A 100 Passos de Um Sonho

9/06/2014 04:01:00 PM |

Se existe uma coisa melhor que cinema é comida, então se unir as duas coisas teremos uma combinação praticamente perfeita. Há muito tempo é possível notar que o cinema indiano vem crescendo e que seus pezinhos estão cada dia mais firmes dentro de Hollywood misturando ideologias, atores e equipes. Pois bem, agora com "A 100 Passos de Um Sonho" a mixagem foi tão multicultural que precisou dois grandes nomes por trás da produção para que não apenas víssemos um filme sobre culinária, mas conseguíssemos sentir o aroma e a vontade dos protagonistas tanto no embate de seus restaurantes como na boa condução que ele acaba criando algo até muito além das telas. Como disse no Facebook, a receita apresentada combinando culinária francesa com cinema indiano com produção de Spielberg e Oprah só poderia resultar em algo muito gostoso de apreciar, e essa é a palavra que devemos usar ao assistir o longa, pois é uma mistura imensa de sentimentos mesmo com a grande quantidade de clichês que conseguimos matar facilmente em alguns momentos de filme.

O filme nos mostra que o indiano Hassan Jadan é um jovem com um talento nato para culinária. Ao se mudarem para o sul da França, ele e sua família decidem abrir um restaurante de comida indiana, o Maison Mumbai. Mas há 100 passos de lá, está localizado um clássico restaurante francês, o Le Saule Pleureur. A chef Madame Mallory começa a protestar contra o novo estabelecimento, e logo a situação se torna uma guerra declarada.

O roteiro que é baseado no livro homônimo de Richard C. Morais foi bem montado para transmitir, mesmo que de modo subliminar, o preconceito gigantesco que os franceses têm com qualquer um que não seja francês e dessa forma alguns pontos foram trabalhados bem de leve em diversos momentos, mas quem observar bem irá pegar as cenas mais fortes. Além disso Steven Knight escreveu seu roteiro com uma linhagem mais dura do que se tivéssemos um roteirista cômico por trás do texto, e isso acabou dando um ritmo um pouco alongado para a trama, nada que atrapalhe muito, mas com mais sutilezas o filme sairia menos apimentado e mais adocicado. O diretor Lasse Hallström, que todo mundo já conhece seu estilo pelos milhares de filmes baseados nos livros de Nicholas Sparks, fez o que mais sabe fazer, que é trabalhar um romance de modo bem abafado, não exaltando ele no início para ir dando as deixas e ir rolando, isso é gostoso de ver, mas aqui não necessitava tanto desse estilo de clichê, talvez somente o amor do protagonista pelos sentimentos que a comida lhe traz já seria algo mais bonito e inteligente. Em alguns momentos ficou evidente o estilo dramalhão-cômico indiano, mas por termos apenas atores e alguns elementos da produção vindos do país, o filme acaba recaindo bem para o lado americano na maior parte do tempo. E para reforçar isso, ao invés de colocar apenas o pouco dinheiro que possuem, Oprah Winfrey e Steven Spielberg botaram a mão na massa produzindo tudo na trama, o que me deixou bem feliz com a riqueza presente na tela, já que falei algumas vezes que prefiro 1000x Spielberg produzindo do que dirigindo, e aqui não temos erros técnicos de forma alguma.

