Cala a Boca, Philip (Listen Up Philip)

sábado, abril 30, 2016 |

Sei que alguns escritores são arrogantes e quando alcançam qualquer sucesso meia-boca viram tão estrelas que só pensam em estragar a vida dos outros, digo isso pelo que já li em diversos lugares, não por conhecer algum que tenha feito sucesso. E aqui no longa "Cala a Boca, Philip", só consigo enxergar que desejavam mostrar isso para o público, pois o filme é quase uma leitura de um livro, narrado ao extremo e cansativo também ao extremo, e o vértice da história muda de pessoa tantas vezes que ficamos na dúvida realmente se o protagonista da trama é o tal Philip, ou qualquer outro que estivesse ao seu redor, e teve um pedaço de sua história contada. No geral é um filme bem feito, mas sem muito foco para atingir o real potencial que poderia mostrar.

O filme nos mostra que o escritor Philip está em crise: ao mesmo tempo em que o relacionamento com a fotógrafa Ashley não vai nada bem, ele não consegue lidar com a demora na publicação de seu segundo romance. A situação se transforma quando Ike Zimmerman, ídolo de Philip, oferece a sua própria casa para o escritor passar um tempo e refletir.

Se existe um fator que me incomoda demais é o diretor não saber o que fazer com um roteiro que não consiga ser construído sem exageros narrativos. E o que Alex Ross Perry fez aqui, foi praticamente ler seu livro (já que um roteiro conseguiria desenvolver as cenas com o público vendo as coisas na tela, não precisando que alguém falasse tudo) que ele próprio escreveu e não tinha como um ator expressar tudo em cena, ou seja, você está vendo o cara passear por algum caminho, e nesse meio do caminho o diretor conta uma longuíssima passagem de tudo o que o personagem poderia estar sentindo ou fazendo, e isso infelizmente faz qualquer filme falhar muito. E embora a ideia do filme possa ser boa, toda essa leitura exagerada de trechos, bem como as diversas mudanças de foco de personagens (quase algo novelesco) acabam mais cansando o público do que deixando animados para saber o como o filme vai se desenrolar (se é que chega a desenrolar em algum momento),  e sendo assim falta tudo para que a trama embale de vez.

A personalidade de Philip foi muito bem colocada e imposta por Jason Schwartzman, e isso é algo que sempre tem de ser parabenizado em um ator, pois diversas vezes vemos em um filme que o ator não aparenta entregar para o personagem o que realmente o roteiro deseja, mas aqui, a arrogância e prepotência dominaram o ator ao ponto de até chegarmos a odiar o protagonista por algumas de suas falas. Elisabeth Moss também caiu bem na pele de sua Ashley, e sua superação juntamente com suas dúvidas quase transpassam a tela para o público de tão bem feito o trabalho da atriz, mas volto a questionar o diretor se deveria ter focado tanto em sua personagem, com um capítulo quase que inteiro dedicado à ela. Jonathan Pryce e Krysten Ritter são os malucos da trama Ike Zimmerman e Melanie Zimmerman, que entram na história praticamente somente para bagunçar tudo e dar alguns âmbitos para a trama, claro que assim como aconteceu com Moss, há certos momentos que praticamente pensamos deles protagonizarem também a trama, mas com um número menor para ser mostrado de cenas.

O visual da trama tem um clima interessante com bastante requinte de locações para incorporar bem o estilo de escritores, trabalhando bem tanto o figurino dos personagens, quanto alguns elementos cênicos montados para dar ligação na trama. Não digo que tenham colocado muitos elementos chamativos, pois no contexto geral o visual é que funciona mais, porém o filme anda redondinho quanto à esse quesito. A fotografia também andou por um rumo bem básico sem muita expressividade de cenas e cores, usando mais a iluminação tradicional para que o filme não saísse dos eixos, porém o exagero de câmeras na mão com movimentos bruscos acabam incomodando demais em boa parte do filme. 

Enfim, é um filme que diria que foi mal trabalhado dentro do contexto que aparentemente desejavam seguir, mas também não é algo que possa ser jogado fora. Talvez a decisão de focar somente na personalidade de Philip, sem necessitar explicitar cada momento dos demais personagens e aí sim o longa se encaixaria bem dentro de uma proposta correta. Ou seja, é um filme daqueles que nem todos vão acabar se conectando e isso vai atrapalhar muito recomendar ele para todos. Bem é isso pessoal, acabou o Festival Indie, e agora posso voltar para a programação normal, então abraços e até amanhã com a volta das estreias da semana por aqui.

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Tangerine (Tangerine)

sábado, abril 30, 2016 |

Quando Glauber Rocha disse "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", certamente ele não pensou que muitos anos depois alguém faria um filme inteiro rodado com apenas três celulares, e se você acha que a qualidade de imagem de "Tangerine" ficou ruim por esse motivo, ledo engano seu, pois temos ótimos ângulos que bem contrastados com toda a cenografia, acabaram fazendo dessa história maluca que poderia ser apenas uma esquete cômica, um grande sucesso premiadíssimo em diversos festivais, e quem assistir removendo todo preconceito, com toda certeza irá curtir demais a saga de Sin-Dee em buscar a amante de seu namorado.

O longa nos mostra que a prostituta transexual Sin-Dee passou 28 dias na cadeia e quando sai ela decide terminar com o namorado. Mas o que ela não esperava era a revelação da amiga, que lhe diz que o rapaz está a traindo e Sin-Dee fica possessa. Ela então parte atrás da amante dele e vai caçando briga por onde passa.

Mesmo que o tema do filme não envolvesse toda a polêmica GLS e também tivesse sido filmado com câmeras tradicionais, a sacada do diretor e roteirista Sean Baker ficou por conta da ótima história que o filme desenvolve, claro que o estilo gritado das protagonistas e a forma que o filme acabou sendo feito deu um contexto mais favorável para a trama e acaba divertindo bastante pelas ótimas cenas causadas pelas protagonistas, mas em breve certamente ainda vamos ouvir falar muito de qualquer novo projeto do diretor, pois agora vai ser cobrado sempre de irreverências e novas atitudes, para tentar superar o que fez aqui. Ou seja, a história simples e bem feita, unida com a personalidade dos protagonistas, e ainda um estilo diferenciado de filmagens, feita com três Iphones 5S, resultaram em uma obra cômica tão bem feita que impressiona e diverte demais.

