atos, e dar um fechamento um pouco mais imponente, mas soube ir aonde dava para pontuar sem forçar a barra e o resultado funcionou.

Quanto das atuações, Ramzy Bedia caiu perfeito para o papel de Youssef Salem, pois ele tem um estilo meio durão, mas ao mesmo tempo conseguiu passar um ar família, só ficando um pouco bem diferente do jovem que colocaram como sua versão mais nova que Ilian Benomar Iza entregou, mas deu as nuances bem marcadas em cada ato do filme, como o mais contido, o desesperado e o livre, que vão tendo as devidas pegadas com os demais ao seu redor. Outra que foi bem colocada em cena foi Noèmie Lvovsky com sua Lise, a editora do livro de Youssef, e o bacana é que como ela é uma pequena no estilo, fica com tanta felicidade ao explodir o livro e ele ganhar a premiação, que como faríamos bebe aos montes, pula, dança e nem lembra do que fez no dia anterior, sendo bem "pessoa real" mesmo, e assim sendo agradou bastante. A família completa foi muito bem trabalhada, cheio de personagens divertidos, tendo os pais um carisma bem colocado e cheio de sacadas, que Abbes Zahmani com seu Omar e Tassadit Mandi com sua Fatima souberam trabalhar olhares e dinâmicas, mas sem dúvida na casa pegando "lembrancinhas" para levar foi o melhor; ainda tivemos as irmãs Melha Bedia com sua Bouchra brigando e xingando aos montes no carro para depois desejar tudo de bom para o irmão;  Caroline Guiela Nguyen com sua Loubna cheio de dedos para ocultar seu casamento; e claro Oussama Kheddam sendo o único que ficou realmente incomodado de não ter sido colocado no livro com seus pães gigantes. Ainda tivemos Vimala Pons com sua Léna Cohen mais fechada, mas botando o relacionamento pra valer dentro do que foi no livro, e Lyès Salem entregando seu Rachid cheio de imponência em cima da fama de participar de um reality estilo "Survivor".

No conceito visual a trama entregou atos bem colocados mostrando um apartamento minúsculo do protagonista, mostrando bem que escritores sem ser grandiosos ganham quase nada, tivemos vários tipos de programas de entrevistas bem montados, algumas festas, e claro toda a casa da família cheia de detalhes para mostrar bem uma família complexa e bem bagunçada, mas sem forçar o eixo, e claro uma livraria, e a casa da editora bem cheia de elementos cênicos que os pais acabam querendo levar tudo como lembrancinha, ou seja, a equipe de arte desenvolveu bem cada detalhe para que o filme funcionasse bastante.

Enfim, é um filme que se olharmos bem a fundo entrega uma trama simples, mas como disse a função cômica funciona bastante, diverte sem ser apelativo e acaba agradando bastante quem gosta do estilo, sendo uma boa dica de conferida no Festival que começa quinta-feira, então fica a dica para todos. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje, agradecendo o pessoal da Aliança Francesa de Ribeirão Preto pelo evento de abertura do Varilux 2023, e claro aos amigos do Cinépolis Santa Úrsula que deram todo o suporte, então abraços e até breve, que nessa semana o que não vai faltar será textos!


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A Última Noite de Amore (L'ultima Notte di Amore)

11/07/2023 01:14:00 AM |

Um gênero que raramente mudam a performance é o policial, pois é uma estrutura que funciona já há anos e funciona muito, basta ter capangas, conflitos de interesses, coisas roubadas, entradas ilegais, e claro policiais fazendo serviços que não deveriam estar fazendo, mas que como ganham pouco no mundo todo, acabam aceitando quando as cifras lhe fazem cosquinhas. Dito isso, um bom exemplar que estará presente na programação do 18° Festival de Cinema Italiano é "A Última Noite de Amore" que entrega bem essa base, tendo um policial prestes a se aposentar que nunca atirou em ninguém, em sua última noite acaba participando de uma escolta de traficantes de joias, e acaba envolvido em uma confusão tremenda, tendo de se virar para descobrir tudo o que aconteceu e como se livrar, ou ao menos não ficar tão sujo com tudo. Diria que o longa é bem intenso, com muitas câmeras em movimentos meio que frenéticos para dar um ritmo meio que desesperador para a trama, que consegue ser bem interessante pelas dinâmicas criadas, tendo um único porém que poderia ter sido melhorado que é o fechamento, pois o filme começa lento e misterioso, volta um pouco no tempo e começa a pegar fogo no miolo, para no final ficar meio que seco demais, e isso não é comum nesse estilo, não sendo errado, mas dava para florear mais e impactar de uma forma melhor.

Dizem que Franco Amore é Amor de nome e de fato. Sobre si mesmo, ele conta que durante toda a vida procurou ser uma pessoa honesta, um policial que em 35 anos de honrada carreira nunca disparou contra um homem. Essas são as palavras que Franco escreveu em seu discurso que fará no dia seguinte, após sua última noite de serviço. Mas aquela noite será mais longa e difícil do que ele jamais poderia imaginar. E colocará em perigo tudo o que é importante para ele: o trabalho como servidor do Estado, o grande amor por sua esposa Viviana, a amizade com o colega Dino, sua própria vida. Naquela noite, tudo se entrelaça freneticamente pelas ruas de uma Milão onde parece que a luz nunca chega.

Conhecemos o diretor e roteirista Andrea Di Stefano pelos muitos blockbusters que trabalhou como ator ("As Aventuras de Pi", "Nine", "Comer, Rezar, Amar", entre outros), e também pelo seu segundo trabalho na direção, "O Informante", aonde foi um pouco inseguro com os estilos e desenvolturas, e agora mostrou que evoluiu bastante em seu terceiro longa, pois mostrou pegada, trabalhou ângulos e intenções nos atos mais fortes, e acabou brincando bastante com tudo, só talvez como já disse no começo segurou um pouco a mão no fechamento, que talvez pudesse ter montado uma estrutura maior, os acontecimentos acontecendo em cadência e tudo mais, certamente o resultado ficaria incrível e chocaria bem mais com tudo, pois a ideia que dá é que talvez tudo fecha ali, mas que também ficaria feliz com um epílogo, mas como sabemos que sobrou muito pouca coisa para uma continuação valeria uns 10 a 20 minutos a mais para algo melhor formatado. Ou seja, volto a frisar que não é ruim o que o diretor entregou, só a gosto pessoal colocaria um pouco mais de cobertura no bolo para que ele ficasse lindo com o recheio bem trabalhado que foi feito.

Diria que Pierfrancesco Favino soube dominar bem a personalidade de Franco Amore, que chega a ser algo até presente na essência que entrega em cada ato, e como o começo do filme é praticamente o miolo da trama, quando volta um pouco antes acabamos entendendo bem suas expressões, ou seja, ele passou bem a ideia de um policial todo certinho no seu último dia de trabalho, que talvez pudesse ser mais light com as opções que o personagem escolheu fazer, mas o resultado do ator foi bem intenso e agrada bastante. A esposa Viviana que Linda Caridi entrega foi ao mesmo tempo desesperada, mas também bem esperta nas escolhas e desenvolturas que faz na tela, de forma que a atriz segurou bons atos com trejeitos inteligentes, e mostrou muita ambientação dupla, que funciona bastante na cena da festa, ou seja, foi bem demais na trama por completo. Ainda tivemos atos bem colocados de Francesco di Leva com seu Dino com uma marra inicial bem colocada, mas que acabou entrando numa tremenda fria, vemos Antonio Gerardi com seu Cosimo cheio de astúcia e desenvoltura, que inicialmente parecia não ter muito uso na trama, mas que acaba sendo importante no final, e até mesmo o garotinho Martin Francisco Montero Baez entregou atos bem expressivos com seu Ernesto, mostrando que o elenco em si esteve bem disposto nos personagens secundários também, mas deixando todo o filme para o protagonista desenrolar.

