domingo, 5 de outubro de 2025

Malês

Costumo dizer que um diretor precisa saber desenvolver bem todas as partes de seu filme, pois se enrolar ou encher demais qualquer um dos atos acaba cansando o espectador, e com dramas históricos isso tem de ser muito bem controlado tanto para não estourar o orçamento, quanto para que tudo fique bem alinhado e chame a atenção do público normal, e também do público que usa o lado para estudar e conhecer mais sobre o determinado fato em si. E o longa "Malês", que jurava que já tinha estreado há muito tempo por ter visto uma entrevista da Camila Pitanga falando do longa em um programa, tem a falha gigantesca de entregar um começo alongadíssimo, daqueles que chega até dar um certo sono, para depois correr no miolo, e quando chega no final entrega o básico e põe letreiro na tela explicando o que aconteceu, ou seja, valeria muito desenvolver bem mais o final, pois a intenção de mostrar os motivos da revolta fica bem clara quando ocorre a derrubada da mesquita, então só essa essência já era satisfeita para todo o restante, mas resolveram enfeitar tudo, e aí dá no que dá. Claro que é um filme muito bem imposto pela densidade dramática e pela História em si, pois jamais pensaria que a Bahia foi dominada de escravos muçulmanos, mas as cenas da batalha em si, e o decorrer após ela acredito que valeria bem mais do que a enrolação do começo e o casal "protagonista" em si.

O longa é baseado em fatos históricos e retrata a Revolta dos Malês, a maior revolução da história do Brasil organizada por negros escravizados na Bahia, em Salvador. A insurreição mobilizou a população negra, escravizada e liberta pelas ruas de Salvador contra a escravidão em 1835. A revolta foi chefiada por africanos muçulmanos e encabeçada por líderes como Pacífico Licutan (Antonio Pitanga), que reforçava a importância da participação de diferentes grupos, tribos e religiões para o sucesso da revolta e para o fim da escravidão. Na trama, um casal é separado após serem arrancados de sua terra natal na África e trazidos para o Brasil à força como escravizados. Enquanto lutam para sobreviver e tentar se reencontrar, ambos se envolvem no levante dos Malês.

Diria que o diretor Antonio Pitanga soube trabalhar na tela uma representação bem foi a Revolta, porém ele quis brincar com outras facetas no miolo, como o casal separado na África, a conexão com outros que eram negros que ajudavam as capturas no país de origem para serem enviados para o Brasil, e com isso ele encheu sua trama de boas dinâmicas, mas isso lhe custou um preço alto, pois quando realmente explode o conflito, o público já está cansado do que está vendo, e isso pesa demais, tanto que muitos saíram da sessão antes mesmo de chegar o conflito armado na tela. Ou seja, é um bom filme, tem suas cenas marcantes, mas falha principalmente em não usar mais o ato final, pois ali sim ocorreu a revolta, valeria mostrar como os escravos foram mandados de volta para a África, valeria pautar mais as dinâmicas que ocorreram ali, e assim sendo o diretor não ousou tanto quanto poderia.

Quanto das atuações, todos tiveram momentos chamativos e envolventes, sendo cada um desenvolvido mais ou menos dentro da trama, tendo claros destaques para Rodrigo dos Santos com seu Ahuna organizando tudo e tendo atos bem impactantes na forma de conduzir as reuniões. Também tivemos o casal vivido por Samira Carvalho e Rocco Pitanga tendo uma química chamativa, mas que como disse a história deles em si não era algo que deveria ter sido tão usado. E claro tivemos Camila Pitanga com sua Sabina, aonde tendo ciúmes do envolvimento do marido vivido por Heraldo de Deus acabou botando tudo a perder, ou seja, um trabalho direto e marcante da atriz, mas ainda mais forte por parte da personagem em si. 

Visualmente a reconstrução de época, dos ambientes e de toda a dinâmica foi um trabalho para ser bem aplaudido, mostrando a construção de uma mesquita e depois a destruição nela, vários atos de escravos presos em algemas até no pescoço, roupas e vestimentas clássicas e bem trabalhadas e até um casamento africano bem arrumado, além de fugas em água e tudo mais, com uma representatividade chamativa e cheia de nuances, além de muitas cenas a noite com velas e tochas que deram um tom mais forte para o filme.

Enfim, é um bom filme dentro do contexto escolhido, porém como disse falhou demais em desenvolver mais o romance de desencontro e reencontro dos protagonistas ao invés de focar realmente na revolta, que aí sim seria uma trama para aplaudir e chamar toda a atenção tanto para a conferida como trama de cinema, quanto para conhecimento estudantil, mas nem sempre dá para agradar todos os lados, e sendo assim fica toda essa ressalva para quem for conferir na telona. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais dicas, então abraços e até logo mais.


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