Outro ponto fortíssimo do longa foi a química perfeita das protagonistas Kitana Kiki Rodriguez como Sin-Dee Rella e Mya Taylor como Alexandra, que juntas praticamente se complementavam enquanto uma era escandalosa ao extremo, a outra vinha de um jeito mais sutil incorporando sua vontade de mostrar seu show. E ao adicionar a prostituta Dinah interpretada por Mickey O'Hagan, o filme ganhou um ritmo e mostrou mais sentido junto das diversas situações que vão sendo desenhadas, ou seja, um trio perfeito e interessante de ver na tela. Talvez a ideia de colocar o personagem Razmik de Karren Karagulian até foi boa para complementar o fechamento da trama, mas certamente o longa funcionaria completamente sem ele.

Sendo quase um road-movie pela cidade, a trama trabalhou bem cada momento de parada da protagonista em busca de sua rival, usando bem os locais clássicos de prostituição e venda de drogas para remeter cada ato como uma cena única, e sem precisar de muitos elementos cênicos para representar cada locação e situação, a equipe artística foi sendo simplista sem usar um detalhamento excessivo e ganhando personificação através da protagonista. Agora sabiamente foi o diretor de fotografia para conseguir iluminações perfeitas para que a imagem não ficasse ruim sendo gravada por celulares, pois qualquer movimento mais brusco e fora do que fosse previsto acabaria destoando e dando tons desagradáveis para a trama, o que não acontece em momento algum.

Enfim, um filme muito divertido e interessantíssimo que mostra ideologias de traição em um meio que não estamos muito acostumados a ver, mas que funcionou perfeitamente dentro do tema, e que funcionaria bem em qualquer outra proposta. Além disso, o ritmo imposto pela ótima trilha sonora escolhida fazem com que o longa seja completamente bem recomendado para todos que gostam de uma comédia mais escrachada com pitadas dramáticas para dar um climão. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas volto em breve com a última crítica do Festival Indie, então abraços e até daqui a pouco.

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A Ilha do Milharal (Corn Island) (Simindis kundzuli)

sexta-feira, abril 29, 2016 |

Alguns filmes abusam tanto dos diálogos e/ou de narrações para conseguir passar sua mensagem, que acaba sendo interessante quando um filme consegue passar toda a ideia completa fazendo com que seus protagonistas quase não digam uma palavra sequer. E com "A Ilha do Milharal", a ideia do ciclo de vida, funcionando em sincronia com a safra do milho e o ciclo do rio acaba tendo uma simbologia tão bonita e visual junto dos personagens que acabamos muito conectados com tudo o que o filme acaba nos mostrando, e essa vivência nos leva a refletir sobre tantas coisas pessoais que não tem como não se emocionar com cada situação ocorrida durante toda a exibição, e principalmente com o fechamento do filme.

O longa nos mostra que um camponês e sua neta cuidam de uma plantação de milho em uma ilha no curso do rio Inguri, divisa entre os países em conflito Geórgia e Abkhazia. As ilhas da região surgem e desaparecem com a força da água e do vento. A passagem do tempo, que desgasta e constrói as ilhas, marca o amadurecimento da jovem e a obstinação do velho camponês. Duas vidas submetidas as forças da natureza e da guerra civil.

Não posso dizer que é um filme que dá para se falar muito, pois a perspectiva que o diretor George Ovashvili nos imerge é algo que vai remeter sensações e criará ambientações próprias para cada um, por exemplo, para mim a construção do casebre me remeteu completamente à minha infância na chácara de meus avós quando ia passar férias e gostava de construir casas de madeira e outras montagens, o crescimento da jovem com suas dúvidas e questionamentos nem necessitaram ser citados, mas eram visíveis e tudo mais foi trabalhado com referências bem simples, mas que o público ia captando a mensagem e ia adentrando cada vez mais para a beleza do roteiro que o diretor desenvolveu tão bem. O final do longa chega a ser chocante para a maioria do público que fica inconformado com o acontecimento, mas se voltarmos ao começo da trama é algo natural e cabível de entender e compreender, ou seja, tudo feito com minúcias para detalhar cada momento.

Já vi elencos bem expressivos, mas sempre necessitavam de boas interpretações dos textos para que o filme se desenvolvesse, e aqui İlyas Salman e Mariam Buturishvili conseguiram trabalhar tão bem sintonizados como avô e neta, que poderiam passar o longa inteiro sem dizer as 5-6 frases que falaram, que ainda ficaríamos felizes só com as ótimas expressões que fizeram, e isso prova a velha ideologia de que um filme não precisa de grandes textos para comover, mas sim funcionar completo dentro da expressividade do ator. Irakli Samushia também fez bem seu papel de soldado, funcionando como uma quebra de elo em alguns momentos e simbolizando bem a representatividade que a trama o inseriu, e por alguns momentos suas expressões de tensão funcionaram tanto que até nós acabamos ficando tensos junto com os personagens. Os policiais também ficaram de certo modo interessantes, e seus momentos junto dos protagonistas sempre causavam uma tensão no ar tão forte, que em alguns momentos o que se esperava era um tiroteio a qualquer momento.

O visual do longa é um charme a parte, não sei dizer se realmente gravaram em um lugar que ocorre tudo como acontece no filme, mas que ficou bonito de se ver toda a construção da casinha, o ato de arar a terra para a plantação e na sequência a plantação crescendo bonita de se ver, ficou incrível, simples, e funcional para que o longa tivesse seus atos marcados, o que mostrou uma excelente pesquisa por parte da equipe de arte, e um trabalho incrível para todas as cenas feitas (mas a penúltima cena certamente foi duríssima de fazer). E a equipe de fotografia também envolveu com iluminações representativas da lua, e usando o fogo para junto de fumaça criar toda a ambientação criativa da história para envolver o cenário completo.

Enfim, um ótimo filme, que vai transmitir diversas sensações em quem assistir, e com toda a certeza recomendo ele para todos, pois é um filme envolvente e que mostra de uma forma simples, que um longa não precisa de muita firula para ser bem feito. Só não darei a nota máxima para ele por um único motivo, que acredito que poderiam ter desenvolvido mais os personagens secundários, pois acabam ficando jogados demais, e mesmo sabendo do conflito interno dos países, eles aparecem e somem do nada. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas volto amanhã com o último dia do Festival Indie do SESC, então abraços e até breve.