Visualmente a trama tem cenas bem marcadas que a equipe filmou com câmeras 360°, dando nuances e ângulos em muita velocidade, muitos drones também para pegar os atos por cima, e basicamente o filme quase que todo se passa em uma via expressa que o diretor optou por filmar realmente com carros passando em alta velocidade enquanto filmava tudo com o protagonista, então a sensação real funcionou bem ali, com tiros e muita explosão cênica, tendo também alguns atos no apartamento do protagonista com uma festa rolando, uma festa na cobertura dos chineses, e alguns atos em restaurantes, tudo bem simbolizado e funcional para a trama.

Enfim, é um filme interessante, com uma pegada bem imponente tanto no começo quanto no miolo, que fecha de uma maneira meio que simples demais, mas que faz valer o tempo de tela, ou seja, dava para ser incrível, mas o resultado completo funciona e agrada como todo bom filme policial, então fica a dica para conferir no Festival, e eu fico por aqui hoje, mas volto em breve com mais dicas, então abraços e até logo mais.


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Star+ - Quiz Lady

11/05/2023 11:38:00 PM |

O pessoal fala que eu pulo comédias e romances das plataformas, mas nem sempre isso ocorre, basta aparecer algo que seja interessante, e claro que irei dar play, e hoje resolvi ver o longa que estreou na Star+, "Quiz Lady", que tem duas mulheres malucas que entregam sempre comédias irreverentes de um modo não muito tradicional que é Sandra Oh e Awkwafina, além de ter uma síntese bem maluca de uma garota viciada em programas de perguntas que é praticamente um Google ambulante, ou seja, tinha tudo para ser algo hilário bem colocado, que até sabia que poderia ter situações apelativas, afinal Awkwafina gosta de apelar um pouco em suas tramas, mas esperava rir bem mais do que aconteceu, afinal o filme tem uma pegada mista entre sério e cômico e não vai muito além. Claro que passa bem longe de ser uma bomba, mas dava para trabalharem mais os momentos e colocar mais comicidade nas dinâmicas, pois acabou ficando apenas um passatempo simples de domingo, aonde vemos o filme, damos algumas risadinhas básicas, e amanhã nem vamos lembrar do que vimos, o que é uma pena.

A sinopse nos conta que Anne - uma mulher obcecada por programas de quiz - e sua irmã distante, Jenny, devem trabalhar juntas para ajudar a cobrir as dívidas de jogo de sua mãe. E quando o querido cachorro de Anne é sequestrado, elas partem em uma jornada intensa pelo país para conseguir o dinheiro. Para fazer isso, elas devem aproveitar o conjunto de habilidades de Anne, transformando-a na campeã de game show que ela está destinada a ser.

A diretora Jessica Yu tem em sua carreira muitas séries famosas, mas pouquíssimos filmes, e isso entrega um pouco do seu estilo que acabou entregando no longa, pois vemos algo que daria fácil para quebrar em três episódios bem separados, e estamos falando de um filme de pouco mais de 90 minutos, ou seja, ela criou uma estrutura que até tem um desenvolvimento interessante e familiar, mas talvez se prendesse mais na conexão do quiz realmente, o resultado acabaria mais engraçado. Ou seja, não é um filme ruim, mas faltou um pulso mais cômico para que a trama fosse mais divertida, sendo algo honesto e que agrada como um passatempo, mas como costumo falar, ser apenas um passatempo é falhar em alguns detalhes no cinema.

Quanto das atuações, é nítida a química entre as protagonistas, de forma que Awkwafina conseguiu passar bem toda a dinâmica de uma mulher certinha demais, sendo quase um robô com sua Anne, vivendo apenas para trabalhar e chegar em casa para conferir seu programa de perguntas preferido junto com seu cachorro, sabendo pontuar respiros e respostas na mesma velocidade, sendo engraçada do seu jeito espalhafatoso, mas que convence dentro do papel, e isso que é o bacana de ver em seu estilo. Enquanto Sandra Oh pareceu um pouco deslocada na produção, pois aparentemente Jenny deveria ser bem mais nova, mais maluca e jogada de trejeitos, coisa que ela não costuma fazer muito em seus filmes, mas como é uma tremenda atriz soube segurar bem o estilo e agradar em cena pelo menos. Ainda tivemos atos bem interessantes de Holland Taylor como a vizinha Francine que reclama de tudo, Will Ferrell como o apresentador bem humorado e cheio de sacadas do game show, e Jason Schwartzman como Ron, o ganhador de várias rodadas que quer aparecer sendo simpático demais.

Visualmente a trama mostrou um pouco do ambiente de trabalho da protagonista como auditora, escondida num cantinho do escritório, sua casa toda certinha, e teve alguns flashbacks para mostrar a vida dela e da irmã quando garotinhas, ainda tiveram passagens por alguns cafés e restaurantes, até uma pousada meio temática estranha, um centro de eventos aonde tem as seletivas do show, até chegar realmente no programa que tem todas as gravatas do apresentador. Isso sem falar depois no pós-filme que mostra várias coisas que ocorreram com as irmãs, ou seja, a equipe de arte trabalhou bastante e o resultado funciona.

Enfim, é um filme básico com uma proposta interessante, que serve como um bom passatempo e só, que quem conferir esperando uma comédia que vai fazer rir aos montes irá se decepcionar, mas quem der play apenas para curtir acabará gostando do resultado como um todo, e assim sendo fica a dica. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais dicas, então abraços e até logo mais.


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A Última Vez Que Fomos Crianças (L'Ultima Volta Che Siamo Stati Bambini)

11/05/2023 05:15:00 PM |

Costumo dizer que filmes que envolvem crianças sempre trabalham bem toda a ideia de inocência junto com desenvolturas em cima de temas mais amplos. E a sacada de "A Última Vez Que Fomos Crianças", que poderá ser conferido à partir do dia 08/11 no site do Festival de Cinema Italiano, brinca bem com essa base usando claro todo o clima de guerra, da entrega dos judeus italianos para a Alemanha, o elo dos jovens apaixonados pelo fascismo, o conflito de ideais da Igreja na época, e por aí vai, pois daria para enumerar diversos temas secundários pesados que o longa passa, mas como o ar dos jovens vão se envolvendo e entregando tudo com uma leveza bem tradicional das crianças, o resultado acaba fluindo bem e não causando tanto quanto uma trama adulta acabaria trabalhando. Ou seja, é daqueles filmes que envolvem, que torcemos pelos personagens, que vamos nos conectando com as duas formas de ver algo, indo na frente com as crianças e atrás com os jovens, e que trabalha bem todos os sentimentos da época,  que dava para ir até mais além com tudo, mas que optaram por uma leveza mais íntegra durante todo o longa para fechar de um modo mais pesado, que funciona, mas que dava para ser melhor diluído.

O longa nos situa em Roma, 1943. Quatro crianças, incluindo Italo, filho de um líder fascista, e Riccardo, de uma família judia, formam uma amizade inseparável em meio à guerra. Quando Riccardo é capturado pelos nazistas, seus amigos embarcam em uma missão arriscada para resgatá-lo, viajando por uma Itália devastada. Paralelamente, dois adultos, Agnese e Vittorio, partem em busca das crianças, enfrentando desafios e diferenças pessoais. A jornada revela a inocência da infância contrastando com os horrores da guerra, culminando em um desfecho impactante.

Claudio Bisio é muito mais conhecido pelos grandes papeis que fez em filmes italianos e nas dublagens de importantes personagens, e agora resolveu se entregar como diretor e roteirista, e aqui em seu primeiro longa na função diria que ele soube dosar bem os temas para que tudo ficasse como um passatempo interessante, bem simbolizado pelo envolvimento das crianças, e que ainda tivesse uma boa conexão de moral com o ambiente em si, de tal forma que nos conectamos facilmente tanto com as crianças, quanto com o casal jovem que vai procurando elas, vendo tudo por óticas de guerra diferentes, com ousadias e desenvolturas das crianças sem perceber tudo o que vão entregando, e assim o diretor soube ser bem simbólico e emocional, sem precisar apelar ou julgar por si próprio toda a ideia da guerra. Ou seja, daria para o filme ter uma amplitude maior, causar mais emoções e até ir mais além, porém para um primeiro trabalho na função, diria que o resultado acabou sendo agradável e interessante de ver.

