O Lobo de Wall Street

1/11/2014 02:08:00 PM |

Fazia um bom tempo que não assistia um longa com estrutura narrativa invertida, quando o começo e o miolo são bem curtos e o fechamento se estende por quase toda a exibição, e são poucos os cineastas que gostam desse estilo, pois segurar o público acaba sendo o trabalho mais difícil de trabalhar já que finais são memoráveis justamente por acabarem fortes, e nesses casos o ato forte já aconteceu deixando toda a trama apenas para ser amarrada ao final justificando as consequências dos atos do protagonista. Utilizando dessa ideologia, em "O Lobo de Wall Street", Martin Scorsese faz dois atos rápidos que compreendem cerca de uma hora e meia, com dinamismo impressionante que faz o público todo divertir e ligar os pontos de uma história financeira que não costuma ser fácil passar para as telas, e coloca um terceiro ato de mais uma hora e meia de cansaço mental para mostrar tudo que o protagonista sofreu por ter feito suas opções iniciais, e esse ato se alonga de maneira a parecer que teve quase umas quatro horas e que não vai acabar nunca, cansando o espectador. No geral é um bom filme, mas já adianto que fuja das última sessões senão a chance de achar que vai tomar café da manhã no cinema é grande.

O filme que é adaptação do livro de memórias de Jordan Belfort, que foi um best-seller nos mostra que Belfort foi um corretor de títulos da bolsa norte-americana que entrou em decadência nos anos 90. Sua história envolve o uso de drogas e crimes do colarinho branco.

Embora você leia a sinopse e fale que ela não explicita nada, o longa demonstra exatamente isso nas suas 3 horas de duração, e mesmo não tendo lido o livro acredito em suma que o ponto que Belfort mais deve ter explicitado nele foi sua decadência, e com isso em mente o roteirista Terence Winter trabalhou toda a estrutura para que os atos que mostrassem uma coesão de efeitos de causa fossem destacados. Porém isso é um tiro no escuro, já que somente quem for extremamente fã do gênero vai suportar algo tão longo e com termos não tão conhecidos do público em geral, afinal estamos falando de crimes que ocorreram na bolsa de valores que ainda é algo que poucas pessoas entendem o funcionamento. O modo que Scorsese escolheu trabalhar de colocar o protagonista praticamente dialogando com o espectador para tentar explicar como funciona esses crimes e as coisas que gostava de fazer, ficou muito bem colocado e facilitou um pouco o entendimento, mas ainda assim o ato final poderia ou manter a mesma ideologia de alguma forma ou ser menos extenso para não cansar tanto. Claro que nesse miolo completo de 180 minutos temos cenas memoráveis e extremamente engraçadas e bem feitas, mas nos momentos que elas deixam de coexistir e entram no excesso de linguagem que é característico do cinema de Scorsese, o filme acaba pegando pesado demais com quem não for realmente da área financeira ou apaixonado pelo cinema.

Um fator que ficou perfeito é a retratação de época e dos personagens caricatos que foram colocados na trama, mostrando alguns atores de forma impagável. Leonardo Di Caprio já foi adotado pelo diretor, e em seu quinto trabalho conjunto, o ator que já fez excelentes papéis, agora chega num ápice marcante de caras e bocas para ninguém botar defeito, transformando o ator em um dialogador com o público no melhor estilo teatral possível e ainda o libertando para colocar sua dramaticidade perfeita em foco a todo momento. Jonah Hill demonstrou um crescimento na sua atuação que muitos julgavam praticamente impossível e se não havia feito algo tão perfeito antes agora chegou no clímax da interpretação que um bom coadjuvante deve fazer. Matthew McConaughey inicia o processo de loucura do protagonista, lhe ensinando como deve fazer pra se dar bem na bolsa, e sua interpretação é pequena, mas genial, mostrando que o ator pode ser considerado totalmente do elenco principal pelo que faz. Cada ator do elenco secundário destacou-se por uma ou outra característica marcante do personagem valendo destacar Margot Robbie como a esposa linda, Rob Reiner como o pai do protagonista, mas principalmente seus excelentes chiliques e Kyle Chandler pela melhor cena de tentativa de suborno já feita. E mesmo destacando esses ainda vale afirmar que todos os demais saíram muito bem com o que fizeram.

A reconstrução visual de época ficou muito bem encaixada e conseguiu mostrar de forma icônica cada momento do protagonista, desde seu início na bolsa até sua grandiosidade lotada de luxúria nos bons tempos, e claro a decadência decorrente das consequências que teve de passar. Cada momento é ilustrado por diversos elementos cênicos, tais como drogas, ternos importados, bebidas, carros e mulheres, mas por ser um filme bem focado nos diálogos e nos atos dos protagonistas, os elementos acabam ficando bem em segundo plano, sendo importantes, mas não chegam a chamar em momento algum mais atenção que os personagens. A fotografia não tentou amarelar em filtro e mesmo com um ar de época não temos nada exagerado em tom de cores, parecendo em alguns momentos até que o longa é atual.

Um grande elemento do filme ficou por conta da trilha sonora escolhida para integrar todos elementos, sendo pontualmente pautada para a época e dando um clima bacana para a trama toda, dando ritmo dinâmico nos dois primeiros atos, e colocando o ambiente bem divertido e gostoso de acompanhar.

Enfim, é um bom filme que agrada pela consistência da trama e pelo retrato que o diretor conseguiu passar do protagonista. É bem longo e aparenta ser maior ainda devido a forma escolhida de colocar a decadência como parte mais trabalhada e cansativa. Com certeza vale a pena ser visto pelo trabalho maravilhoso que o diretor fez com os atores, e somente por isso recomendo pra todos, mesmo os que não são tão fãs de assuntos financeiros, mas como disse em hipótese alguma vá nas últimas sessões, que a chance de dormir no final é altíssima. O filme só estreia oficialmente dia 24, mas quem quiser conferir antes estarão rolando pré-estreias pagas durante as próximas semanas. Fico por aqui agora, mas essa semana estamos lotados de estreias e pré-estreias para conferir, então abraços até daqui a pouco com mais posts.


2 comentários:

Rodrigo Ferreira disse...

pow cara muito boa sua crítica, mas eu aumentava essa nota de 3,5/5 para 10/5 kkk abraço

Fernando Coelho disse...

Opa valeu Rodrigo, que bom que gostou... quanto da nota foi mais o reflexo da canseira exagerada que foi assistir na pré da meia noite, pois daria pra subir pruns 8,5-9 coelhos, mas como não mudo nota depois de dada, ficaremos com essa mesmo, rss... abraços!

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