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O Cheiro da Gente (The Smell of Us)

sexta-feira, abril 29, 2016 |

Logo de cara vemos que "O Cheiro da Gente" não é um filme feito para agradar ninguém, pois o diretor Larry Clark sempre fez questão de trabalhar seus estudos sobre juventude e fazer o que bem entender, sem se preocupar com a aprovação ou não do público que vai assistir seus filmes. E embora aqui a trama seja tão bem contextualizada com o que realmente acontece na vida de muitos jovens, o choque de algumas cenas acaba sendo por hora até forçado demais, não parecendo querer ter um cunho mais real, e sim algo preparado para chocar realmente sem ir a fundo da questão ou motivo de tudo o que está acontecendo ali. Não digo que é um filme ruim, mas apenas algo feito para um público bem restrito mesmo, pois confesso que não pagaria para ver um filme desse estilo, e com toda certeza muita gente também não, mesmo que seja mostrado uma realidade da vida desregrada de muitos jovens que só vivem de drogas, prostituindo para comprar mais futilidades e nem sabem o motivo real de estar fazendo isso.

O filme nos mostra que em Paris, um grupo de jovens se reúne diariamente para andar de skate, fumar maconha e se divertir em meio aos pontos turísticos, sem se importar com os milhares de visitantes que a cidade recebe diariamente. Entediados, ricos, mimados e sempre conectados, vivem uma rotina desregrada e sem objetivos. Mas, aos poucos, a realidade cairá sobre eles e despedaçará a vivência poética.

Ao mesmo tempo que o filme tem uma característica documental, em diversos momentos também soa falso demais e roteirizado demais, e isso ao mesmo tempo que é sadio para que a trama se desenvolva, acaba deixando no ar um algo a mais que poderia ser explorado pelo diretor. Talvez se Larry Clark não fosse tão focado em chocar o público com a realidade nua e crua, seu filme teria uma desenvoltura melhor e mais crível de se assistir, pois sabemos que a juventude mundial está perdida, mas acrescente motivos para justificar sua opinião, e não apenas jogue o acontecer forçando a barra para tudo o que é colocado na trama. Claro que isso é uma opinião pessoal, pois muitos podem gostar de ver cenas de sexo de diversas formas, jovens humilhando pessoas e quebrando tudo o que veem pela frente, apenas por hobby, mas ser mais focado e crível agrada as vezes também.

Como disse acima, em diversos momentos ficamos na dúvida se os jovens estão interpretando realmente ou vivendo sua vida, mas vou jogar com a possibilidade de interpretação completa, então o que tenho para falar sobre Lukas Ionesco como Math, Diane Rouxel como Marie, Théo Cholbi como Pacman, Hugo Behar-Thinières como JP, e Ryan Ben Yaiche como Guillaume, é que certamente todos curtiram muito seus momentos e estavam completamente à vontade para fazer qualquer coisa que o diretor solicitasse, e isso é algo bom de se ver vindo de jovens, pois geralmente alguns costumam ser tímidos frente às câmeras, mas aqui se soltaram totalmente.

Esqueça completamente qualquer coisa charmosa que possa aparecer por estarmos em Paris, pois o que nos é mostrado pela direção de arte é algo completamente jogado ao submundo da cidade, com locações não tão representativas, mas utilizando muitos recursos de elementos cênicos para que cada cena se encaixasse bem com o momento próprio, e claro, fosse bem crua de realismos, de modo que misturasse tanto a realidade a ponto de como disse também no começo nos remetesse quase à algo documental. Destaque de elementos cênicos para a festa na casa do ricaço, aonde os jovens destroem tudo. A fotografia também trabalhou alguns elementos mais escuros para dar uma pesada na mão, mas nada que chegasse a impressionar, deixando se levar bastante para filmagens em diversos estilos, algumas com celulares, outras botando efeitos, mas nada que fosse relevante para falar que teve um estilo próprio.

Enfim, é um filme peculiar, que pode servir para estudo de caso da juventude, mas que também necessita de um tempo maior para se digerir qualquer coisa que desejavam nos mostrar ali, pois o somente chocar sempre possui algo subjetivo por trás que ficamos sem ver numa primeira observação, mas como disse não é um longa que faz meu estilo e não reveria ele para analisar mais coisas, e sendo dessa forma, só o recomendo se você realmente não se chocar fácil com cenas de sexo e outras loucuras possíveis de se ver em um filme quase surreal dentro de uma realidade real. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas volto daqui a pouco com o texto do outro longa de hoje, então abraços e até daqui a pouco.

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Eu Sou Ingrid Bergman (Ingrid Bergman - In Her Own Words) (Jag är Ingrid )

quinta-feira, abril 28, 2016 |

Sempre que vou conferir um documentário, fico com um pé atrás de as entrevistas acabarem ficando monótonas e repetitivas enaltecendo ou pontuando algum defeito da pessoa biografada, mas como "Eu Sou Ingrid Bergman" é quase uma autobiografia, já que usa a maior parte de cartas escritas pela atriz e vídeos feitos por ela e seus familiares, a trama acaba ficando tão gostosa de assistir, e flui de uma forma tão incrível, que ao final quase ficamos tão íntimos ao ponto de dizer que conhecíamos tudo o que a atriz gostava de fazer tanto nas telas e palcos, quanto com a família. E assim sendo, mesmo que você fale que nunca viu um filme sequer dela (o que acho bem difícil, já que fez 53 longas e ganhou 3 Oscars e 4 Globos de Ouro, entre outros prêmios), a trama vai lhe proporcionar ótimos momentos para conhecer um pouco mais da vida e do trabalho dela, que ao final com certeza você dará um ótimo suspiro e sairá feliz com tudo o que foi mostrado.

Usando os diários íntimos de Ingrid Bergman, além das cartas enviadas às suas amigas, o documentário traça todo o percurso pessoal e profissional da atriz, incluindo seus diversos casamentos, a relação controversa com os filhos, o escândalo de adultério, as mudanças para os Estados Unidos, França e Inglaterra os principais filmes e prêmios recebidos na carreira.

A grande sacada do diretor e roteirista Stig Björkman foi usar todo o vasto material que tinha em mãos para saber como colher as entrevistas e montar um filme que funcionasse tanto como um documentário bem trabalhado, como quase um vídeo de família, aonde a pessoa se apresenta e mostra para os demais seus trabalhos, viagens e momentos felizes junto com a família. E por mais incrível que possa parecer, e claro que foi um grande feito, a atriz filmava demais sua vida pessoal, tendo diversos registros interessantes para serem mostrados, de modo que se alguém quiser qualquer dia fazer um filme ficcional sobre a atriz, basta pegar esse documentário e em questão de minutos terá um roteiro completo para trabalhar, afinal como foi uma grande estrela do cinema, além de seus registros, sempre havia algum paparazzi atrás e juntando tudo, o resultado que nos foi entregue ficou incrível de ver, com muita vivência sendo contada por todos os entrevistados, sendo a maior parte os filhos da atriz(Roberto Rossellini, Isolta Rossellini, Isabella Rossellini, Pia Lindström), e com uma narração em primeira pessoa maravilhosamente feita por Alicia Vikander.