Quanto das atuações, diria que o trio de crianças vividos por Alessio Di Domenicantonio com seu Cosimo, Vicenzo Sebastiani com seu Italo e Carlota De Leonardis com sua Vanda foram bem trabalhados nos contextos da trama, entregaram olhares e dinâmicas tradicionais e se soltaram bastante para que tudo tivesse grandes conexões e desenvolturas, de tal maneira que acabou parecendo bem uma aventura de amigos em busca de outro, o que acaba sendo muito bem encaixado, com o pequenino mais puxado para o lado emocional, o gordinho com toda a sacada de paixão pelo fascismo sem saber exatamente tudo o que prega, e a garotinha mais pensante e tendo todas as sacadas para manter bem o grupo, o que acaba funcionando bastante. Mais atrás tivemos Federico Cesare com seu Vittorio e Marianna Fontana com sua Agnese tendo diálogos e dinâmicas mais contundentes, criando situações e trejeitos mais duros, mas ainda assim com um ar leve em cima de tudo, o que acaba chamando bastante atenção. Ainda tivemos o jovem Lorenzo McGovern Zaini no começo com seu Riccardo bem colocado, dando boas lições para os amigos, e conectando todos eles com grande desenvoltura.

Visualmente a trama funciona quase como um road-movie aonde os jovens inicialmente se conhecem numa Itália já devastada, com as crianças brincando em meio aos bombardeios, vemos a pequena loja judia, o orfanato caindo aos pedaços, e as brincadeiras de abater aviões com estilingues e armas de brinquedo, depois vamos pelos trilhos passando por mortos, por vilas com agricultores quase sem nada, alguns a beira da morte sem comida, e os trens de judeus passando a todo momento levando para os campos de trabalho, tudo bem simbólico de estilos, vemos os jovens arrumando comida, fazendo as barracas e experimentando coisas sem saber, tudo com muita conexão e detalhes para marcar tanto a época quanto a desenvoltura da trama toda.

Enfim, é um filme simples, mas bem feito e envolvente, que não vai mudar em nada o que aconteceu, mas que demonstra o conhecimento dos italianos no que vivenciaram da guerra, e mais do que isso, mostra como as crianças enxergavam tudo, afinal são apenas amigos, mesmo que de lados opostos de uma guerra, ainda querem é brincar, e para isso foram em busca do amigo levado. Então fica a dica para dar o play no longa do Festival, e claro a reflexão do que anda acontecendo no mundo também atualmente. E é isso pessoal, fico por aqui agora, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.


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Não Abra! (It Lives Inside)

11/05/2023 02:01:00 AM |

Acho que já falei isso algumas vezes, mas sempre vale repetir que vender um longa de terror é muito fácil, mas entregar algo realmente bom é algo que poucos conseguem fazer! Comecei o texto do longa "Não Abra!" dessa forma pelo simples fato que o trailer mostrava coisas tensas, jovens falando em línguas incomuns e imagens sangrentas, de tal forma que mesmo a sessão de hoje sendo bem tarde, eis que a sala estava com um bom público, só que o filme falha muito em tudo o que entrega, sendo uma trama que usa um pouco da cultura indiana dentro de uma cidade americana, tendo todo um lance místico inicialmente meio como um espírito depois vem como um mito até ter uma forma material estranha, e ainda por cima entrega dinâmicas que poderiam arrepiar mais, com sustos gratuitos meio que jogados, ou seja, uma bagunça de estilos que não vai muito além, tendo somente três boas cenas realmente a do garoto no balanço, a do pai entrando na casa e a da professora no banheiro, pois as demais acabaram sendo gritaria sem muito rumo, o que desanima um pouco dentro do gênero.

A trama acompanha Sam, uma adolescente de origem indiana que vive nos Estados Unidos. Moradora de um subúrbio com sua família conservadora, Sam luta para lidar com várias inseguranças culturais, que acabam aumentando por conta de sua amiga distante, Tamira - que sempre carrega consigo um misterioso jarro vazio. Após um desentendimento com a amiga, em um momento de raiva, Sam acaba quebrando o jarro, mas jamais poderia imaginar que, ao fazer isso, libertaria uma força demoníaca antiga e extremamente perigosa que sequestra Tamira. Desesperada, Sam faz de tudo para encontrar a amiga, mas sua busca faz com que ela mesma acabe na mira do demônio. Correndo sério perigo, ela deve desvendar segredos enterrados há muito tempo por seus ancestrais para conseguir se livrar da entidade que se alimenta de seus medos mais profundos.

Diria que a ideia em si de terror usando culturas diferentes até funcionam bem, mas acredito que por ser o primeiro longa do diretor e roteirista Bishal Dutta, ele não conseguiu trabalhar bem os argumentos de forma a convencer por completo toda a ideia do monstro, ficando algo muito aberto para uma síntese que merecia rumos melhores. Claro que ele conseguiu ser bem simbólico dentro da ideia completa, mas ficou faltando aquele arrepio real que sentimos ao ver um bom terror, que cria toda aquela tensão de ir olhando pelo caminho até chegar no estacionamento, mas quem sabe ele corrija isso na continuação, já que deixou aberta a ideia para algo mais tenso, então veremos no que dá.

Quanto das atuações, Megan Suri entregou uma Sam interessante de trejeitos, com uma pegada meio que mista entre duvidar do que está acontecendo realmente com medo em alguns atos e uma coragem até que exagerada em outros, de tal forma que funciona, mas é estranho ver esse tipo de personalidade em um filme do estilo. Ja Mohana Krishnan trabalhou sua Tamira de um modo que ela chega a ser assustadora de ver, com trejeitos meio que fortes e dinâmicas intensas que causam um certo temor, ou seja, até que foi bem em suas cenas, e talvez se usassem mais ela o filme recairia para outros rumos. A professora vivida por Betty Gabriel até entregou alguns bons momentos, mas diria que exagerou um pouco em tudo, e claro o jovem Gage Marsh soou tão falso em suas cenas, que como costumo falar em filmes desse estilo, acabamos torcendo pro bicho pegar logo ele. Ainda tivemos os pais vividos por Neeru Bajwa e Vik Sahay, que até tiveram algumas cenas envolventes com a entidade, mas não foram muito além dentro da trama.

No conceito visual a trama teve a tradicional casa abandonada, aonde o rapaz morreu, e é claro que vão lá mexer aonde não deviam, tem cenas intensas dentro da escola, com a professora brincando de apagar e acender a luz do banheiro, tem todo um momento de ritual indiano bem cheio de detalhes, e alguns efeitos meio que estranhos de ver, mas que só não foram mais estranhos que o bichão chamado pishacha, que no escuro ficou interessante de ver só com os olhinhos, mas por inteiro ficou um misto de Godzila com Alien que não agradou muito não.

Enfim, é uma trama que dava para ter ido mais além e causado mais, principalmente pelo trailer vendido que pareceu muito mais interessante de resultado, mas precisaria mudar muita coisa para funcionar, então vou dar a nota pelos leves arrepios em algumas atos, mas nada que causasse como deveria, e sendo assim não recomendo o longa para ninguém. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais textos, então abraços e até logo mais.


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Ainda Temos o Amanhã (C'è Ancora Domani)

11/04/2023 09:29:00 PM |

Costumeiramente alguns filmes com temas polêmicos são bem colocados dentro de festivais, e o mais interessante é que são os que mais são aclamados pela crítica em geral, porém não é um estilo que me agrada muito se ele não empunhar algo que realmente mostre a que veio. Comecei dessa forma o texto de "Ainda Temos o Amanhã", que poderá ser conferido à partir do dia 08/11 no 18° Festival Italiano de Cinema, pois alguns diretores têm a possibilidade de entregar tramas bem contundentes de muitas maneiras, e o que o longa trabalha até entrega dinâmicas bem colocadas, explicita a vida de muitas mulheres que são tratadas de capacho por seus maridos, e como eram bem mal arranjados os casamentos antigamente, e no longa vemos a proposta de mudança da vida de uma mulher por alguns meios bem trabalhados, e um deles o menos esperado foi escolhido por ela, o que chega a ser surpreendente, mas não para como desejávamos ver na tela. Ou seja, é um filme interessante, que talvez entregue alguns gatilhos para algumas pessoas, mas que dava para ser mais marcante, e principalmente não necessitava ser em preto e branco.

