Sirât

2/11/2026 01:26:00 AM |

Confesso que desde o dia que o diretor espanhol veio com o gracejo de falar mal do longa brasileiro fiquei com muita vontade de conferir ele logo para saber se realmente ele tinha motivos para isso ou era apenas um fanfarrão, mas como o longa só estreia no final de fevereiro, fiquei ligado nas campanhas das distribuidoras para quem sabe encarar uma cabine. E eis que chegou finalmente o dia de conferir ele, tanto que hoje nem iria ver nada, mas não deu nem tempo de aparecer a cabine que parei tudo o que estava fazendo e lá fui conferir "Sirât" com a expectativa que fosse algum drama pesado do mesmo estilo que todos os concorrentes da categoria Melhor Filme Internacional. Porém não imaginava que o longa fosse com uma pegada bem mais experimental, no melhor estilo das raves no deserto que muitos gostam de ir para "experimentar" sensações, e para quem não me conhece digo apenas duas coisas: não curto raves e não sou fã de filmes experimentais, ou seja, fiquei o longa inteiro esperando um algo a mais que não ocorre, e o que posso falar de cara são três coisas: que dentre todos os filmes experimentais que já vi, esse sem dúvida foi o melhor; que o longa tem duas cenas impactantes de nível máximo, e só, de tal forma que nem sei o motivo dele ter sido sequer colocado entre os cinco melhores filmes internacionais do ano. Ou seja, é o famoso filme que alguns vão entrar na vibração e se conectar demais, mas os demais vão sair da sessão pensando o que foram fazer ali.

O longa nos mostra que pai e filho chegam a uma rave nas montanhas do sul do Marrocos. Ambos estão em busca de Mar — filha e irmã —, que desapareceu meses antes em uma dessas festas intermináveis. Cercados por música eletrônica e por uma sensação crua e desconhecida de liberdade, eles distribuem a foto da jovem repetidas vezes. A esperança vai se apagando, mas os dois persistem e seguem um grupo de frequentadores rumo a uma última festa no deserto. Conforme avançam por esse cenário escaldante, a jornada os obriga a confrontar seus próprios limites.

Diria que o diretor e roteirista Oliver Laxe tinha muita consciência de onde desejava chegar com seu filme, que era de ser uma experiência explosiva totalmente fora dos padrões normais, aonde a essência emocional funciona bem na tela, porém é o famoso estilo que precisa entrar no clima que ele propõe, pois demora quase uma eternidade para os atos saírem completamente do elo da rave, que quem gosta até entra no barulho, afinal só quer dançar e viajar com os sons, mas quem não é desse estilo vai se incomodar e por vezes até desistir do longa (no caso quando chegar nos streamings). Ou seja, faltou desenvolver mais os personagens do que apenas a essência, e assim sendo o resultado é mais visceral pela forma do que pela entrega.

Quanto das atuações, tirando o pai Luis que é vivido por Sergi López e o garotinho vivido por Bruno Núñez Arjona, os demais jovens acredito que tenham sido pessoas reais dessas raves, pois usaram seus próprios nomes e estilos, não tendo muitas expressividades clássicas de uma atuação mais crua, apenas vivendo tudo o que o longa foi lhe permitindo e entregando até que bem suas essências, de modo que Sergi pôs tudo em jogo nos seus atos mais densos, fazendo trejeitos emocionais bem colocados e conseguindo impressionar pela pegada na tela, enquanto todos os demais, como já disse, vivenciaram o road movie pelo deserto trabalhando suas personalidades sem precisar de muitos diálogos, mas sim brincando com o que tinham que fazer apenas.

Visualmente, por ser uma trama meio que de road-movie, temos muitas paisagens no meio do deserto, com montanhas, desfiladeiros, muito barro, areia, e claro a rave, uma pequena casa no meio do nada, e claro os dois ônibus dos jovens e o carro simples do protagonista, que deram uma "adaptada" para que ele seguisse nos caminhos rudimentares que o longa se passa, tudo com uma fotografia bem bonita num tom de amarelo meio avermelhado de terra, que acabou funcionando bastante na tela.

Enfim, é um longa que tem o seu valor, que é interessante pela proposta, mas é o famoso ame ou odeie, aonde vai ser difícil ter o meio termo. Confesso que analisando como crítico, a ideia em si é bem feita, e as duas cenas (com uma já sendo mostrada no trailer, mas que eu não tinha visto, então pra mim foi uma surpresa) são incríveis, sendo algo que vale os aplausos e a premiação do júri de Cannes, mas analisando como espectador que não gosta de experimentais e de raves, é algo que facilmente nem sairia do longa num streaming nos primeiros minutos. Sendo assim fica a dica para quem gosta, e claro para quem for conferir ele, a partir do dia 26/02, para gabaritar os longas das premiações. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje agradecendo o pessoal da Retrato Filmes e da Atômica Lab pela cabine, e volto amanhã com mais dicas, então abraços e até logo mais.


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