Não costumo me alongar muito nos textos sobre documentários, mas devo frisar a ótima trilha sonora que acompanhou toda a trama, dando leves pontuadas para enfatizar cada momento, que junto de imagens que praticamente diziam tudo o que acontecia ali, mas claro, que auxiliado por algumas vezes pela boa narração das cartas e do diário da atriz, o filme tem quase vida própria, de modo que acho difícil hoje que alguém tenha tanto material guardado assim para que alguém possa um dia contar sua vida sem precisar ficar criando com base no que os outros irão falar.

Ou seja, geralmente a maioria dos longas documentais são criados pelos depoimentos, e o diretor acaba formando sua própria opinião sobre a pessoa documentada, mas aqui, Ingrid deixou pronto para que fosse mostrado quem ela mesma achava que era, deixando apenas brechas para que os demais complementassem. E sendo assim, recomendo demais o filme para todos, pois foi agradabilíssimo assistir, e se tenho de reclamar de algo, seria apenas a falta de inserções negativas de sua personalidade, por exemplo outros artistas vivos de sua época que tivessem gravado alguma entrevista reclamando de algo seu, pois como costumo dizer, um documentário biográfico precisa de uma certa imparcialidade para não ficar apenas como uma homenagem póstuma para a pessoa. Mas tirando esse detalhe, que é mais uma reclamação pessoal, o longa é maravilhoso e gostoso demais de assistir.

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Jornada ao Oeste (Xi You)

quinta-feira, abril 28, 2016 |

Sei que muitos leem meus textos, mas hoje minha vontade é escrever de "Jornada ao Oeste" apenas as seguintes palavras, "O filme mais inútil que já vi em minha vida", colocar um ponto final e ir dormir, pois mostrar apenas como é monótona e focada a caminhada de um monge, colocando 5 a 6 planos sequências de quase 15 minutos cada, aonde NADA acontece e o monge se move na velocidade negativa quase em slow-motion (tanto que o plano final está praticamente indo em sentido contrário), de modo tão lento que a equipe que estava passando o filme no Festival quase foi conferir no plano inicial se o longa não estava pausado, ou seja, um filme que não vale o tempo perdido mesmo sendo de apenas 56 minutos (aliás, graças aos deuses do cinema é apenas essa duração, pois se tivesse passado mais tempo vendo isso, ou se tivesse pago para ver, acho que seria caso de suicídio coletivo de todos que estavam na sessão).

O longa nos mostra que um monge vestido de vermelho caminha pelas ruas e praças da cidade num ritmo coordenado e lento. Tudo ao seu redor mostra a vida agitada dos moradores, que o ignoram a princípio. Mas quando um homem decide imitar seus passos penitenciais, o monge ganha um discípulo. Primeiro vemos o sofrimento no rosto dele, mas depois de um tempo observamos que ele parece ter encontrado um significado para sua vida.

Em Dezembro de 2013, reclamei de apenas 1 plano longuíssimo do diretor Ming-liang Tsai em "Cães Errantes", e confesso que se tivesse visto que esse filme de hoje era seu talvez nem teria ido conferir, pois na época lembro o quanto me revoltei com aquilo, mas hoje com esse novo filme foi falta de educação o que ele fez com o público, nem com a maior reflexão do mundo podemos tirar qualquer conclusão de seu filme sem ser que ele quis mostrar a monotonia e a importância do foco para o monge, mesmo em um mundo aonde todos estão correndo com seus afazeres, pois de resto, só se a pessoa sair da realidade (para não dizer ir com muita droga na cabeça assistir) para pensar qualquer outra coisa sobre o longa.

Nem sei se poderia falar alguma coisa da atuação de Lee Kang-sheng como o monge e Denis Lavant como o seguidor dele na penúltima cena, pois a única coisa que fizeram foi ficar andando lentamente, então posso dizer que foram bem hábeis e focados para conseguir movimentos tão lentos, e na primeira cena, Lee Kang pode se orgulhar do grande tempo que ficou sem piscar.

A arte e a fotografia do longa foram bem básicas, escolhendo quatro locações bem interessantes, aonde ficamos o tempo inteiro esperando o monge passar de um lado para o outro, hora com o ângulo mais fechado nele, hora com a paisagem mais aberta para o tempo demorar mais ainda.

Enfim, não é apenas a minha opinião dessa vez, pois como o segundo filme do dia do Festival Indie iria demorar quase 1 hora após o término desse, fiquei conversando com os demais que assistiram ao filme e ficaram indignados com o que nos foi mostrado, ou seja, se ver esse nome em qualquer programação de cinema ou na TV, FUJA!!! Fico por aqui agora, mas volto em breve com o texto do segundo filme, que foi bemmmmm melhor do que esse.

PS: Como costumo dizer, não darei 0 coelhos para nenhum filme, pois sempre é possível tirar algum proveito de um péssimo longa, e aqui no caso foi reforçar que devo fugir de qualquer obra desse diretor.

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O Cemitério do Esplendor (Cemetery of Splendour) (Rak ti Khon Kaen)

quarta-feira, abril 27, 2016 |

Sem dúvida alguma, "Cemitério do Esplendor" é um longa bem poético e que de certa maneira até chega a fazer com que o público reflita durante suas longas 2 horas de exibição. Mas o envolvimento místico é tão grande e com cenas tão paradas que assim como fala de sonhos e de pessoas dormindo, é provável que se você não se conectar ao filme e ficar envolvido para saber mais aonde ele pode chegar, acabe dormindo junto com os soldados da trama. Mas quem aguentar, poderá se envolver bastante com o simbolismo do sono e de conexões entre vidas passadas, em um país que tem diversas crenças e misticismo para explicar de tudo um pouco.

O longa nos mostra que numa pequena cidade da Tailândia, vinte e sete soldados são vítimas de uma estranha doença do sono. Para tratá-los, uma escola abandonada serve como abrigo. Uma mulher tailandesa de meia-idade, casada com um soldado americano aposentado, trabalha como voluntária no tratamento dos pacientes. Ela cria um interesse especial por Itt, que nunca recebe visitas.