A sinopse nos conta que em uma Roma pós-guerra dos anos 40, dividida entre o otimismo da libertação e as misérias, vive Delia, uma mulher dedicada, esposa de Ivano e mãe de três filhos. Esses são os papéis que a definem e ela está satisfeita com isso. Enquanto seu marido Ivano age como o chefe autoritário da família, Delia encontra consolo em sua amiga Marisa. A família se prepara para o noivado da filha mais velha, Marcella, que vê no casamento uma saída para uma vida melhor. No entanto, a chegada de uma carta misteriosa dá a Delia a coragem para questionar seu destino e de sua família e, talvez, encontrar sua própria liberdade. Entre segredos e reviravoltas, este drama emocionante explora o poder do amor e da escolha em tempos difíceis.

Diria que a diretora e protagonista Paola Cortellesi até foi bem em sua estreia na direção, pois com anos de experiência atuando em filmes bem densos, e outros mais cômicos, ela soube escolher atos que dessem bons frutos e desenvolvimentos na tela, que tivessem estilo e até optou por uma montagem bem cheia de suspense sobre o rumo que iria tomar, porém faltou uma mão mais forte para dar as devidas quebras que o filme precisava, pois esse estilo de longas de época, com temáticas mais pesadas precisam de respiros e mudanças de ares em vários atos, o que acabou não acontecendo, e com isso o filme a todo momento nos bota em cheque para odiarmos o marido, esperar alguma atitude diferenciada da esposa, ver ela apaixonada pelo dono da oficina, mas não, ela vai por outro rumo, que talvez mude sua vida e de muitos outros, mas como a síntese era outra, o resultado não flui como deveria.

Agora falando de Paola como protagonista da trama, aí sim sua Delia é incrível, mostra uma mãe preocupada com que os filhos não a vejam apanhando, faz mil trabalhos enquanto o marido apenas fala para ela que não fez nada no dia, e a atriz trabalhou olhares, sentimentos e dinâmicas bem marcantes para suspirar bem cada ato seu. Valerio Mastrandea trabalhou seu Ivano como um homem machista de nível máximo, que até pelo bom dia da esposa a soca a mão na cara, aonde o pai fala que a mulher não deveria abrir a boca para nada, faz trejeitos fortes e intensos, e consegue ser bem marcante em cena. Ainda tivemos Romana Maggiora Vergano bem ampla com sua Marcela, desejando sair o quanto antes de casa e que sua mãe também não seja apenas o saco de pancadas do pai, faz atos bem emotivos e bem colocados, e agrada com o que faz; e ainda vale o destaque para Emanuela Fanelli como a amiga Marisia que dá o tom para os atos de conversa e de abertura da mente da protagonista, sendo bem direta e interessante na tela; e claro algumas leves, porém bem colocadas cenas de Yonv Joseph como um soldado americano que ajuda a protagonista em alguns atos bem interessantes.

Visualmente a trama é bem interessante de ver, e nesse sentido o preto e branco da filmagem até faz o sentido de dar o tom de época sem precisar trabalhar tanto a cenografia, pois temos um apartamento simples no subterrâneo de um prédio, vemos bem toda a simplicidade do ambiente, com o quarto do avô, das crianças e do casal, a cozinha, os detalhes da feira e até o exército americano ainda presente na Italia, vemos as oficinas simples também, e a disputa por alimentos, ou seja, tudo bem representativo e funcional que agrada e contrasta bem com a família rica que vai na casa deles.

Enfim, é um filme que tinha potencial para ir mais além, mas que não empolga como deveria e que mesmo o final surpreendendo com algo inesperado, acaba não sendo tão impactante como poderia se fosse pelo rumo mais óbvio. E assim sendo diria que não curti tanto ele, mas não é ruim de ver, e assim sendo fica a dica para quem quiser dar o play nele no Festival. E é isso meus amigos, fico por aqui agora, mas volto em breve com mais um texto de hoje, então abraços e até logo mais.


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Netflix - Nyad

11/04/2023 04:45:00 PM |

Sou suspeito pra falar de filmes esportivos baseados em histórias reais de superação, pois amo demais, me envolvo e no final já estou torcendo que nem um maluco para que a pessoa consiga chegar ao final e ganhar o que se propôs a fazer, mas o que vi hoje no longa da Netflix, "Nyad", é daquelas tramas que não tem como não se arrepiar, não tem como não chorar e vibrar com tudo o que é mostrado na tela, pois Annette Bening deu tudo e mais um pouco para que a personalidade forte de Diana Nyad aparecesse na tela, e junto de uma Judie Foster como treinadora não tinha como dar errado! Sei que é difícil apostar em filmes desse estilo caírem nos gostos dos votantes da Academia, mas facilmente eu colocaria o longa entre os melhores filmes desse ano, e claro a protagonista na briga máxima pelo prêmio, pois é um filme que se olharmos a fundo até é simples de dinâmica, com uma pessoa nadando no mar acompanhada por sua equipe em um barco, sem poder ter contato físico com a nadadora, nem ela podendo encostar no barco, apenas recebendo comida e medicação quase que por arremesso, mas tudo sendo montado por especialistas em tubarões, em águas-vivas, navegadores experientes e tudo mais, que entregaram tudo pelo sonho de uma mulher que foi abusada pelo treinador no passado quando competia natação, que desistiu quando mais jovem por não conseguir fazer a travessia, mas que aos 60 anos decidiu tentar novamente e na quinta tentativa, depois de muitos perrengues conseguiu. Ou seja, um filmaço de primeiríssima linha que funciona demais e vale a pena ser conferido!

Inspirado na verdadeira história da nadadora americana Diana Nyad, o filme narra um momento importante da carreira da atleta que aos 60 anos, desafiou as probabilidades de se tornar a primeira pessoa a completar uma viagem de 161 km em 53 horas, de Cuba à Flórida em pleno alto mar. Auxiliada por Bonnie Stoll sua melhor amiga e uma equipe de 35 apoiadores dedicados, Nyad pretende nadar através de águas-vivas venenosas e águas infestadas de tubarões para completar sua missão, ultrapassando todos os limites e mostrando sua capacidade para os que duvidaram dela.

Diria que os diretores Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi conseguiram trazer toda uma vertente incrível para o livro da verdadeira Diana Nyad que Julia Cox adaptou para as telas, pois tramas de superação quando retratadas em filmes é 8 ou 80, não tendo como ficar no meio termo, já que ou você apela para a emoção e acerta direto com algo que vai ser incrível, ou segura o tom e trabalha com algo mais denso e forte que pode ficar fora de série, e em ambos os casos tudo pode dar muito errado, pois se ficar apelativo demais o público que não é tão emocional vai achar chato e cansativo, e se não apelar nem um pouco acaba ficando uma trama sem emoção, ou seja, é o famoso filme dificílimo de fazer e agradar a todos, mas que souberam criar todas as dinâmicas de uma forma bem coesa, emocional em nível máximo e principalmente escolheram perfeitas atrizes para os papeis principais, afinal é um filme de ator, aonde se errar ali, o longa fica deprimente, e não foi o que ocorreu, pois ficou perfeito, mostrando técnica, boas escolhas e um recorte primoroso.

