Colegas

3/05/2013 10:54:00 PM |

Quando vamos analisar o filme "Colegas" podemos seguir duas vertentes, a de superação para os atores portadores de Down e o diretor por conseguir fazer algo completo com eles, ou podemos atacar ferozmente a quantidade de erros que o longa possui. E dificilmente veremos pela internet toda uma crítica só que não tenha ficado muito mais tendenciosa para a primeira vertente, assim como todos os prêmios que o longa vem ganhando em festivais. Não digo que o filme seja ruim, de forma alguma, possui um tema bacana que não víamos há bastante tempo que são os "road movies", têm elementos de arte bem concisos, e principalmente possui atores completamente diferenciados que mesmo com todas as suas limitações fazem uma ótima interpretação sob as mãos de um ótimo diretor. Porém não podemos ficar de olhos fechados para os erros, muitos até infantis para um cinema brasileiro que vem crescendo e começa a ser visto com olhos cada vez mais críticos tanto pela sua população quanto pelo exterior.

O filme aborda de forma inocente e poética coisas simples da vida, sob o ponto de vista de três jovens com síndrome de Down - Stalone, Aninha e Márcio -, colegas que se comunicam basicamente por meio de frases célebres do cinema, resultado dos anos em que trabalharam na videoteca do Instituto Madre Tereza, local onde viviam. Um dia, inspirados pelo filme "Thelma & Louise", resolvem fugir no velho carro do jardineiro Arlindo em busca de seus sonhos: Stalone quer ver o mar, Márcio quer voar e Aninha busca um marido pra se casar. Nesta viagem, enquanto experimentam o sabor da liberdade, envolvem-se em inúmeras confusões e aventuras como se a vida não passasse de uma eterna brincadeira.

A história em si pode ser vista de uma forma bem bonita, pois assim como dita em uma passagem "Aninha não gostava de ver nenhum animal preso, já que sabia bem o que era isso" e com essa frase narrada, o longa já se explica completamente por todos os anseios dos protagonistas em buscarem suas fantasias como ditas na sinopse. O maior problema do filme, na minha opinião, é que ao final vemos que o personagem de Lima Duarte está contando a história dos protagonistas para outras crianças, mas o exagero de narrações (acredito que seja pela dificuldade de compreender muitas vezes o que os protagonistas dizem) cansa e muito, é quase como se todos que fossem ao cinema tivessem que ver a versão com audiodescrição que foi passada em alguns cinemas, o que não é o caso de onde assisti. Além disso, todos os coadjuvantes para fazerem algo péssimo precisariam melhorar muito. Agora você deve estar falando, nossa o Coelho odiou tudo no filme, com certeza não é bem assim, por os protagonistas terem vivido boa parte trabalhando na videoteca do Instituto em praticamente 99% de suas cenas fazem referência à algum filme e as homenagens são uma melhor que a outra, sempre muito bem característica e que qualquer amante do cinema pega no ar facilmente. Nesse quesito o diretor e roteirista Marcelo Galvão soube acertar completamente a mão. Outro ponto que o diretor acerta está na forma de trabalhar com os protagonistas, que embora ele afirme em todos os programas de TV que apareceu: que foi bem tranquilo trabalhar com eles, quem tem algum parente ou conhecido que possui Down sabe muito bem que não é assim fácil entrar no ritmo deles principalmente num longa de quase duas horas editado.

O trio de protagonistas é muito dinâmico, e em vários momentos Ariel Goldenberg, Rita Pokk e Breno Viola, aparentam ser bem mais normais que muitos que conhecemos por aí, e o mais interessante é que a forma que destoam de todos os coadjuvantes faz parecer que o diretor quis colocar como "os diferentes" realmente todos os demais. Dos três, embora não seja o líder do grupo com certeza o destaque fica para Breno Viola, que tem um gás como poucos já vistos pelo cinema e quem sabe pode ainda dar muito trabalho pelas telas do cinema. Dos péssimos coadjuvantes, vou preferir atacar os conhecidos Leonardo Miggiorin e Lima Duarte; Miggiorin pra beirar o ridículo precisa melhorar anos luz, nem que o mundo acabasse duas vezes teríamos um policial, investigador ou qualquer coisa que parecesse com ele, ficando na cara de que foi um ator que jogaram na história apenas por se oferecer (pelo menos espero); enquanto Lima faz seu tradicional personagem caipira que já vimos umas mil vezes e ele nem mais se preocupa em tentar não fazer um estereótipo. Do restante me contento de falar que procurem olhar apenas pros protagonistas para não ficarem tão irritados com o que verão na tela.

O visual do longa mostrou porque foi merecido o prêmio de direção de arte no Festival de Gramado, pois a cenografia por onde os protagonistas percorrem é perfeita e muito bem encaixada na história, nos agraciando a cada segundo do filme, claro os que não contém coadjuvantes incrustados atrapalhando, com maravilhas visuais tanto do Sul do Brasil quanto da Argentina por onde a produção passou gastando seus milhões do orçamento.

A trilha sonora também está muito bem encaixada com a trama, visto que as músicas de Raul Seixas sempre trazem boas mensagens que o diretor soube utilizar para ilustrar cada passagem que entra a música. Só poderia ter ficado melhor se ela tivesse sido usada mais vezes como artifício visual e não muitas vezes como trilha somente.

Enfim, diria que o filme é bacana apenas, bem produzido e ousado pela atitude de usar como protagonistas os portadores de Down, mas somente isso, o longa tirando um começo altamente emotivo acaba ficando apenas na diversão e acaba apagado devido à tantos erros com coadjuvantes e fechamentos de tela em fade out a todo momento, que é outro ponto que cansa bastante. Claro que todos que possuírem algum parente, amigo, conhecido com a doença irá se comover com o trabalho dos protagonistas, mas dizer que é o filme brasileiro do ano está muito longe disso. E também mesmo que não feita de forma intencional, a campanha #VemSeanPenn acabou gerando mais marketing gratuito para o filme do que o próprio diretor esperava. Bem é isso, fico por aqui hoje e também na semana, já que não vieram somente essas estreias para o interior. Abraços e até sexta pessoal.


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