Nessa co-produção entre vários países,  Tailândia, Reino Unido, França, Alemanha, Malásia, Coréia do Sul, México, Estados Unidos e Noruega, o diretor e roteirista Apichatpong Weerasethakul trabalhou com uma ideia até que muito bem elaborada e amarrada para representar a simbologia de vidas passadas, com o sono exagerado de um determinado grupo de soldados, e pra isso, ele usou diversas formas de linguagem representativas que se observadas a fundo vão dizendo muita coisa, e até consegue amarrar bem o público para saber qual o deslanchar final da trama. O maior problema é que o público em geral (me incluo nesse grupo) prefere longas mais dinâmicos e que mesmo trabalhando com simbolismos, vá direto ao ponto, sem precisar de longas cenas quase estáticas de diversos minutos sem que quase nada aconteça, e aqui, o diretor chegou abusado colocando pelo menos que eu me lembre umas cinco cenas longuíssimas, que você acaba cansando, e nas últimas o público atrás de você já começa a viajar interpretando a cena, e conversando sobre ela, e isso acaba estragando um pouco a beleza do filme. E dessa maneira, se fosse um filme que passasse pela minha mão o corte final, certamente reduziria ele de 122 minutos para 92 com as mãos nas costas, e ainda teríamos o mesmo resultado sentimental envolvente.

Embora não estejamos tão acostumados com filmes tailandeses, os atores nos mostram que com simplicidade, eles conseguem fazer expressões simples e que acabam nos envolvendo, de modo que Jenjira Pongpas (que já vimos em "Tio Boonmee"), interpreta tão bem seus momentos, colocando graciosidade nas suas falas e sempre com olhares direcionados acabamos criando um certo vínculo com a protagonista da trama, claro que não é uma daquelas atrizes que vamos lembrar por um conteúdo vasto e dinâmico, mas ela fez bem o que deveria ser feito. Banlop Lomnoi até teve alguns momentos para que seu Itt se destacasse, mas o ator ficava melhor em suas cenas imóveis do que quando procurava se expressar, e assim sendo, não chamou a responsabilidade para nenhum dos seus momentos de diálogo. Em compensação, Jarinpattra Rueangram falou e gesticulou tanto com sua Keng, que de médium e vidente, ela já estava quase sendo promovida a vendedora de produtos e pegando diversas outras funções possíveis na trama, mostrando que para sua estreia no cinema, a jovem tem dinâmica corporal e facial para mostrar mais, e claro que como deram muito texto para ela, ela acabou dando algumas leves derrapadas, mas tem futuro mesmo assim.

Pode até ser uma questão de gosto pessoal, mas longas que usam a arte para mostrar coisas destruídas, usando quase que o conceito de natureza morta para simbolizar em demasia não costumam chamar muito a minha atenção, além de que todo o lance reflexivo e abstrato de ficar imaginando o que a outra pessoa está vendo é algo que infelizmente julgo como falta de orçamento e desejo de querer ser maior do que o que a pessoa tem para mostrar. Claro que isso é algo bem subjetivo, e que muitos vão julgar como algo brilhante, mas poderiam ter simbolizado menos que agradariam do mesmo jeito. Outra coisa simbólica demais é o fato do diretor de arte achar que pode usar todas as cores possíveis e imaginárias mudando os tons na mesma cena com um elemento cênico estranho que parecia um abajur diferente, quiseram usar isso de uma forma visual para chamar atenção, e mais cansaram a vista do que agradaram, de modo que poderiam ter optado por alguns tons apenas que teria o mesmo resultado e agradaria mais.

Enfim, é um filme diferente, porém bem interessante. Claro que se pararmos para pensar em tudo o que o diretor desejava mostrar e que estava em sua cabeça viajaríamos muito no texto e poderíamos ficar discutindo por horas sobre os simbolismos do sonhos, e toda a ligação com vidas passadas (para quem acredita nisso), e como costumo dizer, esse não é o objetivo do meu site. Portanto, recomendo o filme para quem gosta de refletir sobre esses lances, e principalmente, possui muita paciência para cenas alongadas, pois senão a chance de reclamar de tudo é bem alta. Bem é isso pessoal, encerro por aqui esse primeiro dia do Festival Indie do SESC, mas amanhã (ou melhor, hoje) teremos mais dois longas para conferir, então abraços e até breve.

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Shirley - Visões da Realidade (Shirley: Visions of Reality)

quarta-feira, abril 27, 2016 |

Hoje vi que valeu meu curso de 8 anos de inglês, pois infelizmente a cópia que veio para o Festival Indie estava sem legendas, então ou o pessoal dominava a língua para entender os momentos falados do filme "Shirley - Visões da Realidade", ou abstraia tudo o que era dito (nada muito necessário para entender o que era mostrado), ou saía da sessão, deixando para ver outro dia. Pois bem, optei por botar em prática tudo o que aprendi, e bola para frente, pois a ideia conceitual do filme é algo bem mais visual do que narrativo, com as frases ditas pela personagem principal contando suas abstrações e indagações do momento em que estava vivendo, refletindo com as fases que estava ocorrendo no mundo nas datas em que eram mostrados, e claro que isto visto de dentro para fora das pinturas de Edward Hopper. Ou seja, de uma pesquisada nos quadros do pintor no Google e verá imagens estáticas, e o que o diretor fez brilhantemente, foi fazer essa situação do quadro acontecer refletindo os pensamentos da modelo em questão (claro que de modo completamente abstrato).

O filme nos mostra que uma mulher apresenta pensamentos, emoções e contemplações que se embaralham entre as suas constatações sobre a sociedade onde vive - Os Estados Unidos durante a época da Segunda Guerra Mundial.

A grande sacada do diretor e roteirista Gustav Deutsch foi fazer quase que uma direção de arte única, pois o filme não tem quase que muita importância para trabalhar os pensamentos da protagonista, claro que ajudam a determinar o sentimento expressivo dela para com sua pose final do quadro, mas a simbologia de cores e o trabalho visual acabam importando tanto quanto a história criada. E nesse misto de filme com algo quase tão próximo de uma pintura na tela, o trabalho criativo floresce e acaba sendo mais interessante para quem gosta de observar quadros abstratos em galerias e desejar descobrir o que a pessoa que estava posando para o artista estava pensando para ficar daquele jeito, e sendo assim, o longa tem seu valor, mas confesso que quem nunca sequer parou para pensar isso, vai olhar para o filme em uma sessão qualquer e falar, o que eu estou fazendo aqui.

Diferente do que costumo fazer, que é falar um pouco de cada ator, aqui a única coisa que posso colocar é que Stephanie Cumming fez excelentes expressões à deriva e se deixou permear e virar parte da cenografia, pois em momento algum o longa faz questão de que ela nos apresente sua Shirley, e muito menos os demais personagens que acabam aparecendo nos demais insights. E Christoph Bach foi tão expressivo quanto Kristen Stewart em "Crepúsculo" ao fazer o seu Stephen.