E falando das atuações, fiquei pensando o quanto Annette Bening se preparou para fazer Diana Nyad, pois a atriz já está com a mesma idade da nadadora, mas não com a disposição maluca para fazer exercícios, nadar aos montes e ainda se impor na tela com muita personalidade, mas quando falamos em personalidade ela é a melhor, e conseguiu entregar tanto na tela que chega a impressionar, ficando muito parecida com a verdadeira Diana, e entregando um gênio forte e impactante que certamente vai ficar na mente de quem gosta dela, e como já disse no começo, irei torcer para ver ela nas premiações e vou vibrar também se ganhar. Outra que foi perfeita de imposições é Jodie Foster totalmente diferente para que sua Bonnie ficasse bem semelhante à original que vemos no final do longa, e trabalhando uma amizade difícil com a protagonista criou dinâmicas e imposições com muita personalidade, deu nuances emocionais nos momentos certos e conseguiu criar algo que fosse bem marcante na tela. Além delas tivemos bons atos de todos os demais atores que fizeram parte da equipe principal da nadadora, com Luke Cosgrove entregando Luke Tipple e Ethan Jones com seu Nico especialistas em tubarões, Karly Roth como Dee uma marinheira mega experiente, Jeena Yi com sua Angel Yanagihara especialista em águas-vivas, mas principalmente quem teve atos bem emocionais e envolventes foi Rhys Ifans como o navegador John Bartlett, demonstrando um carinho pela protagonista e sabendo muito bem os riscos, de modo que o ator soube segurar bem ainda um problema seu para ajudar na meta da equipe. Isso sem falar nas caras fortes e duramente presas na mente da personagem que Eric T. Miller fez como o treinador Jack Nelson que abusou da nadadora quando jovem.

Visualmente é claro que não fizeram a protagonista fazer a travessia que seria algo completamente insano, mas filmaram bem em piscinas para dar todo o realismo das cenas mais fortes, filmaram boas cenas no barco e claro nas cenas nas casas e eventos aonde elas foram para vender e conseguir patrocínios, de forma que cada detalhe contou como luzes para ver a personagem no meio do escuro noturno do mar, máscaras de proteção contra as águas-vivas, roupas térmicas para suportar o frio, e tudo isso acontecendo várias vezes, pois foram cinco tentativas até conseguirem, e a equipe de arte foi minuciosa nos detalhes chamativos da travessia, além de representar bem a época.

Enfim, é um tremendo filmaço que recomendo para todos verem, mostrando claro um lema de vida e superação, que não tem idade para se conseguir fazer um sonho acontecer, basta ter vontade, e que cheio de ótimas interpretações em uma direção perfeita e marcante vai com certeza fazer todos lavarem as salas de casa com tudo o que ocorre no longa. Vale demais o play e eu fico por aqui agora, pois volto hoje ainda com muitos outros filmes e dicas, então abraços e até logo mais.

PS: sim, acho que ando bonzinho demais com a quantidade de notas máximas que ando dando, mas o filme me comoveu demais, e não achei nada que atrapalhasse para baixar a nota, então vejam!


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Obrigado Rapazes (Grazie Ragazzi)

11/04/2023 12:34:00 AM |

Certa vez discutindo estilos cinematográficos um amigo me questionou o motivo de nos festivais, principalmente de filmes europeus, existirem muitas comédias dramáticas (as famosas dramédias como muitos apelidam), e a resposta que dei foi bem simples, pois eles são os poucos que conseguem trazer no mesmo filme algo que faça você rir aos montes e também lavar o cinema com a emoção na medida certa. Claro que também aparecem muitas bombas que não atingem esses critérios, mas a grande maioria que chega ao menos aqui no outro continente geralmente é perfeita, e hoje com "Obrigado Rapazes", que poderá ser conferido a partir de quarta 08/11 em cinemas de várias cidades e online no site do 18° Festival de Cinema Italiano, eu me vi arrepiado com algumas cenas, escorrendo algumas lágrimas em outras e rindo muito em vários momentos, ou seja, a essência básica do estilo atingida ao máximo numa obra que contém um pouco de tudo, muito envolvimento por parte dos atores, e mais do que isso, consegue mostrar a chamada tentativa de socializar presidiários com algo fora das grades, e claro que o teatro ao menos ajuda eles a encontrarem outras facetas e a ter com o que se ocupar com os roteiros de peças. Ou seja, é um filme tão bem formatado que vale demais a conferida, e que sendo uma adaptação de um filme francês de 2020, acho que vou fazer o teste se irá me emocionar com ele também.

A sinopse nos conta que diante da falta de ofertas de emprego, Antonio, um ator apaixonado, mas muitas vezes desempregado, aceita um emprego que lhe é oferecido por um velho amigo e colega, muito mais experiente que ele, como professor de uma oficina de teatro em um instituto penitenciário. Hesitante a princípio, descobre talento na improvável companhia de presidiários e isso reacende sua paixão e vontade de fazer teatro, a ponto de convencer a severa diretora penitenciário a cruzar os muros da prisão e encenar a famosa comédia de Samuel Beckett “Esperando Godot” em um verdadeiro palco de teatro. Dia após dia, os reclusos rendem-se à determinação de Antonio e deixam-se levar, descobrindo o poder libertador da arte e a sua capacidade de dar propósito e esperança para além das expectativas. Assim, quando chega o sinal verde final, começa uma viagem triunfal.

Não assisti ao longa francês "A Noite do Triunfo" no qual o diretor e roteirista Riccardo Milani se inspirou para fazer sua versão, mas posso dizer que aqui ele soube trabalhar tão bem alguns fatores que acabam fazendo com que tudo seja muito fluido na tela, de modo que mesmo sendo presidiários acabamos nos conectando com todos os personagens, conseguimos saber exatamente aonde tudo irá chegar para cada um deles, e sentimos toda a emoção do professor/diretor teatral que certamente passa na tela bem a síntese real de um diretor ao ver seus alunos brilhando e sendo aplaudidos, pois tudo funciona demais, tendo conexões e dinâmicas tão precisas que mesmo nos atos mais pesados, o resultado acaba aparecendo com muita leveza, e ao final você fica pensando, eles não vão fazer isso, e aí é que entra a sacada completa do texto que estão interpretando "Esperando Godot" que numa toma magistral acaba indo para outros rumos e aí é só aplaudir. Ou seja, o diretor meio que passou a bola para o ator que faz o diretor da peça sentir a demanda, tanto que você não vê a mão de Riccardo Milani na tela, mas sim a síntese toda acontecendo por parte dos demais, e isso é lindo quando ocorre, pois nos diverte e agrada com minúcias.

Quanto das atuações, a base completa de carisma e envolvimento fica a cargo de Antonio Albanese com seu Antonio, no caso o diretor/professor de teatro, que começa com cenas cômicas de nível máximo dublando filmes adultos, e sua chegada na prisão é algo que não tem como não rachar de rir, mas logo que desenvolve o trabalho com os presos, vamos vendo bem um ar de paixão tanto pelo teatro como por ensinar os presidiários a irem além, e o ator soube passar tudo com gestuais e olhares no melhor estilo possível, agradando demais do começo ao fim, e aliás que final ele entrega, ou seja, deu show. Sonia Bergamasco também teve alguns bons atos com sua Laura, a diretora do presídio, trabalhando com um ar mais fechado e duro, mas conseguindo conectar bem seus momentos, e envolver bastante conforme o longa se desenvolve, sendo imponente, mas tendo um pouco de doçura no interior. Logo de cara já ficamos com o dois pés atrás do personagem de Vinicio Marchioni, Diego, pois sendo meio que um chefão da cadeia, o ator impõe muito quando pede para entrar na trupe teatral, mas se doa bastante, tem atos fortes, e consegue nos cativar com as viradas de trama, emocionando também com seu jeito de atuar, ou seja, foi bem demais. Já o Aziz que Giacomo Ferrara faz é tão doce e determinado, que de cara parece ser aquele que está ali realmente para interpretar, tendo desenvolturas bem encaixadas e dinâmicas na medida para agradar por completo. Giorgio Montanini já trabalhou o lado mais explosivo e cômico com seu Mignolo, tendo toda a desenvoltura com sua esposa fogosa, e claro botando sacadas bem próprias na peça e nas dinâmicas, o que acaba funcionando bastante. E por fim ainda tivemos Andrea Lattanzi com seu Damiano gago e que não sabia ler nem escrever, emocionando com dinâmicas tão bem pautadas pelo professor, que acaba indo num fluxo tão bem encaixado que não tem como não se envolver, sendo perfeito em cena. Ainda tivemos algumas participações de Fabricio Bentivoglio com seu Michele e Liliana Bottone com sua Marianna, mas sem dúvida entre os secundários vale o destaque para Bogdan Iordachiou com seu Radu fazendo uma participação incrível na peça, que não dava nem para imaginar, entre muitos outros bons personagens.

