Na Quebrada

terça-feira, outubro 21, 2014 |

Se existe uma coisa importante que deva ser valorizada dentro do cinema são os projetos sociais que incentivem melhorias dentro de comunidades e que dessa forma acabe criando formadores culturais para que possam dar ao menos cultura para a população carente. Já soube de diversos projetos pelo país que apoiam, e um deles é o Instituto Criar que foi fundado pelo apresentador Luciano Huck. Pois bem, após oficinas e curtas-metragens que foram feitos no projeto, chegou-se ao longa "Na Quebrada", através disso e demais elementos criados pelos jovens da comunidade, e o filme poderia ser imenso ao contar uma história que fosse escolhida a priori e desenvolvê-la com desenvoltura, mas ao optar por entrelaçar diversas outras montando um emaranhando quase que novelesco, acabou não contando quase que nenhuma, e com muitos erros de escolhas de linguagem, acabou se perdendo na forma construtiva de um longa e quase que ficou impossível gostar ao menos da ideologia da trama.

O filme nos mostra que entre tiros, confusões, amor e ódio, histórias de jovens de baixa renda se misturam em busca de sonhos e escolhas é sobrevivente de uma chacina. Gerson nunca teve a chance de ver o pai fora da prisão. Mônica se vê diferente de todos seus familiares. Junior é apaixonado por eletrônicos. Joana sonha com a mãe que nunca conheceu. A vida desses jovens é tocada pela arte de fazer cinema e assim podem mudar seus destinos.

Ao menos não podemos dizer que o esforço coletivo foi em vão, afinal todas as histórias possuem ao menos um elo interessante e de certa forma criativo, mas ao tentar unir todas, o clima acaba se perdendo e o diretor Fernando Grostein Andrade não consegue conduzir uma trama que o espectador ficasse curioso ao menos com alguma coisa, necessitando colocar textos escritos para contar o deslanchar de cada um ao final do longa. A história que deu origem à toda trama é a de Gerson e poderia ser um filme único no cinema de favela nacional, mas colocando todas as demais, tivemos quase um docudrama (documentário ficcional) onde cada personagem se perde no contexto e apenas falamos nossa que bacana foi aquilo não é mesmo? Por exemplo de todas as demais histórias acabamos nos envolvendo um pouco mais com o que é passado pela garota Mônica e pelos projetos que Zeca vai acabar desenvolvendo, mas não como um todo. Além disso, outro fator que acaba mostrando demais a desorientação do diretor é o excesso de planos aéreos mostrando a comunidade onde os personagens vivem, e na terceira ou quarta vez já cansamos de toda hora estar mostrando isso, e até onde eu consegui contar, afinal já estava me incomodando, foram 19, e garanto que tiveram muitas outras cenas onde não temos ninguém em quadro, mas sobe uma grua ou drone ou qualquer coisa do estilo para retratar a favela e tentar colocar o espectador na mesma situação em que vivem todos ali.

Quanto das atuações, a maioria é estreante nas telonas, e por mostrar a garra em querer fazer bem demais o seu papel, acabam até cometendo certos excessos de iniciantes, mas diferentemente do que se possa pensar, isso não atrapalha em nada a trama, muito pelo contrário, até faz com que exigíssemos menos deles. Por exemplo Felipe Dimas que já está há algum tempo atuando, fez de seu Zeca um personagem tradicional que poderíamos ver tranquilamente querendo algo diferente do que poderia ser e se mostrou tão humilde dentro da trama que não cogitamos em momento algum que ele já fosse um ator rico e vivido na TV junto de seu irmão mais famoso. Os estreantes filhos de Mano Brow, Jorge e Domênica Dias souberam colocar olhares bem longínquos para que ao mesmo tempo que torcêssemos por eles, também ficasse uma pontinha de pena, e como disse o personagem Gerson que Jorge interpreta daria um longa sozinho muito bem feito, além da história vivida por Domênica com sua Mônica ser a mais envolvente das paralelas. Jean Amorim com seu Junior é o mote cômico da história e junto com seu pai na trama Gero Camilo, são os responsáveis pelas risadas no meio de muita dramaticidade. Daiana Andrade teve a história de sua Joana mais velha rápida demais, e acabou sendo a responsável pela narração da junção das histórias, mas vale mais a pena seus momentos de criança.

Como disse, o diretor tentou nos colocar diversas vezes dentro da comunidade, e isso fez com que o trabalho da equipe artística fosse mais trabalhoso, porém acredito que nem tudo tenha saído como ele queria, pois o excesso demasiado de closes, e sabendo que a maioria dos atores não são grandes profissionais da interpretação, ele acabou fechando o ângulo não valorizando os elementos cênicos que fizeram parte das cenas mais introspectivas. E dessa forma a valorização acabou apenas para a comunidade como uma locação macro, e não cada cena com tudo que foi preparado ao redor para condizer com o que era passado no momento exato, ou seja, um recurso de certa forma desesperador para não falhar mais do que arriscar. A fotografia trabalhou com iluminações bem interessantes, e pela equipe ser principalmente do projeto, mostra que aprenderam bastante os conceitos de uma iluminação coerente com cada situação, os destaques claro ficaram para as cenas de chuva, onde os contraluz deram destaque para os personagens sem esmaecer tanto o fundo.

Enfim, é um filme razoável que se olharmos com olhares de que boa parte são amadores dá pra relevar e falar que agrada, mas como o filme teve incentivos bem recheados de verba, e outros nem tão inexperientes assim frente ao projeto, temos de respeitar o cinema e dizer que poderiam sim ter trabalhado mais para algo menos pomposo de histórias e focado apenas no que era necessário que era mostrar que devem incentivar mais o cinema dentro das comunidades carentes e que a vida de crimes não compensa, mesmo você sendo um fruto do crime. Bem é isso pessoal, como fui ver o longa sem nenhuma expectativa até que não saí tão decepcionado da sala com o que vi, mas que poderia ser algo muito melhor, com toda certeza poderia. Encerro a semana cinematográfica aqui, mas volto quinta com mais bons filmes que irão aparecer, então abraços e até lá pessoal.


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Fúria

sábado, outubro 18, 2014 |

Olha, nunca um título nacional funcionou tão bem num filme como esse "Fúria", pois não é o sentimento do protagonista, nem nada do filme que retrata o nome, mas sim na realidade como a maioria dos espectadores do filme acabam ficando após 90 minutos inúteis, para que nos 8 finais tudo que aconteceu tenha servido para nada. A decepção é tão grande, que os créditos sobem com uma cena acontecendo ao fundo, nem é cena pós-crédito nem nada, uma cena contínua rolando, e pasmem a sala que estava lotada não sobrou ninguém durante esses 2 a 3 minutos. Não digo que seja uma cena importante para o que tenha ocorrido e tal, mas tirando esse Coelho persistente que vê até o último crédito, olhei para todos os lados e ninguém quis ver o que acontece ali, ou seja, Nicolas Cage vende muitos ingressos no Brasil com todos os seus filmes, mas conseguiu deixar uma sala inteira furiosa com o que viu hoje, e se eu fosse da distribuidora de seu outro filme que estreia semana que vem, daria uma segurada na data.

O filme nos mostra que Paul Maguire esteve envolvido durante muito tempo com o mundo do crime, mas hoje ele tenta viver uma vida tranquila, protegendo a sua filha. Um dia, no entanto, a garota desaparece e Paul decide reunir os amigos de antigamente, pegar em armas e se vingar dos responsáveis, líderes da máfia russa.

Não posso dizer que o final não é surpreendente, mas o recheio do filme é tão absurdo com tantas câmeras na mão para dar velocidade nas cenas e tentar empolgar o público com a ação gratuita, que não temos como falar nossa que filme no contexto geral sequer é bom. Muito pelo contrário, o trabalho do diretor Paco Cabezas que surpreendeu muita gente no seu trabalho anterior até é sentido nuances semelhantes, mas ao ter muito dinheiro em mãos para criar uma ação mais trabalhada, se perdeu colocando coisas que não seriam necessárias, e se fizesse algo mais clássico talvez empolgaria mais, envolveria os personagens da mesma forma, e sairíamos do cinema arrepiados com o final entregue, mas a cada enrolada que o filme nos dava, era jogado mais uma tonelada do mesmo flashback com ângulos diferenciados, mais uma perseguição completamente absurda, e tudo isso aliado à muita violência gratuita com tiros lotados de efeitos de computação gráfica de terceira linha, ou seja, um desastre completo que transformou uma trama que poderia ser satisfatória, em algo que nem numa sessão noturna de Corujão serviria para ao menos dar sono no público.