Agora sem dúvida alguma o ponto fortíssimo da trama ficou por conta da equipe de arte, e com MUITAS cores fortes em que quase podíamos dizer que se fosse filmado ainda em película, pintaram 20x a cor para dar a saturação que o diretor almejava mostrar. De modo que colocaram os objetos cênicos com tanto detalhamento que ficamos impressionados com o visual ao redor que forma o belíssimo enquadramento de cada cena. No Facebook acabei brincando que o patrocínio do filme ficou a cargo da Lukscolor cores vibrantes, mas é inegável que os tons usados pela fotografia ficaram acima do máximo esperado pelo diretor, e que com toda certeza a iluminação usada auxiliou demais para que o recorte ficasse nitidamente igual aos quadros do pintor.

Enfim, de maneira bem sucinta, não posso falar que é um longa ruim, pois não consigo classificar ele muito como sendo um filme de longa-metragem realmente, mas sim recortes explicativos de cada quadro, formando um conjunto de diversos curtas-metragens que sob um contexto maior que são as obras do pintor acabam valendo para quem gosta de pinturas artísticas. Portanto só posso recomendar o filme para esse público, pois qualquer outro vai dormir, ou reclamar da viagem que nos é proposta na trama. Bem é isso pessoal, esse foi apenas o primeiro filme do Circuito Indie Festival do SESC que irá rolar durante a semana toda com 2 filmes todos os dias, então daqui a pouco volto com mais um texto por aqui.

PS: A nota é mais pelo contexto visual do que pelo conteúdo do filme, como disse acima.

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Em Nome Da Lei

domingo, abril 24, 2016 |

Cada dia que passa fico mais feliz que nossos diretores nacionais estão buscando alternativas possíveis para que o nosso cinema saia do contexto "filme nacional" para os diversos outros gêneros existentes no mundo todo, aparecendo suspenses, dramas, comédias, ações, ficções científicas e por aí vai, porém alguns ainda acham que precisam colocar comicidade em tudo para segurar o espectador nacional, o que não é uma verdade absoluta, e que por vezes acaba até atrapalhando o curso da história. Resolvi abrir meu texto dizendo isso com tanta ênfase, pois o longa "Em Nome Da Lei" pelo trailer tinha tudo para ser um daqueles filmes tensos, sérios, em que o público acreditasse mais na polícia federal e nos juízes do pais (afinal o longa é baseado na vida do juiz Odilon Oliveira), mas acabaram fazendo uma bagunça tão grande, cheia de gags cômicas, incluindo diversos personagens desnecessários, que ao final o longa acabou me fazendo rir mais do que muitas comédias exibidas por aqui, e certamente esse não era o objetivo.

O longa nos mostra que Vitor é um juiz federal disposto a lutar contra o esquema de contrabando e tráfico de drogas na fronteira entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguai. Ao chegar com suas ideias preconcebidas, Vitor é atropelado pela realidade e nota que precisa de estratégia e paciência. Para prender o criminoso Gomez, o juiz precisará da ajuda da procuradora Alice e da equipe do policial federal Elton.

Volto a frisar que o longa não é ruim, pois possui uma ideia excelente, uma produção bem feita e organizada, e até ótimas escolhas de ângulos de filmagens, mas se perdeu completamente no estilo ao jogar um exagero de personagens secundários (que poderiam funcionar perfeitamente como figurantes sem atrapalhar em nada) e ao desenvolver a história com estilo cômico e novelesco demais, pois a história é ótima, o que o juiz real fez foi algo monstruoso e todos sabemos o quanto ainda hoje ele é ameaçado e necessita de máxima segurança, então pra que colocar situações cômicas no meio do filme? Pra que finalizar de maneira tão abobada (antes mesmo da música final entrar, assim que é dado o tiro, o público da sala já começou a sair da sessão, provavelmente irritado com a piada que foi o fechamento)? Ainda se fosse algum diretor novo e inexperiente em reproduções de obras baseadas em fatos reais, até daria para ignorar, mas Sergio Rezende é um daqueles diretores que costuma errar muito pouco, e certamente não era seu desejo que o filme ficasse dessa forma, mas ficou, então de duas possibilidades, vamos tirar uma, ou a vida de Odilon Oliveira foi uma piada sem limites no começo de sua carreira como juiz em Fronteira, ou o diretor/roteirista resolveu fazer piada com o caso mesmo, e agora está rindo muito após o lançamento do filme. Vou preferir ficar com a primeira opção, pois ainda acredito em bons diretores no país!

Embora seja um ótimo ator de novelas, Mateus Solano ainda não decolou no cinema nenhum personagem com a mesma garra que faz na TV, talvez seja um estilo que demore mais para que o público crie um carisma próprio com sua personalidade, e o mais engraçado, é que pelo trailer, o público já estava torcendo para ele, achando se tratar de um filme do juiz Moro e tudo mais, porém seus trejeitos pesaram um pouco e o ator não nos entregou um Vitor mais forte, e sim um juiz novato curioso e que com garra talvez faria sucesso mais pra frente, mas a afobação inicial foi fraca. Paolla Oliveira também esbanjou personalidade para sua Alice, cheia de sensualidade e expressividade, mas faltou seriedade frente à uma promotora, e em momento algum vimos sua imposição frente às acusações que o filme poderia atingir. Eduardo Galvão foi um dos poucos que trabalhou bem nuances de um policial e seu Elton ficou interessante de ver, principalmente ao trabalhar as cenas mais investigativas, dando total forma para a melhor cena na negociação final. Acredito que não existe no país ator melhor que Chico Diaz para o papel de Gomez "el hombre", pois colocou a sua forte personalidade com trejeitos completos de mafioso que resultaram num antagonista perfeito e envolvente, claro que algumas cenas suas foram exageradas demais, mas não por culpa sua. Emilio Dantas até colocou trejeitos interessantes para o seu Hermano, e também chamou a responsabilidade para si nas cenas que precisava, mas confesso que não precisaria da cena flashback para mostrar o motivo de mancar. Dos demais,.... prefiro me abster para não reclamar mais.

Agora algo que vale realmente ressaltar sobre o filme é a questão técnica, pois além de escolherem ótimas locações para condizer completamente com a situação mostrada, usaram equipamento de ponta para ter ângulos incríveis, aonde cada elemento cênico fosse bem explorado pela equipe, mostrando um trabalho exímio da equipe de arte que conseguiu muitos carros "maquiados" como se fossem da Federal e muitas armas para as cenas mais fortes, ou seja, uma produção de primeira linha. E claro que a fotografia não ficou para trás, usando e abusando de cenas noturnas para trabalhar com sombras e dando um tom mais envolvente para o árido clima que a cidade demonstrava.

