Alemão

3/15/2014 01:03:00 AM |

O gênero de filme favela/marginal é um dos estilos que mais funciona no Brasil desde muito tempo atrás, e com os acontecimentos dos últimos anos, as mentes criativas praticamente ficaram bloqueadas para criação e com muita certeza iremos ver nos próximos anos diversas vertentes do que aconteceu e foi mostrado pelos nossos jornalistas em versões ficcionais, que claro já colocam em letras garrafais ao início de cada filme que embora tenha sido muita pesquisa não se trata nada de fatos reais. Enquanto filmes estrangeiros gostam tanto de baseado em fatos reais, aqui na nossa terra o pessoal prefere ficar escondido atrás dos panos, mas claro sempre tem um motivo né, afinal nos filmes de lá qual o símbolo que mais aparece? A bandeira nacional, e aqui, qual é um dos primeiros símbolos que aparece bem grande? O patrocinador nacional chamado ANCINE! Então embora sempre algum filme nosso seja baseado em algo real, se envolver alguma tramoia governista, irão forçar em letras maiores possíveis que tudo é 100% ficcional, senão o aclamado dinheiro pra fazer um novo filme não vem de jeito algum. Bom já falei até demais da minha opinião sobre algo que o filme "Alemão" não chega bem a explicitar como nosso amado Tropa 2 fez, mas como disse para um amigo no Facebook, embora arrumaram um motivo como bode expiatório para culpar as pacificações, sempre haverá um paninho sujo que ficará caído atrás da geladeira e dificilmente iremos pegar ele para lavar. Ou seja, a pacificação dos morros foi boa para quem? Ou pra que serviu? Será que algum dia iremos enxergar tudo? Com certeza não, afinal quem tem força pra ficar virando a geladeira sempre pra catar o paninho que caiu lá trás e podemos comprar um novo por apenas 1,99. Com tudo isso que disse, embora não seja a protagonista da história, Mariana Nunes consegue dizer algumas frases bem coesas para o tema e com isso ajudar a pincelar que o que é mostrado na abertura do filme pode ter sido a força maior, mas será que foi só ela o motivo?

O filme em suma como obra ficcional nos mostra cinco policiais que estão infiltrados na comunidade do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, com a missão de elaborar o plano de invasão das forças de segurança, que resultará na instalação da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Mas os traficantes descobrem sobre a operação secreta e começam uma busca incessante para eliminá-los. Isolados e sem contato com o mundo exterior, eles precisam encontrar uma maneira de fugir.

Eliminando todo o caráter político que induzi no início do texto, agora vou analisar somente o lado ficcional do filme, já que entendo bem mais de cinema do que de política. E entrando nesse assunto já vou direto de voadora no peito do diretor José Eduardo Belmonte perguntando como ele conseguiu fazer uma obra tão bem trabalhada e não pedir para que todos os críticos do planeta tirassem sua obra anterior de seu currículo? Um dos poucos filmes que desejei dar nota 0 chamado "Billi Pig". Mas posso falar com honra que irei esquecer seu nome daquele filme e a partir de hoje só lembrarei de toda a vertente bem trabalhada de câmeras num espaço minúsculo que conseguiu fazer aqui, deixando ao mesmo tempo um filme sufocante, bem condizente com a realidade e que se o espectador não for como alguns que estavam atrás de mim na sessão, que são movidos apenas a novelas bonitinhas e fizeram o seguinte questionamento: "se fosse pra acabar assim não precisaria fazer o filme", o Brasil estaria repleto de filmes interessantes e talvez, muito talvez, voltando no lado politizado, não estaria na bagunça que está. Claro que os fatos colocados em pauta, foram bem criados pelos roteiristas, mas souberam orquestrar tudo de forma interessante, que mesmo com a tonelada de palavrões que estamos acostumados a ouvir em filmes nacionais do gênero, a linguagem coube perfeitamente para ser usada dentro da utilização normal que se espera.