Visualmente a trama é bem trabalhada dentro de um presídio limpíssimo e até bonito de ver, que chega a parecer uma escola de tão organizado, mas como sabemos que mundo afora temos presídios desse estilo, o resultado acaba mostrando algo bem trabalhado, vemos uma sala de teatro bem simples, porém com palco e tudo bem encaixado para os ensaios, vemos algumas cenas inusitadas em cabines de visitas, e até mesmo nas celas com os jovens ensaiando aos gritos, mas principalmente o mais bonito é ver a peça pronta em vários teatros da Itália, alguns bem famosos, outros menores, e claro todo o brilho dos protagonistas em verem o dia e tudo fora das grades, mostrando muita representatividade nos devidos momentos, o que chama muita atenção no trabalho da equipe de arte.

Enfim, é um filme delicioso de conferir, que recomendo demais para quem gosta do estilo, sendo daqueles que as emoções fluem facilmente, e o resultado ainda consegue impressionar bastante. Sei que talvez me arrependa de dar a nota máxima para ele, pois dava para alguns atos serem mais trabalhados, mas tirar um ponto completo é um pecado para um filme que me tirou várias sensações durante a conferida, então fica a dica, e eu fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais dicas, então abraços e até logo mais.


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A Sombra de Caravaggio (L'Ombra Di Caravaggio)

11/03/2023 12:09:00 AM |

Não tem jeito, todo mundo que estuda cinema, fotografia, pintura, teatro, iluminação, e tudo mais que envolva arte vai ter Caravaggio como matéria de prova, é fato inegável e seu estilo de pintura foi único que muitos até hoje tentam copiar ou reproduzir algo parecido, pois as sombras que entregava em suas pinturas, fora os estilos expressivos que escolhia, e mais do que isso sua irreverência em usar mendigos e prostitutas como modelos para representar arte sacra das passagens bíblicas foi algo genial por parte desse italiano que ainda por cima se metia em muitas brigas, mas maluquices à parte, ele foi um gênio da arte. E começando os trabalhos em cima do 18° Festival de Cinema Italiano, que poderá ser conferido gratuitamente de 08/11 a 09/12 presencialmente em várias cidades, e online no site do Festival, eis que abri os trabalhos com "A Sombra de Caravaggio", que entrega não tanto a sombra usada pelo pintor em suas artes, apesar de vermos o recorte de montagem em vários atos, e claro uma fotografia incrível com vários tons para cada momento, mas sim um inquisidor encomendado pelo Papa para descobrir tudo sobre o pintor antes de lhe dar o perdão solicitado após ele se envolver em um crime e também por suas obras que alguns membros da Igreja amavam enquanto outros odiavam, e com isso o rapaz acabou sendo chamado de Sombra por estar sempre na cola do pintor, descobrindo tudo entre as pessoas que serviram como musas/musos ou apenas deram abrigo para ele. Diria que é um filme intenso, belíssimo e cheio de grandes estrelas nos principais papeis, mas que acaba sendo meio confuso entre as idas e vindas dos anos, afinal a trama é contada por várias pessoas, e isso faz a história ir para 1500 e pouco, depois volta para 1609, ia para 1600, voltava para 1610 e assim sem uma linearidade maior acabaram pesando um pouco no entendimento completo da obra, mas ainda assim é incrível de ver.

A sinopse nos situa na Itália, nos anos 1600. Michelangelo Merisi é um artista brilhante e rebelde às regras ditadas pelo Concílio de Trento que traçou as coordenadas exatas na representação da arte sacra. Ao saber que Caravaggio utilizou prostitutas, ladrões e vagabundos em suas pinturas sacras, o Papa Paulo V decide contratar um agente secreto do Vaticano para realizar uma investigação real, para decidir se concede o perdão que o pintor pediu após a sentença de morte por matar um de seus rivais apaixonados em um duelo. Assim a Sombra, este é o nome do investigador, inicia suas atividades investigativas e de espionagem para investigar o pintor que - com sua vida e sua arte - fascina, choca, subverte. Uma Sombra que terá em suas mãos o poder absoluto, de vida ou morte, sobre o destino de um gênio.

Diria que o diretor e roteirista Michele Placido foi bem esperto ao escolher o estilo para desenvolver sua trama, de tal maneira que ele optou por criar mais nuances abertas de cenas do que propriamente mostrar a vida do pintor, fazendo assim conversas e interrogatórios subjetivos para que o protagonista Sombra fosse conhecendo tudo sobre o pintor, as pessoas pobres, ricas, do clero e das mais baixas estafas sociais que ele se envolveu, e que com elas cada um foi contando suas versões e convivências de maneira que o retrato por completo do pintor firmasse na mente do investigador, até claro seu encontro cara a cara no final. Ou seja, não vemos propriamente um caminho de Caravaggio, mas sim tudo o que ele incorporou nas vidas das pessoas pelas quais passou, como fez grandes obras, e claro dentre as pessoas a maioria dos rostos que foram usados para retratar os grandes nomes bíblicos com sombras e nuances, as quais o diretor apenas colocou o diretor de fotografia Michele D'Attanasio para usar tudo o que estudou sobre o estilo barroco em sua vida para dar os tons e sombras na tela.

Quanto das atuações, é claro que o destaque principal fica para Riccardo Scamarcio que trouxe trejeitos fortes e muito vigor para seu Michele/Caravaggio, tendo muitas cenas sexuais e sensuais, desenvolturas com espadas, e claro muita pintura e envolvimento com todos, fazendo atos bem marcantes e intensos que mostraram mais uma vez como o ator tem personalidade e sabe desempenhar papeis que o desafiam com uma facilidade incrível, ou seja, deu show. E outro que deu show foi Louis Garrel, que tanto vejo no Festival Varilux de Cinema Francês, e agora veio dar em italiano muita imponência para seu Sombra, fazendo todo um ar denso e bem marcante característico dos inquisidores da Igreja, mas bem interessado em tudo e com olhares julgadores que só ele sabe fazer muito bem. Ainda tivemos atos bem colocados da também francesa, Isabelle Huppert como Constanza Collona, Lolita Chammah com sua Anna Bianchini e Micaela Ramazzoti como Lena, sendo as três mulheres que se envolveram com o pintor e trabalharam bem as dinâmicas mais sensuais e também de defesa dele. Além de valer destacar Breno Placido com seu Ranuccio bem imponente em todos os atos com quem o protagonista briga o filme inteiro, e claro é o motivo de Caravaggio estar sendo condenado à morte, e até mesmo o diretor aparece como ator fazendo um dos cardeais que mais foram aficionados pelas obras do pintor.

Visualmente posso dizer que a equipe de arte foi mais do que perfeita, pois usou material das várias igrejas e museus para as obras, e claro as recriou maravilhosamente com pessoas nas cenas, tendo uma Itália dos anos 1600 suja e escura, mas cheia de nuances, aonde claro as sombras clássicas do pintor deram o tom sejam nas lutas de espadas, nas orgias e festas, no seu estúdio, nos castelos e até mesmo nas capelas aonde vemos todas os olhares para as obras que eram aceitas ou escondidas para coleções pessoais, ou seja, um trabalho minucioso impecável de detalhes que agrada qualquer bom amante das artes.

Enfim, é um filme incrível, que poderia ser ainda melhor se fosse mais voltado para o olhar do pintor e sem tantas idas e vindas temporais, pois em determinados momentos acabamos meio que perdidos com tudo, com tantos personagens imponentes bem colocados, mas não tão bem usados, e assim sendo o resultado impressiona pela grandiosidade, mas peca um pouco nas dinâmicas, não sendo algo ruim, muito pelo contrário, mas dava para ser perfeito com bem poucos ajustes. Sendo assim, é claro que fica a dica para dar play nele na plataforma do Festival à partir do dia 08/11, e para os sortudos que moram nas cidades escolhidas para ter sessões presenciais, esse é uma boa pedida, eu ainda terei mais quatro cabines de imprensa de alguns filmes selecionados, e volto aqui em breve para falar sobre eles, mas claro que verei todos os demais assim que abrir. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais textos, então abraços e até breve.