Enfim, não posso falar que é um filme ruim, mas falhou demais em diversas coisas e acabou atrapalhado demais pelo teor cômico que acabaram dando para a trama. Como disse no começo, talvez uma série, aonde pudessem trabalhar mais cada personagem agradaria mais e conseguiriam sumir com as situações desnecessárias e errôneas, mas se isso vai ocorrer mais para frente não temos como saber. Então pelo resultado mostrado, só recomendo o filme se você realmente não se importar com situações cômicas em meio à um assunto seríssimo que é o tráfico e o contrabando. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto na próxima terça com os trabalhos em cima do Festival Indie do Sesc que contará com 8 longas que certamente nunca passariam aqui pelo interior, então abraços e até breve.

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No Mundo da Lua em 3D (Atrapa la Bandera - Capture The Flag)

sábado, abril 23, 2016 |

Depois do ótimo "As Aventuras de Tadeo" que passou por aqui em 2013, eis que o diretor espanhol Enrique Gato e sua equipe nos entregam uma nova animação caprichada de efeitos visuais, com personagens bem modelados, e uma história interessante de acompanhar que irá agradar as crianças e até fará com que os adultos parem para pensar um pouco na ganância que alguns empreendedores andam fazendo para conseguir atingir seus objetivos multimilionários. O longa "No Mundo da Lua" possui muitas vertentes interessantes de serem seguidas e consegue envolver bem, claro que para isso acontecer, o diretor não ficou tão próximo das origens de seu país, aliás diferente do seu outro longa que tinham mais personagens, músicas e simbologias que remetiam de certo modo à Espanha, aqui o filme foca completamente nos EUA, inclusive colocando algo até de certa forma irreverente (uma presidenta na Casa Branca!!! Será que estão apostando as fichas na vitória de Hillary), mas longe disso ser um problema, o filme até ficou interessante e agradável de ver, porém certamente poderiam ter trabalhado menos imitando alguns outros filmes e mais criando algo original, que aí sim teríamos um filme impecável.

O longa nos mostra que Richard Carson III, um milionário ganancioso, quer colonizar a Lua. Ele pretende apagar todos os vestígios feitos pelos astronautas da Apollo XI para poder explorar o hélio-3, a energia limpa do futuro, em benefício próprio. Para impedi-lo, a presidenta dos Estados Unidos ordena que a NASA organize o quanto antes uma nova viagem à Lua, de forma a assegurar os feitos do passado e impedir a exploração comercial do satélite. Como não há tempo de construir uma nova nave espacial, um foguete de 40 anos atrás é reaproveitado e, como ninguém sabe operá-lo, vários astronautas do passado são convocados a ajudar nesta nova empreitada. É a chance ideal para que Mike Goldwing, um garoto de apenas 12 anos, possa reaproximar seu pai, o atual astronauta Scott Goldwing, de seu avô, Frank, que abandonou a família após uma missão fracassada.

Lendo a sinopse, certamente posso dizer que você já enxergou 80% da trama inteira, tirando somente alguns detalhes de ação colocados para dar mais ritmo ao filme, o que acabou sendo um ótimo ganho, afinal algumas animações dão tantas aberturas para o desenvolvimento de cada personagem que acabamos cansando em determinados momentos, o que acaba não acontecendo aqui, pois o diretor Enrique Gato priorizou a base do garotinho Mike basicamente lutando contra o vilão Carson, colocando uma pitada cômica aqui, outra acolá e usando os demais personagens apenas para ligação. Claro que por bem pouco o longa não acabou derrapando na tentativa de ficar um longa exagerado na dramaticidade familiar, mas pensaram duas vezes e deixaram como apenas uma subtrama esse mote, optando por colocar a aventura e a "salvação" da Lua como ponto mais evidente da trama.

Assim como no seu longa anterior, os personagens foram modelados com tanta destreza e formatos interessantes de serem vistos, além de diversos estilos de personagens na trama, que fica difícil não olhar um pouco para cada elemento da trama, e isso é algo satisfatório de ver, pois geralmente nas animações, acabamos focando somente nos protagonistas, e o restante vai quase que no CTRL+C, CTRL+V, o que não é legal de trabalhar, pois assim como acontece nos live-actions, sempre temos diversos atores/figurantes trabalhando, e aqui não seria diferente. Além disso, tivemos ótimas colocações de carismas para os protagonistas, trabalhando desde o aventureiro Mike, a informada Amy, o tecnológico Marty, o lagarto engraçado Godzila, o avô carrancudo (que ficou uma cópia perfeita do personagem de "Up - Altas Aventuras"), o pai orgulhoso e ao mesmo tempo desesperado, e claro o vilão arrogante Carson. E todas essas personalidades bem carismáticas foram trabalhadas com muitas cores, o que acaba segurando em demasia as crianças na sala (novamente não vi nenhuma fugindo para banheiro, nem reclamando com os pais, pelo contrário, vibrando a cada conquista da turminha) e fazendo com que todos pudessem ter seus favoritos para acompanhar e se divertir na medida certa com cada um.

O visual cênico também foi bem elaborado para que tivéssemos diversas perspectivas e camadas, trabalhando cada cenário com cores bem vivas e iluminações bem propícias de ver em animações hollywoodianas, destaque para as cenas no pântano com os jacarés, e claro os ótimos ângulos escolhidos para mostrar as crateras lunares. Agora se tem algo que tenho de reclamar é a falta de efeitos tridimensionais, pois usaram apenas o recurso da tecnologia para dar sombras e perspectivas para os personagens, ao invés de usar e abusar do recurso, já que no espaço fora da Terra, com a gravidade tudo poderia voar para fora da tela, claro que tivemos algumas cenas que aproveitaram disso, como a dos M&Ms e algumas outras, mas foram poucas se comparadas com outros longas, e na maioria do tempo levantando o óculos nem borrões quase se formam, o que mostra que não trabalharam tanto com isso.

Enfim, é um bom filme que agrada e diverte, talvez alguns detalhes mais resolvidos chamariam mais a atenção, e também se não tivessem copiado tanto alguns detalhes das animações hollywoodianas, o resultado seria mais original e interessante. Porém nada disso atrapalha a diversão e sendo assim com certeza acabo recomendando ele para quem tiver crianças em casa e quiser levar para conferir uma boa animação. Bem é isso pessoal, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com a última estreia da semana no interior, e na terça virei em peso com os longas de um Festival que irá rolar por aqui, então abraços e até breve.