Quanto das atuações, o drama de sufoco costuma ser bem utilizado para tentar trabalhar mais os personagens que estão ali no pequeno espaço, mas poderiam ter aberto mais algumas histórias de cada um ali, o que talvez até tenha sido feito, mas para caber no formato de tempo escolhido precisou ser limado no final, e com isso não chegamos tanto a nos afeiçoar com cada personagem, e é aí que talvez o longa acabe destoando do que poderia transformar ele de um bom filme para algo excelente. Milhem Cortaz já é figurinha repetida nas tramas nacionais e sempre com um perfil bem explosivo, ele acaba assustando mais do que cativando os olhares pra si, sua atuação sempre é bem trabalhada e consegue dizer muito do personagem, mas ele foi um dos que menos mostrou seus motivos de tudo. Caio Blat em momento algum consegue aparentar ser um policial do estilo que caberia na trama, e mesmo que sua história seja rapidamente pega pelos espectadores, ainda não é convincente o personagem que lhe foi dado. Marcelo Mello Jr. é um dos personagens que poderia dar um ótimo caldo numa história anterior bem mais forte, mas acabará sendo vítima de comentários bem preconceituosos quanto a forma que foi jogado no longa, mas tirando alguns bons momentos mostrados, acabou não tendo tanto destaque. Otávio Muller sempre cai nos seus próprios trejeitos e acho que os diretores nacionais leem os roteiros e já falam esse papel é do Otávio, não que isso seja ruim, mas como já diria Leandro Hassum, a culpa da cagada sempre recai para o gordinho e isso cansa um pouco. Gabriel Braga Nunes tem cenas interessantes e bem doloridas, mas assim como ele diz em uma das suas falas, nem ele mesmo sabe o porquê está ali, e o filme funcionaria bem sem ele, tirando a sua última cena que precisaria ser feita por outro homem. Antônio Fagundes podemos considerar mais como uma participação, afinal tem 3 ou 4 cenas, dentre as quais até mostra ser o bom ator que é, mas qualquer um que fizesse o papel sairia da mesma forma. Cauã Reimond fez algo que infelizmente pontuo muito mal para sua carreira, pois o papel caberia para qualquer um, menos pra ele, pois mesmo o chefão sendo playboy, o ator que é um dos produtores do filme, com certeza se colocou no papel, então vemos um "vilão" do crime que não parece um articulador e sim um mimadinho que acabou sendo eleito rei do tráfico por algum motivo não explicado na trama, e tirando sua cena de tortura, o restante que faz no filme é motivo de risada. Mariana Nunes como disse no início serviu bem de elo para algumas frases bem ditas do roteiro para nos fazer pensar, e com isso acabou agradando ter alguém ali fora dos policiais, mas seus momentos aflitivos poderiam ter sido um pouquinho mais bem trabalhados para deixar as cenas mais tensas. Falei de quase o elenco todo, mas preciso destacar um jovem que foi muito mais o antagonista da história que o próprio Cauã e esse sim fez mérito por parecer o traficante malvado mesmo que conhecemos, e ele é Jefferson Brasil que infelizmente, ou felizmente pra ele ganhar vários papéis sempre, é que fica até marcado como já disse Santoro um estilo de papel para o ator que é, e acaba sendo até preconceituoso demais.

Bom, o filme foi filmado em 17 dias apenas dentro do próprio Complexo do Alemão, ou seja, cenografia perfeita para o filme, já que estão no local real onde tudo aconteceu, apenas tendo o trabalho das câmeras para não mostrar nada de novo que foi criado, como no caso o Teleférico pra turistas passearem pela favela, ou seja, a ironia master que mais uma vez fizeram questão de frisar nos textos finais. E os elementos cênicos usados para detalhar os locais couberam de forma bem interessante para a trama, sempre dando mais foco nas armas que todos tinham e que o local onde ficaram escondidos era um cubículo mal projetado, o que ficou muito bem retratado e agrada bastante para a ideia do longa. Os efeitos de explosão poderiam ser mais bem trabalhados, afinal não acredito que uma arma daquela faça uma explosão tão bonitinha como foi mostrada, e quanto a tiros cenográficos ou o motoboy era um ninja muito bom ou o atirador não sabia brincar mesmo com a metralhadora que tinha em mãos, pois errar tantos tiros assim com o que tinha em mãos ficou um pouco falso demais. A fotografia usou bem da pouca luz ambiente para sufocar mesmo e soube trabalhar as nuances de cada ponto com a iluminação correta para não deixar ninguém brilhante em cena já que estávamos com uma pequenina luz apenas na cena.

As trilhas sonoras escolhidas não poderiam ser outras dentro de funk, rap e hip-hop e todas as letras sempre bem encaixadas para cada momento que necessitava por algo cantado. Enquanto coube nas trilhas orquestradas, um estilo sonoro que envolveu bem cada ato, e me remeteu a vários outros longas interessantes, principalmente envolvendo filmes de máfia, o que pode ou não ter algum sentido para a escolha dentro da trama, ou seja, agrada também bastante.

Enfim, é um filme que o público odiará ou sairá bem contente com o que viu podendo discutir horas sobre tudo, e com isso não espero que veja muitas salas lotadas para ele, pois o trailer já insinua bem o que será mostrado e com isso alguns já irão fugir de ir. Eu recomendo ele principalmente para quem é contra filmes novelescos onde tudo acontece bonitinho, claro que gosto também desse estilo, mas quando um filme tem de tocar na ferida, ele não pode ficar em cima do muro, e aqui o acerto nesse quesito foi muito bem feito. Falei demais hoje, me desculpem pelo texto longo, mas dessa vez o filme me proporcionou diversas reações que precisava colocar no texto, então vejam o filme e voltem aqui para polemizarmos principalmente sem dar spoilers né galera. Fico por aqui agora, mas ainda temos mais uma estreia e um filme artístico bem atrasado para conferir, então abraços e até breve pessoal.


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