O Regresso (The Revenant)

2/05/2016 02:18:00 AM |

Acho que está cedo demais para dizer se tratar do filme do ano, mas certamente "O Regresso" estará na lista de muitos críticos como um dos melhores, pois é um longa tão visceral e incrível que não tem como não ficar marcado em nossas mentes cada cena mostrada nos 156 minutos de projeção. E digo mais, por ser um longa tão forte e impactante, a trama nos prende mesmo nos momentos mais calmos e que em qualquer outro longa veríamos as pessoas bocejando nessas cenas, mas o diretor conseguiu conduzir tudo com uma precisão cirúrgica que embarcamos na história da mesma forma que certamente a pessoa que viveu tudo o que acontece (ou quase tudo), pois sendo o filme baseado em fatos reais, fica quase impossível imaginar que alguém tenha passado por tudo o que é mostrado. Dito isso, as 12 indicações ao Oscar são mais do que merecidas, todo prêmio que já ganharam e vão ganhar é merecidíssimo, e se sair sem nenhum prêmio (algo improvável) também, ainda vai continuar sendo um filmaço que merece ser visto por todos no cinema (mesmo que você seja alérgico à cenas fortes - tampe o rosto, ou segure a ânsia) pois é uma das fotografias mais lindas e bem trabalhadas que já vi na história do cinema.

O longa nos situa em 1822, onde Hugh Glass parte para o oeste americano disposto a ganhar dinheiro caçando. Atacado por um urso, fica seriamente ferido e é abandonado à própria sorte pelo parceiro John Fitzgerald, que ainda rouba seus pertences. Entretanto, mesmo com toda adversidade, Glass consegue sobreviver e inicia uma árdua jornada em busca de vingança.

É algo fantástico observar a direção de Alejandro Iñárritu no longa, pois como ele co-escreveu a adaptação cinematográfica com Mark Smith, baseando-se no livro de Michael Punke, ele poderia ter trabalhado de inúmeras formas mais simples, sem desgastar o elenco e a equipe, filmando em um estúdio fechado, trabalhando ângulos mais simples e tudo mais, que ainda teríamos um excelente filme com toda certeza, mas não! O sangue mexicano amalucado ferveu e ele foi para campo com toda a equipe, enfrentando frio intenso, instabilidade do tempo, e principalmente, colocou seu diretor de fotografia quase que amarrado junto dos protagonistas para criar uma sensação tão forte que ao mesmo tempo que as vozes repetitivas na trilha sonora pareciam fantasmas na cabeça do protagonista, parecia que nós éramos a própria câmera acompanhando do lado cada momento passado, e com isso muito sangue, neve, água, terra espirra na tela dando uma sensação muito interessante para o espectador (e graças aos deuses do cinema sem precisar colocar 3D) de imersão de profundidade como poucas vezes já vimos em uma trama. Ou seja, se a história já era boa, conseguiram desenvolver ela tão bem pautada em detalhes, que com uma direção mais arrebatadora sairia do eixo completamente, mas com a visceralidade impregnada que escolheram fazer cada cena, o filme ganhou contexto, forma e dinâmica para que ninguém reclame de nada do que foi mostrado.

Antes de falar sobre as atuações, vou entrar novamente numa discussão que sei que muitos não concordam comigo, mas ainda assim volto a falar, um bom ator estuda por anos para saber a melhor expressão corporal e vocal para fazer em cada filme do jeito que cada diretor deseja e pontua no seu script, treina a entonação vocal do personagem por meses para ficar o mais realista possível com o que lhe é solicitado, daí dá aquele show cênico que mostra realmente todo o sofrimento e dor para soar algumas míseras palavras que sua garganta consegue soltar, e vem algum infeliz e fala que o melhor é ver um filme dublado para não precisar ler a legenda, me poupe e pare de ler o texto por aqui, pois o que vou dizer dos atores na sequência é irrelevante para você que gosta de ver um filme dublado, e ajuda os cinemas a cada dia colocarem mais filmes dublados do que com os áudios originais. Dito isso, como muitos já estão dizendo, se esse ano DiCaprio não levar o Oscar, ele pode desistir, eu realmente vou junto com esse pessoal, pois o que ele fez no filme é algo que numa sala aonde o ator estiver junto vendo ou divulgando o longa, todos tem de levantar e aplaudir de pé o seu Glass, pois o ator sofreu em demasia com cada cena, dando tudo de si para que as expressões de dor fossem bem realistas, entrando em lugares hostis para que a vivência fosse perfeita, e principalmente no que disse em relação ao trabalho vocal, já que sua voz na maior parte do filme precisava ser áspera e fechada devido aos acontecimentos, e ele trabalhou uma dicção única, que dificilmente outro personagem lhe exija tanto, ou seja, um show de atuação como raramente vimos alguém fazer. Tom Hardy também deu para seu Fitzgerald uma personalidade dura e insana de assistir, de modo que seus olhares sempre paranoicos com grande força, deram o tom do personagem para chamar atenção e incomodar como um bom vilão deve fazer, e com o andamento da trama vamos sentindo seu espírito ficar exatamente como o personagem de DiCaprio diz em certo momento, mais acuado, e preparado para tudo, ou seja, um trabalho incrível, que na última cena vai ao ponto máximo de vivência de ambos. Confesso que todo filme com Will Poulter me incomoda suas expressões faciais, e desde garotinho fazendo Eustáquio em "Crônicas de Nárnia" ele é aquele ator que acaba deslocando os olhares do ator principal e não é por algo bom que tenha feito, então isso qualquer diretor precisa trabalhar melhor, ou lhe dar um papel principal logo de vez, e aqui não foi diferente com seu Bridger, pois sempre que havia alguma cena sua, praticamente desligávamos do restante da trama para reparar no que ele estava fazendo, e isso foge das regras de um longa, claro que aqui ele está melhor que qualquer outro papel que já tenha feito, trabalhando mais sua expressividade e até agradando em certos momentos, mas ainda é um ator estranho de ver. E para fechar o elenco principal da trama, Domhnall Gleeson mostra que seu crescente não tem limites, pois fez um excelente "Questão de Tempo", depois agradou bem em "Invencível", caiu como uma luva em "Ex-Machina", ganhou dinheiro com "Star Wars" e agora de uma maneira até que bem impactante, mas nada tão importante, fez de seu Capitão Andrew, um homem justo e disposto a tudo, com boa expressividade e uma feição clara para os homens de comando da época, ou seja, agradou quando apareceu em cena.