Falar da atuação de Nicolas Cage é repetir que suas expressões sempre são iguais, agora com a idade chegando está entupindo o rosto de trejeitos engraçados já que deve estar usando algum tipo de tratamento anti-idade, e ir conferir a mesma coisa sempre, mas confesso que mesmo sabendo sempre disso, vou ver seus filmes na expectativa de que ele faça ao menos algo diferente, mas sempre saio não muito contente com o que vejo, claro que tivemos algumas poucas exceções em alguns filmes, mas aqui ele foi o mesmo de sempre. Danny Glover deu uma envelhecida gigantesca ou sumiu por um bom tempo? Pois está quase irreconhecível no filme e é notável que não é maquiagem e sim seus 68 anos pesando em cena, sua voz já está arranhadíssima, e mesmo vendo que ainda tá produzindo uma tonelada de filmes que serão lançados mais pra frente, não acredito que decole mais como fazia antigamente, pois aqui tirando sua cena mais trabalhada no bar, onde teve uma fala mais longa e de boa interpretação, não fez mais do que algumas caretas no filme todo. Max Ryan e Michael McGrady fazem uma boa dupla de amigos do protagonista, e dispostos a bater muito pelo antigo parceiro de crime, eles estão a postos para tudo, e só, suas atuações não chamam atenção nem nada demais, apenas estão no filme para bater e atirar. Tal pai, tal filho? Ainda não dá para falar que Weston Cage vai seguir a linha do pai Nicolas e aparecer em 20 filmes por ano, mas aqui fazendo sua versão mais jovem nos flashbacks soube ao menos fazer menos caretas que o pai. Dos demais não temos que destacar ninguém a não ser as caras bobas que os dois adolescentes fazem, principalmente ao se cagarem de medo do protagonista.

As locações escolhidas foram bem preparadas para a trama, e ao conterem diversos elementos cênicos ao redor poderiam até ter sido melhor aproveitadas, mas com a correria que deram para a trama, tudo acaba sendo superficial, claro que ao voltar para cada cena e retratar o fato que aconteceu, o filme dá uma valorizada no trabalho da equipe de arte, detalhando algum elemento cênico preciso para as cenas de crime e tudo mais, mas tudo poderia ter um ganho tão maior se o tivessem trabalhado a trama ao invés de jogar tudo na tela que a única coisa que podemos sentir é pena da equipe que recebeu para fazer algo bem montado e ao final não conseguiu com certeza ver nem 10% do que fez. A fotografia do filme é toda em tons escuros, utilizando bastante o marrom e o preto para segurar o ambiente nervoso que o diretor quis mostrar, claro que temos sempre um ou outro elemento bem iluminado na cena para dar uma quebrada na nuance, mas diferente da maioria dos filmes policiais, não precisa prestar atenção nesse elemento, que ele não irá servir para nada além de dar contraluz e tirar o excesso de escuridão da trama.

Enfim, é um filme ruim, sim, mas não é totalmente péssimo, pois se você assistir o começo e o final, como muitos acabam vendo em casa no computador ou na TV fazendo diversas outras coisas ao mesmo tempo, talvez fique abismado e adore o que viu, mas no cinema chega a cansar demais o espectador que começa a ter diversos outros problemas ouvindo pessoas conversando demais, batendo chaves na poltrona, procurando doces nas sacolinhas dos mercados, e tudo mais, afinal o longa não prende sua atenção na tela, ou seja, o programa que poderia ser uma diversão acaba se tornando um martírio, ou seja, para esse Coelho que vos digita aqui não bastou o filme ser um desastre, ainda teve uma sorte imensa de pegar aquelas salas lotadas de adoradores de picnic que fazem uma rebelião no cinema, afinal esse é o público que Cage chama para seus filmes, então se já estava disposto a não recomendar o filme passados apenas 50 minutos do longa, deixo minha dica para fugir completamente das sessões, já que podem além de ver um filme nada interessante, ainda pegar uma turma dessa que esteve em minha sessão. Bem é isso pessoal, falta ainda um longa para conferir, mas vou tirar o fim de semana de folga dos cinemas, então volto na segunda com mais a crítica da última estreia dessa semana cinematográfica curta. Então abraços e até lá pessoal.

PS: A nota está composta apenas pelo final interessante e surpreendente aliado da ideia boa que a trama tinha, pois tirando isso não daria para dar nenhuma nota.

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O Juiz

sexta-feira, outubro 17, 2014 |

Filmes que envolvam julgamento sempre são interessantes, pois podemos analisar as provas, nos colocar como júri e dar o nosso próprio veredito, afinal já fazemos isso naturalmente com todos os filmes, então em um que estamos diante de um tribunal a coisa fica mais envolvente não é mesmo? E se junto disto colocarmos uma boa dose de um dos filmes que fez grande sucesso ano passado "Álbum de Família"? Ficaria melhor ainda não é! Pois bem, com essa ideologia familiar, de família lotada de problemas tanto no passado quanto no presente, atuações perfeitas de dois atores de grande renome e um caso no mínimo estranho para analisarmos, não tem como reclamar de "O Juiz", mesmo com grandes furos de maquiagem (me senti vendo "Crepúsculo" em algumas cenas) continuará sendo um filme gostoso de acompanhar e até mesmo torcer para indicações à prêmios para os atores no mínimo, mesmo que a crítica americana não tenha curtido tanto assim.

O filme nos apresenta o advogado de sucesso Hank Palmer, que após se distanciar de sua família retorna para a casa na qual nasceu para o velório da mãe e reencontra seu pai, o juiz da cidade e também suspeito de um assassinato. Palmer decide descobrir a verdade e no processo reconecta-se com a família que havia deixado para trás há anos.

Com um roteiro bem trabalhado, onde as situações sempre nos levam a pensar antes mesmo da cena acontecer, a grande sacada da trama é deixar que isso acabe fluindo e em diversos momentos até ir contra o que imaginamos acontecer, e isso é bom, pois se fosse tudo como pensamos a história seria nossa e não estaria nas telonas como uma grande produção. O diretor David Dobkin, que sempre fez comédias, foi bem hábil nas nuances que puderam ser trabalhadas tanto na ideologia dramática quanto dando certo ao colocar pequenas pitadas cômicas para que o filme não saísse do contexto, e isso mostra que sua versatilidade e inteligência são capazes de outros estilos, pois acertar a mão dessa forma é para poucos. Claro que teve ajuda monstruosa do elenco, já que todos ali estavam bem dispostos para os seus personagens, então mesmo não sendo um típico filme de atores, já e a trama pediria algo mais colocado dentro de um roteiro, o resultado final acaba sendo bem eloquente pelo que cada um faz, e ao invés da história pesar, temos personagens pesados.

Já que falei que o grande mérito do filme ficou nas mãos dos protagonistas, vamos falar das qualidades deles. Robert Downey Jr. conseguiu felizmente se libertar do seu Homem de Ferro, pois ultimamente só conseguíamos ver seu estilo de interpretação mesmo em outros filmes sendo o playboy da Marvel, e aqui trabalhou bem a personalidade de uma forma interessante que em algumas cenas até faz parecer que é um novo ator, na cena da bicicleta até lembrou um pouco sua vitalidade de ser, e com expressões fortes corre ainda o risco de ser lembrado em alguma premiação do ano. Só tenho uma coisa a falar de Robert Duvall: deu show, não dá para falar outra palavra senão isso, em todos os momentos é incrível ver sua interpretação, mas na cena da banheira só quem sabe como é na vida real vai emocionar. Vera Farmiga apareceu tão diferente que realmente não reconheci e sua atuação embora simples, já que seu papel não é algo tão significativo na trama, mostrou carisma e fez bem suas cenas, colocando em cheque alguns pontos do protagonista. O problema do personagem de Jeremy Strong não é tão colocado em pauta, mas sua atuação foi ímpar tanto como um cinegrafista-amador quanto com seu singelo modo de mostrar um personagem problemático, foi muito contundente o que fez. Dax Shepard como um advogado que não atua ficou muito cômico e suas cenas são exageradas, mas divertidas ao menos, poderia não repetir tanto sua cena de vômito, mas tudo bem. A garotinha Emma Trembley trabalhou bem, mostrando uma postura de grande atriz, e se derem um papel mais trabalhado é capaz que chame atenção.