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Mussum, o Filmis

11/02/2023 07:02:00 PM |

Costumo dizer que ao mesmo tempo que é muito fácil fazer uma biografia, já que não se necessita inventar tanta coisa para mostrar algo que com um bom estudo de material se consegue ir além, também acaba sendo uma grandiosa dificuldade em trabalhar com coisas bem conhecidas do público que se errar no desenvolvimento acaba saindo extremamente queimado. E felizmente hoje posso dizer que três anos após conferir o documentário sobre o artista Antônio Carlos Bernardo Gomes, eis que agora fizeram uma trama biográfica incrível que fizesse jus ao nosso querido Mussum, que mostrassem esse cara que era difícil ver na TV com qualquer expressão fechada, sempre disposto a ir mais além e que claro fez a nossa infância ser mais divertida seja pelas piadas nos Trapalhões, ou com o bom samba dos Originais do Samba, e assim sendo o resultado na tela de "Mussum, o Filmis" acaba sendo algo emocional, muito bem feito e que envolve do começo ao fim com atuações tão bem trabalhadas, que era exatamente o meu maior medo, pois a história de Mussum foi algo muito bonito de ver, mas quem a altura conseguiria mostrar esse homem sem que aparecesse mais o ator e menos o homenageado que era um trabalho fora do comum, e Ailton Graça com 3 minutos de tela desaparece, e só vemos Antônio Carlos incorporar nele e vem pessoalmente contar sua história. Ou seja, se quiserem ser justos em todos os festivais do país, não tem melhor ator brasileiro esse ano que consiga suprir o que vi na tela hoje, ao menos até agora. 

A trama mostra a história real sobre a vida e trajetória de Antônio Carlos Bernardes Gomes, popularmente apelidado de Mussum. Tendo crescido como um garoto pobre, filho de empregada doméstica analfabeta e com passado militar, Mussum ficou conhecido por ter se tornado um dos maiores humoristas do Brasil. Além de fundar o grupo musical Os Originais do Samba, ele encontrou seu caminho para a fama na televisão após se unir ao famoso quarteto Os Trapalhões, formado por - além dele - Renato Aragão, Dedé Santana e Zacarias.

Diria que o primeiro longa dirigido por Silvio Guindane será algo que vai marcar sua carreira totalmente, pois ele pegou um roteiro perfeito que Paulo Cursino adaptou do livro "Mussum - uma história de Humor e Samba" de Juliano Barreto, e fez algo que mesmo que qualquer pessoa já conhecesse toda a história de Antônio Carlos, ou então tivesse visto o documentário mais do que uma vez, visse algo novo e brilhante na tela, aonde você não sente a mão da direção nem as pontuações do roteiro, mas sim algo que tem vida própria, que vai acontecendo tão naturalmente que não tem como não se emocionar com tudo o que vemos na tela. E aí você como crítico até tenta procurar defeitos para falar, mas não tem como encontrar qualquer detalhe que seja, pois tudo flui e encanta. Ou seja, é daquelas biografias tão bem dirigidas que você até quer ver mais na tela, mas que tudo o que é mostrado convence e agrada, afinal é uma homenagem bem trabalhada, e que claro vemos mais cenas do personagem já em sua versão adulta que foi brilhante, mas também vemos bons atos de seus momentos como garoto aonde já começa a pegar o gosto pelo samba, e depois na juventude quando entra de vez no mundo artístico do samba.

Quanto das atuações, já falei no começo e volto a repetir, Ailton Graça foi glorioso em cena, sendo surpreendente demais a tal ponto de não conseguirmos ver o ator em cena, mas sim o personagem funcionando de forma perfeita, com os mesmos trejeitos, com o tom vocal impecável, gestuais e tudo mais sem falhar em um detalhe que fosse, o que acaba agradando com tanto estilo e personalidade que não tem como não ver Mussum na tela, fora todo o carinho do personagem com sua mãe e tudo o que entona durante toda a representação, ou seja, deu show, e volto a dizer que nesse ano ao menos até agora não existe ator melhor nacional nos filmes, pois foi perfeito. Claro que tenho de falar também das versões jovens do personagem, e Thawan Lucas foi bem gracioso nos momentos de Carlinhos criança, mostrando um garoto determinado a estudar bastante, logo depois vemos Yuri Marçal fazendo o jovem Antônio Carlos como soldado da aeronáutica, e se apresentando na noite com Os Originais do Samba, sempre escondido da mãe, até entrar de vez para o mundo artístico, e o ator deu boas nuances, mostrando todo o gingado cheio de malemolência, e agradando bastante também para logo em seguida mudar de vez para Ailton. E claro já que falei de como os atores mostraram sempre muito carinho com a mãe, tenho que dar o crédito tanto para Cacau Protásio mostrando Dona Malvina com a cena do aprender a escrever com o filho emocionando demais, e depois Neusa Borges sendo direta e muito envolvente em todas as nuances e conselhos para com o filho, agradando demais em cena. Tivemos também muitos outros bons atores dando vozes aos personagens que conviveram com o protagonista, tendo destaque para Vanderlei Bernardino como Chico Anysio, Gero Camilo como Renato Aragão, Felipe Rocha fazendo Dedé Santana e Gustavo Nader bem representativo com seu Zacarias, entre muitos outros na tela.

Visualmente a trama teve cenas passando por shows, pela boemia carioca, pelos programas da TV Tupi e da Globo, mostrando também o envolvimento na Escola da Mangueira, mostrando atos na Fundação aonde o jovem estudou, e muito mais, sendo tudo tão bem representado que acaba nos transportando para os anos 80/90, tendo detalhes cênicos dos figurinos, dos bastidores, e claro muito samba com grandes nomes da música como Elza Soares, Jorge Ben e isso sem falar aonde nasceu o Mussum realmente como escada do gigante Grande Otelo em um programa de auditório, ou seja, a equipe de arte foi muito representativa, conseguindo simbolizar tudo e agradar demais do começo ao fim. 

Enfim, é um filme que não tem como não se emocionar e envolver, pois Mussum fez parte da nossa vida, o bordão cacildis é utilizado até hoje por muita gente, e sem dúvida é uma das poucas biografias que mesmo conhecendo bem o personagem vemos coisa nova na tela sendo muito bem representada por todos, então a dica que eu dou sempre é valorize o cinema nacional e vá conferir, pois vai valer a pena. E é isso meus amigos, fico por aqui agora, mas volto em breve com mais textos, então abraços e até logo mais.
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Netflix - Paralisia (Locked In)

11/02/2023 01:31:00 AM |

Costumávamos falar que a Netflix num passado não muito longínquo costumava apresentar boas histórias em seus filmes com péssimos fechamos, isso mudou bastante tendo entregue tramas até que bem interessantes com finais imponentes e bem colocados, porém vez ou outra aparecem tramas com os mesmos defeitos, e eis que hoje "Paralisia" sofre desse mal, pois entregou um trailer semanas atrás bem marcante, fazendo todo mundo ficar curioso como seria o desenvolvimento, e até que o filme tem um bom suspense/drama chamativo de tal forma que não é algo ruim de ver, porém tinha tudo para ir muito mais além, e fechar com algo que impactasse demais, mas não, acabando ficando básico demais, com mudanças de atitudes meio que sem grandes acontecimentos, de tal forma que pareceu acabar com falta de vontade, o que não é legal de acontecer. Ou seja, é um filme que tem uma proposta até que interessante, e que prende o espectador na esperança de algo a mais, porém a desenvoltura entregue não surpreende nem impacta como deveria resultando em algo que até incomoda com o suspense criado, mas que falha mais do que acerta na forma escolhida de contar tudo.

