Ao Cair da Noite (It Comes at Night)

6/23/2017 01:48:00 AM |

Vou ser bem sincero e começar o texto contando a grande sacada de "Ao Cair da Noite", que é o de deixar você esperando o filme inteiro com luzes quase na penumbra, e nada (ou quase nada) acontecendo, de modo que podemos apelidá-lo de o filme do "agora vai", pois a cada novo momento falamos: "agora vai dar merda", "agora vai aparecer alguém", "agora o cara vai trair ele", "agora ele fica doente", "agora vai rolar algo", e é assim o longa inteiro, pois a trama cria uma tensão em si, mas só cria e nada conclui, deixando de um modo simples a tensão dominar o espectador e não causar nada mais do que o simples medo de algo acontecer (que nada mais é do que o medo tradicional das pessoas, de que a qualquer momento estando protegidos ou não em nossas casas, o mal pode acontecer). Claro que aqui temos o medo da doença (que não chega a ser explicada qual é, pode ser qualquer uma bem contagiosa e que está acabando com o mundo), o medo do desconhecido, o medo da floresta, o medo da falta de comida, vários medos rondando a família principal e até mesmo a família visitante/secundária, porém assistimos o filme esperando tanto acontecer algo, que o não acontecer (ou melhor sem dar spoiler, o que acontece) é pouco demais para sairmos vibrando do longa e muito demais para falarmos que gostamos do que vimos. Ou seja, é daqueles filmes que críticos que amam filosofar vão falar horrores sobre todas as causas efêmeras da vida cotidiana, da realidade abstrata dos elefantes voadores, de teses sobre filósofos que nunca ouvimos falar sobre, mas que o Coelho que já vai no pé do ouvido diz: "não sei se gostei, e tenho mais certeza ainda que muitos vão odiar!", pois até dá para filosofar muito (aliás o primeiro parágrafo já está imenso), mas o longa é mais simples do que gastar tanto tempo falando, e vai ser o tradicional ame-o ou deixe-o, e haverá os malucos como eu que vão ficar em cima do muro sem saber o que achou.

A sinopse nos conta que Paul mora com sua esposa e o filho numa casa solitária e misteriosa, mas segura, até que chega uma família desesperada procurando refúgio. Aos poucos a paranoia e desconfiança vão aumentando e Paul vai fazer de tudo para proteger sua família contra algo que vem aterrorizando todos.

Não posso em momento algum falar que o que o diretor e roteirista Trey Edward Shults fez em seu segundo longa seja algo ruim, pois ele consegue causar tensão, mas faltou fazer algo com essa tensão ou trabalhar um pouco mais a história para que o filme ficasse realmente completo, não sendo apenas um esquete barato de situação. Claro que isso é uma opinião de quem gosta de longas mais colocados, aonde tudo vai acontecer, aonde o protagonista busca um mote, etc, mas para quem gosta de longas 100% abertos aonde tudo fica ali sem muita dinâmica, o resultado chega a ser incrível. Como vocês devem estar percebendo, esse Coelho que vos digita já se contradisse umas 3 ou 4 vezes enquanto escreve o texto, e essa é a segunda sagacidade da trama, ela ao mesmo tempo que faz você odiar o que viu, também faz amar a ideia inteira em si, pois é ao mesmo tempo completa como um longa de tensão, e extremamente falha como longa de situação, ou seja, seria melhor o diretor ter definido o que desejava com a trama e ter entregue algo pronto para agradar um estilo só, não deixando que as duas frentes florescesse, e sendo assim, lhes garanto que o trabalho dele seria espetacular, não que aqui tenha entregue algo ruim. Diria que o longa se assemelha muito no estilo de "Sinais", "A Vila", entre outros e quem gostar desse estilo, talvez saia muito feliz com o longa, pois acredito que o diretor tenha se embasado nessas obras para complementar sua ideia. Outro detalhe que pode até ser considerado um spoiler sobre a doença é que vemos em determinado momento uma obra de arte sobre o desespero tomado pela peste negra, aonde todos estão se matando para tentar se salvar, e o filme toma bem essa dimensão mesmo em diversos momentos, ou seja, salve-se quem for mais esperto.