A equipe de arte escolheu a dedo uma cidade mais que interiorana e conseguiu representar isso claramente já logo nas cenas iniciais, mostrando o povo caipira, depois as pessoas do júri e por aí vai, mas ao trabalhar nas cenas fechadas abusou de elementos demais, que acabaram perdidos não tendo o significado que mereciam. A cena do vendaval ao menos foi diferente do tradicional e chuvoso clichê de ponto de virada, e ao mesmo tempo que foi bem trabalhado, serviu de realce visual até no tom da trama. Tivemos cenas muito bem fotografadas que o diretor de fotografia fez questão de grudar na edição e não deixar ser eliminada de forma alguma do produto final, e essas nuances de tons serviram bem para mostrar ao espectador que agora é momento cômico, aqui é tensão e aqui é drama, e alguns filmes não costumam deixar isso claro para deixar que o público escolha suas reações, mas de certa forma agradou bastante a forma usada. Não costumo muito prestar atenção em maquiagem e figurino em filmes que não são de época, mas dessa vez o close foi tão exagerado que ficou notável a quantidade de cremes e até lápis para maquiar as olheiras no Downey Jr. e isso é uma falha grotesca em filmes dramáticos que prezam por uma coisa mais suavizada, não sei a que ponto de exaustão foram as filmagens, mas a equipe pecou e muito nisso aqui de forma até amadora.

Enfim, é um filme com formato claro que a Academia gosta, com ritmo bem pontuado e com atores dando o seu máximo, temos alguns defeitos fortes no roteiro que precisaram ficar repetindo a todo momento as cenas para que o público ficasse mudando a opinião quanto ao julgamento do protagonista, mas como sabemos que julgamentos são enrolados dessa forma também e que advogados fazem isso para mexer com nossa opinião até que o efeito soou bem válido. Particularmente, eu terminaria o filme na cena do barco, seria perfeita, mas a continuação e a colocação de algumas lições aprendidas após serviram bem também. Bem é isso pessoal, claro que recomendo o filme, principalmente para os amigos advogados que gostam de fazer seus clientes serem sempre inocentes, e também para quem gosta de filmes de tribunais, claro que já deixo o aviso que não nenhum filme que vai fazer você sair vibrando do cinema, mas é uma boa opção para conferir numa sala de cinema. Fico por aqui agora, mas ainda tenho mais duas estreias para conferir, então abraços e até breve pessoal.

PS: Caberia aqui uma nota 7,5 devido aos pontos que pesei no texto, mas como as cenas contundentes do filme valem a pena, dessa vez optei por arredondar para cima.


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O Físico

domingo, outubro 12, 2014 |

Antes de mais nada, assim como eu saí dando bordoadas na tradução literal do título "The Physician" para "O Físico", utilizei dos serviços de pesquisa do meu amigo quase historiador Cardoso Junior para poder dizer que na Idade Média, o médico ou curandeiro da corte real era chamado de físico, então aqui com o deslanchar da história e já ficando com um mini-spoiler no ar, a tradução não foi tão em vã, aliás o próprio livro que foi base para o filme foi traduzido aqui assim também. Dito isso, o que mais posso adiantar antes de explanar cada parte no texto abaixo é que é um filme de cenografia riquíssima, onde os personagens não omitem detalhes de quão precária era a medicina naquela época, mas com ótimas atuações, temos um panorama crível e bem elaborado de tudo que tentam nos passar. O único porém que cito é que quem não for forte para ver umas doencinhas feias, não coma durante o filme.

O filme nos situa na Inglaterra, século XI. Ainda criança, Rob vê sua mãe morrer em decorrência da "doença do lado". O garoto cresce sob os cuidados de Bader, o barbeiro local, que vende bebidas que prometem curar doenças. Ao crescer, Rob aprende tudo o que Bader sabe sobre cuidar de pessoas doentes, mas ele sonha em saber mais. Após Bader passar por uma operação nos olhos, Rob descobre que na Pérsia há um médico famoso, Ibn Sina, que coordena um hospital, algo impensável na Inglaterra. Para aprender com ele, Rob aceita não apenas fazer uma longa viagem rumo à Ásia mas também esconde o fato de ser cristão, já que apenas judeus e árabes podem entrar na Pérsia.

Para quem gosta de filmes que envolvam História esse é um prato cheio, já a produção foi impecável com a cenografia, e moldou um Oriente Médio bem interessante, bem como também uma Europa jogada às traças no início do filme. O roteiro em si, possui alguns furos e alguns clichês exagerados, mas nada que quem for disposto à assistir um filme e se envolver com ele consiga relevar, afinal como já disse em alguns textos se você se envolver com a trama não vai ser defeitos que vão lhe tirar o prazer de estar assistindo ao filme. Acredito sim, que o texto do livro de Noah Gordon deva ser de uma precisão cirúrgica, pois se somente em quase duas horas (sim, o filme foi reduzido no Brasil, de 150 minutos para 119 minutos, sabe-se lá por quais razões) conseguimos ver tudo que é passado pelo roteirista Jan Berger, então é algo que valha a pena ser lido para enxergar mais detalhes da trama. O diretor Philipp Stölzl trabalhou a história um pouco acelerada demais, e isso funciona mas chegamos ao final um pouco cansados com tanta informação, que poderia ter sido diluída mais proporcionalmente, não enrolando tanto em algumas firulas desnecessárias, e trabalhando mais os pontos cruciais da trama. Claro que o longa por ser da escola alemã de cinema, algo que não é muito comum de aparecer pelos cinemas daqui, temos uma leve estranheza com as cenas mais impactantes, que preferem manter e serem apedrejados, do que cortar fora para ter algo mais light, mas isso com o andamento do filme fica bem em segundo plano e acostumamos com o que estamos vendo.

Outro fator que fez do filme algo meio duro por aqui, é a falta de atores mais conhecidos, pois tirando Ben Kingsley e Stellan Skarsgård que todos já viram nas telonas inúmeras vezes, o restante é praticamente carinhas novas por aqui, mas longe de ser ruim, todos mostraram um jeito diferente e interessante de atuar, que se pegar o estilo é capaz de gostar bastante. O protagonista Tom Payne tem um semblante de boa postura e engajado nos trejeitos consegue segurar a trama nos pontos mais duros, porém quando precisou dialogar demais sentimos uma falta de força para com o papel que representava, já com seus 32 anos poderia ter despontado mais facilmente, então não garanto que vá explodir mais para frente, visto que agora sendo protagonista não decolou, fica mais difícil no futuro. Stellan Skarsgård deu um tom cômico gostoso para o início e fim da trama, sendo fanfarrão e bem trabalhado no figurino manteve sua linha forte e soube dosar as cenas em que esteve para não saírem do clima, afinal sendo um barbeiro, médico mais precário das antigas, poderia fazer cenas tão duras quanto quisessem, e ele saberia fazer também. Ben Kingsley é um dos melhores atores há muito tempo, pois qualquer papel que lhe é entregue, ele retorna com uma qualidade melhor que a esperada, e aqui como mentor de diversos alunos do seu curso de Física ou Medicina como preferir, apesar de que no seu curso não abriam ninguém por ser contra às leis religiosas da época, ele simplesmente humaniza o papel que poderia ser algo completamente diferente, mas caiu como uma luva em suas mãos. Olivier Martinez faz um Xá ou Shah bem no estilo me ame ou eu te mato, e suas cenas são muito engraçadas e bem colocadas na trama, seus olhares são fortes, mas poderiam ter alongado mais sua participação na tela. Emma Rigby não é daquelas mulheres que alguém brigaria feio por ela, e muito menos a compraria, ainda mais com a atuação fraquinha que teve no longa, ficando jogada bem em segundo plano, apenas como meta do protagonista.