A sinopse é bem simples e nos conta que ao tentar entender o que realmente aconteceu com uma paciente em coma, uma enfermeira acaba descobrindo uma trama de rivalidade, infidelidade, traição e assassinato.

O mais engraçado é que fiquei pensando bastante em quem botar a culpa do filme não ter ido mais além, pois a direção de Nour Wazzi tem estilo, entrega boas nuances e até cria um bom suspense, e da mesma forma o texto de Rowan Joffe tem pegada e classe, então acredito que o problema talvez seja de uma montagem meio confusa, ou talvez duma expectativa exagerada por parte de um trailer muito interessante, pois dava para chegarem mais além de muitas formas, dava para surpreender mais com o final, mas tudo acaba sendo tão direto em alguns momentos que nem ficamos esperando acontecer tanta coisa, e assim o suspense meio que se perde. Ou seja, é daqueles filmes aonde o diretor pega um bom roteiro, grava suas cenas e não dá sua opinião para ir mais além, devolvendo as filmagens para a equipe de edição montar sem muita vontade, o que acaba desapontando mais do que agradando, pois volto a afirmar que não é um filme ruim, mas passou longe de ser algo bom, e isso não chama atenção.

Quanto das atuações, diria que Rose Williams trabalhou de uma forma bem dinâmica sua Lina, de forma que aparentava num primeiro momento que não seria a protagonista do filme, mas como a trama se desenvolve toda em cima da história que ela vai contando para o público, a atriz pode ir dando ganho de trejeitos, conseguindo chamar atenção na trama, e até agradando de certa forma. Já Famke Janssen que talvez tivesse todos os olhares em cima de sua Katherine, acabou ficando em segundo plano, mas não chamando menos atenção, afinal teve muitas cenas intensas e cheias de nuance, conseguindo trabalhar um lado ciumento até que meio exagerado, mas que funciona para o longa. Alex Hassell entregou rápido demais o estilo de seu Robert, de modo que faz alguns atos intensos e com trejeitos fortes, mas dava para ser um pouco mais misterioso que daria um charme a mais para o longa. Ainda tivemos Cole Finn com seu Jamie de trejeitos fechados demais, tendo os devidos problemas, mas não se desenvolve tanto quanto poderia, sobrando o destaque entre os secundários para Anna Friel com sua Nicky, que acaba sendo um pouco acelerada demais, e roubando até algumas cenas para si, mas não errou com isso, pois deu um tom investigativo para a personagem e funcionou.

Visualmente dava para o longa recair mais para um lado mais tenso como as cenas dos sonhos da garota, com a casa vazando e quebrando, um pouco mais dos ambientes sujos da casa secundária, e muito mais nos ambientes externos, mas o foco se desenvolve de uma maneira meio que corrida, mostrando bem pouco da carreira da protagonista, e menos ainda suas cenas debilitada aonde a equipe de maquiagem foi muito bem, o que acabou tendo nuances meio que jogadas sem valorizar todo o trabalho da equipe de arte.

Enfim, é um filme que tinha um potencial maior e poderia chamar muita atenção, mas que acabou não causando tanto suspense e nem surpreendendo tanto com tudo o que acaba rolando, de forma que até vale como um passatempo, mas desde que se não espere nada dele. E assim sendo fica a dica para quem gosta do estilo, e eu fico por aqui hoje, então abraços e até logo mais.


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A Bela América (Bela America)

11/01/2023 12:30:00 AM |

Costumo dizer que os longas portugueses sabem entregar boas dinâmicas, mas nem sempre consegue atacar exatamente onde queriam, de tal forma que as tramas por vezes entregam um humor ácido bem colocado, mas ao invés de recair para a comicidade acabam desenvolvendo mais dramas do que deveriam. Ou seja, você ao final fica pensando se era para rir ou chorar da situação toda, e não sai feliz com o resultado final. Ou seja, o longa "A Bela América" que estreia no dia 02/11 em alguns cinemas do país entrega um filme até que interessante de tentativa de ascensão social por parte de um cozinheiro que não se enxerga aonde está realmente, e que não consegue de um modo muito tradicional, e a trama acaba meio que presa nisso, vemos ele tentando conquistar a candidata a presidência, a ajuda quando seria desmascarada, mas é apenas tratado bem e nada mais, o que faz o filme não fluir tanto quanto poderia, nem se amarrar bem como deveria, sendo algo mediano que tem estilo, tem referências reais, mas não explode.

A sinopse nos conta que Apesar da origem humilde, Lucas decide penetrar no mundo exuberante e de celebridades, crente de que o seu refinado talento para cozinhar, será o suficiente para impressionar o palato de América, a estrela de televisão e candidata a presidente, permitindo-lhe ultrapassar a linha que vincadamente separa aqueles dois mundos. Lucas entrará clandestinamente na casa de América, cozinhando para ela os pratos mais inauditos, mas sem se revelar, observando à distância na calada da noite, América que chega a casa e se depara, diariamente, com um majestoso jantar sobre a mesa da sala. Num ambiente de suspense pontuado com ironia e humor, o longa explora os temas da desigualdade social e relações familiares.

Como um roteiro politizado envolvendo um pouco de discussão de meritocracia, de formas de fazer política e até mesmo de como encantar alguém e ao mesmo tempo ser ignorado, diria que o diretor e roteirista António Ferreira até que foi bem no que pretendia, porém faltou colocar um pouco mais de imposição nas suas cenas, e principalmente desenvolver melhor elas, pois ele nos leva a um crescente, quebra ele próximo ao fim, para depois derrubar tudo de novo, o que não é comum na maioria dos longas, e principalmente em tramas que usem a comicidade como pano de fundo, pois mesmo trabalhando com um humor ácido, é necessário pesar até onde deseja fluir, e ele meio que optou por dramatizar demais algo que já é dramático, e assim seu filme até tem um ápice, mas decai ao invés de fechar bem, o que é algo crítico demais para qualquer filme.

Quanto das atuações, diria que Estêvão Antunes trabalhou seu Lucas de uma forma bem interessante, pois ele deu as nuances tradicionais de jovens cozinheiros que sabem fazer coisas diferentes, possuem estilos e desenvolturas, mas que acabam não sendo vistos dessa forma por serem de classes inferiores demais as de grandes chefs de restaurantes, e o ator soube desenvolver um ar meio triste, meio confuso e passou bem esse sentimento de não ser visto, ou até mesmo de ser usado sem ser valorizado, servindo apenas para fazer uma boa comida e não aparecer, servir para se passar como o pobre coitadinho, mas não conseguir uma moradia melhor, e até mesmo para dar uma rapidinha, e não ter uma ligação maior, ou seja, expressou bem tudo o que precisava fazer para o papel, mas da mesma forma que o personagem, não elevou o filme para algo maior. Já São José Correia trabalhou suas nuances tradicionais de uma política, fazendo com que sua América fosse bem chamativa e interessante, mas também meio seca demais nas atitudes, o que dava para ser um pouco amenizado. Ainda tivemos alguns atos interessantes de Daniela Claro com sua Noémia meio que arrogante de entrega, João Castro Gomes com seu Vitor forçando a barra para todos os momentos, mas quem se entrega melhor dentro dos personagens secundários é Custódia Galego como a mãe do protagonista.

Visualmente o longa em si é bem simples, mostrando logo de cara o despejo do protagonista de sua casa, depois vemos ele sendo alojado em um barraco, vemos algumas festas e reuniões de campanha da candidata à presidência, mas também de forma bem simples, todo o sensacionalismo tradicional das campanhas, e claro um bom requinte nas refeições feitas pelo protagonista, mostrando que a equipe de arte até foi bem no que desejava passar, mas ir muito além, apenas representando bem tudo na tela.

Enfim, é um filme que tinha potencial para ir muito além, que teve a sacada da facada na campanha (algo que vimos acontecer em outro país que não é Portugal, mas também fala português, e claro que usaram como referência), mas que não se desenvolveu tão bem como poderia, e assim acabou ficando mediano demais, e exageradamente artístico para que o público se conecte com a trama, então fica a dica para quem gosta conferir. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais textos, então abraços e até breve.


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