No conceito visual, temos de parabenizar muito às escolhas cênicas de toda a equipe de arte, pois foram a fundo com tudo o que o diretor desejava, encontrando a melhor locação possível para a trama se desenvolver, utilizou bem cada elemento cênico para representar cada momento do filme, e até mesmo nas concepções digitais como no caso do urso e dos búfalos deram um show no que mais realístico poderiam arrumar, ou seja, literalmente um deslumbre visual que faz o espectador que goste de observar cada cantinho de cena, perdesse horas a fio sempre vendo algo diferente mesmo que fosse um simples floco de neve, e isso acaba dando nuances tão lindas para tudo que faz o filme não ser apenas uma obra para ser vista, mas sim sentida e incorporada a cada ato que se passa. Destaque no conceito cênico para a cena do cavalo, que certamente vamos ficar muito tempo pensando como foi feita, pois é algo muito bem feito, e para todo o figurino e maquiagem que certamente deu muito trabalho para ser desenvolvido. Já havíamos tirado o chapéu para os planos sequências magistrais de Emmanuel Lubezki no ano passado com "Birdman", e agora esse diretor de fotografia maluco volta a fazer planos ainda mais vivos e interessantes que interagem com a paisagem visual e com movimentos incríveis aliados à iluminações sem precedentes conseguiram dar alma para o longa, de modo que não temos como não torcer para que ganhe o máximo de prêmios possíveis com o que fez aqui. Vale destacar no conceito fotográfico a luta final aonde a câmera rola junto com os personagens voando muito sangue na tela, o movimento completo dentro do rio, e claro cada bufada do urso junto com a terra sendo lançada é algo que só uma câmera bem presente no momento pegaria e envolveria o público na cena, além claro de todas as cenas com fogo, aonde a perspectiva de iluminação ficava completamente dependente e interessante de ver.

A trilha sonora repetitiva que é uma característica do diretor volta com tudo aqui, então em quase todos os momentos ouvimos bumbos indígenas presentes, junto com vozes em dialetos diferenciados, que dão uma proporção assustadora para a trama, e junto com outros momentos aonde o som realmente domina a ambiência, o filme acaba tendo um ritmo bem incorporado, para que como disse no começo, as quase 3 horas de projeção passem sem que o espectador fique cansado com tudo o que é mostrado na cena. Além disso, os sons são bem incorporados e mixados para que cada barulhinho de galho quebrado seja ouvido à distância, cada vento seja sussurrado e tudo chame muita atenção por onde quer que os personagens estejam passando, o que mostra um trabalho de mixagem bem interessante de ser ouvido.

Enfim, vou parar de falar um pouco senão daqui a pouco terei um texto para dissertação de uma monografia sobre o longa, mas realmente dá para estudar muito cada momento da trama, e sendo assim, é certamente um filme que vale a pena ser visto mais que uma vez. E dessa maneira, recomendo ele com toda certeza, e volto a afirmar, mesmo sendo um filme com cenas bem fortes, é algo que supera qualquer expectativa e que mesmo que choque com o que é mostrado deve ser visto. Então pare o que está fazendo e vá ver o filme logo, pois vai valer seu ingresso com muita certeza. Bem é isso pessoal, fico por aqui agora, mas ainda faltam outras três estreias para conferir nessa semana, então abraços e até breve.


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