Bem, como todo épico temos cenografias gigantescas, cenários bem trabalhados e figurinos impecáveis para contar até mais história que o próprio roteiro e diálogos, e nesse quesito o filme não falha em uma agulha sequer, mostrando objetos toscos que eram usados para "curar" as pessoas, colocaram já em pauta o início das guerras no Islã e tudo mais que poderiam trabalhar visualmente num único filme, Com diversos elementos cênicos, em cada cena podemos nos remeter o detalhamento para um ângulo apenas, e isso funciona, pois mesmo tendo diversos pontos para observar numa única cena, o elemento principal está bem destacado para funcionar o andamento do filme. A fotografia usou demais o filtro avermelhado e isso deixou o tom da trama quase que como um campo de batalha, e se fosse para pontuar erros, consideraria esse o maior defeito, claro que em longas épicos abusam de colorações, mas aqui caberia melhor um sépia amarronzado que o vermelho.

Enfim, é um filme muito bem feito que quem quiser achar erros dá para brincar por horas a fio, mas quem estiver interessado em curtir uma boa trama também sairá muito satisfeito da sessão. Recomendo bem ele principalmente para os amigos médicos que como disse uma senhora que estava na fileira atrás da minha de quinta até hoje ela já assistiu 3 vezes apenas para dar mais valor à tudo que ela tem a disposição dela na profissão hoje, então deixo a cargo dele a recomendação maior. Bem é isso pessoal, encerro hoje essa semana cinematográfica curta, mas feliz por termos um final de semana com filmes que valeram a pena conferir, agora é descansar da correria que foi as duas últimas semanas, e aguardar o que virá na próxima. Então abraços e até quinta pessoal.


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Festa no Céu em 3D

sábado, outubro 11, 2014 |

Se tem um estilo cinematográfico que gostam de experimentar tecnologias e formas é o de animação, afinal cada dia os computadores ficam mais potentes, então porque não tentar a sorte fazendo coisas diferenciadas. E se existe um diretor/produtor que não gosta de nenhuma forma certinha visualmente é Guillermo del Toro, então fazendo algo que gosta de fazer que é lançar novos diretores no mercado, pegou seu compatriota mexicano Jorge R. Gutierrez, que vinha fazendo um bom trabalho visual em curtas e séries animadas, e coloca aqui para lançar seu primeiro longa "Festa no Céu", que ao mesmo tempo que tem um visual maravilhoso e ótimas mensagens na história, não é tradicionalmente uma animação bonitinha, e assim da mesma forma que incomoda, agrada na mesma proporção.

O filme nos apresenta o jovem Manolo, que tem dúvidas entre cumprir as expectativas impostas por sua família de toureiros ou seguir a vontade de seu coração - que leva à música. Tentando se decidir, ele embarca em uma viagem por três diferentes mundos: o dos Vivos, o dos Esquecidos e o dos Lembrados. Ele encontra figuras marcantes e conta com o apoio do amigo Joaquin e da amada Maria.

O lema de vida de fazer sua própria história e engajar os pequenos a seguir bons caminhos, e que eles podem conquistar tudo sendo bons, é um dos arquétipos que mais gostam de inserir nas animações, afinal é uma boa maneira de ensinar as coisas para as crianças com animações, mas aqui o diretor e roteirista Jorge R. Gutierrez soube dominar mais do que isso, ao dar sua versão de "Romeu e Julieta" utilizando algo que é mais mexicano que tudo, que é o Dia dos Mortos, famoso 2 de novembro, e essa mistura ficou muito bacana, pois as lições fluem fácil, acabam animando e segurando bem as crianças nas poltronas, e funciona bem por não utilizar nenhuma das duas academias de animação: stop-motion ou computação perfeccionista, preferindo formas mais quadradas e disformes que acabam chamando bastante atenção. Outro fator bem sábio é o de não trabalhar de forma tão irônica, pois no miolo da história até vemos uma tentativa de escape para essa vertente, mas ao voltar para o lado da comédia romantizada ficou bem mais agradável e interessante, onde as piadas caíram bem e o teor romântico funciona bem em segundo plano.

Contando com personagens bem cativantes, a trama desenrola sozinha e nos faz rir em diversos momentos com os personagens secundários que são bem caricatos. Não é um filme que você irá se apaixonar ou torcer por algum personagem, pois cada um da sua maneira acaba envolvendo e chamando a responsabilidade nas suas cenas, mas que o Homem de Cera é o mais divertido não tenho dúvida. Catrina, a Morte é um personagem também que chama bastante atenção nos seus momentos e dublada na versão nacional por Marisa Orth acabou tendo uma voz interessante. O personagem Joaquin acaba sendo exibido demais e em alguns momentos passamos até a desgostar dele, mas por ser um personagem forte acabamos relevando alguns deslizes e ficando feliz com seu final, e Thiago Lacerda impostou bem sua voz, para dar um ar diferenciado do que conhecemos, ficando uma dublagem bem original. O protagonista Manolo tem carisma para nos conquistar e se segurou muito bem nos 3 mundos, dando nuances interessantes e chamando bem a responsabilidade do filme para si, e agradou com seu jeito romântico de ser. O personagem Xibalba não chega a ser um vilão que ficamos com medo ou raiva, mas consegue ter suas maldades bem colocadas dentro da trama. O vilão mesmo, o Chakal aparece somente para a última cena, e isso achei um pouco falho da produção, já que todo mundo temia tanto ele, deveriam ter explorado um pouco mais. Como os demais dubladores não são tão conhecidos não tivemos uma divulgação tão grande em cima da dublagem, mas o pessoal mandou bem com os trejeitos que criaram, agora ficarei na torcida de que na estreia venha 1 cópia legendada ao menos para ouvir as vozes de Zoe Saldana, Diego Luna, Channing Tatum, Danny Trejo, Ice Cube e Plácido Domingo, que devem ter dado um show musical com as canções originais.

Com uma modelagem estética única, o visual do filme ficou riquíssimo e agrada tanto que não sabemos para onde olhar de tantos elementos gráficos diferenciados que aparecem na tela, e isso é muito bacana de acompanhar, fazendo com que o filme agrade tanto os pequenos pela quantidade excessiva de cores, como os maiores que forem conferir e quiserem se atentar a detalhes cênicos incríveis que a equipe quis colocar para rechear o longa. No quesito 3D, o filme tem uma profundidade bem abrangente que quase nos imerge como parte da história, mas aqueles que esperam muitos elementos voando pra fora da tela talvez ficarão um pouco decepcionados, mas longe de ser ruim, a tecnologia favoreceu muito para que todo esse contexto gráfico ficasse com texturas ainda mais interessantes.

A trilha sonora que ficou a cargo de Gustavo Santaolalla e que nunca decepciona está incrível com muita sonoplastia gostosa de acompanhar e que dita um ritmo bem dinâmico para a trama. As canções dubladas não ficaram tão empolgantes, e quem conhece um pouco mais de inglês consegue sentir que a versão americana com certeza tem notas mais interessantes e por conter alguns cantores famosos deve ter ficado bem bacana de ouvir, mas não posso desprezar que ao menos o sentido das canções foram bem passados pelos dubladores nacionais.

Enfim, é uma ótima opção para levar as crianças nas sessões de pré-estreia paga que estão rolando de 11 a 15 de outubro, inclusive amanhã no Dia das Crianças não é mesmo, e na próxima semana vem com tudo a estreia, então quem gosta de uma boa animação diferente do comum, já pode colocar ela nos planos. Recomendo bastante pelo visual proposto e pelo envolvimento que as mensagens acabam deixando tanto na garotada quanto para nossa vida mesmo. Por ser algo tão diferenciado, o longa me remeteu à "Rango", que inovou e igualmente pôs muitas referências dentro da trama para criar algo maior. Fico por aqui hoje, mas amanhã confiro a última estreia da semana, então abraços e até amanhã.