O elenco que misturou línguas, culturas e tudo mais ficou bem interessante, pois poderíamos facilmente ter apenas um filme falado em francês e hindi, mas como o inglês também domina ambos os países, e a produção é quase total americana, então temos o inglês apontando na maioria do tempo. Helen Mirren é um mito e vai ser eternizada com sua pose de rainha, e aqui a linhagem dura da dona do restaurante vestiu a numeração perfeita da atriz que teve tantos bons momentos cômicos quanto nos momentos de maior dramatização soube conduzir com a robustez perfeita para a personagem. Manish Dayal é americano de nascimento, mas com pais indianos foi a escolha certa para um personagem que valorizou tanto a cultura do país quanto soube trabalhar os trejeitos para não soar falso o ar de imigrante que deseja aprender tudo do novo país sem perder suas origens, além disso com um carisma bem doce, ele conseguiu fazer com que o público passasse a torcer rapidamente para seu sucesso, e isso deu ao filme algo gostoso de ver suas batalhas. Om Puri é um tradicional ator de filmes indianos, que com 64 anos já tem em seu currículo mais de 250 filmes, e aqui ele é o elo forte da cultura indiana trabalhando bem forte como um pai que monta seu restaurante com toda a família dando seu máximo, suas cenas de briga com Mirren é o ponto forte da diversão da trama e apesar do clichê máximo de brigas/relacionamento, sua atuação agrada bastante também pela espiritualidade característica do país. Charlotte Le Bon faz boas cenas junto do protagonista com sua Margueritte, mas sem ter uma química forte que valesse a pena ter sido colocada na trama, valeria mais apenas a colaboração e a amizade do que um relacionamento em si, pois nas cenas de ciúmes, como disse no início o preconceito francês aparentava surtir forte. Dos demais atores nem temos muito o que destacar, apenas as caras e bocas de Clément Sibony com seu Jean-Pierre e ficou uma curiosidade estranha em relação as crianças da trama, se não puderam estar presentes em todas as gravações, pois um erro evidentemente apareceu de que numa cena elas estavam enquadradas, e em outras simplesmente evaporavam da história, aparecendo logo em seguida numa nova cena.

Um ponto altíssimo da trama está na cenografia usada, que mais do que cores e objetos trabalhou todos os sentidos dos espectadores, pois mesmo os cinemas não soltando cheiros nem sabores e muito menos dando para tocarmos as comidas feitas na tela, como tudo era feito com minúcias bem mostradas, acabávamos tendo essas sensações com tudo que era mostrado, ou seja, um primor da produção em criar os mais belos e interessantes pratos de culinária para realçar mais que um filme apenas para ver, mas algo para degustar. Além disso a locação escolhida foi muito bem encaixada no longa, pois um vilarejo bem pequeno com dois restaurantes em casarões, um de frente para o outro ficou muito bacana de ver na tela, e junto deles diversos elementos para realçar as culturas ficou bem agradável e interessante de ver. A fotografia do filme trabalhou bem com cores vivas para dar amplitude nos sentidos com as comidas e nos momentos mais densos ou de chuva, usou de filtros puxados para o cinza para dar uma nuance mais fechada, e isso ficou interessante de ver também na tela.

Enfim, é um filme bem gostoso de ver que mesmo quem não curte tanto comédias dramáticas vai sair contente com o que verá, pois o filme trabalha bem as ações dos personagens e não tanto suas vidas como costuma ser esse estilo. Mesmo contando com uma trilha sonora envolvente com músicas características das três culturas, faltou um pouco de ritmo para que o filme não aparentasse ser maior do que é, ou seja com 2 horas de duração o filme aparenta umas 3 quase. Ou seja, recomendo ele com certeza para quem está cansado de tanta ação que anda aparecendo nos cinemas tradicionais, mas vá assistir sabendo que nesse gênero o que não falta é clichês, então pode ser que alguns lhe incomode. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas hoje ainda irei conferir um bem atrasado que resolveu aparecer pelo interior e dizem ser excelente, veremos e mais tarde, ou amanhã cedo falo o que achei dele. Então abraços e até breve.


2 comentários:

Ayres Mascarenhas disse...

Gostamos muito do filme. Não é perfeito mas diverte e emociona. Viemos ter ao seu site pesquisando a cidade onde foi rodado, Saint Antoni, que é linda.

Fernando Coelho disse...

Olá Ayres, concordo perfeitamente é uma delicia o filme. Dessa vez acabei não procurando o nome da cidade, mas que bom que você compartilhou conosco, quem sabe um dia ainda crio um tour pelas cidades dos filmes que gostei, acho que seria demais!! Abraços!

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