A Mulher Que Chora

4/09/2026 01:43:00 AM |

Costumo dizer que tramas que mixam o lúdico com o real, principalmente jogando com o mito da separação familiar e do apego por pessoas próximas costumam ser bem difíceis de digerir se não bem trabalhado pelo diretor, pois a essência em si pode até parecer bobinha pelo olhar de uma criança, mas se não for bem contada, o público adulto acaba se perdendo. E comecei dessa forma o texto do longa "A Mulher Que Chora", que estreia na quinta 09/04 em cinemas selecionados pelo país, pela simples dinâmica de um filme que começa encantando bem, tendo suas conexões bem explicadas e funcionais, e até nos envolvendo bem com a forma lúdica que a empregada venezuelana vai contando para o garoto a lenda, porém o segundo ato quando a crítica social entra em pauta e as situações mudam um pouco o rumo, o que deveria ganhar uma aceleração para perturbar o espectador e fazer ele entrar mesmo na digestão de tudo, o ritmo decai demais, ficando quase alongado sem necessidade. Ou seja, é um bom filme, simples, com uma proposta bem interessante, mas que infelizmente não chegou num clímax rápido, parecendo que a ideia original era de curta e acabaram esticando demais.

O longa nos mostra que um jovem menino de 8 anos chamado Miguel encontra refúgio do tumulto emocional que vive em sua casa abastada na companhia de uma jovem empregada doméstica misteriosa. Carmem é uma enigmática imigrante venezuelana que trabalha para a família rica de Miguel e que fugiu de seu país de origem deixando para trás seu próprio filho. Logo, uma relação de intimidade inusitada surge entre Carmem e Miguel. Ela se torna uma figura materna ambígua para o menino cujo relacionamento com a mãe biológica é marcado por distância e afastamentos. O vínculo inusitado entre os dois permite com que Miguel descubra um universo entre a realidade e a imaginação.

Diria que o diretor e roteirista George Walker Torres teve uma ideia grandiosa demais para um curta-metragem e pequena demais para um longa, pois seu filme tem pegada, tem essência e em muitos momentos consegue funcionar incrível como uma obra chamativa envolvendo ideias fortes de solidão, de racismo/xenofobia, e até mesmo do abuso, mas como sabemos que média-metragem ninguém quer fazer por falta de festivais e exibições, a opção acaba sendo alongar com cenas desnecessárias, quebras de ritmo e tudo mais que acaba incomodando o espectador, porém, ainda assim o resultado aqui foi o menos pior, pois como a dinâmica em si pedia algo mais reflexivo, acabamos vivenciando bem a síndrome passada pelo garoto e suas ilusões, e nesse sentido o longa "funciona" e mostra a técnica do diretor, afinal não sei se ele conseguiria jogar mais coisas na tela sem ficar exagerado, então acertou.

Quanto das atuações, o jovem Zayan Medeiros mostrou que tem muito potencial para seguir atuando, pois seu Miguel foi cheio de nuances, tendo momentos fortes e outros mais simples para incorporar o personagem, sendo doce quando precisou e também explosivo para não deixar que outros se impusessem em cima dele nas dinâmicas mais imponentes, ou seja, mandou bem no que tinha que fazer. Outa que teve uma essência misteriosa, mas com bons trejeitos foi Samantha Castillo com sua Carmen intrigante, cheia de envolvimento, e que sabendo aonde deveria ir com suas nuances, trabalhando bem o jogo do lúdico com o real, e abrindo bons vértices em cima da ideia amarrada na tela. Já a mãe do garoto vivida por Julia Stockler entrega trejeitos meio estranhos demais na tela, e o mais incrível é que convence bem com isso, ou seja, fez bem o que precisava. Agora falando o que não precisava, afinal foi apenas peso "morto" da bisavó que infelizmente não me entregou nada demais, nem as cenas com o pai, que só serviu para o "des"serviço de dar um canivete pro garoto.

Visualmente o longa teve uma entrega bacana até que bem interessante na tela, mostrando atos no meio de uma mata, tendo a mansão antiga da família, e até o gracejo da empregada precisar subir uma escada de obras para ir no terraço fumar e pensar no seu país aonde ficou seu filho, tivemos boas simbologias com muitos elementos cênicos e a essência geral que a equipe de arte desenvolveu até mesmo nos atos mais simples como a briga na escola tem fundamento para que o público repare em cada detalhe.

Enfim, é um filme potencialmente bem feito que acredito que se cortasse bem os excessos daria algo um pouco maior que um curta belíssimo, mas que acabou "floreando" demais alguns elementos sem dar a devida vasão, e o resultado do segundo ato cansou mais do que o esperado, ou seja, é daqueles que você precisa assistir sem sono algum, senão nao irá entrar no clima e acabará não gostando de algo que vale a pena ser visto e refletido. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje agradecendo a Olhar Filmes e a TIP Mídia Assessoria pela cabine, e volto amanhã com mais dicas.


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