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Trash - A Esperança Vem do Lixo

sábado, outubro 11, 2014 |

Irei começar meu texto de uma forma diferente hoje, pois sei que muitos odeiam o cinema nacional, alguns vão falar que esse filme não é brasileiro por ser dirigido e roteirizado por um estrangeiro, alguns vão ficar apenas citando erros, outros vão dizer que é algo muito simples e por isso não tem valor. Para todas essas pessoas, eu só digo uma coisa, não vá mais aos cinemas, fique em casa e leia um livro. Para todas as demais pessoas que vão pagar caro, afinal um ingresso hoje custa um valor bem salgado, para ter 2 horas de alguma experiência cinematográfica, que ela ao menos seja satisfatória e prazerosa, e o filme "Trash - A Esperança Vem do Lixo" não só cumpre com isso, mas mostra que até mesmo no Brasil temos capacidade de criar algo envolvente, com uma boa trama de aventura sem descaracterizar nada de nossas comunidades e muito menos sair da ideologia que vivem as pessoas por aqui. E digo ainda mais, precisou vir um diretor estrangeiro para mostrar isso, já que alguns diretores nacionais preferem fazer filmes para o próprio umbigo, apenas gastando dinheiro de incentivos fiscais, sem pensar em quem queira assistir suas loucuras.

O filme nos mostra que Raphael, Gardo e Rato são três meninos que vivem num lixão. Um dia, ao encontrar uma carteira misteriosa, decidem embarcar numa aventura, mas o que eles não sabem é que pessoas más como o policial Frederico e o político Santos estão atrás deles. Os garotos só podem contar com a ajuda do pastor Juilliard e da professora Olivia.

Quanto o escritor Andy Mulligan escreveu o livro, não necessariamente a história se passaria aqui, e sim num país fictício, mas se adaptou tão bem à nossa realidade que Richard Curtis nem deve ter dado trabalho para Felipe Braga contar como é o nosso país para juntos montarem o roteiro do filme, pois a nossa realidade é sofrida e que com uma caracterização tão minuciosa dos fatos, não temos como não falar que esse filme foi feito para ser nosso. Aí entra em cena um diretor renomadíssimo como é Stephen Daudry com uma mão única e cria uma aventura de busca por algo que nem mesmo os jovens inicialmente imaginam ser, mas querem ir a fundo, porquê acreditam ser o certo, e o mundo fantasioso cria vida nas ruas, favelas e lugares diversos do Rio de Janeiro, com um olhar duro por parte dos adultos, mas com uma magia infantil ímpar que só teve sucesso devido às escolhas perfeitas do diretor em relação ao jovem elenco que soube trabalhar tão bem que nem parece que são iniciantes na arte de atuar, mas como alguém já disse: "já nascemos sabendo fingir choro, então atuar é moleza". Brincadeiras à parte, o diretor conseguiu um feito tão proveitoso com os jovens, enquadrando bem sua câmera para termos dinâmica e sempre estarmos com as perspectivas dos jovens, mesmo que para isso, os câmeras tivessem que andar sobre telhados, entrar em águas sujas e tudo mais, para termos a realidade como deve ser vista.

No quesito atuação, muitos começariam pelos nomes renomados, mas como todos são praticamente coadjuvantes aqui, vamos falar de quem interessa primeiro. E claro vamos com o protagonista Raphael, mais conhecido por seu nome real, Rickson Tevez, que trabalhou tão bem suas expressões, eximindo felicidade quando precisava, mantendo o carisma alto, sofrendo muito com cara de dor e clemência nas cenas que apanha, estando com os olhos curiosos à todo instante e mostrando seu lado detetive muito bem encaixado nos momentos chave, não querendo ser nenhum Sherlock Holmes, mas sim alguém que brinca de detetive na vida almejando algo. Eduardo Luis transformou o seu Gardo em um personagem muito humano e interessante, unindo as características da rua sem perder estilo, e o jovem é uma pecinha rara dentro da trama, que acabamos nos familiarizando bem com o que consegue passar, bons trejeitos e leva jeito para trabalhar mais no cinema. Gabriel Weinstein inicialmente assusta com seu Rato, mas vai tornando a experiência do filme tão viva que seus trejeitos acabam nos colocando quase que como um irmão na câmera, o jovem tem um talento único de arrumar confusão e sair dela com expressões rápidas e bem colocadas, um luxo para sua idade. Agora vamos pros estrelados, começando por Selton Mello, sim aquele ator que esse Coelho que vos digita não consegue gostar de suas atuações, e por incrível que pareça, finalmente achamos um papel que suas expressões couberam perfeitamente, seu policial corrupto é fantástico, onde trabalhou bem o semblante e colocou tudo que podia fazer num único filme, sua cena no carro ouvindo música clássica enquanto rolava tudo do lado de fora foi espetacular. Wagner Moura faz poucas cenas no filme, mas como todas são muito importantes para a trama, seu José vem com as características tradicionais que já conhecemos e sabemos que ele faz bem, trabalhando seu diálogo com a essência necessária e pontuando cada detalhe com seu olhar. Martin Sheen fez de Juilliard um padre/pastor interessante não só por humanizar a favela como falando bem português, claro que com muito sotaque, botou expressões inteligentes e semblantes bem humanos na trama, mesmo bebendo muito deu um tom íntegro para os momentos que esteve na tela. Rooney Mara já não trabalhou tanto o português, mas arranhou algumas boas frases sem forçar tanto e encaixada como uma "professora" de inglês na comunidade saiu-se muito bem como arquétipo para ligar a ideia americanizada que o filme colocou um pouco na trama, a atriz é boa em papéis mais diferentes, e aqui sendo simples demais não combinou tanto, mas também teve bons momentos e isso acaba agradando. O personagem de Stepan Nercessian aparece bem rapidamente e isso nos deixa bem feliz, pois ele forçou demais no estilo "político" de ser, e isso já estamos cansados de ver nas telas. Dos demais, a maioria aparece tão rapidamente que nem quase é relevante para a história, mas ao menos ninguém quis aparecer mais do que os protagonistas, e isso já é um avanço imenso quando estamos falando de atores brasileiros.

Que a equipe de Tulé Peak sabe criar artes como ninguém no Brasil, isso todo mundo já sabe, afinal é só lembrar de "Cidade de Deus", "Tropa de Elite", "Ensaio Sobre a Cegueira" e muitos outros que conseguimos ver a precisão técnica que ele tem, e aqui trabalharam tão bem com a cenografia que fiquei imaginando a dó de destruir o set na cena da favela, pois havia em cena tantos elementos visuais interessantes que só de lembrar do que acontece já bate uma tristeza imensa, e não apenas nessa cena, mas o esgoto do personagem Rato é bem trabalhado visualmente, as locações escolhidas para as cenas de perseguição foram bem escolhidas, e até mesmo o cemitério teve seu charme dentro da proposta, e dessa forma tivemos um trabalho visualmente perfeito que não teria como ser melhorado. Se existe uma área dentro do cinema nacional que têm profissionais renomados internacionalmente é a direção de fotografia, e Adriano Goldman que ultimamente deu um show em "Álbum de Família" fez aqui milagres com sua câmera, impondo algo interessante que costuma nem ser de responsabilidade da área, mas sim da trilha sonora, e aqui a fotografia dita o ritmo da trama, pois as nuances de dia/noite conseguem trabalhar tão em prol da velocidade que o filme toma que a cada ângulo e filtro escolhido, o longa toma um rumo diferente, e isso é muito bacana de ver na tela, pois o diretor soube dosar cores bem duras nos momentos que os jovens estão pensativos ou diante de algum ator que exigisse um trabalho maior de diálogo, e na hora que estão sozinhos correndo, o marrom domina dando uma acelerada na trama.

Mas claro que o longa não ficaria sem ter boas trilhas sonoras, e colocando funks, afinal estamos numa favela, e canções bem encaixadas com cada momento, ele nos amarra com tudo que é passado, e junto de uma trilha composta exclusivamente para as cenas que não temos nada cantado, o luxo da trama fica mais evidenciado ainda.

Enfim, é um excelente filme, claro que tem defeitos, mas são tão pequenos frente à tudo de bom que é mostrado que nem dá para relevar. Além disso a produção foi corajosíssima em determinada cena botar lenha na fogueira questionando grandes organizações e seus desvios de dinheiro para eleições e tudo mais, então a única coisa que tenho para falar (até parece que não fiz um texto imenso falando demais) é que você pare tudo o que está fazendo agora e vá para uma sala de cinema conferir esse filme. Sei que muitos não vão concordar com minha nota, mas posso dizer que hoje sinto orgulho novamente de ter visto um filme nacional, mesmo que feito por um diretor estrangeiro, tão bem trabalhado e que posso colocar como um dos que recomendo com certeza. Fico por aqui agora, mas ainda falta uma estreia e uma pré para conferir nessa semana, então abraços e até breve pessoal.