Sobre as atuações, diria que todos se expressaram bem, demonstrando medo, tensão, nervosismo, raiva, tristeza e até desejo em alguns momentos, transmitindo bem os sentimentos através de olhares, trejeitos e muita expressão corporal, de modo que no devido tempo de tela de cada um conseguiram ser coerentes com o que a trama desejava passar. Joel Edgerton é um ator de renome, e consegue fazer bem os papeis que caem em suas mãos, mas aqui ele aparentou uma idade bem mais velha do que ele possui, e ficou um pouco estranho, claro que como produtor do longa ele faz o que quiser, mas talvez um ator desconhecido mais velho caísse melhor no papel de Paul. Kelvin Harrison Jr. tem tudo em suas mãos para ser um daqueles atores que se encontrar o papel certo irá despontar como um dos grandes nomes do cinema, pois sabe dosar suas emoções, mudando-as rapidamente, e seu Travis embora abusado demais, é um personagem que ele soube trabalhar bem. Outro que soou um pouco estranho no papel foi Christopher Abbott, pois seus momentos embora dúbios ficavam sempre enrolados em trejeitos jogados ao ar, de modo que começou bem com seu Will, fluiu mediano e terminou fraco demais para chamar a atenção. Quanto das mulheres, podemos dizer que tanto Carmen Ejogo com sua Sarah quanto Riley Keough com sua Kim foram determinantes nos momentos mais impactantes, forçando as expressões para que tudo impressionasse e não ficasse jogado como o diretor tanto queria no início, claro que poderiam ter feito muito mais, mas ainda assim conseguiram um bom destaque.

Por ser um filme de baixíssimo orçamento, "apenas" 5 milhões, a trama ficou com uma casa em meio a uma floresta, uma caminhonete, algumas madeiras, pratos, lanternas, desenhos, giz de cera, e nada mais, trabalhando claro um pouco com a maquiagem nas cenas mais "aterrorizadoras" e alguns panos espalhados pela casa, deixando a arte do filme bem crua de elementos, e trabalhando com quase nada para demonstrar simbolismo (que é o que mais falta no longa), tirando claro o momento do sonho do garoto com o quadro que citei no começo, que aí é talvez o ponto mais chamativo para a doença em si. Detalhe, ainda não achei um significado alegórico possível para uma porta vermelha, talvez alguém possa filosofar mais a respeito nos comentários! Agora como todo bom longa de terror/suspense, a fotografia é quem mais trabalha, e a trama só funciona pelo ótimo trabalho de Drew Daniels que com pouquíssima luz criou as boas cenas de tensão e deixou que o imaginário do público trabalhasse por ele, usando bem as sombras da lanterna de mão e da arma, conduzindo as jogadas de luzes dentro da floresta, e tudo mais que pudesse criar um clima, ou seja, um grandioso acerto que pode lhe render convites para filmes maiores do gênero.

Enfim, é um longa que não apela para nada, e que vai fazer o público sair da sala pensando realmente se gostou ou não por tudo que falei acima. Não digo que foi o melhor longa do gênero, mas também ficou muito longe de ser o pior. Como disse, aparecerão diversos críticos filosóficos sobre cada momento da trama, e sim, o longa tem esse objeto de ser mais pensado, porém prefiro escolher ele como algo do quase, do "agora vai", e que com isso conseguiu criar uma certa tensão sem precisar de cenas com sangue, espíritos, monstros, bruxas e afins, mas que poderia ser imensamente maior e melhor (ao menos na minha opinião!). Portanto se você gosta de criar tensão imaginária, refletir sobre medos, e não se assustar com nada, talvez esse seja um dos melhores filmes do estilo, mas se você gosta de suspenses/terrores daqueles para sair arrepiado do cinema, esse não vai lhe agradar de forma alguma. Sendo assim, veja qual estilo lhe agrada mais, e vá ou fuja do longa. Por enquanto fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais uma estreia, então abraços e até breve.

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