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Milagres do Paraíso (Miracles From Heaven)

quinta-feira, abril 21, 2016 |

Pode até ser meio repetitivo isso que vou dizer, mas se tem um filão que sempre terá público cativo é o tal dos dramas religiosos. Pois há crentes de todo tipo no mundo, e quando um filme consegue trabalhar bem o sentimento de fé e envolver o público, o resultado acaba sendo melhor ainda de se acompanhar. O grande destaque de "Milagres do Paraíso" fica por conta de não ser apelativo quanto à pregações na tela do cinema, o que costuma incomodar bastante quem não for ao cinema disposto à ver isso, e a dramatização acaba funcionando muito bem dentro da história real contada por ter diversos elementos que nos comovem, e que foram bem interpretados por todos os atores. Não diria que é um longa perfeito, mas a simbologia de tudo é tão bonita que acabamos envolvidos com tudo o que é mostrado, e independente de acreditar no que ocorreu ou não, a mensagem geral do longa é algo interessante de ser utilizado e vivenciado.

O longa nos mostra que Christy e Kevin Beam são pais de três garotas: Abbie, Annabel e Adelynn. Eles vivem em uma confortável casa, junto com cinco cachorros, e acabam de abrir uma clínica veterinária, o que fez com que tivessem que apertar os cintos e hipotecar a casa. Cristãos convictos, os Beam vão à igreja com frequência. Um dia, Annabel começa a sentir fortes dores na região do abdômen. Após muitos exames, é constatado que a garota possui um grave problema digestivo. Tal situação faz com que Christy busque a todo custo algum meio de salvar a vida da filha, ao mesmo tempo em que se afasta cada vez mais de sua crença em Deus.

Baseando-se no livro de Christy Beam, Randy Brown escreveu seu segundo roteiro de longas com uma sintonia bem pautada dentro de um ótimo contexto familiar, e procurou mostrar bem o sofrimento de uma mãe em busca de uma cura para sua filha doente, e ao trabalhar o conteúdo do livro pautando a ideologia de fé, que acabou sendo incorporada para "mistificar" a cura de uma doença incurável junto de um acidente terrível, o roteirista optou por não forçar tanto nas pregações e em envolvimentos duvidosos que seriam capazes de atrapalhar o andamento da trama. Claro que tudo está ali, e a diretora Patricia Riggens fez questão de em alguns momentos elucidar de modo mais claro, porém tudo é feito com simplicidade e envolvimento que o drama acaba prevalecendo bem mais do que o cunho religioso, e isso é ótimo de ver na tela, e mostra um formato que poderia ser utilizado mais vezes para trabalhar filmes do gênero. Agora se tem uma coisa que a diretora fez questão de trabalhar bastante, foi a carga dramática da trama, pois mesmo que você seja insensível nível coração extremamente congelado, o longa irá trazer situações duríssimas durante toda a exibição para que o público chore ou no mínimo de aquelas engolidas a seco para segurar as lágrimas, e embora isso seja um padrão que muitos reclamam de ser usado, o resultado funciona e envolve mais ainda.

Sobre as atuações, o básico que temos de falar é que Jennifer Garner impressiona e muito com o desespero de sua Christy, e certamente a Christy verdadeira ficou bem feliz com as expressões passadas pela atriz ao interpretar ela, pois mesmo quem não tem filhos saberá a dor que a mãe sentiu com os trejeitos colocados ao máximo pela atriz, ou seja, usou o corpo e a face para mostrar dor, desespero e até mesmo todo o questionamento que se via fronte à sua fé. Agora se tem alguém que mostrou uma personalidade ímpar, foi a jovem Kylie Rogers, que com apenas 12 anos já possui um vasto currículo de longas e séries, e trabalhou tão forte sua Annabel, demonstrando muita dor, muito desespero e a clara vontade de desistir a qualquer momento devido a tudo o que está passando, e para uma garotinha dessa idade já fazer trejeitos e diálogos tão eloquentes, com toda certeza vamos ainda ouvir muito seu nome no futuro. Como em todas as profissões, sempre existem os que fazem a diferença, e no ramo da pediatria certamente temos os médicos mais diferenciados possíveis, principalmente em hospitais que trabalham casos mais duros como é o caso do filme aqui, e arrumaram um ator tão envolvente para fazer o Dr. Nurko que com certeza esse médico marcou e muito a vida da família, e assim sendo o mexicano Eugenio Derbez mostrou irreverência e personalidade para agradar e ser carismático ao ponto de mesmo que desse más notícias, ele levantaria a moral de um enfermo, ou seja, o ator agradou em cheio. Tenho de dar também destaque para o papel de Queen Latifah, que colocou um carisma fora do comum para sua Angela, que envolvendo com um sorriso maravilhoso e incorporando uma bondade fora dos padrões, também deve ter sido uma pessoa que marcou demais a vida da família, e não poderia ser interpretado de forma ruim.

O conceito visual da trama ficou muito bem trabalhado também, pois a equipe de arte arrumou desde uma fazenda bem clássica e bonita para funcionar como residência da família, entrou a fundo no hospital de Boston para mostrar algo duro, mas bem feito, e uma singela igreja para os poucos momentos de pregação, um aquário maravilhoso para dar uma perspectiva diferenciada, e claro, uma árvore magnânima e centenária para dar o contexto final da trama. Além disso, usaram poucos elementos cênicos, mas todos com a clareza perfeita para cada momento, o que agrada demais em longas mais simples. A fotografia usou e abusou de efeitos coloridos nas cenas do paraíso e comover junto de elementos sublimes para passar um certo ar de tudo vai ficar bem, e esse acerto é algo que as vezes costumam ficar forçado, mas em momento algum a trama forçou qualquer tom para isso, deixando nas mãos do texto e na sonoridade para isso, usando no filme apenas filtros para agradar o visual mesmo.

Já que falei da sonoridade, é fato que esse estilo de filme sempre vai procurar colocar trilhas comoventes para envolver o público, e nos momentos certos, é claro que vão aumentar o volume e deixar que a canção embale e flua para mente. E aqui, já desde o trailer que contava com uma ótima canção motivacional, durante todo o filme optaram por boas canções que além de manter o ritmo foram responsáveis por segurar bem a trama, e sendo assim, o resultado ficou muito bom de ouvir. E como venho fazendo ultimamente, segue aqui também um link com todas as músicas.

Enfim, é um bom filme que vale a pena pela ótima mensagem e pelas boas atuações que são mostradas, talvez muitos não acreditem em nada do que seja passado, mas a dramaticidade acabará comovendo quem for assistir. E sendo assim, com certeza recomendo o longa para todos, mas principalmente para quem gosta do estilo de dramas mais comoventes pela essência do que pelo fato em si. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas volto em breve com mais estreias.

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