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Annabelle

sexta-feira, outubro 10, 2014 |

Logo que "Invocação do Mal" saiu, muitos já começaram a perguntar mais sobre a história da boneca "Annabelle", e é claro que nenhum produtor deixaria de lado a curiosidade do público sem já correr para algum roteirista e encomendar um bom roteiro. Pois bem, 392 dias após o sucesso do filme original já estamos com o spin-off pronto e assustando a galera que gosta de uma história tensa, com sustos bem colocados em momentos estratégicos para pegar você desprevenido e a indagação do motivo que levaria alguém a comprar uma boneca feia e assustadora como essa, e pasmem, a história é totalmente baseada em fatos reais, e a boneca real encontra-se trancada em um museu, onde apenas 1 padre a visita 2 vezes por mês.

O filme nos conta que tudo começou quando John Form encontra o presente perfeito para sua esposa grávida, Mia - uma boneca que usa um vestido de noiva branco. Mas a felicidade de Mia com Annabelle não dura muito. A boneca atrai membros de uma seita e o casal é violentamente atacado.

A sinopse é bem sucinta já que não podemos também falar muito sobre o longa, já que a ideologia do filme é melhor entendida assistindo e se envolvendo com o que é passado. Mas prestem bastante atenção nos sermões do padre, que o restante fica fácil e mais interessante. E claro, faça o que o diretor John R. Leonetti, que foi o diretor de fotografia do filme original, quis de nós, relaxe e se deixe assustar, afinal terror que você fica procurando erros, você acaba achando e não curte o que é passado. Claro que a história real é um pouco diferente, e consegue ser mais bizarra ainda, já que uma mãe compra para uma filha a boneca feiosa, então não consigo nem imaginar isso, apesar de que o final da história deixa no ar essa possibilidade para caso queiram continuar ele antes de ir para o "Invocação do Mal 2", mas acredito que não já que o começo do filme já é o Invocação. O que acabou faltando é mais vida à boneca, claro que seus momentos de andança são de arrepiar, mas os momentos que fica parada é quase no estilo "Atividade Paranormal" que ficamos grudados esperando acontecer algo e apenas a cara feia dela está nos encarando, então isso acaba sendo uma falha grande para envolver e assustar mais o público, mas repito quando a boneca não está parada, ou com o que vem de brinde com ela, aí o bicho pega e o cagaço vem.

Sobre a atuação, já começamos bem com a ironia que um diretor de casting quis fazer a piada pronta, chamando para protagonista uma mulher com o mesmo nome da boneca, tenho quase certeza de que deve ser algum humorista essa pessoa, mas Annabelle Wallis faz por compensar seu nome e consegue manter a tensão no olhar e de forma desesperante só vai aumentando sua performance, e ainda que não tenha nenhum momento grandioso, a cena da garagem é muitíssimo bem interpretada por ela. Ward Horton atuou de forma como se nada tivesse ocorrendo ao seu lado, e isso irrita de certa forma, pois mesmo o cara mais corajoso do mundo iria entender a mulher e tudo que estava rolando ali, no mínimo faria algo e não apenas fazendo sua residência médica, e o ator foi bem fraquinho tanto na atuação quanto nos trejeitos. Tony Amendola faz um padre bem estranho e com semblantes que se ele fosse o mal do filme acho que caberia bem para o ator, poderiam ter colocado alguém com um semblante mais sereno que acertariam mais do que o que ele fez. Alfre Woodart me lembrou um misto de Woopy e Oprah e fez mérito às boas atuações que ambas já fizeram nos cinemas, pois fez trejeitos bem encaixados e soube ser eloquente nos diálogos quando foi solicitado. Além dos protagonistas, vale o destaque para o carisma do bebê que a cada situação estava sempre risonho e bem disposto para as tomadas diferenciadas.

A equipe de arte trabalhou bem para colocar os elementos pontuados a cada canto dos cenários, e além da boneca estranha, as outras bonecas também deram um tom bem sombrio para a trama, a cena da garagem é ímpar de suspense e tudo mais agrada muito visualmente. Aliás para quem quiser conhecer a verdadeira boneca, aqui está o link. Se existia uma coisa que não tinha como falhar no filme é a fotografia, afinal como sabemos o diretor é formado nessa academia, e a cada nuance apresentada com a mistura de luzes piscando, sombras e sustos vindo do nada só vemos acerto em cima de acerto. Os efeitos visuais não foram lá os melhores que já vimos, afinal optaram por usar menos computação gráfica para dar mais realismo nas cenas, mas o velho estilo de assustar até que funcionou bem.

Todo terror que se preze não pode falhar com a trilha sonora, e mais uma vez a tarefa ficou a cargo de Joseph Bishara que sabe dosar o nível de tensão na medida para não atrapalhar nunca o ritmo de um filme. Mas como disse já uma vez, preferia ver mais movimento no espírito da boneca que ficar ouvindo a sonoridade olhando pra ela, esperando algo e sabendo que vou assustar na sequência com o que virá, então quase toda hora parando com isso chega a cansar um pouco.

Enfim, é um bom filme de terror, mas que por ser parte de um todo, e o filme que foi descendente ser uma das melhores obras do ano passado, a responsabilidade acabou sendo alta demais para ser cumprida logo de cara, e como sabemos o diretor não é um grande nome que pudesse fazer algo surpreendente, vide seus filmes anteriores "Mortal Kombat: Aniquilação" e "Efeito Borboleta 2", ou seja, vai lhe dar alguns sustos, isso eu garanto, mas não vai te deixar borrado de medo com o que verá na tela. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas esse foi apenas o começo da semana cinematográfica recheada que teremos. Então abraços e até mais.


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Alabama Monroe

quinta-feira, outubro 09, 2014 |

Sei que já assisti diversos filmes, mas alguns me dá tanta raiva de ver meses após sua estreia oficial que não tenho sensações para expressar. E "Alabama Monroe" é mais um que entra para essa seleta lista, pois quando foi indicado ao Oscar no começo do ano, jurava que estrearia ao menos em alguma sala pelo interior, e somente agora com o Festival de Cinema de Ribeirão Preto tivemos o privilégio de poder ver esse maravilhoso filme belga. Muitos podem até achar que tudo que é mostrado no filme seria uma novela de 1 capítulo só, mas o que acabou diferenciando tanto ele, foi sua montagem totalmente quebrada onde a qualquer momento podemos ver o fim do filme, e logo em seguida o começo, depois meio e por aí vai, e por mais incrível que se possa imaginar, isso ficou lindo de ver e emociona de uma forma totalmente diferenciada com canções belíssimas e ideologias duras de aguentar. É algo único que precisa ser visto para acreditar no que estou dizendo.

O filme nos mostra que Elise e Didier se apaixonam à primeira vista, mesmo sendo pessoas muito diferentes. Ele é um músico romântico e ela a realista dona de um estúdio de tatuagem. Apesar das diferenças, o relacionamento dá certo e eles têm uma filha, Maybelle. Aos seis anos a menina fica gravemente doente e a família se desestabiliza.

O que é notável no filme é que o diretor Felix Van Groeningen nem quis saber de fazer algo ameno, foi colocando sofrimento em doses homeopáticas e trabalhou em diversos momentos o conteúdo musical para dar uma suavizada apenas, claro que usando do ritmo country que chamam de bluegrass que faz quase os instrumentos chorarem de tanto sofrimento. E com essa vertente mais dolorida, o filme comove ao trabalhar o câncer, religião e amor tudo  num único pacote, mas se você for esperando ver um filme bonitinho vai cair do cavalo, afinal temos cenas acontecendo em uma ordem completamente fora dos eixos que se ainda tivéssemos projeção 35mm iríamos certamente reclamar com o projecionista, pois teria montado o filme errado, mas aqui é de fábrica assim, e o que com muita certeza esse Coelho chato reclamaria, acabou achando genial, afinal deu um ritmo completamente diferenciado que nos envolve e quando tudo está perdido, nos vemos torcendo por algo que já mostrou estar ferrado, então estamos apenas aguardando o acontecido já sabendo o que houve, e isso ao menos ameniza o choro continuado durante toda a projeção.

