Tatuagem

2/11/2014 01:09:00 AM |

Quando lembro que algumas pessoas ficaram chocadas com o novo filme do Lars Von Trier, fico me perguntando será que essas pessoas nunca assistiram a algum filme de Glauber Rocha ou sem ser filme hollywoodiano bobinho? Pois bem quando assisti no passado o documentário sobre a companhia Dzi Croquettes fiquei intrigado que aquilo lá poderia virar uma ficção, pois os grupos teatrais sofriam muita repressão na época da ditadura e com todo o colorido e criatividade que tinham poderia sair algo bom de lá. E eis que alguns anos depois surge nas telas "Tatuagem" que não é exatamente sobre o mesmo grupo, mas contém a história semelhante e que de forma bem forte nos faz lembrar a época que Glauber nos mostrava seus filmes censurados que agora poderiam ser 100% livres para o que bem entender. Inclusive o diretor faz uma sacada numa cena utilizando do nome do antigo diretor brasileiro.

O filme nos situa no Recife em 1978, onde Clécio Wanderley é o líder da trupe teatral Chão de Estrelas, que realiza shows repletos de deboche e com cenas de nudez. A principal estrela da equipe é Paulete, com quem Clécio mantém um relacionamento. Um dia, Paulete recebe a visita de seu cunhado, o jovem Fininha, que é militar. Encantado com o universo criado pelo Chão de Estrelas, ele logo é seduzido por Clécio. Não demora muito para que eles engatem um tórrido relacionamento, que o coloca em uma situação dúbia: ao mesmo tempo em que convive cada vez mais com os integrantes da trupe, ele precisa lidar com a repressão existente no meio militar em plena ditadura.

O interessante de observar uma obra tão premiada do cinema nacional é ver que mesmo o diretor Hilton Lacerda depois de colaborar com diversos roteiros excelentes para outros diretores fazerem filmes bem trabalhados, resolve agora dirigir o seu primeiro longa com toda a coragem possível de colocar um ator de renome encarando cenas homossexuais bem tórridas entre muitas outras coisas polêmicas que utiliza no filme. E pra quem pensa que o filme se torna exageradamente vulgar por ter isso, acaba se enganando bem, pois ele utiliza tudo completamente dentro do contexto linguístico a que se propõe usar. Além claro de que em momento algum passamos a julgar se as pessoas são homossexuais, se são bissexuais ou qualquer tipo de pessoa, apenas vemos eles com suas relações humanistas que nos é passado com todo o delongar do filme que passa tão rápido com toda euforia dos personagens que nem vemos sua duração.

No quesito atuação, novamente Irandhir Santos mostra porque é um dos grandes nomes do cinema nacional ao dar seu máximo em cena para tudo que você possa imaginar que ele vá fazer, e se em Febre do Rato já mereceu os aplausos de pé pelo que fez aqui sua coragem vai nos limites para mostrar interpretação e domínio de um personagem. Rodrigo García faz um personagem icônico que conseguimos encontrar sempre uma pessoa para assemelhar sua alegria e ao mesmo tempo o ciúmes que demonstra nos seus atos com uma perfeição significativa para seu semblante facial e coreográfico. Jesuíta Barbosa que acabou aparecendo pouco, mas de forma impactante em "Serra Pelada", já começou ali a mostrar serviço e aparecer bem nas telonas, e agora vem com um visual bem diferente, mas com um impacto monstruoso para com seu nível interpretativo e com uma coragem que raros atores mais jovens teriam de compartilhar com um grande nome que é Irandhir, se sua carreira não tinha decolado antes agora partiu pro céu com mais dois longas em que estará presente só nesse ano. Dos demais todos fazem de sua participação pelo menos consistente, sem aparecer muito, mas também não sendo apenas um objeto inútil de cena, valendo destacar alguns discursos de Silvio Restiffe.

O trabalho artístico da produção junto da equipe de arte foi impecável em fazer da cenografia um prato cheio para se apreciar mesmo não sendo nada limpo, tudo parece deplorável, mas encontra significado em meio às cores escolhidas para representar tudo que a trupe demonstra em cena. Praticamente não tem um elemento cênico que não é usado para alguma coisa no filme, além claro dos corpos dos atores que a todo momento entra pra jogo A fotografia abusou um pouco de tons escuros e em alguns momentos chega até a faltar iluminação para o filme de forma que alguns atores até ficaram irreconhecíveis junto do estilo que usaram para compor os personagens.

As composições cantadas do filme são divertidas e bem condizentes com a trama, dando um ar meio diferenciado para a trama nesse quesito, pois poderiam ter escolhido apenas algumas músicas da época para tocar de fundo e optaram por colocar os atores para cantar músicas novas e até algumas que não eram tão utilizadas em filmes.

Enfim, é um excelente filme que recomendo com certeza para todos que tiverem uma mente mais aberta, afinal alguns preconceituosos e pessoas que não estejam tão acostumadas com filmes com muita nudez podem se assustar ou até mesmo ficar com um pé atrás para assistir o longa, mas ele vale muito a pena para que o mundo seja visto como deve ser em um filme, utilizando da expressividade quando é necessária e não apenas jogada como alguns fazem. Recomendo também o longa para toda a classe artística de amigos que me seguem nas redes sociais, pois o filme serve para demonstrar até que tipo de coragem um ator deve seguir para que um enredo saia da forma interpretada mais correta possível. Bem é isso, fico por aqui agora, mas nessa semana ainda tenho mais duas estreias para conferir, então abraços e até breve pessoal.


2 comentários:

Roberto Glarner disse...

Ótimo comentário!

Fernando Coelho disse...

Obrigado Roberto!!

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