Os protagonistas trabalham tão consistentemente na trama que quase não notamos a existência de outros atores, inclusive na banda aonde temos outros elementos tocando e cantando com eles. Veerle Baetens ao mesmo tempo que possui uma voz doce e suave tanto para cantar como para colocar na imposição de sua personagem, mantém uma postura sólida e firme perante as situações, apenas se derrubando no momento exato em que a trama pede, mas mesmo nos momentos mais duros, suas expressões beiram a perfeição com uma nitidez ímpar. Johan Heldenbergh é literalmente um cowboy que não conseguimos ver ele de outro jeito, incorporou o personagem e até mesmo nos seus momentos de cântico romantizado, o que vemos ali é um vaqueiro com boas expressões, claro que no seu momento surto ficamos impressionados com o que faz, mas na maior parte do filme a tenacidade é sua maior característica. Agora o destaque mesmo que com poucos diálogos é para a garotinha Nell Cattrysse que deu um show de fofura e não quero nem pesquisar se foi maquiagem ou se a família foi maluca o suficiente de deixar que cortassem todo seu cabelo da forma que foi feito, pois ficou incrível a atuação da jovem nos momentos mais duros e impactantes, sinceramente é de chorar ver uma criança sofrer com a doença.

A direção de arte escolheu bem as locações tanto para realçar o ambiente rural que a família vivia, quanto para mostrar a tristeza que é uma área hospitalar voltada para o câncer, e utilizando de poucos, mas bem encaixados elementos, a sintonia de cada parte acaba nos envolvendo e mostrando tudo que deve. Além das partes onde ocorrem as apresentações musicais serem teatros bacanas e bares onde a banda pode se destacar com os elementos mais importantes que eram os instrumentos e as vozes dos integrantes. A fotografia trabalhou com alguns tons opacos para realçar sofrimento, puxou a cor para o laranja avermelhado nos momentos mais tórridos tanto de amor quanto de brigas e jogou para o cinza escuro com chuva claro (existe clichê maior?) para as cenas dramáticas onde o clima fica ruim.

Com boas canções, onde os protagonistas botaram o gogó para fora, o ritmo do filme nos envolve com um estilo musical não muito frequente nos cinemas, e isso acabou ficando bem interessante de acompanhar na trama, dando uma característica bem diferenciada do usual.

Enfim, um excelente filme que vale muito a pena conferir, e se antes já estava curioso com o ganhador do Oscar que também não estreou aqui, agora fiquei mais ainda, pois se esse aqui perdeu pra ele, deve ser algo sensacional. Recomendo muito ele para todos, mas aqueles que perderam algum parente devido ao câncer talvez vai ser meio dolorido assistir ao longa. Bem é isso pessoal, acabou o Festival de Cinema de Ribeirão Preto, mas logo mais volto com as estreias dessa semana. Então abraços e até breve.


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Entre Vales

quinta-feira, outubro 09, 2014 |

"Entre Vales" é um filme duro que ao mostrar os dois momentos em que vive o protagonista, ele nos coloca praticamente na mesma situação dele, e isso acaba nos angustiando e situando a diferença entre os dois mundos que foi mostrado, de patrão à empregado, mas que ambos dependem do lixo para sobreviver, e isso não soa superficial como muito filmes acabam fazendo, mas algo pertinente tanto à situação quanto à um contexto de vida.

O filme nos mostra que Vicente é economista, pai de Caio e marido de Marina, uma dedicada dentista. Ele tem uma vida comum em casa e no trabalho até que uma perda seguida de outra o levam a uma jornada errática de desapego. Uma história que aborda a fragilidade do homem e sua capacidade de se recriar.

O diretor Phillippe Barcinski conseguiu trabalhar tudo com maestria ao transferir o problema tanto de identidade quanto da falta de humanismo que a pessoa acaba perdendo e está vivendo para nós espectadores, e ao mesmo tempo que isso é muito duro, ele trabalhou tão bem as câmeras, que com esse feitio ele acabou sendo quase que um gênio, pois incluiu o espectador no filme ao fazer com que não fosse apenas a sua visão ali, mas a convivência da situação em si, o que acabou aperfeiçoando uma grande realidade à trama.

Uma peça chave na trama que auxiliou demais a direção foram os atores, pois Ângelo Antônio foi humilde por ir catar lixo mesmo e trabalhou com fidelidade única para alcançar o melhor resultado possível e com trejeitos perfeitos soube agradar demais ao vivenciar tudo com força e persistência. Melissa Vettore ficou forçada demais e suas reações não nos convence mesmo ao parecer aflita, e necessitaria mais tempo para que ficássemos com pena dela, mesmo com a perda. O garoto Matheus Restiffe teve bons momentos com o pai, interpretando bem, mas sua cena de morte foi simbólica demais e não nos comove, já que pela sinopse já foi entregue. Os figurantes e coadjuvantes mandaram muito bem, auxiliando no aprendizado do trabalho e se enquadrando exatamente como deveria para dar a nuance que o diretor necessitava.

A direção de arte teve mais trabalho em ajudar nos enquadramentos que montar uma cenografia criativa nas cenas do lixão e da cooperativa, enquanto que na casa e hospital fizeram o básico para não soar falso demais. Com uma fotografia bem escura ficamos tensos com tudo que pode ocorrer, mas com uma sabedoria digna de grandes diretores internacionais, a montagem fez do filme algo inteligente e único.

Enfim, um filme excelente que nos envolve numa situação dura de imaginarmos, mas que conseguimos sentir através da ótima atuação e da direção precisa que nos foi entregue. E com isso não tem como não ficar triste com o que vemos ao presenciar a situação que muitos vivem e ficamos perguntando o porquê daquilo, mas felizes com o resultado de um excelente longa nacional que junto de outros 2 países mostrou como deve ser feito o cinema brasileiro para agradar cada vez mais. Claro que recomendo muito ele para todos, afinal não é sempre que vemos um filme nacional bem feitinho. Fico por aqui agora, mas como vi dois filmes hoje para fechar o Festival, daqui a pouco tem mais.


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O Candidato Honesto

domingo, outubro 05, 2014 |

Se existe um padrão já moldado de filmes no Brasil é o de comédia semi-novelesca, pois é o que sabemos que dá público independente de ser boa ou não, geralmente contém os mesmos atores, e em sua maioria apelam para forçar o riso do espectador. Usando bem desses moldes "O Candidato Honesto" estreia na semana eleitoral com Hassum sendo o Maluf dos cinemas, já que o político usa da frase "Rouba mas faz", aqui podemos aprimorar para "É ruim, mas faz rir". Digo que é ruim pela seguinte forma exatamente igual, com trejeitos novelescos e tudo mais que já conhecemos, mas ao mesmo tempo, o filme faz com que o público dê muitas risadas e com isso cumpra com o dever que uma comédia tem com os espectadores que pagaram para rir.

O filme nos mostra que João Ernesto Praxedes é um deputado muito popular, mas muito desonesto também. Ele é candidato à Presidência e está à frente nas pesquisas no segundo turno. Poucos dias antes das eleições, Praxedes recebe uma mandinga da avó e não consegue mais mentir. Será que o candidato vencerá apenas dizendo a verdade?

Basicamente o roteiro nos remete ao filme "O Mentiroso" com Jim Carrey, e como Leandro Hassum é o nosso Jim por suas caretas exageradas, suas piadas ao vento e tudo mais, aqui o diretor Roberto Santucci que já trabalhou com Hassum outras duas vezes não teve dúvidas de quem seria o papel principal. Com uma dose de humor politicamente correta, o filme nos diverte bem, mas poderia ser mais trabalhado dentro do quesito humorístico e menos novelesco, que daí a certeza de agradar mais seria compensada por não precisar de gags cômicas, mas sim um filme inteiramente que fizesse rir. Com tomadas tradicionais, não temos quase que nenhuma inovação no sentido de direção, mas ao menos o diretor foi esperto em não ter escatologias demais, e com isso o resultado já ficou um pouco menos apelativo do que seus outros filmes.

No quesito atuação, Leandro Hassum sempre fará os mesmos papéis, e o dia que conseguir fazer algo diferenciado com toda certeza irá assustar tanto quem estiver vendo que acabará ganhando prêmios e mais prêmios, mas enquanto faz sempre o gordinho engraçado que se redime no fim dos seus filmes, vai continuar sendo fraco, mas divertido. Luiza Valdetaro foi uma grande surpresa no filme, pois fazendo uma jornalista com senso real do que deve explorar, mostrou para o pessoal da categoria que pode ser uma arma ruim se usada de forma errada, e com bons trejeitos e com uma fala bem pausada agradou até mesmo nas cenas mais bobas junto do protagonista. Claudio Cinti começou bem o filme, mas foi caindo para o lado piegas de generalização de clichês gays e se perdeu totalmente não fazendo muito mais em nada. Dos demais atores quase nenhum chama a atenção para si, e isso pesa no filme, pois a responsabilidade de dar certo fica apenas nas mãos de Hassum, mas vale destacar as piadas iniciais em cima de Flávia Garrafa como esposa do protagonista e Julia Rabello fazendo uma Ana Maria Braga com um galo ao invés de papagaio. Além claro do pai de santo Jovane Nunes que deu um show de imitações.

Visualmente o longa teve boas locações para remeter aos lugares que conhecemos tanto dentro da política e mesmo sem abusar de elementos cênicos para servir alguma base, o longa apenas montou a cenografia e deixou para que os atores resolvessem com interpretação todo o restante. Poderia ser mais envolvente cenograficamente, mas optaram por algo mais simples. A fotografia não usou um filtro sequer para destacar nada, e isso pesou muito, pois todas as cenas foram iguais tirando claro o ponto de virada mais clichê de todos que é começar uma chuva, e ai todos já sabemos pra que rumo vai o filme.

Enfim, o longa cumpre o que promete, que é fazer o público rir, e sem apelar muito acaba agradando nesse sentido, mas faltou ser mais filme e menos um seriado aumentado para fazer sucesso na época eleitoral. O bom do roteiro é que colocaram alguns diálogos que muitos necessitariam ouvir sobre o que deveríamos buscar em um candidato, mas como as eleições já deram os resultados e continuamos na mesma, o filme foi apenas uma propaganda colocada. Recomendo mais para quem quiser dar umas risadas num filme que a história não é o que vai importar muito, do contrário se você exige uma história, fuja do filme. Bem é isso pessoal fico por aqui hoje, mas amanhã volto com filmes do Festival que está rolando por aqui, então abraços e até amanhã.


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Amantes Eternos

domingo, outubro 05, 2014 |

Explicar um filme nunca foi tão fácil como em "Amantes Eternos", afinal todo mundo já teve algum parente ou amigo em começo de romance que fica uma melação chata demais, na qual eles parecem estar apenas dentro do mundinho deles, e qualquer um que vá atrapalhar será expurgado a tapas. Pois bem, multiplique isso a potência infinita já que ambos vão permanecer na mesma idade por anos a fio já que são vampiros e não envelhecem. Coloque um ritmo lento para representar a eternidade morosa onde eles não tem mais o que fazer. Continue pensando em algo extremamente cansativo. Garanto que você não pensou em tudo, pois bem esse é o filme, e nada mais. O longa não nos leva a lugar algum, apenas representa esse estilo de amor que eles estão presos, até que fique praticamente impossível deles continuarem vivendo assim, já que em algum momento dá fome não é mesmo, e fim. Se você tiver paciência em assistir, garanto que verá exatamente esse filme que acabo de narrar e nada mais.

O filme nos apresenta o vampiro Adam, um músico underground, que se esconde em uma casa em ruínas em Detroit depois de ficar deprimido e cansado com o rumo tomado pela sociedade humana. Mas reencontra sua amante há séculos, Eve, que pressente que seu companheiro irá se suicidar, mas chega a tempo. O amor dos dois é interrompido e testado pela irmã selvagem e incontrolável de Eve, Ava.

O problema do roteiro é o de não necessitar mostrar nada, não temos um problema, uma causa a ser defendida, uma busca por algo ou sequer algum problema que o romance deles esteja enfrentando. É como se o diretor e roteirista Jim Jarmusch quisesse apenas demonstrar o amor que estava sentindo por alguém e fizesse um filme com isso, jogando toda a eternidade naquele momento que ele(e os muito apaixonados) se acham presos, que não precisam comer, não precisam beber, não precisam trabalhar, apenas curtir o momento como se estivesse numa viagem imensa de alguma droga. E dessa forma o filme fica preso, cansando quem não for tão apaixonado assim, ou disposto a aguentar 2 horas de inebriação romântica. Não posso dizer que o filme tecnicamente é ruim, afinal temos planos bem interessantes, atuações bem feitas, cenografia impecável, mas faltou o motivo para a trama existir, que é uma coisa que brigo muito em filmes artísticos, pois fica parecendo que a pessoa só fez aquilo por fazer, não como algo para ganhar dinheiro, prêmio ou ao menos um elogio.

Tenho uma certeza imensa que o público que foi inicialmente ver o filme, foram as fãs de Tom "Loki" Hiddleston, pois quando mais poderiam ver o vilão mais amado dos cinemas sendo um vampiro romântico que compôs todos os clássicos do rock internacional de sucesso, e o ator mostra que é bom sendo uma pessoa mais calma e consegue trabalhar bem suas expressões no filme, claro que seu sofrimento amoroso cansa bastante, mas ele manda bem no que faz. Tilda Swinton é uma atriz diferenciada que consegue fazer seus papéis mesmo que esquisitos soem de maneira natural, aqui em hipótese alguma veríamos uma vampira dessa forma, mas ela acaba nos envolvendo com seu olhar, trabalha bem suas percepções e dialoga com uma pausa quase fúnebre interessante, ficando perfeita para o papel. É uma pena que o papel de Mia Wasikowska que embora apareça como um problema na sinopse seja tão curto na trama, pois ela sim poderia ter dado um gás a mais na relação dos dois e ter feito o filme valer a pena, já que é o mais divertido que tivemos no meio de tanto adoçante que é o filme, já que nem dá para falar açúcar, e ela saiu muito bem como uma vampira "adolescente", sendo ela mesma. Jeffrey Wright também conseguiu agradar nas suas 2 ou 3 cenas fazendo sempre alguma piada com relação à médicos famosos estranhos, pena que foi bem rápido. Anton Yelchin embora faça um papel meio mala com seu Ian, consegue ser algo diferente no meio que está, e agrada suas cenas mais irônicas que sempre leva bordoada. Confesso que confundi John Hurt com a maquiagem usada, podia jurar que era o Gandalf ou Dumbledore, mas seu papel é tão pequeno que nem faz tanta diferença, apenas vale para rir que ele foi quem deu os grandes textos para os autores famosos.

Se tem um fator que não podemos reclamar no filme é a falta de uma boa cenografia, pois mesmo que muito bagunçado o cenário conta equipamentos de primeira linha para quem gosta de guitarras e apetrechos musicais, além de diversos outros elementos da música e das artes, sendo bem interessante de observar ao redor tudo que a equipe de arte quis mostrar. A fotografia usou bons filtros amarelados nas luzes para dar um contraste com toda a escuridão desejada pelo diretor, além de nuances azuladas que deram um tom fúnebre e ao mesmo tempo vintage para a trama.

Outro ponto que mesmo dando sono e não ajudando o filme a ter ritmo, mas que foram de grandes escolhas foi a trilha sonora, que contando com clássicos do rock antigo e músicas que marcaram época para retratar o que o vampirão criou na sua trajetória, fez com que o filme ficasse fino, mas precisaria que nas demais cenas fosse colocado algo mais agitado ao contrário de segurar sem música ou com algo lento demais, pois quem for assistir nas última sessões a chance de dormir é altíssima.

Enfim, é um filme chato pela ideologia que tenta passar, mas que com diversos elementos bons acaba tendo um resultado visual interessante, caso tivesse uma história realmente que valesse a pena, com toda certeza teríamos um excelente filme, mas aqui o resultado foi no máximo mediano. Recomendo apenas para quem esteja com aquela paixonite melosa das primeiras semanas de namoro, que é capaz de se identificar com o filme e gostar, pois o restante do público com certeza irá reclamar muito. Bem é isso pessoal, o filme irá reprisar no Festival de Cinema de Ribeirão hoje às 19 horas no Cinemark, então quem quiser arriscar, só correr para lá. Fico por aqui agora, mas ainda hoje confiro mais uma das estreias da semana, então abraços e até mais tarde.


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